sábado, 5 de dezembro de 2009

a saga do atropelamento imaginário

"Por que ninguém me atropela?" era o nome do filme.
Protagonista não muito original para uma sexta-feira chuvosa em São Paulo: o trânsito, que começava seu efeito-dominó depois de um engavetamento em plena 23 de Maio.
Direção, produção e participação especial: ele e ela, que seguiam tranquilos e felizes num táxi rumo ao aeroporto de Congonhas. A batida travou a porta e ela não conseguia sair do carro. O susto e o impacto causaram uma forte dor em sua nuca, enquanto pela janela, uma garoa insistente anunciava que perderiam o avião. Foram necessários alguns minutos de entendimento: acidentes de trânsito são muito loucos, parece que nada aconteceu, mas quando você sai do carro, vê o estrago que foi: o táxi parecia uma sanfona entre os outros dois. Parar outro táxi no meio da avenida era uma ideia suicida, mas era a única saída pra tentar salvar a situação. Antes, porém, um registro de aspectos pouco convencionais dos últimos acontecimentos, em foto e vídeo (com direito a créditos para o marronzinho da CET).
Foi aí que nasceu o mini-filme que teve o poder de tornar tudo mais leve: "Por que ninguém me atropela?" [A verdade é que ela já se sentia meio atropelada, só não tinha se dado conta disso ainda].
(Ele em função videomaker)

Um bom trânsito depois, já no aerorporto, a suspeita é confirmada: "O embarque já foi encerrado, senhora, sinto muito". Ok. Pense rápido, o que fazer, pra quem ligar, como remarcar. Um forte enjôo vem com força e junto dele uma tremedeira, antes os braços, logo as pernas, logo dor de cabeça. Vamos adiar, vamos hoje à noite?! Adiamos a palestra para amanhã de manhã, pode ser? Vinte e cinco telefonemas, rearranjos, pedidos de desculpas, ponderações. Certo, vamos hoje à noite.
Nesse momento ela começou a sentir a velocidade das coisas, o atropelamento: eles haviam acabado de se conhecer antes de entrar naquele maldito táxi. Não tinham a menor intimidade e já havia acontecido tanta coisa... como era possível?!
E faltavam cinco horas para o próximo vôo.
......
Aceitar que as coisas têm sua razão de ser traz um baita aprendizado. Você amadurece e percebe que não tem o menor controle sobre o movimento cósmico. O vôo da noite, por exemplo - aquele de cinco horas depois, atrasou mais algumas horas e foi finalmente transferido para Guarulhos. Ele e ela, lendo respectivamente Época e Piauí, estavam cansados e quase não restavam gotas de bom humor. Chegariam em seu destino perto das três da madrugada, para a palestra às 9h30.
"Moço, por favor, tem um vôo amanhã cedo? Dá pra trocar???". Mais alguns telefonemas aos envolvidos para novos ajustes.
Despediram-se.
Amanhã viremos com meu carro, disse ele. Passo na sua casa às 6h30.
.......
As pessoas então têm a ilusão de que uma noite dormida em escassez é a solução para todos os problemas. De manhã eles de fato parecem menores, é verdade, mas apenas um sono reparador de 13 horas seria capaz de livrar o corpo dela dos amassos causados pelo atropelamento imaginário da noite anterior. Apesar disso, acorda bem disposta. Ainda está escuro lá fora. Confessa para si mesma o receio de que ele perca a hora, então resolve dar uma ligadinha, só pra garantir. Tudo certo. Chegam ao aeroporto e checam no telão o portão do vôo, que aparece com status de "atrasado" e com embarque previsto em outro portão. Resolvem tomar um café e ouvem atentamente a chamada para os vôos, até que a voz metálica sinaliza a definitiva mudança de portão para, logo em seguida, chamar apenas uma vez o embarque imediato. Dirigem-se ao portão anunciado e, parados diante dele, aguardam a abertura da porta de vidro que leva ao finger. Nenhuma manifestação, nenhum movimento suspeito. Todos na sala de embarque aguardam pacientemente. Em seguida, observando intrigada a porta fechada, ela aproxima-se da comissária de plantão: está atrasado? "Está, sim senhora, podem aguardar que estaremos chamando" (sic).
Sentam-se, resignados. Está ficando cada vez mais complicada essa história. Puxa vida, temos horário marcado... será que se eu processar a TAM funciona?!, pergunta ela. Foi num ímpeto, depois de alguns minutos, que decidiu ir novamente ao balcão perguntar sobre o vôo.
"ESSE vôo, senhora, já foi. Acaba de decolar".
......
Sentia-se inteira e litealmente atropelada, desta vez por um avião. Não conteve o choro, mandou a polidez pra casa do caralho, não entendia e não conseguia explicar.
Mas, é isso, as coisas são como devem ser. Life´s meant to be. E, como um imã, ela atrai pessoas dóceis e compreensivas para junto de si.
Ela é uma moça de sorte. Ele, um moço de bom coração.
Lição de hoje: o humor sempre salva e de tudo se pode fazer piada.

4 comentários:

Melina disse...

Oi lindona,
Jura por Deus que não conseguiu embarcar para São José?
Espero que a conclusão deste texto que você escreveu tenha sido uma fantasia de um final trágico, para uma história de sucesso.

Beta disse...

Juro. Não fomos.
Final real, infelizmente.
Mas reagendamos para dia 14. Tudo vai funcionar.
beijo, flor!

Melina disse...

Beta, não era p/ ser e, que bom que você tem sabedoria e equilíbrio para entender os movimentos sobrenaturais incontroláveis!
Vai dar muito certo!
Vai ser maravilhoso, como você é e como todas as coisas que você faz!
Beijos
Mel

Gunnar Vargas disse...

o santo não quis ajudar :(