quinta-feira, 19 de outubro de 2017

run for your life

É primavera. Tá exuberante a Natureza. Borboletas coloridas, flores perfumadas, a grama verdinha e a fruta no pé. Pitanga e amora. Os insetos felizes. Dama da noite cheira até de dia. Me reconheço neste desabrochar. Tenho ido correr no parque, tem sido um presente pros olhos. No meio do caos desta cidade, do ocaso aqui dentro, a Natureza me salva. Como sempre. 

Corro pra fortalecer o coração. Ele está batendo como nunca na energia do amor. Na insistência no amor. Só ele pode nos salvar do ódio, da loucura e até do desejo. Eu acredito nisso porque ainda te amo. Quer dizer, te amo e pronto (sem ainda). Porque amor que é amor não acaba nunca. Então fiquei pensando na eficácia do amor: é capaz até de aplacar o próprio amor. 

Corro para libertar minhas memórias. Como uma alcoólatra, cada instante sem você é um instante a mais comigo. A leveza está sendo uma conquista diária. 

Corro para oxigenar a razão, que não para de tentar entender porque você quis ir embora. Assim de repente, soltou da minha mão. Como a gente trata com distanciamento alguém que acabou de estar tão perto, ao seu lado, há pouco deitada na sua cama, onde algo tão intimo como dividir a cama e os lençóis quando o dia amanhece e os lençóis ficam lá escancarados com suas manchas e sua noite impregnadas. Como alguém sai da sua vida para a nulidade? 

Corro para compreender quão profunda é essa caverna onde você se enfiou. É preciso de coragem pra colocar o dedo na ferida e superar a dor. É preciso de coragem para ir até o mais escuro dos intestinos. É preciso de coragem para receber este amor. Te desejo coragem.

Corro. Corro pela vida. 


quinta-feira, 12 de outubro de 2017

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

é amor

Eu lembro quando te contei que, na faculdade, eu tive uma paixão fulminante que mudou muito minha vida naquele momento - eu ia me casar aos 22, e desisti por causa dessa paixão, que durou três semanas. Nada mais. Nunca mais.

Agora eu me sinto mais ou menos assim: como se você tivesse mudado o rumo da minha vida. Graças a você, estou mergulhando em mim como nunca estive. Era isso que eu queria te falar.

Ainda arrepio ao lembrar, a intensidade não amorna tão facilmente neste corpo.

Ainda não compreendo como viramos fumaça, mas ao mesmo tempo, tudo faz um sentido profundo. 18 fotos. A primeira delas, um clarão branco pra escrevermos uma nova história. Não juntos. Cada um a sua - mas nova.

Estou muito orgulhosa da gente, do passo que demos rumo à felicidade, da escolha que fizemos de viver isso. Um privilégio. Estou muito feliz por me despir e perceber a beleza que se esconde por trás das diferenças - onde mora o grande aprendizado. Apesar de sermos opostos, somos pessoas incríveis fazendo o melhor que podemos.

Honro nossa verdade e nossa entrega. Sempre fomos nós mesmos, nunca outros. Por isso deu tão certo. E quando é uma coisa de verdade é pra sempre. Uma vez, um cara de quem eu gostei muito me disse: "Se for só pra você me ensinar a lixar as unhas, já vai ter valido à pena". É isso. 


Eu sinto muito pois sua dor é também a minha dor.

Me perdoe por te julgar.

Eu te amo por ser exatamente quem você é.

Eu sou grata por nossos caminhos terem se cruzado.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

perdas e ganhos

Um tufão passou por aqui bagunçou um pouco a vida, mas deixou bons legados.

Ganhos
- Voltei a usar Phebo (como algum dia eu pude deixar de usar?!).
- Retomei a escrita afetiva.
- Comecei a sonhar de novo.
- Descobri que óleo de coco é bom pra tudo (mesmo).
- Me lembrei que qualquer coisa é possível.
- Percebi que há dores imensuráveis - e que as minhas são minúsculas.
- Me dei conta (sem me dar conta) que amor não é sexo e sexo não é amor.
- Reafirmei que os opostos não se atraem. Se distraem.
- Quebrei (mais) paradigmas.
- Superei alguns (poucos) preconceitos.
- Percebi que nem todo fim precisa ser dramático. 
- Descobri que quanto menos a gente procura, mais a gente acha.

