quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

verão

Eu adoro o horário de verão, sair do trabalho ainda à luz do dia e ver o pôr do sol por alguma fresta de concreto. Queria que fosse sempre verão. E que o sol brilhasse sempre, com um céu azul de doer de tão lindo. Pode chover à noite, eu não me importo. E no dia de finados, afinal já é tradição. Porque é bom sentir as pessoas mais sorridentes, sensuais, felizes e querendo tomar cerveja.
Bom Natal, que a paz e o amor esteja conosco.
E que em 2010 seja sempre verão.
Até.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

qual parte você não entendeu?

Nesse momento, não importa a intensidade e a duração, faz-se apenas necessário um ponto final. Um ponto para que eu possa começar um novo parágrafo com letra maiúscula e recuo. Com um ponto e vírgula, sou obrigada a permanecer na mesma linha e a continuar a história indefinidamente, buscando na imaginação desfechos improváveis até mesmo para contos de fadas. Não há culpados, sei que a maior parte de nós carrega marcas e feridas de outras paragens, mas não é isso que quero para mim. Eu quero sair limpa, o mais limpa possível.
Cuidado é bom e eu gosto. E respeito também.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

não há o que temer

Quando eu acho que tudo foi terrível, penso que poderia ter sido pior, e isso me conforta. No final dá tudo certo. Sempre.

This is the world that we live in
I still want something real
This is the world that we live in
I know that we can heal over time
{The Killers}

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

um ano

Como diz a Rita, o mês de dezembro parece que dura dois meses... é uma correria insana. E nessa correria eu só me dei conta hoje de que, há quinze dias, esse blog fez um ano. Parabéns!! E viva por ter resistido quase que diariamente a um exercício de reflexão, burilação da palavra, exposição da alma. Um grande companheiro este blog foi para mim em 2009!
Ontem encontrei o André no Filial, fazia anos que não o via, que cara inteligente, interessado, muito gracinha. Meio sem querer entramos numa de contar o que havíamos feito durante o ano, começando pelo reveillon passado. Eu estava na Amazônia, êta viagenzinha bizarra, mas divertida! Na volta, fui promovida e mudei de área. Trabalhei vorazmente este ano, e também voltei a estudar. Conheci uma grande variedade de rapazes, a maior parte não valeu a pena, mas como diz o Pessoa, "tudo vale a pena se a alma não é pequena". Sendo assim, todos valeram a pena. Encontrei muita, muita gente bacana no meu caminho, isso foi incrível! E comecei a fazer percussão, que amo de paixão. Não fiquei doente este ano, nem uma vezinha sequer (resfriado e cólica não contam...). Fiquei muito tempo com a minha mãe, tornando cada momento divino e supervalorizado ao me lembrar da falta que ela fazia quando não estava por aqui. Me engajei no Movimento Novo Olhar, viajei pra lugares maravilhosos, estive muito tempo comigo e com as borboletas. Aprendi muito com ambos. Senti muita vontade de cantar........ e cantei! Ahhhhh, esse ano foi do caralho!!!! Que venha 2010!

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

reflexiva

Tive sentimentos contraditórios nos últimos dias e, por diversas vezes, comecei a escrever sobre eles aqui. Mas estou aprendendo que nesses momentos, é melhor ficar quietinha, esperar passar, sangrar, fluir, explusar. Dormir bastante e tomar água. Comer tudo o que tiver vontade, porque não vai adiantar tentar evitar. Depois de uns 100 sinais vindos de todos os cantos, percebi as ótimas chances que tenho tido de ficar sozinha comigo, exercitando um controle saudável sobre meus hormônios rebeldes.
Nesses dias, em que deixei a poeira subir e descer mais devagar, consegui perceber que no calor da hora não atentamos para a concomitância dos fatos. Enquanto olhava pro meu copo meio vazio (coisa que não tenho o costume de fazer), a outra metade (cheia) estava ao meu lado. Literalmente. No exato momento em que me sentia desapontada pela falta de comprometimento das pessoas, pensando em como estão superficialóides as nossas relações e vazios nossos propósitos, tive a oportunidade de trabalhar com um ser humano incrível, intenso, coerente com sua fala, mergulhado no seu trabalho, super comprometido.
Foi bom demais.
Então, tá dito e re-dito: tudo acontece na hora certa.
Está tudo no seu perfeito lugar dentro da caótica ordem cósmica.
Calma e confie.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

filha de Iansã

Parece que nada pode me conter, os espaços são pequenos para a minha expansão, para as minhas ganas e para o que desejo transformar. E por sorte e merecimento, por trabalho e suor, tenho conseguido me aproximar mais e mais dos meus desejos. Tudo flui incrivelmente, intensamente, loucamente. É muito bom se sentir em casa fora dela, é bom ter certeza de escolhas feitas, mesmo que elas sejam efêmeras. Não há nada que um atabaque não resolva. Toda a pulsação, toda a expulsão, toda a energia está ali manifesta através de mim.
Definitivamente quinta-feira é o ponto alto da minha semana.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

pra você...

...que anda sem vontade de nada, de cara feia e amarrada, de mau humor e engasgada. Pra você, dedico uma frase de um livro que você nunca vai ler (que pena):

"Vivendo, se aprende; mas o que se aprende, mais, é só a fazer outras maiores perguntas".

Guimarães Rosa
Grande Sertão: Veredas

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

hueco

sabe como é? uma coisa meio difícil, assim, acochambrada. Saber que estás, todos os dias ali, na minha passagem, seu cheiro no meu cheiro, umbigos colados, seu nome na minha boca, sem que eu possa te chamar, gritar por você, pedir para que venhas, para que voltes, para que chegues logo... porque já sei: não te moves um milímetro sequer. E isso me deixa um buraco no meio do peito. Uma desesperança, de repente. Uma paúra de que já não venhas.

Dizem que o amor nasce com a gente. Vai ver tu nasceste sem.

sábado, 5 de dezembro de 2009

a saga do atropelamento imaginário

"Por que ninguém me atropela?" era o nome do filme.
Protagonista não muito original para uma sexta-feira chuvosa em São Paulo: o trânsito, que começava seu efeito-dominó depois de um engavetamento em plena 23 de Maio.
Direção, produção e participação especial: ele e ela, que seguiam tranquilos e felizes num táxi rumo ao aeroporto de Congonhas. A batida travou a porta e ela não conseguia sair do carro. O susto e o impacto causaram uma forte dor em sua nuca, enquanto pela janela, uma garoa insistente anunciava que perderiam o avião. Foram necessários alguns minutos de entendimento: acidentes de trânsito são muito loucos, parece que nada aconteceu, mas quando você sai do carro, vê o estrago que foi: o táxi parecia uma sanfona entre os outros dois. Parar outro táxi no meio da avenida era uma ideia suicida, mas era a única saída pra tentar salvar a situação. Antes, porém, um registro de aspectos pouco convencionais dos últimos acontecimentos, em foto e vídeo (com direito a créditos para o marronzinho da CET).
Foi aí que nasceu o mini-filme que teve o poder de tornar tudo mais leve: "Por que ninguém me atropela?" [A verdade é que ela já se sentia meio atropelada, só não tinha se dado conta disso ainda].
(Ele em função videomaker)

Um bom trânsito depois, já no aerorporto, a suspeita é confirmada: "O embarque já foi encerrado, senhora, sinto muito". Ok. Pense rápido, o que fazer, pra quem ligar, como remarcar. Um forte enjôo vem com força e junto dele uma tremedeira, antes os braços, logo as pernas, logo dor de cabeça. Vamos adiar, vamos hoje à noite?! Adiamos a palestra para amanhã de manhã, pode ser? Vinte e cinco telefonemas, rearranjos, pedidos de desculpas, ponderações. Certo, vamos hoje à noite.
Nesse momento ela começou a sentir a velocidade das coisas, o atropelamento: eles haviam acabado de se conhecer antes de entrar naquele maldito táxi. Não tinham a menor intimidade e já havia acontecido tanta coisa... como era possível?!
E faltavam cinco horas para o próximo vôo.
......
Aceitar que as coisas têm sua razão de ser traz um baita aprendizado. Você amadurece e percebe que não tem o menor controle sobre o movimento cósmico. O vôo da noite, por exemplo - aquele de cinco horas depois, atrasou mais algumas horas e foi finalmente transferido para Guarulhos. Ele e ela, lendo respectivamente Época e Piauí, estavam cansados e quase não restavam gotas de bom humor. Chegariam em seu destino perto das três da madrugada, para a palestra às 9h30.
"Moço, por favor, tem um vôo amanhã cedo? Dá pra trocar???". Mais alguns telefonemas aos envolvidos para novos ajustes.
Despediram-se.
Amanhã viremos com meu carro, disse ele. Passo na sua casa às 6h30.
.......
As pessoas então têm a ilusão de que uma noite dormida em escassez é a solução para todos os problemas. De manhã eles de fato parecem menores, é verdade, mas apenas um sono reparador de 13 horas seria capaz de livrar o corpo dela dos amassos causados pelo atropelamento imaginário da noite anterior. Apesar disso, acorda bem disposta. Ainda está escuro lá fora. Confessa para si mesma o receio de que ele perca a hora, então resolve dar uma ligadinha, só pra garantir. Tudo certo. Chegam ao aeroporto e checam no telão o portão do vôo, que aparece com status de "atrasado" e com embarque previsto em outro portão. Resolvem tomar um café e ouvem atentamente a chamada para os vôos, até que a voz metálica sinaliza a definitiva mudança de portão para, logo em seguida, chamar apenas uma vez o embarque imediato. Dirigem-se ao portão anunciado e, parados diante dele, aguardam a abertura da porta de vidro que leva ao finger. Nenhuma manifestação, nenhum movimento suspeito. Todos na sala de embarque aguardam pacientemente. Em seguida, observando intrigada a porta fechada, ela aproxima-se da comissária de plantão: está atrasado? "Está, sim senhora, podem aguardar que estaremos chamando" (sic).
Sentam-se, resignados. Está ficando cada vez mais complicada essa história. Puxa vida, temos horário marcado... será que se eu processar a TAM funciona?!, pergunta ela. Foi num ímpeto, depois de alguns minutos, que decidiu ir novamente ao balcão perguntar sobre o vôo.
"ESSE vôo, senhora, já foi. Acaba de decolar".
......
Sentia-se inteira e litealmente atropelada, desta vez por um avião. Não conteve o choro, mandou a polidez pra casa do caralho, não entendia e não conseguia explicar.
Mas, é isso, as coisas são como devem ser. Life´s meant to be. E, como um imã, ela atrai pessoas dóceis e compreensivas para junto de si.
Ela é uma moça de sorte. Ele, um moço de bom coração.
Lição de hoje: o humor sempre salva e de tudo se pode fazer piada.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

resta um

é muita coisa: tantos estímulos, tantas cores, aniversários, esbarrões inusitados, arrepios. Conversas intermináveis e deliciosas, tamanha intensidade. É tanta graça e charme, roçar delicado de peles, é tanto calor! São tantas lembranças, tantas canções, o amor não se cansa de proliferar como pólen. O corpo transborda de tanto. O riso vem espontâneo, olhares matutinos de soslaio, o bem estar dá corda na existência.
Não sinto os pés do chão. É tanto, muito, tudo.
Mas no final, só resta um.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Sometimes I get nervous
When I see an open door...

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

roubada

Com muita vontade, mas sem inspiração.
Estou me sentindo roubada.

sábado, 28 de novembro de 2009

felicidade, otimismo e amor

Não existe outra escolha senão a felicidade. Acredito que nascemos para isso: para sermos felizes, encontrando prazer em cada coisa.

Não existe outra hipótese senão encarar as situações com otimismo, com fé, com força. Isso não deve ser uma possibilidade, mas um estado de espírito, um condicionamento, uma decisão.

Não existe outra escolha senão o amor em tudo e pra todos. O amor, aquele que traz a tolerância, a aceitação, o entendimento; que apazigua e aquece.

