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quarta-feira, 18 de março de 2020

quando tudo passar

Meu sonho é que a gente acorde deste pesadelo despertos. Que um número muito grande de pessoas  dê uma grande guinada e seja incapaz de permanecer levando uma vida vazia.

Que percebam o quão possível e natural é ficar na pausa com os seus fazendo "nada", gastando "nada", comprando "nada", mas sentindo tudo. Compartilhando e refletindo sobre o valor real das coisas, sobre a essência de estarmos aqui, sobre o divino que é SER HUMANO. 

Sonho que as pessoas vivam plenamente esse ócio criativo, tocar, cozinhar, tricotar, ler, debulhar feijão, passar um café, fazer pão, prosear, contar histórias de família... e que depois de tudo se perguntem: "o que pode ser melhor que isso? por que preciso abrir mão de tudo isso para viver?"

Sonho que a gente consiga olhar para tudo que temos, olhar e agradecer, mas perceber que não precisamos de um décimo de tudo aquilo. Que, ao acordarmos, possamos reavaliar nossas necessidades materiais reais, acumular menos, doar mais.

Se doar mais. 

Sonho que despertemos deste torpor e que coloquemos nossos corações em marcha. 

[Hilma Af Klint]



sábado, 20 de julho de 2019

alucinação

Embarcamos na estação Vila Madalena num domingo frio, perto das 23h. Antonio cansado de um dia de muitas brincadeiras, logo se aconchegou para uma soneca no banco duro do metrô vazio. Meu celular estava sem bateria, então já havia combinado com meu pai pelo telefone da Nicole para ele nos apanhar na estação Paraíso dentro de 10-15 minutos.

Sempre me dá alegria a boniteza dos rostos de vidro na estação Sumaré. Então sorrio. E ele entra no vagão. Fones no ouvido, volume mais alto do que o necessário - nessas horas, sempre me lembro do Daniel dizendo que estamos forjando uma geração de surdos. Bonito não seria bem o adjetivo para defini-lo, mas aquele ar de hipster abandonado me fez olhar para ele duas vezes sorrindo. Então ele ocupa o assento preferencial ao nosso lado. Seus poros exalam cerveja de uma tarde de domingo com os amigos. Faço carinho no Antonio. Tenho a impressão de ser uma mãe imaculada para a qual não se pode olhar, sorrir, tocar - pensei em sair por aí com um cartaz: "sou main mas não to morta!". Meu sorriso não foi retribuído nem por gentileza e foda-se também - mal sabia ele que eu sorria por dentro e não era pra ele.

De repente, um solavanco. Metrô para de supetão pouco antes de chegar ao Trianon Masp. Não é uma freada normal, é uma parada brusca. Motores e ar condicionado desligam imediatamente. Alguns segundos em silêncio no meio da galeria escura. Então ele retira os fones e pela primeira vez me olha buscando alguma conexão, algum reconhecimento, certa reciprocidade.
- Estamos parados por motivo de usuário na via, anuncia o condutor.
E ali ficamos por 10 minutos, que viraram 15, 20. Havia pouca gente no vagão, mas já se comunicavam com familiares e amigos "tamo aqui por causa de um filho da puta que resolveu se matar", dizia um. "Vai atrapalhar a vida das pessoas num domingo à noite, ah, faça-me o favor!", dizia a outra. Ele só mandava mensagens de texto e começava a suspirar ansioso. Da estação se ouviam comandos no microfone de códigos incompreensíveis: "todas as estações, DX56" Também comecei a ficar aflita porque queria avisar meu pai sobre nosso atraso.
- Será que eu posso usar seu telefone? Estou sem bateria e preciso avisar a pessoa que está me esperando na estação.
Ele me passou o celular com o rosto aflito.
"Pai, sou eu. Estamos parados no Trianon por causa de usuário na via. Sem previsão. Espera a gente".
"Estou sabendo. Estou na estação Paraíso. Teve um óbito aqui" - foi a resposta.
Olhei para aquela mensagem incrédula e passei o celular para ele com os olhos mareados. Ele leu e segurou a cabeça entre as mãos.
- Vivemos tempos difíceis...
Foi a única coisa que consegui dizer. Aliviada porque Antonio dormia e não precisei explicar para ele o que estava acontecendo, por que alguém faria isso? Calou fundo em mim a imagem de uma garota se atirando nos trilhos num domingo gélido. Como iria dormir aquele condutor de trem naquela noite? Um inocente escolhido a dedo para matar alguém. Como entender o tamanho do drama de alguém que resolve tirar a própria vida? Como manter a coragem em uma sociedade tão adoecida e desequilibrada?