Perdas
- Você.







sexta-feira, 29 de setembro de 2017

elevador geolocalizado

Apressada como sempre, amarrou o cadarço no hall enquanto esperava o elevador chegar. Atrasada como sempre, entrou afobada já pegando o blush de dentro da bolsa. Até chegar no térreo daria pra dar um tapa (na cara). Esta cara ainda jovem, de uma menininha, diziam alguns (uma leoa, na verdade). 

Lançou um olhar de poder pro espelho. Ainda daria tempo de passar o rimmel. De repente sentiu o solavanco do elevador, parou no 4. Abre a porta aquele moço grisalho simpático. Ele tem uma moto dessas grandonas, os menino pira tudo na moto do cara. 

- Bom dia.
- Bom dia.
O bom dia foi meio desprezível, de costas mesmo. Os olhos se cruzaram no espelho do elevador. Tantos anos morando no mesmo edifício e ela nunca havia percebido que esse moço poderia ser interessante. Na verdade ele não era - não para ela. E o fato deles terem se cruzado num aplicativo de relacionamento geolocalizado na noite anterior não o tornava mais interessante. A única coisa que eles pareciam ter em comum realmente era morar no mesmo prédio.

- Tudo bem? 
- Tudo... e você?
- Seu cadarço tá desamarrado.
- Ah, nossa, to sempre correndo apressada... amarrei o de um pé só (risos).
- Não se apressa tanto não...
- Como?
- Tive um infarto no mês passado. Eu estava sempre muito apressado. 

O elevador chega no térreo. Ele abre a porta sorrindo.

- Desculpa te falar assim, é que depois dessa experiência eu aprendi tanto...
- Imagina...uau, mas que bom que você está bem, né? Recuperação rápida!
- Quase morri. E quase morrer é uma sensação muito louca. Na verdade eu acho que morri mesmo, porque agora sou outro. Você tá indo pro metrô?

De repente, ela sentiu ternura por aquele homem. Como se compartilhar um milimetro de intimidade tivesse o poder de tornar as pessoas subitamente interessantes.

Em apenas quatro andares.

- Estou sim. Como você se chama mesmo?
- Luiz, prazer. Eu também to indo pro metrô. Vamos juntos?
- Vamos. Prazer. E feliz vida nova :) 

Pra quê mesmo a gente precisa de aplicativos de relacionamentos se a gente pode conhecer as pessoas no elevador?


terça-feira, 26 de setembro de 2017

amor demodê

Vivemos tempos tão desconexos que até o amor tá em baixa. Coitado, justo ele, o amor: o único que pode nos salvar desta barbárie. Eu mesma fui questionada sobre minha capacidade de amar, sobre o tamanho do meu amor. Será que é tudo isso mesmo? Será que você não tá se iludindo? Será que não tá confundindo amor com carência?

Porra, a pessoa faz Hoponopono todo santo dia pra humanidade melhorar e ainda tem que ouvir uma dessas... era pra deixar o camarada falando sozinho na mesa do bar, neam? Mas não. Pacientemente expliquei que amo sim, de todo coração. Acredite ou não, eu amo fácil. E você é fácil de amar.

Outro dia me perguntaram se eu ainda amo o pai do meu filho. Eu disse que sim, que amava ele como amo qualquer outro ser humano. Que não desejo vê-lo sofrer, que quero vê-lo feliz. "Mas o cara só faz cagada, como você ainda o ama?". Vou fazer o quê? Odiá-lo vai ajudar?

E tem o Prem Baba abraçando o Prefeitop, né? Esse foi o ato de amor mais incompreendido das redes sociais dos últimos dias. A esquerdofobia taca-lhe pau no Baba - que só faz pregar amor. Se o cara prega amor, ele precisa ser coerente e amar sem distinção, certo? O que ele deveria fazer, cuspir na cara do Doria? "Ele podia simplesmente não fazer aquela foto", dirão alguns. "Porque a Dilma ele nunca abraçou, blablabla". Como líder espiritual, o Baba tem que abraçar o prefeito. Ele tem que abraçar até o Trump, se rolar. Isso não significa que ele goste do cara, que ele concorde com o cara, que ele assine embaixo do que o cara faz. Significa apenas (neste contexto isolado) que ele tá sendo coerente e espalhando amor. O Prem Baba é um cara de uma vibração espiritual muito elevada. Pra quem acredita, estar na presença dele é uma oportunidade. Que bom que o Doria teve essa oportunidade, quem sabe ele não melhora um pouquinho?