Esse é meu triple bottom line da existência, as sementinhas que tenho tentado espalhar por aí. Porque a vida é fácil e não há necessidade de nada mais.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

entendi

Finalmente consegui entender porque você me deixou. Já não era sem tempo. Fato é que as coisas realmente levam seu tempo, e é preciso respeitá-lo. E talvez hoje tudo faça sentido e amanhã tudo volte a não fazer. Mas é patente que hoje eu entendi, assim, como quem não está buscando entender nada, o porquê, a razão, o motivo pelo qual você, naquela noite afônica, desistiu do nosso amor, que prometia ser eterno. Há alguns dias admiti minha incapacidade de te perdoar pela crueldade do abandono, pela frieza verborrágica, pelo desamor que de repente te possuiu e me adoentou. Não sei quando vou conseguir te perdoar, espero de coração um dia conseguir superar esse imenso dano. Mas especificamente hoje me sinto reconfortada, porque consegui ENTENDER. E para uma libriana, entender já é meio caminho andado.
Olhando para a mesa ao lado, te vi daqui a 20 anos. Você estava conversando consigo mesmo, como de costume. Inclinava ligeiramente a cabeça para os lados, ponderando seus pensamentos enquanto, sem perder a classe, bebericava e cantarolava sozinho. E foi embora no melhor da festa, como é de seu feitio. Entendi que você, há 20 anos, abdicou desse amor porque, simplesmente, percebeu que tinha objetivos diferentes dos que tentou ter: queria mesmo era levar uma vida de aparências, de coluna social, enquanto por dentro tudo continua podre e mal resolvido, 20 anos depois.
Escolhas.
Te agradeço por ter se afastado. Sei que, por mais duro que possa ter sido, foi a melhor coisa que podia ter feito por mim. Na verdade, foi um ato de amor. E hoje entendi isso. Entendi, sim. E (repito) foi um grande alívio. Mas não sei quando vou poder te perdoar.
Me perdoe por isso.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

la vida no es tan compleja cuanto parece

Hoje estou emocionada comigo.
Lembrei o dia inteiro da Di falando: "Desta vez, estou tentando fazer diferente". E consegui fazer diferente. Deixei as coisas serem leves e despretenciosas. Senti muito tesão por todas as possibilidades. Senti o coração pular na garganta várias vezes. Me respeitei, respeitei o tempo e sai andando quando a tarefa estava cumprida.

Adoro ser surpreendida. Por mim mesma e pela vida.
Eu sou uma moça de sorte. Muita sorte.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

niños

Não consigo dormir. Estou exausta, os olhos pesados, o pescoço dolorido: realmente gostaria de dormir. Mas uns meninos de rua com a cabeça cheia de cola insistem em gritar aqui em frente. Gritam e dão risada. E abrem lixos. Descobriram muitas garrafas dentro de um saco e se divertem ao quebrá-las. Vou até a varanda, um cheiro bom de maresia. Olho pra baixo e os vejo. São cinco, sentados na calçada, quebrando garrafas pra ameaçar enfiar na jugular de alguém e depois serem jogados numa penitenciária qualquer como ratos, longe dos nossos olhos, pra não perturbarem mais nosso sagrado e merecido sono.
Percebi então, que, na verdade, não era o barulho que eles faziam que me impedia de pegar no sono. Era o próprio fato deles estarem ali junto com a minha impotência, minha agonia, minha tristeza. Mais uma vez, esse maldito fosso entre mim e esses meninos me cortando como navalha. Me lembrei de Angola, do pai que hoje atirou o filho do 18 andar e depois se atirou também, do medo que paralisa, da vida que me olha dessa varanda e passa, da música do Pedro Guerra. Niño del dolor que cuelga de los coches y aspira oscuridad crescida de la noche. Ninõ del dolor, sin nada a que agarrarse, perdido en la ciudad ya es parte del paisaje. Como basura por los rincones. Como los perros, intentando vivir. Viviendo...

E por fim, lágrima.
Leminski.
"Noite sem sono
O cachorro late
Um sonho sem dono"

olhos pesados

De fato: a grande maioria das pessoas só pensa em dinheiro.

Será que sou eu que tô errada???

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

do Rio

É bom ter alguém pra escrever antes de ir dormir.
O coração fica quentinho.
Boa noitch, em carioquês.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

rouquidão

Quando bate, bate.

Quando bate, beta, é daquele jeito que você conhece: é como aquela música que você não consegue parar de ouvir. Aquela que, cada vez que repete, você percebe um acorde novo, uma respirada, uma arranhada de cordas. Você decora cada pedaço da melodia, como se soubesse tocá-la. E nunca cansa de ouvi-la. Torce para que ela volte no shuffle e, quando ela começa, sobe um arrepio desde o cóccix que explode no meio do peito. E a felicidade é tamanha que dá vontade de sair dançando, pulando, abraçando todo mundo que está na sua frente.
Quando bate, é assim.

Mas quando não bate, não bate.
E pronto. Para de ficar inventando motivo pra ficar rouca.
Fala logo o que tem pra falar e tchau.
Bate em outra porta.

domingo, 15 de novembro de 2009

so precious


Gente, essa é a Vitoria. Eu já mencionei ela em vários posts e as pessoas ficavam me perguntando quem era... pronto, agora estão apresentados. Ela é minha housemate, companheira desta passagem tão ligeira. Ela só finge ser gata pra ganhar mais carinhos, mas na verdade ela é gente. Tenho certeza que na próxima encarnação voltaremos como irmãs!
E pra quem não gosta de gatos, já aviso que nem adianta resistir, porque ela conquistou até a pauli, que tem pavor de felinos.
Não há que não se apaixone...

sábado, 14 de novembro de 2009

de como fiquei bruta flor

quis levantar e sair. quis, em vão, conter as lágrimas. mas deixei os olhos ardendo. resisti, porque só quem já teve um grande amor que se esvaiu viveu a perplexidade do fim, o fundo do poço, o ritual de sobrevivência (respira!), o eu e o outro, o interim, o último encontro, o ritual de cura, a paramentação para a morte e finalmente o renascimento. quis te escrever pra te contar quantas chaves eu ganhei, quantas portas eu já abri e quantas já fechei. mas na impossibilidade, escrevo aqui, "como se falando do nosso amor ele não moresse nunca e eu mantivesse um romance secreto sem nem sequer você saber...".
É que eu preciso de um amor assim como um respiro para entrar num compasso.

De como fiquei bruta flor ou espasmos literários de um coração desvairado
de Claudia Schapira
Direção Cibele Forjaz
Elenco: Lucienne Guedes e Mariana Senne
SESC Consolação
Espaço Beta - 3o andar
quintas e sextas às 21h
Até 04/12

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

edukatora

Essa noite sonhei que tinha sequestrado um desses ricões que anda nesses carrões. Estava a caráter: encapuzada, armada e falando grosso com o cara, que suava e tremia e acho que fez xixi na calça no sonho, não lembro bem. Entramos no carro dele (eu e uns caras que eu não sei quem são) e fomos dirigindo pela Marginal Pinheiros, quilômetros a fio, até onde a cidade escurece e a ponte divide quem "acha que é" de quem "não tem o direito de ser". O mais engraçado é que o clima do sonho era tenso pra caramba, mas eu não estava assustada, me sentia à vontade, como se fizesse aquilo todo dia. Chegamos numa quebrada lá no extremo da Zona Sul e estacionamos o carrão. O cara desceu, tremia tanto que não conseguia nem andar direito. Entramos numa casa e o levamos pra um quartinho, onde só tinha uma cama e um aparelho de som. Eu peguei meu ipod e coloquei "Vida Loka" dos Racionais a todo volume pra ele ouvir. E fechei a porta.
Acordei.
Despertei cansada de dois mundos. Porque o mundo que eu amo é um só, ele é único, indivisível. Ele é redondo, não tem arestas. Ele é colorido, não branco e preto. E todo dia (todo dia, todo dia) aquele velhinho indo buscar latinhas, olho pra ele com piedade, fotografo ele em P&B e sinto quase vergonha, porque todo mundo nasceu igual, com o direito de ser. Todo mundo faz cocô igual e espirra igual e quando morrer, vai ser igual também.
Então eu não entendo: se somos tão iguais, por que é que somos tão diferentes?

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

meias furadas

Há alguns anos adotei o hábito saudável de tirar os sapatos antes de entrar em casa. Um modo preservar a meu lar das impurezas da rua, deixar pra fora caminhos que pisei e não quero que entrem na minha intimidade. Também porque adoro andar descalça, mesmo no inverno, e por causa da Vitória, que ama se arrastar pelos cantos da casa e depois vai dormir na minha cama nas noites frias.
Fato é que peço para todas as pessoas tirarem os sapatos ao entrarem na minha casa. Sim, para todas, mesmo as chuleizentas e as desconhecidas. E para aquelas (ou aqueles) que vêm pela primeira vez aqui. Eu já vou avisando no elevador, muitos gostam da ideia, mas outros se sentem incomodados. Então outro dia, já num teor alcóolico elevado, dei um pause nos amassos no elevador e disse: "Ó, na minha casa só tem uma regra: precisa tirar os sapatos antes de entrar". O moço ficou constrangido. Num nível... tipo bastante constrangido. Até esfriou o clima, coisa e tal. Juro que achei que ele fosse inventar uma desculpa qualquer, apertar o térreo e se mandar. No breve trecho que separa a minha porta de entrada do elevador, um silêncio cruel. Enfiei a chave na fechadura, começei a descalçar o tênis ou qualquer coisa que estivesse usando.
E ele mudo. Imóvel. Estarrecido.
"Que foi?", perguntei num tom debochado, "sua meia tá furada????"
"É... bom...hmmm, errrr......", balbuciou evitando me encarar.
Comecei a gargalhar no corredor. Por uma fração de segundos, de novo, achei que ele fosse virar e ir embora, mas ele também não se conteve. Demos risada de dobrar, aquela de dar dor no abdômen.
E entramos de sapatos mesmo.
(...)
Moral da história: não jogue fora suas meias furadas. Pode ser divertidíssimo.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

felicidade é...

... se ACABAR num samba depois da aula de percussão mais incrível da vida.
Era tudo que eu precisava.
Boa noite.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

tudo vai fazer sentido

Onde estão o centro e o sentido?
No umbigo?
No meu é que não é.
Deve ser no centro do peito, naquele ponto que a quinta sessão de rolfing de hoje despertou: pura energia do core.
Será que centro e sentido estão no mesmo lugar?
O centro é lá fora e o sentido aqui dentro?
Ou o centro é bem aqui dentro e o sentido é criado lá fora?

Acreditar que nada é por acaso é uma das minhas premissas de vida. No olho do furacão é difícil discernir qualquer coisa, mas a Maria disse que um dia tudo vai fazer sentido.
Respirar. Comer bem. Tomar muita água. Expirar a ansiedade. Dormir bem. Dar risada.

sábado, 31 de outubro de 2009

here i go

Eu vou vestir o mar
vou me fingir de peixe
eu vou brincar de madrugada
deixe

Vou me fingir de mar
vou engolir um peixe
eu vou pra lá madrugada
me deixe só

Vou me fingir de mar
vou me vestir de peixe
eu vou pra lá madrugada
me deixe só

Anelis Assumpção

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

viva

Quando ela entrou na minha vida, não sabia o bom estrago que ia causar. Foi assim, arrebatando todos os sentidos, subvertendo tudo o que sempre pareceu lógico. Colocando no meu caminho pessoas maravilhosas, acordes perfeitamente encaixados, sem desafinar uma nota sequer. Me faz sentir viva, pulsante.
Me faz acreditar incondicionalmente na beleza do mundo.

Acabo de decidir que preciso me doar mais pra você - e pra nada mais, minha querida música.

La palabra es la ventana
donde mira la canción
un arroyo, una montaña
un sendero y una flor.

Cada verso va creciendo
a la luz de los amores
a la vez que se trompieza
en fantasmas y rencores.

Son las coplas transparencias
de la hondura y el silencio
navegando por el alma
yendo corazón adentro.

Vocación de andas buscando
una causa, una razón
la palabra más certera
que me copie la emoción
con la chacarera doble
voy diciendo y acá estoy.

En la música florece
lo que la palabra nombra
se va haciendo sentimiento
en corcheas y redondas.

Los acordes que nacieron
al abrigo de la gente
llevan frescas lsa verdades
coo agüita de vertiente.

No le esquivo la mirada
a este mundo y su dolor
pero desde la guitarra
me parece ver mejor.

