Depois de um almoço regado de lembranças, o google me levou a visitar virtualmente esse município brasileiro de 62 mil habitantes no interior deste Estado esquecido. Lá tem árvores e passarinhos e redes de Imbira do seu Zé e também beijú de tapioca que a vizinhança se reúne pra comer. Nesse inverno choveu bastante, segundo contou dona Amparo, mas agora demora a chover de novo, é uma quentura danada.
Lá é bem bom, dá saudades de balançar na rede no alpendre depois do almoço. Vou ganhar uma rede Tucum de presente em 2011. O pai é quem faz. Mas lá tem que trabalhar o mês inteirinho pra ganhar 80, 100 reais. Por isso é que o pessoal vem pra cá. Agora a dona Amparo tem um celular da Oi e ela pode falar até cansar a língua, então toda quarta ela liga aqui em São Paulo. Amanhã é dia dela ligar.
Tinha esquecido como era bom almoçar em casa para ouvir histórias de Piripiri.
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
domingo, 31 de janeiro de 2010
don´t move
Em time que está ganhando, não se mexe. Tudo está funcionando em plena harmonia. Não é necessária a intervenção de estranhos na nossa parca intimidade para descobrir os porquês do apelido e os frágeis códigos construídos. Nos entendemos muito bem sozinhos, obrigada. Não é necessária a intervenção de ninguém para trazer à tona minha racionalidade e reforçar a culpa que leio em teus olhos.
Olhos que hoje nem de relance cruzaram os meus.
Olhos que hoje nem de relance cruzaram os meus.
sábado, 30 de janeiro de 2010
sonho ao contrário
Faz uns dias sonhei contigo. Falávamos ao telefone, você estava puto e me repreendia pela sinceridade dos meus sentimentos, pelos meus posts malditos, me condenando por expor nossa intimidade. Acordei esquisita - diz o João que, mesmo quando não nos lembramos dos nossos sonhos, acordamos sob o efeito deles. E o João também explicou brilhantemente - por meio de um raciocínio complexo que sou incapaz de reproduzir aqui - que, segundo Freud, os sonhos significam o contrário do que na verdade sonhamos. Supostamente você não estaria puto comigo, mas feliz por eu finalmente ter me libertado de você. E não estaria me repreendendo, mas me felicitando pela minha alforria.
Então: hoje, manhã chuvosa, caminhando o caminho meu de cada dia, um encontro molhado. Breve. Indolor. Quase indiferente. Dois cachorros ao invés de um. Nem me incomodou sua mentirinha inofensiva.
Fiquei leve e feliz depois de meia dúzia de palavras trocadas. Desci a rua saltitando, sorrindo pras gotas de chuva que caiam sobre as lentes dos meus óculos.
Vai ver o sonho era mesmo tudo ao contrário.
Estou curada.
Então: hoje, manhã chuvosa, caminhando o caminho meu de cada dia, um encontro molhado. Breve. Indolor. Quase indiferente. Dois cachorros ao invés de um. Nem me incomodou sua mentirinha inofensiva.
Fiquei leve e feliz depois de meia dúzia de palavras trocadas. Desci a rua saltitando, sorrindo pras gotas de chuva que caiam sobre as lentes dos meus óculos.
Vai ver o sonho era mesmo tudo ao contrário.
Estou curada.
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
a mente
É estranho e cada vez mais normal: quando eu penso em uma coisa, ela acontece. E isso tem acontecido com frequência. Eu penso e... puff! Acontece! Então, quando vem um pensamento ruim, eu quero espantá-lo, porque acho que logo vai acontecer. Mas não tenho conseguido espantar... e fico com medo de que ele aconteça. Ando meio insegura na eminência de que qualquer coisa esquisita pode acontecer a qualquer momento (porque ando pensando em coisas muito esquisitas). Assim, penso no quão poderosa é a nossa mente, em como ela de fato tem o poder de criar a nossa realidade e a nossa felicidade, de materializar nossos desejos bons ou de tranformar as nossas tristezas em doenças do nosso corpo. E de repente me dá vontade de metamorfosear essas coisas esquisitas nas quais ando pensando numa ideia bem simples: um encontro único. Com você.
E bem que isso podia acontecer.
E bem que isso podia acontecer.
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
o que me atrai nesta cidade
Saindo de um debate no MASP, fim desta tarde quase noite, uma sensação de liberdade imensa. Ululavam perguntas jamais respondíveis: A Cultura pode salvar São Paulo?
De quais culturas falamos? E qual São Paulo queremos salvar?
Andando na Avenida Paulista - a vontade era voar sob o vento-temporal -, escorreguei pelo buraco das Consolação. Decidida, passos firmes, passei meu bilhete único encarecido. Foi então que magicamente pisei na escada rolante. Este momento inevitavelmente me transporta aos meus 18 anos, aos meses vividos em Londres, rolando as escadas das estações de Tottenham ou Canary Wharf, trocando olhares cumplices e abafados, e sons que seriam finalmente revelados na chagada à plataforma, no artista talentoso que salva a metrópole à custa de alguns trocados jogados no case de seu violão.
A magia é que, lá ou aqui, as pessoas, rolando em sentidos opostos, se cruzam e se fitam curiosas, flertando, fingindo ser íntima uma relação estabelecida apenas por uma breve e singular troca de olhares. E quando a escada rolante enfim se envolve novamente em seu rolo contínuo, leva consigo o sonho dos olhares cruzados.
Cada um toma seu caminho.
E voltamos a ser homens comuns.
... mas o meu coração de poeta projeta-me em tal solidão...
Caetano Veloso
De quais culturas falamos? E qual São Paulo queremos salvar?