Amar tá confuso, como todo o resto. Amor não tem nada a ver com sexo, com gênero, não tem nada a ver com desejo, com poder, com política (e tem tudo a ver com tudo isso ao mesmo tempo). Mas acima de tudo, amar tem a ver com compaixão. Estar ao lado de um ser humano que você supostamente despreza e se dispor a abraça-lo é o maior ato de amor que podemos ter. Explicar pra um homem que te questiona sobre o tanto que você o ama, é um grande ato de compaixão. Sentir gratidão e neutralidade pelo pai do seu filho que só faz cagada: é amor.

Deixem o amor viver. Deixem o amor crescer.
#maisamorporfavor


sexta-feira, 15 de setembro de 2017

era ela, era eu

Era uma tarde qualquer. Ela entrou no vagão, não reparei bem em qual estação. Logo me chamou atenção sua barriga empinada, 8 meses, talvez mais. Linda. De relance, me lembrei da minha saudosa gravidez. Fitei aquele barrigão por alguns instantes, cheguei até a sorrir. Realmente estar grávida é um estado de graça - pensei. 

Então olhei para ela toda. Morena, bonita, altiva. Romantizei naquela aparência a felicidade daquela mulher. Mas então percebi que sob os óculos escuros escorria uma lágima. E depois outra. Meu coração apertou. Me levantei e fui me esgueirando por entre os passageiros distraídos. Cheguei ao seu lado, muito próxima mesmo, e a abracei. Sem pedir licença, simplesmente a abracei. 

Como quem estava esperando aquele abraço, ela retribuiu. E soluçou. 

- Vamos descer na próxima estação para conversar um pouco?
Ela acenou que sim com a cabeça. 

Descemos do trem juntas. Ela me agradeceu. E nos abraçamos mais. Janaina estava com 33 semanas. Seu choro angustiado me dizia muito mais do que qualquer história que ela pudesse me contar. Eu sentia que ali havia uma solidão conhecida.

- Sabe, o pai do meu filho... ele é uma boa pessoa, mas ele não entende o que está acontecendo. Ele me faz promessas vazias. Ele não me ajuda em nada. Como estou cansada, como estou cansada! Eu estou tão feliz, mas tão cansada. E como vai ser quando o neném nascer?

Meu coração já pulsava na garganta. "Sim, querida, sim. Te entendo", eu dizia. Janaina era, como eu, vítima de um abandono gestacional. E olhando bem firme dentro de seus olhos falei: "Presta atenção: agora é você e o bebê! Você não pode contar com esse cara pra nada. Não fique nesta ilusão". 

Foi um baque pra ela. Como uma desconhecida no metrô me abraça, me consola, me acolhe e me diz algo tão duro assim? Falei do meu sofrimento, de como o superei, de como é bom ter um filho companheiro. Ela me ouviu. Silenciamos. Seus olhos já estavam mais serenos e muito agradecidos. 

- Muito obrigada. Você mudou meu dia. Na verdade, você mudou muito mais que o meu dia. 

Nos abraçamos de novo em despedida. Janaina entrou no trem. Eu fiquei ali, desaguando toda a dor daquele encontro de cura. E depois subi as escadas, com um ar de dignidade que há muito tempo não sentia.

Que nós mulheres possamos nos unir e nos ajudar, com coragem, sempre e mais.

E que a gente entenda que não dá pra abraçar o mundo.
Mas dá pra abraçar algumas pessoas e fazer a diferença. 
Clarissa Corrêa



segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Comunica(dor)

Estou com muita dor. Pensei que talvez não fosse um bom momento para escrever. Mas é das dores que nascem as curas, e está sendo lindo ver isso brotar do meu corpo, da minha garganta. Arde, arranha, dói, inflamada como um vulcão.

A garganta, canal da minha comunicação: ao mesmo tempo minha fortaleza e o lugar onde me sinto tão vulnerável. Se lanço flechas, ferem. Se não lanço, o silêncio fere a mim. Profundamente. A não-resposta. A garganta (sempre ela) pigarreia para não deixar sair. Fingir não se importar nunca funcionou pra me apaziguar. Não guardo mágoas, mas as migalhas - aquelas que insistimos em não varrer - incomodam.