Vocación de andar buscando
una causa, una razón
la palabra más certera
que me copie la emoción
con la chacarera doble
voy cantando y me voy.

La música y la palabra
Carlos Aguirre
por Aca Seca

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

bonus track

É muito bom ter aquela música surpresa no final do disco, principalmente quando ela toca inadvertidamente alguns minutos depois do fim do set list oficial.
E você percebe que nunca tinha ouvido aquilo.
E que nunca tinha sentido aquilo.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

por favor, não me avise

Veja como é: quando a gente acha que fechou a porta, percebe que não, que aquela gélida e maldita fresta de vento insiste em passar, congelando a ponta do nariz. Não quero saber nada teu, das tuas conquistas, dos teus insucessos. Nada mesmo. Hoje, novamente, não consegui ver o por do sol nessa cidade cinzenta e isso me deixou amarga: qualquer felicidade me incomoda, principalmente a tua. Aliás, se eu conseguisse desejar algo de ruim pra alguém, você certamente seria a primeira pessoa em quem eu pensaria. Porque o mal que você causou não tem ressarcimento, nem mesmo se você chegasse a senti-lo na sua própria pele. Não tem valor, nem preço, nem nada. Portanto nada mais de você.
Eu nunca te conheci.
E espero nunca mais te reconhecer.
Então, por favor, não me avise.
Grata.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

pra quê?

ESSA CHUVA TODA.
TODAS ESSAS REUNIÕES.
LITROS DE CERVEJA.
424 FILMES.
PLANEJAMENTOS.
PLANILHAS.
PROJEÇÕES.
ADVOGADOS.
ESQUECIMENTOS.
PICADAS DE PERNILONGO.
CARRO NOVO.
O PEITO ARDENDO E A CHUVA CAINDO.
O VINHO TINTO.
A VERDADE SEMPRE.
A IMAGEM.
ENCONTROS. INUTEIS.

ESSA MANIA DE VIVER UM DIA ACABA ME MATANDO.
O PEITO ARDENDO.
ACHO QUE SÓ ESCREVENDO MESMO.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

o corpo padece

quando a alma fica asfixiada. Quando a energia fica estagnada. Dores, dores por todo lado, que começam no centro do peito, se estendem pelos braços, amarram as costas em uma camisa de força da qual parece impossível libertar-se. A cabeça lateja, forte, explodindo por dentro toda a raiva, todo o medo, todo o abandono, todo o cansaço. Os joelhos tremem, falhando ao sustentar o peso de olhos inchados. Uma incrível sensação de fragilidade, incompreensão e solidão se apossam do meu corpo. A dor causa ânsia, me sinto como uma vaca, regurgitando o que nunca foi engolido.
Neste estado de semi-vida, à beira de um desmaio, disco teu número absolutamente sem querer. Noutro dia mesmo, andando na rua, me peguei tentando relembrar teu número e fiquei feliz ao perceber que o havia esquecido. E então, nesse momento de quase inconsciência, ele vem naturalmente, como se meus dedos o discassem todos os dias. Como se te pedir ajuda ou resgate ainda fosse uma possibilidade.
Toca. Duas vezes. De repente, atino para o que havia feito e, em um estalo, antes de te dar a chance de atender, antes de me dar a chance de te explicar que havia sido um ato completamente inconsciente, antes de criar uma situação constrangedora de "bom, já que você ligou, me conte como vai a vida, o que tem feito? olha, desculpe mesmo ter ligado, foi sem querer (...)", antes de tudo isso, meu dedo aperta o gancho do telefone. Suspiro.
E então ligo para o número certo.
Para que o resgate chegue. O mais rápido possível.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

eu te vejo sumir por aí, te avisei que a cidade era um vão

quereres

Preciso comprar uma calça jeans nova, há seculos. Quero ler alguma coisa que me arranque sorrisos. Quero fazer mais amor. E dançar mais. Na sala, chacoalhando os cabelos. Preciso voltar pra yoga. E sentar mais corretamente. Preciso respirar mais vezes mais fundo. Quero trabalhar menos, cada vez mais. Quero voltar a cozinhar - gosto tanto e me faz tão bem! E programar meu ano novo.
Estou precisando dormir. Acho que por hoje é só.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

que cheiro bom...

...ficou em mim daquele abraço que não desgrudava. Abraço de reencontro. Enlace de cumplicidade e de vontade. De vontade de continuar abraçando, abraçados em outro lugar, noutro tempo com as mesmas histórias pra dividir. Abraço de apaziguar diferenças, de acolher olhos mareados por outros viveres. Abraço de compreender as incoerências entre racionalidade e sentimento - esse que pulsa e que não se pode controlar.

Que cheiro bom ficou em mim desse abraço... de despedida.
The sweetest goodbye.

p.s.: Adoro quando as coisas terminam bem.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

o mundo é dos meninos?

Estou lendo "O Segundo Sexo". Está sendo uma experiência. Durante essa semana estive em alguns ambientes eminentemente masculinos e na sexta voltei pra casa pensando em como estamos repentinamente deixando de realizar nossa feminilidade, aos poucos, e de maniera muito cruel. Estamos cada vez mais parecidas com os homens: menos sedutoras, menos fêmeas, mais fálicas e soberanas. Menos sensíveis, mais práticas. Estamos nos distanciando da nossa essência, da nossa intuição, do nosso poder criador, para legitimar nossa independência, para eliminar a humilhante memória inconsciente de sermos objetos e presas.
Mas não seria essa a nossa natureza biológica e instintiva?
SOMOS presas! E eles são os caçadores. E quando há presa querendo virar caçador... ai, a presa vira contra o caçador? É isso? (ou ficou confuso?).
O que mais tenho ouvido, não é de hoje, é a mulherada reclamar da solteirice. Ultimamente eu mesma, inclusive, ando perdendo as esperanças de achar outro grande amor e blasfemo por aí frases feitas sobre os homens. Mas está claro: a presa virou contra o caçador! Inconscientemente viramos rivais. Estamos competindo não sei o que, nem sei por quê, eles achando que queremos tomar o lugar deles, nós achando que eles devem nos aceitar assim: mais parecidas com eles. Nossa independência os intimida e nossa auto-suficiência os afasta. Conselho de um amigo outro dia: melhor ficar na moita, fingindo ser aquela mocinha de voz doce, gestos delicados, opinião frágil e mutável "Tanto faz", disse ele "porque no final quem bota o pau na mesa são vocês". Dei risada. E ele completou: "Não chame o garçom pra fazer o pedido. Deixe o cara fazer isso por você. Ele sabe que você é perfeitamente capaz de fazer isso, mas sente um prazer quase inexplicável ao te mostrar como ele é bom em adivinhar que você gosta de água com gás".

O título do livro de Beauvoir, "O Segundo Sexo", define a mulher como segundo mesmo, em ordem de prioridade. O primeiro - number one! - é o sexo masculino. De acordo com a escritora, o homem é o "Sujeito" desse mundo, e a mulher o "Outro".

Deve ser por isso que ficamos tentando virar hominhos... eu, hein?!

"A pessoa não nasce mulher, antes torna-se mulher".
Simone de Beauvoir

domingo, 18 de outubro de 2009

quadros

Subject: Coração
Date: Wed, 27 Feb 2008 04:34:11

Obrigada por ter me ajudado a pendurar os quadros: ficaram lindos! Há pequenas coisas que não se esquecem, cenas que nunca saem da nossa cabeça. Acho que uma delas é você soltando o parafuso e, ao tentar encaixar o quadro na parede e não sabendo onde colocar a chave de fenda, encaixou-a entre os dentes, com seu jeito frenético e desajeitado. Pequenos fragmentos que, sem razão, não se esquecem.
Espero poder te ajudar a pendurar os seus quadros também. E se eu não ajudar, por qualquer motivo que seja, gostaria que soubesse que eu gostaria de ter ajudado.
Um beijo, Beta

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

hoje preferi ficar com os cheiros de todos os abraços que ganhei.

sábado, 10 de outubro de 2009

por do sol no Planalto

Brasília me causou um certo desconcerto. É difícil imaginar como alguém pode ter concebido uma cidade como aquela e mais difícil ainda que ela tenha sido de fato concretizada, no meio do nada, espalhada como uma teia de aranha, propiciando a desagregação e a perda total do sentido de comunidade. A setorização da vida.
Tudo imenso: avenidas de seis pistas, sem vida, sem calçadas, sem crianças. Se fecho os olhos, consigo ouvir o ruído dos carros deslizando seus pneus no asfalto quente. Esse é o som de Brasília, acompanhado do canto de milhares de cigarras, saudando enlouquecidamente a primavera.
Contemplar os prédios do Niemeyer me tocou, não vou negar. Mas no instante seguinte, sentada no gramado em frente ao Congresso Nacional, bandeira gigante ao vento, fui invadida por um sentimento de repulsa. Descrença, asco, inconformidade, tristeza.
O céu é magnífico, é verdade. Às seis da tarde, se pinta de nuances furta-cor que criam uma atmosfera quase onírica. Nesse momento, parece que tudo flutua e a cidade torna-se apenas uma passagem, uma ponte suspensa. Esse momento quase me lembrou: eu deveria sentir mais orgulho em visitar a capital do meu país.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

as curvas da orla de santos

Hoje passei o dia trabalhando em Santos. A Tathi é a anfitriã são carlense mais santista que eu já vi. Além de termos tido ideias incríveis de projetos, ela me contou duas curiosidades que eu desconhecia e pude verificar in loco: 1) os homens santistas são lindos! É verdade. Foi difícil almoçar sem suspirar de alegria pela grata surpresa.
2) Inúmeros prédios da orla estão irremediavelmente inclinados, como a torre de Pisa. E continuam entortando. E ninguém faz nada a respeito. Já fui a Santos algumas vezes, mas achei engraçado atentar para esse fato justamente nesse momento. O solo da orla santista é arenoso e também antiga zona de manguezais. Ou seja, uma merda. "Não dá pra construir prédio aqui!". Será que ninguém pensou nisso?!? Não. Quer dizer, alguém na época deve ter pensado, e até falado sobre, mas não foi ouvido.
(crédito foto)
Erros incorrigíveis nos cálculos da profundidade dos alicerces dos edifícios causaram recalques e fragilidades nas estruturas.
Aliás, "recalque" é uma boa palavra: s.m. rubrica: psicanálise. Mecanismo de defesa que, teoricamente, tem por função fazer com que exigências pulsionais, condutas e atitudes, além dos conteúdos psíquicos a elas ligados, passem do campo da consciência para o do inconsciente, ao entrarem em choque com exigências contrárias (do Aurélio).

Inevitável a analogia.
Homens lindos e prédios recalcados?
Homens recalcados e prédios lindos?
Homens e prédios lindos e recalcados?

terça-feira, 6 de outubro de 2009

pitangas

Eu ando pela rua prestando atenção. Nas pessoas, no vento, na pouca poesia que o cinza nos oferece. Recorto o céu entre franjas de prédios, tento achar o horizonte que não há. Muitas vezes, absorta na música minha de cada dia, meu pão. Mas eu presto atenção. E no domingo, andando por aí, por aqui, por lá, vi o chão tingido de vermelho-alaranjado. E senti o cheiro daquele chiclete azedinho que comíamos quando criança. Na primeira, pisei firme e segui. Na segunda arvinha, reparei. Na terceira, parei. Parei em frente à pitangueira, pequenina mas robusta, subi no canteiro e me pus a catar pitangas. Senti a pungência de olhares constrangidos dos que esperavam o farol abrir, dos que se esforçavam pra não rir do mico daquela louca trepada no canteiro catando pitangas em plena Avenida Paulista.

Mas, meus caros, quantos em São Paulo ainda têm o privilégio de catar pitangas na rua em que nasceram?!?

domingo, 4 de outubro de 2009

inferno astral

Ando bastante perturbada. Já sentei pra escrever dezenas de vezes nos últimos dias e não consigo. Estou sem poder de síntese e desanimada. Tenho a sensação de inconclusão, de repetição, de insatisfação. Andei um pouco doentinha também. Devem ser os astros rodando confusos em torno de libra. Daqui a seis dias faço 28 anos e esse dia costuma ser muito importante para mim. "O dia mais importante do mundo no ano". Mas, às vesperas desse dia, sinto-me sozinha e bastante desorientada. Estou perdendo certezas, saudosista vazia, vacilante. Estou em processo de constante transformação, não aguento mais ser essa metamorfose ambulante. Não quero mais cobranças, auto-cobranças principalmente.

