Voltei mas lá fiquei. Deixei meu coração no castelo, minha lágrima nos gerais, meu hálito nos lençóis.
Abaixo, impressões da minha última viagem.
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
dia 01
Sol escaldante na cara. As costas doem, os pés doem, a cabeça lateja, os joelhos falham. A paisagem é estonteante: algo muito, muito belo pintado por Deus na terra dos homens. Cruzamos o rio, último obstáculo. Já sem mais poder sustentar meu corpo em pé, desabo num choro de falência. Puxo o ar, soluço. O que é que eu vim fazer aqui? Rapidamente a cabeça explode em dor aguda. Seco os olhos, me levanto poeirenta e entro no passado. Uma casinha de taipa toda pintada de verde claro, e dentro dela um casal esquecido no meio do mundo encantando. Os grilos cantam a noite fresca que traz prosa regada a cachaça e comida caseira tão gostosa (mais gostosa do que a da minha avó!). Prosa de simplicidade, silêncios espontâneos e nada constrangedores. Vidas vividas abrindo caminhos. Despedida com beijos e doce de goiabada.
E eu choro, emocionada por tanta generosidade, zelo e amor.

E eu choro, emocionada por tanta generosidade, zelo e amor.

não há lugar no mundo onde nossas pernas não possam nos levar
Hoje o sol não saiu. Pegamos a estrada cedo, acordei bem disposta, mas fiz só uma parte do caminho, respeitando meu limite. Ao mesmo tempo está sendo muito prazeroso perceber a capacidade de superar limites. Descobri uma planta chamada "pedestre" que faz um chá bom de beber nessas noites frias. Enquanto bebo, me dou conta: andar, andar, andar... e cada passo é uma aproximação de mim mesma.
Não há lugar no mundo onde nossas pernas não possam nos levar.
O mundo é meu.

Caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
António Machado
Não há lugar no mundo onde nossas pernas não possam nos levar.
O mundo é meu.

Caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
António Machado
o fácil é difícil
Sou uma pessoa prática com as palavras, mas aqui não dá pra ser assim. É preciso deixar a língua solta e os ouvidos bem abertos para entender as sutilezas nas entrelinhas. Causos e mais causos contados nas cantorias das letras comidas, nas palavras emendadas. Para ser entendido, é preciso fazer perguntas simples, falar da família, da comida, do mato. Deve-se usar vocabulário simples, e isso é muito difícil para mim. Me sinto ridícula por achar uma coisa simples tão difícil, me sinto estranha por não saber fazer uma coisa assim tão fácil. Ao lado do fogão a lenha, observo a dona Lica fazendo pão e contando do filho que mora em São Paulo e que ela não vê há 5 anos.
Saudades e solidão. Em todo lugar.
Saudades e solidão. Em todo lugar.
sobre o (des)conforto
Do espelho eu sinto falta. Sinto falta do conforto, mas esse estado quase natural me faz relembrar de quão pouco é preciso para viver. Mas do espelho eu sinto falta. E percebi como me tornei vaidosa nesses últimos tempos. O cabelo, o rosto mais corado, sorrir para mim mesma. Gosto de ver minha imagem, a mudança no meu semblante, que deve estar mais relaxado, apesar de tantos esforços físicos. Na casa do seu Eduardo não há nenhum conforto, mas é muito aconchegante. Parece contraditório, mas é assim. Ele tem 82 anos, corta lenha e, todas as semanas, faz o caminho até o mercado no lombo de um jegue. Ele é movido a um “remedinho”, uma pinga que ele mesmo faz com 18 ervas. Quando chegamos hoje, às 8h da manhã, ele nos ofereceu. E nós tomamos ao som de um rasta-pé.
Depois, mais andanças.
Depois, mais andanças.
a princesa e o castelo
Hoje a princesa subiu ao castelo. Acompanhada por seu bastão mágico (fabricado sob medida pelo seu Eduardo) e por seu fiel escudeiro, João Valentão, a princesa cumpriu sua missão. Não foi simples. O caminho era repleto de obstáculos e armadilhas de lama, grandes cascos de tartaruga disfarçados de pedra se moviam baixo seus pés. Abismos, grutas, chuva, toda sorte de desafios cruzou o caminho da princesa nesta manhã. Mas, ao chegar à caverna mágica, o céu se pintou de azul e um lindo sol veio brilhar. A princesa subiu até o cume mais alto de seu castelo. Da janelinha, avistou seu reino e se emocionou. Chorou de verdade ao ver aquela perfeição toda ali posta, como se todas as pecinhas tivessem sido minuciosamente encaixadas. Naquele momento, a princesa soube que seu reino é o mundo.
desapego, simplicidade, superação
Esse lugar não existe! É muita beleza... tamanha perfeição de cores e formas. Hoje andei 25 km. Minhas pernas estão pesadas, meus pés, imundos. Mas estou muito feliz por ter feito essa travessia. Consegui falar com Deus, entrar em contato com o que há de muito profundo em mim. Foi fisicamente extenuante. Caminhar exige um grau de concentração muito alto, talvez por isso tenha conseguido me acessar, atentar para mim apenas. Eu naquele momento e naquele lugar. Acabei estentendo minha estadia por mais um dia na casa de seu Wilson. Noites em volta do fogão a lenha tomando Abaira e jogando conversa fora - literalmente - se conhecendo, se entendendo, se respeitando. Natureza exuberante, laços humanos impagáveis.
Quero voltar a este lugar.
Quero voltar a este lugar.
água doce
Hoje fui tomar sol na beira do rio. Ele desce com uma força alucinante, sem parar, como se por baixo houvesse um motor girando freneticamente. Tem chovido muito à noite, então ele se modifica dia a dia, engrossando, personificando a força da natureza. A água correndo faz um barulho insistente e alto, um pouco monótono, sem variações de tempo ou intensidade. De olhos fechados, ouvindo esse ruído, fiquei bastante tensa, receosa de que o rio pudesse repentinamente se encher e me carregar pra cima das pedras. Pensei no mar e nos ciclos das ondas, que fazem um ruído nada constante, e fiquei tentando entender a lógica das corredeiras, os redemoinhos e os pontos onde as águas batem uma, duas, três vezes... foi em vão.
Não consegui entender o rio, mas consegui sentir a sua força.
Não consegui entender o rio, mas consegui sentir a sua força.
amor de viagem
Cada viagem é uma viagem única. Já (quase) no final desta, uma sensação de amor profundo preenche meu peito. Uma sensação que eu gostaria que não me abandonasse nunca, de gratidão por ter olhos para ver tantas belezas, por ter sensibilidade para me emocionar com elas; por me emocionar com o despertar da consciência, com a espera, com o inesperado, com a descoberta do que já sabia mas ainda não havia sido desvelado; por lembrar e sorrir; ver o arco-íris e acreditar que se pode encontrar o pote de ouro no fim dele. Emocionar-se por perder o medo, por ter força para andar, respirar a plenos pulmões; abertura para encontrar a ternura das pessoas; tempo para reavaliar comportamentos, sentimentos, escolhas; tempo para agradecer por tudo isso.
Então meu coração parece que vai explodir de tanto amor, preenchendo todos os meus poros, fazendo-me sentir viva a cada respiração, como se eu tivesse super poderes para fazer qualquer coisa.
Ainda que tudo se transforme, porque assim é a vida, que falte a grana, o homem da vida, o trabalho dos sonhos... que o amor nunca falte!
Então meu coração parece que vai explodir de tanto amor, preenchendo todos os meus poros, fazendo-me sentir viva a cada respiração, como se eu tivesse super poderes para fazer qualquer coisa.
Ainda que tudo se transforme, porque assim é a vida, que falte a grana, o homem da vida, o trabalho dos sonhos... que o amor nunca falte!
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