Já lancei muitas flechas. Já feri muito. Hoje prefiro resguardar as relações. Aguardo com paciência a sabedoria do tempo para acessar o que não falei. E o que devia ter falado. Será que devia ter falado? O que é de fato relevante? Aguardo e guardo ainda a um alto custo. Porque eu gosto mesmo é de varrer migalhas - e não para debaixo do tapete. Gosto de tudo "bem limpinho e arrumadinho", como diria alguém que eu conheço. Não deixo pra lá. Sabe-se lá onde é este "pra lá", vai que ele aparece de novo aqui - e via de regra aparece.

Então firmo aqui essa comunicação amorosa, diretamente do coração. O que eu tenho pra te falar vai te trazer curas. O que eu ouvir de você também. Vamos abrir este espaço saudável de crescimento e verdade. Verdade sempre.



terça-feira, 29 de agosto de 2017

palpitante

Já não consigo controlar o atrevimento de ser como sou. Eu quero mesmo é ir morar no mar. Eu quero bradar aos quatro cantos que milagres existem. A viagem é pra dentro de mim, e eu quero ir com você.

Quero entender o porquê das coisas, sabe como é: inquieta desde 10 de outubro de 1981.

Quero saber mais sobre sexo. E fazer mais amor. 

Ir a fundo em todas as experiências espirituais que surgirem - sendo o amor a primeira delas. 

Amo acima de tudo a Natureza. Quero ser refinadamente simples e viver a simplicidade como valor supremo. Isso a Natureza nos ensina todos os dias: faça chuva ou sol, está ali, resiliente.

Preciso de músicas inspiradoras. A arte nutre profundamente meu espírito e me faz ser uma pessoa melhor. 

Sou desperta e buscadora. Cozinho bem - gosto de curry e cúrcuma. Sou uma mãe em eterna (des)construção. De vez em quando eu medito. De vez em quando eu surto. 

Estou emancipada a mulher incrível que sou. Que somos! Não há nada mais sublime do que ser mulher. Sei elogiar uma mulher bonita, amo a energia feminina. Não acredito na competição entre nós. E não gosto de generalizações. Pelo contrário, minha missão é desconstruir estereótipos.

Já não sou o que eu disse que era - só há vida se há movimento. 

Enfim. Eu não sei exatamente o que quero dizer e cada hora digo uma coisa: sou libriana.

Eu sou uma figura. 

O resto vamos descobrindo pelo caminho. 

"Pacificamente violenta
Como aranha caranguejeira na teia
Eu canto pra que eu nunca esqueça
Pra que eu nunca esqueça
Pra que eu nunca esqueça"
(Ellen Oleria)


terça-feira, 1 de agosto de 2017

volver

Há dias late aqui o desejo de dedilhar sem pausa o teclado impertinente. Repousar os olhos sobre a tela branca sem nenhum compromisso me remete a um passado nostálgico, em que essa era minha rotina: escrever todos os dias: buscar inspirações: encontrar tempo: encontrar a policromia da vida. 

Então aqui estou - tentando voltar, dois anos depois, ainda meio de ressaca. Com os olhos cheios d'água, por algo que me tocou tão profundamente inda agora - e como foi forte: a lembrança de quando me descobri grávida, absolutamente surpreendida pela missão que me fora confiada. Pela rejeição àquele que já me habitava. No desespero de quem sentiu as asas amputadas, o chão sumir, o peso da 'inconsequência', a incerteza do futuro, a certeza da solidão. "Não quero, não vou ter esse filho" - eu repetia.

E chorava - constatando a ineficácia de qualquer mecanismo de controle. Constatando, desde aquele milímetro de feto, que eu seria incapaz de abortar. O que eu abortaria seria meu discurso feminista da vida inteira.

Tive coragem de escolher. 
"Ainda bem" - dizem. 
"Ainda bem" - digo.

Antonio faz tudo valer à pena? Foi a pergunta-brinde que ganhei esta noite e que me fez escancarar esta ferida e curar o que faltava desse pedaço de história. 

Antonio é meu mestre. O mestre te ensina pelo amor e pela dor. Te ensina por vias escusas e tortuosas, mas sempre com muita ternura e compaixão. Ter um filho é um salto quântico na existência, sem dúvida o maior desafio da minha vida. Ter um filho é aprender a ser filha. É o ato mais altruísta da humanidade. É tomar consciência de todos que vieram antes de você e tornaram isso possível. Ter um filho é insanidade, psicodelia, cura e recompensa. Muitas coisas valem à pena sem filhos, não posso ser hipócrita. Mas quase tudo vale mais à pena com eles.

Honro minhas escolhas e agradeço a guiança que acompanha minha estrela.