Queria ter uma chavinha pra desligar essa cabeça que não para e simplesmente experimentar a maravilha que é viver, como alguém que bóia numa piscina morna.

Só isso.

sábado, 3 de outubro de 2009

prenez soin de vous...

... e não me enche o saco!

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

sorrisos matutinos

Entra no elevador o menino franzino que sempre toma o ônibus comigo. Sorri em sinal de cumprimento e fica visivelmente envergonhado com o brado da mãe: "vai com deeeus, filho". Subimos juntos até o ponto sem trocar palavra. Acho que ele é tímido. Ele tem cara de estagiário de escritório de advocacia. Da próxima vez, vou perguntar o que ele faz da vida;

A mulher leva na coleira um cachorro que é duas vezes maior do que ela. Segura severamente o laço, quase enforcando o bicho, enquanto ele tenta vingativo arrastá-la para o meio fio. Ao passar por mim, esboça um sorriso no canto da boca;

O cobrador responde meu "bom dia", como de costume. Comento que estou com frio e errei na roupa. Ele então abre um largo sorriso: "Pode ter errado, mas tá linda. E cheirosa, como sempre". Enrubreço (e sorrio);

O passageiro sentado ao meu lado fala alguma coisa. Tiro o fone do ouvido. Ele repete "Esse desce a Consolação?". Aviso que não, terá de trocar nas Clínicas. Ele sorri e agradece. Reparo como ele é parecido com você. Tem o seu tamanho e as mãos iguais às tuas. Lembro do nosso sorvete no ponto de ônibus e sorrio.

Atravesso a avenida, tomo o lado esquerdo da calçada. E lá está ele, à procura. O cheiro azedo invade a minha passagem. Em busca de restos podres, alimentando-se de nossos descartes, ele abre um saco após o outro, sem pudor, sem nojo, com a naturalidade cotidiana de quem abre uma loja.

Escancara na nossa cara o mais desagradável dos mundos.

Ele não sorri. Nem eu. Sorte que já houve outros sorrisos para compensar esse momento. Ele, o mais (in)digno de todos os homens, é o único personagem que eu não gostaria de encontrar nas minhas manhãs sorridentes.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

momento cyndi lauper

When I fell down, I want you above me.
I search myself, I want you to find me.
I forget myself, I want you to remind me.
I don´t want anybody else, when I think of you I touch myself.

domingo, 27 de setembro de 2009

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

...é tudo mentira

90 por cento do que escrevo é invenção.
Só dez por cento é mentira.

Manoel de Barros

ainda

Depois de uma boa dose de auto-estima e outra de Salinas, depois de tanto tempo, de tanto vento, depois da viagem e da malandragem, me surpreendi ouvindo da minha própria boca que ainda desejaria ter um filho seu.
Acho que você cresceu dentro de mim como um órgão vital, insubstituível, inextirpável. Meu coração? Meu cérebro?
Meu amor?

terça-feira, 22 de setembro de 2009

futuros amantes

Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios
No ar

E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos

Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização

Não se afobe, não
Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber
Com o amor que eu um dia
Deixei pra você

(Só o chico mesmo pra colocar "escafandristas" no meio da porra da música...)
[ave maria!]

domingo, 20 de setembro de 2009

Quero emudecer. Mantenho as luzes apagadas, inertes. Prefiro ficar no escuro, escondendo a lama, as lágrimas, a nudez real, as promessas não cumpridas, as frases nunca ditas e também aquelas que nunca deveriam ter sido ouvidas. Mantenho obscuros os vãos, a culpa, o fim da festa. Varro pra debaixo do tapete o amor que nunca chegou ao fim. Escureço lembranças. Deixo oculto tudo o que não entendi. Nunca entendi.
No escuro, arremesso dúvidas, e acendo uma vela que abre frestas, intervalos, respiros.
.
Amanheço com seu cheiro.

3min 20s = R$ 4,50 (fora do plano Vivo 90)

Tô cansada (também), mas não desisto.
No hay que perder la ternura.
No hay que endurecer.
Jamás!

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

fantasia

Ele estava fora de contexto, encarnando o batman em um ambiente onde todos haviam improvisado divertidas fantasias, criativas até demais - vasos de flores pernambucanos e jardins encantados coletivos, quase alucinógenos. Fato é que ele apenas entrou numa loja, comprou a sua fantasia e foi. Ou talvez ele fosse mesmo o Bruce Wayne em carne e osso. Era o dono da festa. Carregando toda sua humanidade contraditória de super-herói, direto das telas de cinema para um casarão do século XIX em Santa Teresa. Veio voando (de preferência), não para salvar a humanidade, mas para tomar umas biritas e fumar um beque no rio de janeiro. Afinal super heróis também têm o direito de se divertir...
Esse Batman carioca era alto, bem apessoado. Caminhava a passos largos e pesados, não tirou a máscara uma só vez. Circulava com classe, chamando atenção, segurando sua longa capa preta. Foi num desses momentos sublimes: com olhar fixo, atravessou a pista de dança do imenso jardim. Aproximou-se dela, estilo mignon, cabelos enrolados, boca carnuda e vermelha. Parou por um segundo a sua frente (penso que super heróis devam se sentir inseguros às vezes), mas, sem titubear, apanhou-lhe o queixo, inclinando-o levemente para o lado direito, e eletrizou seus lábios. Longamente. Ela não resistiu, amoleceu seu corpo envolto em um corpete apertado. Suas línguas se enrolavam com uma intimidade conquistada em poucos segundos. Ele levantou a capa negra e os enrolou, evidenciando os contornos dos corpos perfeitamente encaixados. E voaram alto, como ela jamais havia sonhado, com a leveza que só os encontros fortuitos podem ter.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

romântica

Sim, eu sou. Além da conta, talvez.
Mas não vamos reduzir o romantismo à banalidade a que estamos habituados. Meu romantismo é amplo: é minha visão de mundo que é romântica. Acredito no poder criador do homem, na sua bondade, na pequenez delicada de seus gestos, no idealismo que ainda deve guiar suas ações. Na sua escuta, no seu interesse pelo outro, além de si mesmo. Estou convencida de que há magia por aí, e não precisa procurar muito.
Olho pro homem da minha vida e sei que ele é o homem da minha vida - só quem já sentiu isso sabe que é possível. E nossas almas se encontram num dia chuvoso e desajeitado, atravessando a rua, com aquelas luzinhas dos carros, dos faróis e dos olhos brilhando no asfalto molhado. E a música da cidade toca: ruído incessante da pressa. E tudo é sincrônico. Frio, livro, casaco, chocolate, abraço. Um após o outro, passos. E nossos corações pulsam ao ritmo dessa música.
É que tá tudo aí pra ser criado.
Sonhado.
Realizado.

domingo, 13 de setembro de 2009

tchibum

Mergulho de cabeça??

E se for raso demais??

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

saia, já!

Sai daí.
Saia do meu caminho, deixe ele livre.
Agora que toda chuva já caiu, limpou, levou, lavou e o mundo não se acabou, passe você por outras ruas.
Saia dos fragmentos falsos de vida que você compõe.
Saia, saia, saia.
Saia já [da minha vida].
.
Hoje o dia foi difícil.
A noite não foi tão ruim: arrematada com um puta texto do dostoievski em francês, um prosecco (vários...) e alguns petit-fours deliciosos.
.
Amanhã vou sair de saia.
Mulherzinha, que sou!

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

eternal sunshine of the spotless mind

me peguei pensando em ligar o computador e encontrar um email teu pedindo desculpas. Desculpas por existir. Desculpas por ter me conhecido, por ter me amado, por ter me compreendido, por ter me apaixonado. E que esse email fosse como um lenço branco e macio passando por cima da minha testa, te levando embora pra sempre.
Para sempre (existe, sim!).

terça-feira, 8 de setembro de 2009

chove tanto...

... que eu pensei que o mundo poderia de repente acabar.
O que eu faria?!?
Iria dançar na chuva e correria pra dar um beijo na sua bôca.
E depois o mundo poderia se acabar.

amor em muros

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

o valor das coisas

Qual o preço da sua criatividade? E o seu conhecimento adquirido, acumulado, conquistado, quanto vale? Como dar um preço a uma boa ideia que nasceu de tudo que você viveu, viu, estudou e que agora está a serviço da humanidade?
Não, não falo só de direitos autorais. Essa reflexão vai além. Penso nesse mundo louco que transformou valor em sinônimo de preço. Até etimologicamente essas duas palavras pequeninas andam se confundindo. Várias situações nas últimas semanas me fizeram recorrer ao meu idealismo para tentar significar essa lógica perversa, que novamente me joga pra fora do sistema e me faz perceber que sim, estou dentro, mas completamente fora desse mundo.
É muito triste perceber que reduzimos tudo à materialidade e à imagem. Se de um lado esse elementos tornam o intangível palpável, por outro reduzem a possibilidades de acesso, de gozo, de fruição, de circulação. Pode parecer ingênuo, mas não consigo ver sentido no processo que leva a estabelecer o preço das coisas. Pronto: custa X. Um amigo outro dia me disse que está ganhando um dinheiro que eu considero justo para o trabalho que ele está fazendo. Ele também considera, senão não estaria fazendo. Mas fez uma ressalva: "Eu cobraria no mínimo o dobro se fosse pra fulano ou sicrano, mas tudo bem, tô apostando nesse projeto...". Aí eu falei pra ele: "Mas bicho, pra quem quer que fosse, por que você cobraria o dobro se esse preço te parece justo?!? Se paga tuas contas?". Ele concordou, mas não soube justificar. "Valor de mercado" ou qualquer outra frase feita foi o que usou.
Fico pensando por que achamos que precisamos sempre ganhar mais (?). A maior parte das pessoas que conheço acham que o que elas ganham nunca é suficiente. Mas suficiente pra quê? Em que momento acontece o clic em que nossas demandas vão aumentando, aumentando, aumentando... e até onde? E por que não conseguimos um segundo sequer para parar e pensar: de onde vêm essas demandas? São internas?
Necessariamente, dentro dessa lógica, nosso trabalho adquire mais preço à medida que o tempo passa. Mas será que adquire mais valor também? Será que a relação entre valor e preço é diretamente proporcional? E qual é o limite desse preço?
Acho que se chama ganância, mas não gosto dessa palavra. É feia e tem uma conotação unicamente negativa. E eu não acho que viver bem, com conforto e cercada de coisas boas seja negativo. Muito pelo contrário. Não sou uma pregadora da parcimônia e da abdicação material. Mas acho (já faz tempo) que está demais. O acúmulo é um conceito que não consigo internalizar, felizmente. Não faz sentido pra mim.
A vida é muito generosa. Tem pra todo mundo, inclusive pros que (ainda) não têm. Para mim, a abundância vem de sacar o tamanho do que você precisa. E quanto você vai cobrar/pagar pelas coisas que você (acha que) precisa.
Afinal elas têm um valor, antes de ter um preço.

domingo, 6 de setembro de 2009

baiano-novo-paulista

Lá onde o retorno de Saturno demorou mais pra acontecer do que em qualquer outro lugar do mundo nasceu um menino branquinho, de olhos verdes e coração de tamanho imensurável. Ele não foi pro interior. Veio pra capital buscando não chafurdar na lama. Leva uma vida espartana e divertida. Muito musical, cercada de instrumentos por todos os lados. Esse menino tem ideias mirabolantes e quer mudar o mundo. Isso já é uma realidade: sua presença é presente. Um presente, sua presença. Seu almoço é regado a jabuticabas maduras. Um tosco-sofisticado na medida certa de bobeiras desejáveis para um sábado com jeito de feriado.

Ele é um contador de histórias, esse menino.
E não sabe do que é feita a maria-mole. Ninguém sabe, na verdade.


E se eu naufragar
na beira do céu
no olho do furacão
e tua ilha me buscar

Morar nos teus olhos
Tal qual sereia à Iemanjá
E nadar pra casa de mãos dadas

Daniel Mã

sábado, 5 de setembro de 2009

aqui dentro aqui fora

Quando o mundo estiver em suas mãos, passe-o adiante com cuidado.