Andando na Avenida Paulista - a vontade era voar sob o vento-temporal -, escorreguei pelo buraco das Consolação. Decidida, passos firmes, passei meu bilhete único encarecido. Foi então que magicamente pisei na escada rolante. Este momento inevitavelmente me transporta aos meus 18 anos, aos meses vividos em Londres, rolando as escadas das estações de Tottenham ou Canary Wharf, trocando olhares cumplices e abafados, e sons que seriam finalmente revelados na chagada à plataforma, no artista talentoso que salva a metrópole à custa de alguns trocados jogados no case de seu violão.
A magia é que, lá ou aqui, as pessoas, rolando em sentidos opostos, se cruzam e se fitam curiosas, flertando, fingindo ser íntima uma relação estabelecida apenas por uma breve e singular troca de olhares. E quando a escada rolante enfim se envolve novamente em seu rolo contínuo, leva consigo o sonho dos olhares cruzados.
Cada um toma seu caminho.
E voltamos a ser homens comuns.
... mas o meu coração de poeta projeta-me em tal solidão...
Caetano Veloso
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
vento bom
Hoje ganhei um doce (e um novo amigo): um sorriso vespertino colou na minha boca. Hoje recebi um presente que há meses esperava: meu pai chegou de Angola, contando pequenas anedotas incrivelmente surreais, que só quem já viu é que acredita. Realizei, também, um desejo muito simples: jantei com a minha família unida na casa da minha mãe. E ao chegar em casa cansada e encontrar o iptu na soleira da porta, descobri que estou isenta este ano.
É nas coisas pequenas que estão as grandes coisas. E tenho dito.
É nas coisas pequenas que estão as grandes coisas. E tenho dito.
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
vontade de nada
Não são os hormônios, nem o inferno astral, nem o fim de um grande amor. Não é a chuva, nem a falta de sol, nem saudade de nada. Não é que os acordes desafinaram, nem que o espelho me diz que existe outra mais bela do que eu, nem que o telefone não tocou, nem que as boas peças ainda não entraram em cartaz.
É que o mundo tá P&B, recortado em imagens melancólicas. É que as pessoas estão ocupadas demais, namorando demais, tontas demais. Tô meio desorientada, choro ao assistir o Jornal Nacional, aquela merda toda no Haiti e eu aqui fazendo o que?!? Tô meio frágil, trôpega, dividida entre sonhos dos quais todos os dias abdico um pouco, e entre máscaras que todos os dias uso um pouco.
Tô triste.
Vou despir a alma e afogar a calma salivando um beijo teu.
Maria Gadú
É que o mundo tá P&B, recortado em imagens melancólicas. É que as pessoas estão ocupadas demais, namorando demais, tontas demais. Tô meio desorientada, choro ao assistir o Jornal Nacional, aquela merda toda no Haiti e eu aqui fazendo o que?!? Tô meio frágil, trôpega, dividida entre sonhos dos quais todos os dias abdico um pouco, e entre máscaras que todos os dias uso um pouco.
Tô triste.
Vou despir a alma e afogar a calma salivando um beijo teu.
Maria Gadú
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
hoje de manhã, esperando o ônibus
"Mãe, já reparou que na Pompéia só tem prédio verde?!?"
A mãe olhou pro edifício em frente ao ponto de ônibus e assentiu com a cabeça.
"Sabe por que, filho?"
O menino fez que não com a cabeça.
"Porque há muito tempo atrás, quando esses prédios todos foram construídos neles moravam muitos passarinhos. E eles gostam muito da cor verde, que parece com a das árvores, né?"
"É... mesmo???"
"Verdade, filho".
"E por que é que agora os passarinhos não moram mais nos prédios, mãe?"
"Moram sim! Quem disse que não?"
"Ué, eu não vejo eles lá..."
"Filho, não é só porque você não está vendo que não está lá. Muitas coisas, a gente não vê, mas elas existem".
A mãe olhou pro edifício em frente ao ponto de ônibus e assentiu com a cabeça.
"Sabe por que, filho?"
O menino fez que não com a cabeça.
"Porque há muito tempo atrás, quando esses prédios todos foram construídos neles moravam muitos passarinhos. E eles gostam muito da cor verde, que parece com a das árvores, né?"
"É... mesmo???"
"Verdade, filho".
"E por que é que agora os passarinhos não moram mais nos prédios, mãe?"
"Moram sim! Quem disse que não?"
"Ué, eu não vejo eles lá..."
"Filho, não é só porque você não está vendo que não está lá. Muitas coisas, a gente não vê, mas elas existem".
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
o que será...
... que faz a gente ficar triste?
o que será, meu Deus, essa angustia que persiste?
Será a conta bancária minguada, a cama vazia, o desvario do dia a dia?
Será a impotência? O Haiti?
Ou o Jornal Nacional que hoje (por acidente) assisti?
O que será que me deixa com esse gosto amargo na boca?
Serão a normalidade e a monotonia, enquanto o mar lá longe uiva intensidade avassaladora, minha energia vital?
Devo ser apenas eu, que dou conselhos bons pros outros, mas não pra mim mesma.
o que será, meu Deus, essa angustia que persiste?
Será a conta bancária minguada, a cama vazia, o desvario do dia a dia?
Será a impotência? O Haiti?
Ou o Jornal Nacional que hoje (por acidente) assisti?
O que será que me deixa com esse gosto amargo na boca?
Serão a normalidade e a monotonia, enquanto o mar lá longe uiva intensidade avassaladora, minha energia vital?
Devo ser apenas eu, que dou conselhos bons pros outros, mas não pra mim mesma.
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