Aqui dentro: Tusp – R. Maria Antônia, 294. Quintas e sextas às 21h30
Aqui fora: Galeria Olido – Av: São João, 473. Terças e quartas às 16h
Criação do grupo O Povo em Pé.
R$ 20,00 / 10,00 (meia entrada)
Absolutamente SENSACIONAL.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

o cúmulo da hipocrisia

Ao lado da minha mãe doentinha na cama, fui (quase) obrigada a assistir um trecho da novela das 8 nesta noite chuvosa - quem acompanha este blog, sabe que não assisto televisão já há alguns anos.
Pois bem, além de chocada com a vera fischer, que mais parece uma mumia embalsamada e que, quanto mais o tempo passa, mais se esforça para ser pior atriz, vi uma cena da personagem da letícia sabatella apanhando feio da ex mulher do padeiro francês gostosão, debora bloch (?). Feio mesmo, minha gente! Não foi um tapinha e tchau. Foram vários safanões, chutes no estômago e puxões de cabelo. Uma cena de violência pesada - mas minha mãe contou que a personagem apanhou a novela inteira de vários, então não deve ser novidade. Na sequência, como se nada tivesse acontecido, a atriz silvia buarque (que faz um papel de professora), aparece falando sobre a violência nas escolas, sobre como evitá-la, o respeito aos coleguinhas - aparentemente a novela também aborda temas de violência escolar de modo bastante incisivo. Bom, se for da mesma forma como abordou a cena anterior, certamente será bastante educativo, para que os telespectadores se tornem mais pacíficos no seu dia-a-dia e terminem enjaulados como animais insandecidos.

O efeito catártico da ficção alivia a agressividade real? Ou por fim a identitificação com a ficção pode levar a reproduzí-la na realidade?
.
.
Deus, rogai por nós, que não sabemos o que estamos fazendo.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Meu amor, se eu tiver que me perder
Há de ser alguém parecido com você

Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar.

Clarice Lispector, A Paixão segundo G.H.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

saudades de lugar nenhum

Sábado fui num bar onde nunca estive. Ele existe há 17 anos em São Paulo, ou seja, eu tinha 10 quando abriu. Cheguei lá e achei o lugar um moquifo. Moquifos costumam ter ótima música, pensei. Depois de alguns passos, muito charmoso. Aconchegante, clima de "lá em casa". Luz baixa, várias mesinhas, pessoas interessantes e um palco ao fundo. Bem iluminado. Um garçom simpático faz toda a diferença. Gostei, certamente me tornarei uma habitué, pensei (de novo). Sentei com uns amigos que já tinham chegado. "Pô, legal esse lugar, né, meu? São Paulo surpreende a gente com uns buracos, vou te contar...".
"Pois é", diz uma amiga. "Hoje é a última noite, estão fechando".
Como assim????????? Hein?! Encontro um lugar de música bacana, barato, com pessoas bonitas, garçom simpático... e vai fechar?
Dezessete anos se passaram e vai fechar BEM hoje???
Daí em diante parecíamos um monte de bêbados saudosistas. No palco se sucediam músicos mais ou menos significativos - a maior parte deles realmente bons, que de alguma forma prestavam homenagem à casa que foi tão importante para a música brasileira dos anos 1990. O bar parava para ouvir. E aplaudir. Entre uma entrada e outra, os dois sócios se revezavam para narrar pequenas histórias do lugar, detalhes de personagens especiais, palavras bonitas e comoventes. Todos participavam de alguma forma - até nós, que estávamos lá pela primeira vez. O clima não estava derrotista, mas genuína e estranhamente esperançoso. Amigos de longa data trocando abraços, cantando e bebendo juntos num ambiente familiar. A última frase de que me lembro, e anotei para não esquecer antes de algumas doses de Seleta, foi o Rafa dizendo: "Puxa, já estou quase com saudades de um lugar onde nunca vim". Nos olhamos. E rimos muito: na felicidade melancólica que só a madrugada é capaz de trazer.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

quanto mais purpurina melhor!!!

Não se incomode, o que a gente pode, pode, o que a gente não pode, explodirá. A força é bruta e a fonte da força é neutra e de repente a gente poderá.

Gilberto Gil

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

o presente que mudou o mundo

Pessoas de todas as idades, em todas as partes do mundo, acordaram com um pacote de presente ao lado. Era uma dose farta e generosa de bom humor. Todos – sem exceção – foram contagiados. Nesse dia, que mudou a história da humanidade, tivemos a chance de reciclar: rancores, preconceitos, preocupações, temores, receios, sofrimentos, impedimentos... Tudo – tudo mesmo o que não interessa e não tem utilidade – foi transformado com leveza. E à medida que os pacotes eram abertos e o bom humor encontrado, o mundo foi ficando cada vez melhor. Enlaçamos as mãos. Somamos talentos. Encontramos soluções e fizemos o que precisava ser feito para vivermos plenamente. Hoje esse dia é celebrado como o Dia da Graça, do Riso, da Alegria; onde a vida ganhou mais energia e cor, ganhou as ruas, os corações, os casebres e mansões e se fez presente em nossas ações.
(da www.wikifuturos.com)

again, again, again

Eu, pra variar, choramingava por um homem qualquer. Na sala de estar da nossa casa tipicamente inglesa, sentadas no chão, rodeadas por gatos, bebíamos Bacardi como água. A única regra era beber o suficiente para esquecer. Lá fora, frio. Do lado de dentro, aconchego. Talvez fosse a nossa latinidade ou o simples fato de nossos corações conseguirem conversar sem ressalvas. O cd do Sting que eu tinha acabado de ganhar da Pal comemorava nossa pré-ressaca. A faixa 01 "Brand New Day" foi a trilha daquela noite. Lembro de pedir inúmeras vezes pra ela voltar pra aquela faixa com aquela cadência de quem já passou do ponto: "agaaain, agaaain, agaaaain number óooone". E ela se levantava, cambaleando até o som, voltava para a faixa um. Acho que ela fez isso umas 25 vezes, até dobrarmos de dar tanta risada e não parar de falar "agaaaain, agaaaaain". Mesmo sem a música ter acabado, ela ia lá e apertava o botaozinho. E ríamos. Muito.
Coisa de bêbadas.
"My angel", foi como passei a chamá-la depois daquela noite. Ela me salvou de mais uma dor de cotovelo, cuidou da minha ressaca, e ainda se encarregou de aquecer outras geladas noitadas londrinas, com ideias mirabolantes, a boca sempre pronta pra um sorriso.
Faz 10 anos.
Tempos depois, nos encontramos em Buenos Aires. Recém-casada, orgulhosa de ser dona de casa, mulher trabalhadora, esposa, mas ainda conservava aquela menina traquinas de olhos grandes e brilhantes. Fez uma festa pra mim com empanadas, me apresentou seus amigos, seus pais, seus sonhos. Tomamos um porre rememorando os velhos tempos, ouvimos "Brand New Day", rimos muito. Choramos ao nos despedir.
Em seguida, a filha. A separação do marido.
"Às vezes a vida precisa de um 'agaaaaain'!", ela disse.
.
.
.
Hoje percebi que não devia ter ficado tanto tempo distante de você.
.

brand new day

How many of you people out there
Been hurt in some kind of love affair
And how many times do you swear that you'll never love again?

How many lonely, sleepless nights
How many lies, how many fights
And why would you want to put yourself through all that again?

"Love is pain," I hear you say
Love has a cruel and bitter way
Of paying you back for all the faith you ever had in your brain

How could it be that what you need the most
Can leave you feeling just like a ghost?
You never want to feel so sad and lost again

One day you could be looking
Through an old book in rainy weather
You see a picture of her smiling at you
When you were still together
You could be walking down the street
And who should you chance to meet
But that same old smile that you've been thinking of all day

You can turn the clock to zero, honey
I'll sell the stock, we'll spend all the money
We're starting up a brand new day

Turn the clock all the way back
I wonder if she'll take me back
I'm thinking in a brand new way

Turn the clock to zero, sister
You'll never know how much I missed her
Starting up a brand new day

Turn the clock to zero, boss
The river's wide, we'll swim across
Started up a brand new day

Sting

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

diana x vanderlei

Ela (para ele): "Eu nunca mais vou..." (pausa longa)
Ele (para o público): "Bom, ou ela fala agora, ou só depois dos comerciais".
Ela: "Ai, acho que me arrependi no meio da frase...".

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

ziriguidum

Tocar pandeiro é difícil pra cassete.
Mas é fantástico!!!
Tô apaixonada.

domingo, 23 de agosto de 2009

a vida é um prato feito

Vou contar um segredo: um dia qualquer, depois do ocorrido, decidi levar flores pra ela. Eu lembrei da Emilia, de como a gente se gostava e se dava bem. Não conseguimos nos despedir, e ela (de raiva) deu fim numa caixa de roupas que eu deixei na casa dela, devia ter uns 2.000 euros de roupas semi-novas lá. Talvez, se eu tivesse tido a coragem de ligar, isso não teria acontecido - mas isso é outra história.
Nesse dia, então, decidi levar orquídeas. A tristeza me consumia, mas me arrumei bem bonita, passei aquele lápis azul que todo mundo elogia quando eu passo. Coloquei meus óculos de sol novos, apesar do céu nublado. Estava um dia abafado típico de dezembro, o céu baixo, quase encostando nas nossas cabeças. Fui dirigindo devagar pela Radial Leste, chorando. Ouvia Esperanza Spalding "...you always wanted something more from my body and said you needed something more from my loving, but all you got was me and that´s all that I can be, I´m sorry if it let you down...", acho que inconscientemente guardava a esperança secreta de que algo mágico pudesse acontecer naquele trajeto, você apareceria parado no farol ao meu lado ou encontraria teu carro na porta da casa dela, uma visita inesperada, uma coincidência feliz. Mas antes de chegar, comecei a tremer. Eu confiava nela, sabia que iria ser um segredo só nosso, ela jamais te contaria. Mesmo assim, estava insegura. De maneira nenhuma estava fazendo aquilo para você saber, mas você não iria acreditar se descobrisse.
Toquei a campainha. Ela saiu secando as mãos num pano de pratos velho. Me olhou com espanto. "Oi!. Tá tudo bem???", perguntou.
"Está. Vim te fazer uma visita...", disse eu, já com a voz embargada.
Ela abriu o portão. Me beijou. "Entra. Quer um café?".
"Não, obrigada. Tô meio apressada... Na verdade, vim trabalhar pra esses lados hoje e passei pra te trazer essas flores. E pra despedir de você".
"Despedir?? Por que? Você vai viajar?", perguntou.
"Não sei ainda. Talvez vá. Talvez fique. Mas eu vim pra te dizer que gosto muito de você. Precisava te dizer isso, já que não vamos mais nos ver", despejei.
"Minha filha, a gente nunca sabe de nada. Agredeço as flores, são lindas. Mas a gente se vê por aí, a vida dá voltas".
Por debaixo dos meus grandes óculos escorria uma lágrima. Ela, durona, não foi capaz de me dar um abraço e de dizer que tudo ia ficar bem. Mas fez o que pôde. Ofereceu novamente um café fresquinho para tentar desatar nós e, na sua simplicidade, disse uma coisa que nunca esqueci: "A vida não se engana, Beta. Ela é um prato feito. A gente é que tem mania de não querer comer o que tá no prato. A gente quer que as coisas sejam como a gente quer, mas não é assim não. Come e pronto".
Ao sair daquela casinha com jeito de interior, levei o cheiro do café coado na hora. Reparei no cacho de orquídeas, sobressalente em meio às outras plantas de que ela gostava. Imaginei você, que ao passar por aquela varanda quando fosse, certamente iria reparar nas flores novas. Um rastro meu pra você.

sábado, 22 de agosto de 2009

ex-férias-futuras

Eu sei que parece injusto eu pedir férias de novo. Eu acabei de voltar. Mas agora tô querendo uma pausa diferente: das pessoas.
já já passa.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

chove horrores. E troveja.
estou afundada no trabalho. De cara, corpo e alma.
afundada no prazer, mas também na fuga.

Serena, calma e feliz.

Só com aquele pequeno pavor antecipado de voltar a pensar que me faltas.

não, tu não.
tu fostes, já não és.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

coerência

A ética é, em si, um conceito positivo. Não existe, para mim, ética má ou falta de ética. Tudo o que me aproxima da minha essência e faz bem à minha alma é ético. Na incansável busca por uma maior conexão comigo mesma, lá está a ética: me ordena que, na possibilidade da escolha, eu faça somente o que me faz feliz. E que eu seja coerente com as minhas verdades, sempre.
Vamos lá, então.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

27 anos (parte 2)

Hoje me vali da minha pouca experiência, pouca vivência, pouca paciência. Hoje me vali da minha juventude. De forma geral, é cruel ter questionamentos, mesmo de ordem prática. Não poque ninguém os responda, mas porque não se pode perguntá-los. É feio não saber, é quase ridículo. Quando olho ao meu redor, percebo o quão jovem eu sou para o cargo que ocupo, para as responsabilidades que assumo, para o risco que corro. Eu realmente não sei muitas coisas e nem devo sabê-las. Há anos recebo o tapinha no ombro acompanhado da frase feita mais batida que alguém com mais de 40 pode dizer: "Calma, um dia você vai mudar, você vai amansar". É claro que eu vou mudar, só os idiotas não mudam. Minhas prioridades também vão mudar, minhas angustias vão ser outras. Mas a minha essência permanecerá a mesma. E ela não vai se adaptar, não vai se acostumar, não vai parar de perguntar e nem de se indignar. A minha essência vai ter sempre 27 anos.
E tenho dito.

domingo, 16 de agosto de 2009

teresa em Gramado

O melhor curta-metragem é o melhor curta-metragem. E não foi só melhor filme: foi também melhor direção e melhor montagem. Foi incrível ouvir essa linda notícia dos teus lábios. O sonho que se torna palpável, realidade projetada na telona. Obrigada por me fazer estar presente em cada possível detalhe, desde o embrião desse sonho. Obrigada por me ligar para contar. Estou tão orgulhosa de você, da sua conquista, do seu reconhecimento público. E isso é só o começo, tenho certeza.
Amo você. Que o sucesso venha em dobro, em triplo, até cansar!

sábado, 15 de agosto de 2009

essa é pra você

Na nossa evolução, fomos projetados para a paz. Por isso, quando encontramos o outro, sorrimos: para mostrar que nossos caninos são pequenos.

Por isso, não desista, querida. Um sorriso SEMPRE abre portas.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

cult but not pop

É fato: eu não sou pop.
Adoro ser low profile.
Cultivo boas amizades, mas meu telefone raramente toca para convites pops.
Não tenho um trabalho que me dá status.
Não consigo ingressos de jabá (porque não peço).
Não sou amiga de nenhuma celebridade instantânea [não sei fazer "espuminha", como diria o Trindade. No máximo, conheço de vista alguns caras respeitáveis - famosos por mérito, mas não sou amiga deles, de jeito nenhum].
Não toco na funhouse e não gosto daquele som.

Tem coisa melhor?
Ser cult sem ser pop?

Ah, eu tô tão feliz... viva o boogaloo!

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

telesp informa

Hoje aconteceu um fato inusitado, quase inacreditável: conheci a dona da voz que diz "este número de telefone não existe...".

Ela existe!
Acredita?!

terça-feira, 11 de agosto de 2009

baby won't you please come home

Não é fácil conviver com você. Palhaço, moleque, suado. Não é fácil conviver com sua bagunça, sua inquietude, arco-íris de emoções. Não é fácil desentender o mundo que até hoje fingia entender.

Mas eu me esforço.

Porque o teu humor me leva leve como o céu de brisa que desenha nuvens mansas. Teu sorriso e tua generosidade são meu café da manhã. Tua maquiagem borrada, escorrendo pelo canto do olho depois de horas de trabalho apaixonado, chega a ser pateticamente romântica. Eu te admiro. E te fotografo: absorvo as sutilezas das tuas expressões e dos teus gestos. Amo tua grandeza tão pequenina, tuas palavras pouco ensaiadas. Tua simplicidade e teus dons manuais. Adoro tuas mãos - quando me tocam: suspiro, estremeço.

Transpiro.

Pensar que você pode não estar é fel na boca. Eternizo você em mim todos os dias, descortino o quarto para o sol entrar com você, frescor dessas manhãs invernais. Atrevo-me a me descuidar, por saber que vais cuidar de mim. Retribuo suas massagens porque me inspiro com seu prazer. Danço pisando nos teus pés - e você nunca reclama.

Pensando bem, é realmente muito fácil conviver com você.
Porque há amor. Do tamanho suficiente.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

cuídame

Hoje caiu no meu colo a letra dessa linda música. E me lembrei que há um ano eu escrevi sobre cuidado e refleti muito sobre isso.
No fundo, eu sinto falta de escrever.

Cuida de mis labios,
Cuida de mi risa.
Llévame en tus brazos,
Llévame sin prisa.

No maltrates nunca mi fragilidad,
Pisaré la tierra que tú pisas.

Cuida de mis manos,
Cuida de mis dedos.
Dame la caricia,
Que descansa en ellos.

No maltrates nunca mi fragilidad,
Yo seré la imagen de tu espejo.

Cuida de mis sueños,
Cuida de mi vida.
Cuida a quién te quiere,
Cuida a quién te cuida.

No maltrates nunca mi fragilidad,
Yo seré el abrazo que te alivia.

Cuida de mis ojos,
Cuida de mi cara.
Abre los caminos,
Dame las palabras.

No maltrates nunca mi fragilidad,
Soy la fortaleza de mañana.

(Pedro Guerra + Jorge Drexler)

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

te extraño

Vivenciados os limitados e mundanos interesses sexuais que nos unem, vamos pensar agora no que nos causa saudade. Saudade original. [desculpe, não quero soar clichê, mas talvez você não entenda o que eu quero dizer quando escrevo "saudade". Se isso por ventura acontecer, é normal].
O que me faz brilhar os olhos ao falar de ti? Como a boca esboça um sorriso espontâneo quando te lembras de mim? Quais odores nos recordam o nariz enfiado no cangote, o cangote sobre o travesseiro macio cheirando a você? Quais brutalidades ditas ou ousadas nos trazem de volta a sensação de estarmos próximos, tremendo, mais uma vez juntos? E o que se esconde por trás dessa dureza aparente?
As conversas. Sim, as conversas são nosso grande trunfo, nosso valor, o grande momento de êxtase, de conexão. Minha mãe um dia me disse: "minha filha, só se case com um homem com quem você tiver um papo bom, porque o resto um dia termina. As conversas nunca".
Descobri: é isso que me causa saudade de ti.
E todo o resto também.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

hello stranger

A intenção é manter esse estado de graça. De graça. Sem cobrar nada de ninguém, sem ser cobrada por nada. Porque afinal a vida é prazer. Puro prazer. Fiz um pacto comigo mesma: ser estrangeira na minha cidade, explorar novos cantos, sem medo, sem cismas, sem pudores, como se estivesse constantemente viajando, mas estando aqui. A outra ideia é bem simples: fazer um novo amigo por semana, uma pessoa que pode passar incólume ou ficar pra sempre, não importa. Afinal, nas viagens, é assim que funciona. Então hoje conheci meu amigo dessa semana. No avião, indo pra Ribeirão. Logo nos tornamos amigos de longa data, sem chance para pausas. Foram conversas leves, encaixadas, como se há muito tempo estivéssemos esperando por elas. Foram olhares cúmplices, desafiadores, íntimos. Olhares complacentes de ternura, respeitando-se nas diferenças. Despedimo-nos combinando breves trocas para manter viva a promessa de sermos simplesmente mais felizes.

É só essa simplicidade que eu almejo, a cada dia.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

swallow it, babe

tô de volta à paulicéia.
não é fácil engolir lembranças.
e nem mudar de canal em 24 horas.
hoje trabalhei que nem uma camela, deve ser pra evitar depressão pós-férias.

agora não consigo dormir.
a Simone me espera pras últimas páginas.

então vou ler e fingir que escuto o mar.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

cariñitos

Ensinei por aí uma palavra que nao existe em espanhol: cafuné. Cariñitos, dizem na Costa Rica. Mas nao é igual. Cafuné é uma coisa única, deliciosa, que se extende por minutos a fio, por entre os fios do cabelo, atrás da orelha, baixando até o cangote. Fazer cafuné é uma arte: é preciso adequar a pressao das maos e passear sem monotonia pelas áreas acarinhadas para manter a sensaçao de prazer. Se bem feito, as pontas dos dedos cafuneadores ficam cheirando o cheiro da pessoa cafunada por dias a fio até. A nossa língua é mesmo uma gostosura... Aprendi com o Rafa a subverter o dicionário. E é impossível falar de cafuné sem lembrar do Rafa.
Eu faço cafuné. Nao sao cariñitos, sao cafunés mesmo.
Obrigada mae, por me ensinar a ser tao carinhosa.

domingo, 26 de julho de 2009

a costa rica é um pais legal porque:

(nao necessariamente nessa ordem)
- Os Ticos falam tudo no diminutivo. O espanhol deles é muito fofo;
- É o pais mais feliz do mundo!
- Nem que quisesse, o pais nao pode fazer guerra com ninguem: aboliu suas forcas armadas em 1948;
- Os pobres nao pagam imposto de renda;
- Produz cerca de 7 milhoes de bananas por dia e exporta grande parte delas. YES, WE HAVE BANANAS!
- Os enderecos sao cartesianos, como diz o Sergio. Exemplo de endereco típico (para o correio): Condominio Vista del Sol, 100m a la izquierda, 25m a la derecha, carretera principal. San Jose. Ponto.
- Tem uma quantidade incrivel de animais soltos em parques naturais espalhados pelo pais;
- Mede a chuva em metros cubicos, nao em milimetros cubicos;
- Talvez pela razao anterior, aqui tudo que planta, da (l-i-t-e-r-a-l-m-e-n-t-e).

A Costa Rica é PURA VIDA!

p.s.: Adoro fazer listas.

liberdade

O melhor disso tudo sao os encontros. Eles sao sempre uma surpresa boa. Ilimitada. Eles aumentam minha confianca no ser humano, que acredito ser verdadeiramente bom. Tem tanta gente interessante no mundo!!!
Nao tem dado tempo de escrever emocoes que eu ainda nao consigo digerir. Esta sendo muito rapido, muito engracado, muito intenso, muito extremo.
Estou me sentindo bem.
Verdadeiramente livre.
Acho que so uma viagem comigo consegue me dar uma sensacao de liberdade como esta.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

rebeldia solitària

Às vezes, Beauvoir chamava sua rebeldia solitària de "uma embriaguez". Mas tinha consciência de que precisaria de uma forca extraordinària. "Eu gostaria muito de ter o direito, eu tambèm, de ser simples e muito fraca, de ser mulher", confessou no diàrio. Sentia que, para as mulheres, o amor tinha um custo, e que havia uma parte dela que provavelmente nenhum homem aceitaria. "Falo do amor de forma mìstica, sei o preco", diz ela. "Sou muito inteligente, muito exigente e muito engenhosa para alguèm ser capaz de se encarregar completamente de mim. Ninguèm me conhece nem me ama completamente. Sò tenho a mim".

Tète-a-tète - Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre
Hazel Rowley

segunda-feira, 20 de julho de 2009

transbordando

Nas ultimas 60 horas:
Passei de 12 a 35 graus em menos de 3 horas.
Visitei bosques, caminhei sobre as nuvens, fui a praia, vim parar num cantinho hibrido da cidade.
Falei ingles, espanhol, italiano e portugues.
Falei nada.
Respirei muito fundo.
Tomei decisoes importantes.
Vi macacos e bichos-preguicas (lindos!).
Li sobre Sartre e Simone.
Conheci uma mulher muito parecida comigo.
Comi patacones mixtos.
Tomei guaro. Muito.
Conheci um gay e um homem feio.
Falei sobre novos modelos de desenvolvimento e brechas do capitalismo.
Cantei com os Hare Krishnas.
Ouvi trovas do Silvio Rodriguez.
Conheci um homem lindo.
Assisti o tope de Santa Ana - uma parada de cavalos enlouquecidos.
Ganhei um beijo na boca de um cavalo.
Enchi a cara.
Comi falafel.
Ganhei um beijo na boca (do homem lindo).
Pensei no amor livre.

Ufa. Acho que agora vou dormir.

El sera el conductor de tu vida, yo voy a ser el ayudante.
Vicente Fernandez

sábado, 18 de julho de 2009

mariposa

O tempo que uma borboleta leva para se reproduzir e se desenvolver - transformando-se em larva, depois em crisálida e finalmente em borboleta - é quase o dobro do que seu tempo real de vida. Ela viverá, em média, de 3 a 4 semanas e aproveitará sua juventude para depor seus ovos nas folhas, antes de iniciar a perder pequenas partes das bordas de suas asas, evento que anuncia a proximidade de sua morte.
Uma borboleta, como todas as criaturas deste planeta, é perfeita. A fêmea, após a cópula, conserva em seu corpinho um compartimento para os espermas e outro para os óvulos. Na extremidade de suas patinhas, ela tem sensores que lhe permitem reconhecer a folha certa que ela irá "fecundar" e, após a identificaçao, aciona seus compartimentos para liberar sobre a folha, em uma fraçao de segundos, a quantidade exata de esperma e de óvulo.
A borboleta, como eu, gosta de calor. A temperatura ideal para ela é de 28ºC. Abaixo dessa temperatura ou se o sol nao aparece, ela dificilmente voa - fica encolhidinha para reservar energias.

Hoje conheci um encantador de borboletas. Hoje aprendi a ama-las e respeitá-las. Elas sao sábias e fazem o que todos nós deveríamos fazer: dar mais importância ao processo do que ao fato em si.

Vale a pena ser borboleta colorida e voar por aí.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

I am from America

Viajar sozinha, ao contrario do que muitos pensam, è muito bom. Voce conversa com quem quiser, a hora que quiser, come o que quiser e escolhe o que vai comer, decide o que fazer e assume todos os riscos por isso. E, o melhor de tudo: è um intensivao com voce mesma, um puta aprendizado. Dureza è encontrar as companhias erradas. Mas isso infelizmente acontece. No meu caso, por vasta experiência, posso afirmar sem medo de errar que, em 95% dos casos, esses indesejàveis seres sao da raça norte-americana. Aqui hay muchos. Demasiados. A mèdia è: de 10, consigo me relacionar apenas com 1. È triste. È triste ser perguntada: "Quando è que eu vou poder ir ao Brasil sem ser sequestrado ou assassinado?" ou "O Brasil è um paìs, nè?". Achei que isso fosse piada de mal gosto - apesar de ter tido provas em outras ocasioes sobre essa patente ignorância, continuava acreditando que era um estereòtipo barato construìdo pela esquerda mal amada. Mas se fosse sò isso, remediava-se. O que è mais duro è que essa ignorância è respaldada por uma arrogância sem fim. E por uma visao exòtica de mundo incompreensìvel para tempos de globalizaçao, bla bla bla. Fiquei chocada ontem: ao conhecer um fotògrafo, perguntei de onde ele era. Ele respondeu: "I am from America!". Eu abri um largo sorriso e disse: "Me too. I am from America...". Depois que eu contei ser brasileira, o cara falou: "Well, Brazil is in SOUTH America. It`s not America". Deu pra entender??????
........
Bom, gente, è que eu fiquei meio com crise de identidade e resolvi postar isso aqui hoje sò pra dizer: eu sou da Amèrica tambèm. Confirma?

terça-feira, 14 de julho de 2009

Costa Rica

Cheguei. A recepçao nao podia ter sido melhor, logo antes de passar na imigraçao, a oficial da polícia diz: "Las hojecitas en la manocita, por favor!". Tudo no diminutivo! Dizem que os Ticos sao assim, super amáveis.
O calor está forte, mas tem uma brisa boa para cortá-lo.
Atrás da porta do quarto, um aviso: "Em caso de terremotos, fique longe dos vidros e vá para o centro do jardim".
Deusmiajude.
Agora vou ganhar o mundo, apesar do cansaço.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

você

Foi você quem inventou a culpa. Você, que não tem nada pra fazer senão atazanar a vida dos outros, você que esvazia o pneu do carro alheio na madrugada fria só para afogar as amarguras de um dia mal aproveitado no fígado de outrem. Você que se chama baixa-estima, Estrupício. Você, que de dia dorme e de noite, zumbi. Você que deixa a vida escapar pelas frestas dos dedos. Tenho pena de você.
Você chove. Você? Lama.
Você não vai comigo. Nem fica comigo. Você e suas manias estúpidas, ranzinzas, que só fizeram roubar minha criança. Mas minha juventude, você não tem. Você é velharia. É vigliaccaria, diria minha avó. Você é sombra rala que não consegue nem ser densa.

Você, que tanto tempo faz, você que eu não conheço mais.
Você que um dia eu amei demais.
Roberto Carlos

domingo, 12 de julho de 2009

receita para sarar (hoje)

Seja sempre verdadeira com você mesma, por mais duro que possa ser. Não deixe de falar o que está sentindo - isso pode lhe causar uma baita dor de garganta.
Chore um pouco, se preciso for.
Não culpe o outro pelo seu sofrimento: você é responsavel pela sua vida.
Procure sempre uma amiga e passe a maquiagem mais colorida da caixa.
Vá ao cinema.
Durma bem e beba bastante água.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

'seu imbecil. seu imbecil. seu imbeciiiiiil.'
Era só o que ela tinha vontade de falar para ele batendo forte em seu peito com os punhos cerrados. Ele que já havia errado, que já a havia abandonado.
Que já havia morrido.

não há cimento que te impeça de respirar

Sublime. Lindo texto, descrições minuciosas, sutilezas sustentadas pela maravilhosa interpretação de Clara Carvalho.

Dueto da Solidão
de Sérgio Roveri
Com Clara Carvalho, Chico Carvalho, Gustavo Haddad e Leonardo Miggiorin
Sesc Vila Mariana
Rua Pelotas, 41 - 11/5080-3000
Às terças e quartas, às 21h
De R$ 3 a R$ 12
Até 24/6

terça-feira, 7 de julho de 2009

para um amor no recife

A vida serpenteia sorrateira quando estamos destraídos olhando para o céu. Não avisa momento de chegada. Nem de partida. Nem de final, feliz ou infeliz. A vida simplesmente acontece enquanto lixamos as unhas. A vida é surpresa. Das grandes. Das boas.
Eis que uma dessas frações de vida estava lá: sentado na areia, contando nuvens. Cannabis Sativa entre os dedos, olhava como quem procurava. A outra caminhava entediada pela praia semi-deserta, o sol a pino. Olhava como quem achou.
Encontraram-se. Embrulhados para presente, um para o outro.
Deram-se.
Iniciaram sem palavras, seguiram sem palavras. Reconhecendo corpos descobertos, convidaram-se para o mar. Sabiam ser somente aquilo que os unia, aquele momento o único que fazia sentido. Do mais, não sabiam. Um do outro nada sabiam. Passariam mais de cem anos de desejo ensurdecedor sem que se tocassem novamente, mas tinha de ser: frações de vida não se encontram assim por acaso. E não havia coração ali que chegasse. Era puro corpo que explodia, que tremia, que louvava... Quando uma onda desmesurada e revolta, com aquela força que só uma onda pode ter, então os apartou. Desataram. Soltaram-se mãos, laços, ventres. Escorregaram para fora d´água sem fôlego nem perdão.
Sem fôlego.
Sem adeus.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

yusa ou martnalia

- Sabe o que a gente faz quando se dá conta de que ama um amor inacabável, inevitável, intolerável?
Ela balançou a cabeça: "Não, não sei. O que a gente faz?".
- Eu também não sei...
As duas gargalharam.
- Talvez a gente deva continuar amando esse amor. Seria um crime tentar evitá-lo, ou substituí-lo. Na verdade não vai adiantar... Ele sempre vai estar.
- Talvez a gente deva cantar. Eu me sinto muito melhor quando canto.
- Depende do que você vai cantar...
- É... se eu mando: 'Quero ficar no teu corpo feito tatuagem que é pra te dar coragem pra seguir viagem quando a noite veeeem (...). E nos músculos exááááustos do teu braço, repousar frouxa, murcha, farta, morta de cansaço...' aí é foda... eu começo a lembrar daquela fantástica que ele tinha no braço esquerdo. Eu adorava. Eu dormia em cima dela, perfeita, milimetricamente tatuada sobre o biceps. ai ai, é de matar!
- Mas e essa? 'Vai sair da minha vida, você vai ter que mudar da minha casa, de atitude, chega! Ainda mais agora que eu vou viajar prá me livrar de você, não quero mais ser seu amigo, nem inimigo, nada!...'
- Nada...
- Vai viajar, nêga. Depois a gente vê.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

despedida virtual

Hoje foi um dia de resoluções e despedidas.
Reencontros e desamarrações.

- ... então um abraço, bem longo e aconchegado, daqueles que não consegui te dar.
- outro bem grande, desses que esperamos e não tivemos.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

menos economia, mais poesia

Gente: o mundo precisa de poesia. Nossos olhos urbanos, embaçados e surdos, se umidificam de poesia - e andam bastante ressecados. Os motoristas dos ônibus precisam de poesia pra enfrentar a dureza do asfalto. Os advogados, os economistas, os jornalistas - bom, esses nem se fala... Os políticos. Os padres. Os professores, ai. Tanta poesia lhes falta. Tanta poesia nos falta.
E poesia não é "poesia" (apenas). Estrofe, verso, rima.
É perceber pedaços de ternura no cotidiano. Poesia é música, flor, quadro bonito, sorriso inesperado, olhar profundo. Poesia é delicadeza melancólica da luz do inverno. É frase bem dita. Pausada. Escrita ou falada. Ou cantada. Poesia é cuidado - muito cuidado com a poesia!

Ela é transformadora.

Gente: o mundo precisa de menos economia e mais poesia. Hoje a Leti disse que a economia também pode ser poesia. Eu respondi: "Pode. Mas não é". Não é. Mas não precisam ser antagônicas. Podemos lançar a ECONOESIA, na tentativa de humanizar esse mundaréu de gentes centrifugadas num redemoinho de estímulos, de preços, de praças, de produtos, de promoções. Centripetadas em seus próprios umbigos, em seus espelhos, em seus carrinhos. Sozinhas, tadinhas. Cada vez mais.
Então vem a poesia. E nos salva! Aleluia!
Abra os olhos. Chega de economizar poesia.

Meu mundo só tem começo, meus desejos não têm fim.
Ceumar e Tata Fernandes

terça-feira, 30 de junho de 2009

adelante!

"É o que estamos a tentar: andar e fazer caminho, fazer caminho e andar. A jornada será longa, mas não desanimaremos. Em cada dia chegaremos, em cada dia partiremos. Mais além, sempre mais além."
José Saramago

Enviado por uma querida e fiel leitora por email.
No dia de hoje, só mesmo uma frase dessas...

sábado, 27 de junho de 2009

umbigo

O que é a motivação? Onde é que ela tá? É algo que vem de dentro? Ou se encontra nos estímulos externos? Ou nos dois lugares? Ou em lugar nenhum, ela simplesmente brota? Eu só quero que alguém me fale onde é que eu posso encontrá-la. Cansei de caçá-la. Quando a busco, na maior parte das vezes acho. Mas há dias que a perdi. E me esforço, me esforço pra tirá-la lá do fundo do umbigo, onde ela se esconde e se amarra. Tenho conseguido manter as aparências, mas de verdade: ela está teimosa, não quer vir. Não sai. Ou não entra, sei lá (afinal, ela está fora ou dentro?).
O que será que ela teme? Solidão? Inadequação? Poluição? Lixão?
Acho que a minha motivação está tímida, é isso. Ela me contou que anda acuada, porque fica toda motivada com caras interessantes que no final se demonstram uns babacas - para que não pensem que eu estou me referindo a algum caso concreto, deixo claro desde logo que estou sim, a vários. Ela está cansada de se motivar SÓ porque o dia está ensolarado, ou SÓ porque a peça foi boa, ou SÓ porque ganhou um cachecol vermelho. Eu disse: "minha querida, mas essas são ótimas razões para você se motivar!". Ela concordou, mas se cansou. Se cansou e pronto. E se amarrou no meu umbigo. Verdade, eu sinto ela no umbigo, olha que coisa estranha!
Então, agora que eu já escrevi, minha amiga ligou e eu chorei, ela me disse que vem me buscar pra irmos jantar. Vou comer uma coisinha bem quentinha e gostosa, quem sabe SÓ com isso.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

intens(idade)

Oi.
Olha, olha.
Olha prá você.
Olha pro que te tornastes.
Gostas?
Olha pro que está em construção de ti.
Olha pro que já está construído e pode ser reformado.
Olha nos olhos, lá no fundo, sem piscar. Deixa lacrimejar.
Acessa a alma, será que consegues?
Acessa a dor, a aflição, as angustias.
Revive as alegrias, os azuis mais celestiais, os orgasmos, os espasmos.
Repara. Quantos?
Arrepios sutis, o ar que falta.
Sobre todas as coisas, as cenas em slow motion, a poesia que guarda cada instante, as breves memórias embaçadas. Pra sempre.
Chora. Chora de susto, de surpresa, de incabível felicidade, de tristeza suicida.
E embriaga-te. De mim.

Sabes o que te falta?
Coragem.

terça-feira, 23 de junho de 2009

ótimo!

Por que diabos insisto nessa profissão???
http://www.youtube.com/watch?v=Njjeb2bN578

segunda-feira, 22 de junho de 2009

apesar dos defeitos

As relações saudáveis têm o caráter da troca e relacionam-se a um entendimento mais amplo desse forte sentimento humano que é o amor. Amar significa relacionar-se ao pacote completo, encantar-se com as qualidades sem negar os defeitos, ou seja, amar apesar dos defeitos.

sábado, 20 de junho de 2009

É impossível ficar de mal humor depois de achar seus vestígios pela casa. Me surpreendo com a sua capacidade de me surpreender.
Que delícia!
Meu dia foi ótimo, obrigada.

malditos hormônios

indiferença irritação falta de vontade impaciencia preguiça
à flor da pele, tudo
dor choro porrada sono
acupuntura yoga respira, filha da puta, respiiiira!

sexta-feira, 19 de junho de 2009

frase bonita que ouvi hoje

Tem maquiagens que maquiam, e maquiagens que revelam.
A sua é das que revelam.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

frágil

sabe qual é a impressão que eu tenho??? Que eu só estou esperando alguma coisa dar errado, qualquer coisa, pouco ou muito errado, não importa. Qualquer sinal de que vou me frustrar, de que vou ser deixada na mão, de que a chave vai ficar lá na portaria. Estou respirando curtinho, meio no susto, esperando a chance de bradar: "eu sabia!".

A impressão que eu tenho é que tô esperando qualquer uma dessas coisas acontecer pra poder cair num choro convulsivo.
Mas meu santo é forte. Nada vai dar errado.
Certo?

p.s.: esse frio tá foda!
p.s.2: é cambaleando em companhia que a gente se segura!

terça-feira, 16 de junho de 2009

i told you i was trouble

Lembra quando a gente foi pro sítio da paulinha ouvindo amy winehouse?!?
'Cause you're my fella, my guy...
Hoje me deu saudades.
cara, tô precisando me apaixonar.
U-R-G-E-N-T-E!

domingo, 14 de junho de 2009

voltando pra casa

Essa semana foi uma grande abstração na minha vida. Participei do 23 Congresso internacional do ISPA (International Society for the Performing Arts), evento que reuniu mais de 300 gestores culturais, artistas e produtroes de 23 países aqui em São Paulo. Conheci muita gente bacana, passei por experiências únicas, fiz contatos que serão uteis para o meu trabalho, outros certamente essenciais para a vida. A festa de encerramento foi na Sala São Paulo. Chiquérrima e super bem cuidada, como foi todo o congresso, que ocorreu em diversos locais, desde o Museu de Arte de São Paulo, passando pelo Parque da Água Branca, até o CEU Alvarenga, zona sul da cidade. Comi e bebi maravilhosamente bem, estive ao lado da Fernanda Montenegro, jantei com Benson Puah, dancei até a perna pedir arrego, dei muita risada.
...
E o que causa em mim (quase sempre) o desconforto repentino?

Encontrei com a Andreia Dias, da Banda Glória, enquanto ambas atacávamos a mesa de doces: - Andreia, oi. Queria te dizer que você - quando ainda tinha cabelos compridos - fazia minhas noites felizes no União Fraterna. Você canta que é uma delícia!
Ela sorriu amarelo, colocando na boca um bocado de morango com suspiros. Suspirou.
Eu perguntei: - Você tá feliz? (que ideia, perguntar isso bêbada às 2h00 da manhã pra uma cantora...)
- Mais ou menos... - respondeu ela. - É engraçado, agora que a banda tá bem, minha carreira solo está em destaque, entra muito pouca grana. Isso dá um bode...
Seguimos conversando. Confessei que, naquelas noites de 2005, enquanto ela cantava sacolejando seu vestido vermelho, sua música embalava minha dança apaixonada com um homem muito importante na minha vida.
- Que bom! (sorriso menos amarelo). Vocês ainda estão juntos?
- Não... mas ele foi um grande amor.
- ah, então, é isso que importa!

Depois disso, ela voltou ao palco, eu à pista, mas tudo ficou meio sem sentido. Passei a semana discutindo como viabilizar e fazer circular bens culturais, em como facilitar seu acesso à população, formar platéias, e a cantora afirma que simplesmente não consegue tirar seu ganha pão do seu ofício.
Fui para o canto da pista de dança e fiquei observando, pela vidraça, a Estação Julio Prestes. Duas moças arrastavam seus rodos limpando o chão e os trens parados na plataforma. Dois seguranças se encolhiam dentro de seus casacos, buscando se proteger do frio. Eu, do lado de dentro, ensaiava uns passos de samba e os convidei pra dançar com um sorriso. Eles retribuiram, mas não se moveram. E de repente uma incrível melancolia me invadiu. Olhei pra aquela cena e percebi que nada mudou. Há séculos, há quem dança do lado de cá do vidro e quem, lá fora, nunca entrará na dança. Há séculos que ninguém olha pra isso e nem quer olhar. Há séculos continuamos perpetuando essa lógica. Até quando, meu Deus?!

Hoje [voltando pra casa] desejei ardentemente ser uma daquelas mocinhas que se confessam e guardam dentro de si um pouco de serenidade.
Simone de Beauvoir

sábado, 13 de junho de 2009

ufa!

passou esta data mais infame.
e eu tô aqui, inteiraça!
nem doeu.
até o ano que vem, então.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

fervilhando

Passei as últimas 48 horas (quase literalmente) respirando cultura Falando sobre cultura, comendo leis de incentivo, debatendo o papel das artes, ouvindo boas práticas internacionais. Fui ao banheiro com conceitos de cidadania, tomei cafezinho com as políticas públicas, pelejei com a diversidade. Até com a dona Liberdade veio me procurar para trocarmos cartões.
As últimas 48 horas também passei refletindo. As últimas cinco, vivenciando no meu corpo os prazeres da arte, alimentando a minha alma. Estou confusa, agitada. Se num momento me animo, no outro me desestimulo. Se num momento acredito, no momento seguinte acho que tá tudo errado, uma zona mesmo.

Mas vamolá, fazêoquê? Tâmo aquí, né?! O negócio é se molhá!

Como sempre os aprendizados são grandes e me deixam inquieta, pensando nas milhares de possibilidades que o mundo nos oferece, nas milhares de pessoas interessantes que cruzam o nosso caminho. São aprendizados humanos que transcendem a prática e a burocracia de leis falhas e de um Estado incipiente.
Fica cada vez mais forte a certeza de que a cidadania somos nós quem construímos, individualmente, para aplicar na coletividade. Fica a compreesão de que muito avançamos em processos democráticos, em construções de políticas públicas, mas que ainda estamos engatinhando - sim, há ainda um tanto por fazer que dá aquela angustia de não saber nem por onde começar! Fica também cada vez mais forte a impressão de que o individualismo está ruindo, assim como valores excusos do império norte-americano que cultiva o deus capitalismo. Apesar de muitos ainda relutarem, as ações pautadas por esses valores começam a não ter mais espaço neste mundo, onde as redes sociais imperam soberanas. Um mundo coletivo, diverso em sua essência, um mundo em que as conexões são inevitáveis e incontroláveis, e os propósitos reconhecíveis. Um novo contexto onde há que aprender a lidar com a liberdade de ser, de estar, de escolher, de se espressar... a grande maioria de nós não sabe lidar com nada disso - brama por liberdade, mas não sabe nem mesmo administrar a que já tem.
Puxa, estou tão lotada de sentimentos. Transbordando.
Fica, sem dúvida, a certeza de que as coisas têm o seu tempo de acontecer. E elas já estão acontecendo. A Cultura, em seu sentido amplo, é como o ar: nunca pode faltar, senão deixamos de existir.

terça-feira, 9 de junho de 2009

não se preocupe:

qualquer dia, não muito distante de hoje, resolvemos isso.

Só pra deixar registrado: sempre há o que fazer.
E as coisas sempre se ajeitam.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

o espelho

Se tem um objeto com quem eu tenho uma relação íntima, esse objeto é o espelho. Ele revela o que há de melhor e de pior e mim, todas as obviedades e superficialidades que habitam meu corpo. Nele me reconheço não só fisicamente - o que por si só já é fantástico - mas enxergo também as várias eus que me visitam. E não há satisfação mais plena do que, ao me olhar, perceber que já não está mais lá aquilo que abomino, que quero afastar. Mas sei também que isso custa: leva tempo e dá trabalho. Sei como mata aos poucos olhar-se todo dia, diversas vezes por dia, e continuar vendo refletida, correspondendo a cada gesto contido, aquela sua velha imagem que você busca renovar.
Paciência. É só o que eu te peço.

sábado, 6 de junho de 2009

ócio criativo

É fato. O artista precisa de tempo "ocioso".
O escritor - artista da palavra - precisa de tempo "ocioso" para se inspirar. O tempo ocioso aos nossos olhos é o seu ofício, sua carpintaria, seu adquirir poesia em protagonizar pequenas coisas. Suas grandes ideias literárias dão trabalho, vêm de uma sensibilidade incompreendida, curtida e cumprida, de uma observação despressurizada, sem pressão, sem pressa. Desenvolver essas grandes ideias não é um dom, mas um exercício. Um exercício que neste momento sou incapaz de fazer.
A semana foi pesada.
Pesada.
E eu estou repetitiva.
Repetitiva.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

modern life sucks

Eu não to dando conta de ler todos os livros que estou ganhando. E estou comprando outros tantos que estou empilhando em algum canto, sem nem me dar conta. Jurei que não ia mais fazer isso - e consegui cumprir a promessa por um bom tempo. Eu não tô dando conta de dar a devida atenção a algumas pessoas como gostaria. De falar com meu pai, de ligar pros meus avós. De ser amorosa como é a minha essência, e de ouvir mais, que é um dos meus propósitos principais. Não tô dando conta de checar meus hotmails, meu gmail, o orkut, o facebook, o twitter, o owa, a rede novolhar. Não to dando conta de acordar cedo, comer frutas, de ir na natação com esse frio. Já perdi a conta do número das minhas faltas. Não to dando conta da solidão dominical e do cansaço que a acompanha. Quero dar conta de simplesmente não fazer nada, mas não dou. E não dou conta de decidir o que vou fazer nas minhas férias porque não dou conta de ficar sem fazer nada pra poder pensar nisso. Hoje o Danilo me falou que eu sou uma das mulheres que ele conhece que mais realiza coisas. E isso é bom? perguntei. Ele disse que sim, que só consigo isso pela minha competência. Pensei então que, na verdade, eu não estou é me dando dando conta do tamanho dela. E de tudo de muito legal que eu dou conta de fazer, mesmo achando que eu não dou.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

é do inferno que a gente gosta

... o inferno? É tudo aquilo de que a gente gosta e que nos é dado em excesso.

Fabrício Carpinejar, em Blooks, Sesc Pinheiros em 03.06.2009