Fui invadida por milhares de perguntas sem respostas. Senti calor, depois frio, depois falta de ar. Ele também ficou desbaratinado. Me olhou em busca de acolhimento. Aquele vagão vazio parecia imenso e aqueles minutos, eternos. Não precisamos falar nada. Aquela tragédia nos unia irremediavelmente de uma forma única. Apenas nós dois ali sabíamos o que havia de fato acontecido. 30 minutos dentro de um vagão parado, instantes de luto para elaborar minimamente o ato corriqueiro de sair dali e chegar em casa e tomar um banho e comer alguma coisa e colocar a cabeça no travesseiro e acordar de novo e tomar mais um metro e seguir a vida como se nada tivesse acontecido. Porque no fundo é isso que estão querendo fazer parecer: que nada acontece. Tudo é banal e estamos perdendo a capacidade de nos afetar para garantir nossa própria sobrevivência.

O metro começou a andar vagarosamente. Chegamos na estação Trianon, alguns passageiros entraram e uma moça disse que alguém havia se machucado bastante. Ao chegar no Paraíso, um suspiro de alivio. Num ato de gentileza, ele pegou minha mochila e disse: - Também vou desembarcar aqui. Acordei Antonio e saímos do vagão. De pé, os três na plataforma sem saber muito como se comportar. Pensei em apenas pegar a mochila e agradecer, mas ele então se aproximou, me deu um abraço demorado que só dois cúmplices podem dar.
Nos perdemos no meio da multidão com a promessa de não olhar pra trás.

A minha alucinação
É suportar o dia-a-dia

E meu delírio
É a experiência
Com coisas reais

[Belchior]

 
   

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

carta pro filho 3

Ontem desenhamos desejos para este novo ano. Eu fiz uma casa na praia com gramado, coqueiro e rede de balançar. Você me ajudou a colorir e depois desenhou um sol. Mas o que ontem era uma garatuja, do dia pra noite se transformou num sol com raios. A surpresa de ver brotar daquele papel formas mais conhecidas por mim, me fez brilhar os olhos, como um passo antes da escrita.

Nestes dias de férias, em que a intensidade da convivência não é pouca bobagem, testemunhar suas conquistas tem me feito chorar. A cada pedalada na sua bici nova, você abre um sorriso de satisfação que nunca vi em nenhum outro rosto. É um milagre. E quando você cai, meu coração vem até a garganta, mas você se levanta, limpa a mão na camiseta e sorri. Você é tão corajoso, curioso e valente, filho. Admiro muito isso em você. Observo sua sede de autonomia, seu ânimo de viver, sua doçura bruta, sua desobediência civil: você é a criança que eu gostaria de ter sido. Você brilha.

Quero me contaminar pelo seu riso frouxo. E ouvir atentamente seus ensinamentos com o coração aberto: "Cada um tem seu jeito de fazer as coisas, mamãe" ou "Você precisa aceitar o nonno como ele é", ou ainda "Mangia che ti fa bene!". 
  
Nesta insana proximidade, agradeço a oportunidade de nos reconectarmos - como fizemos nas férias de julho. Agradeço por perceber como sou boba quando perco a paciência por besteiras, como repito contigo os mesmos erros que cometeram comigo. Preciso calibrar minhas emoções pra dar conta de tantos aprendizados. Gratidão por ter me escolhido para te maternar, meu pequeno-grande Mestre. 


sexta-feira, 29 de setembro de 2017

elevador geolocalizado

Apressada como sempre, amarrou o cadarço no hall enquanto esperava o elevador chegar. Atrasada como sempre, entrou afobada já pegando o blush de dentro da bolsa. Até chegar no térreo daria pra dar um tapa (na cara). Esta cara ainda jovem, de uma menininha, diziam alguns (uma leoa, na verdade). 

Lançou um olhar de poder pro espelho. Ainda daria tempo de passar o rimmel. De repente sentiu o solavanco do elevador, parou no 4. Abre a porta aquele moço grisalho simpático. Ele tem uma moto dessas grandonas, os menino pira tudo na moto do cara. 

- Bom dia.
- Bom dia.
O bom dia foi meio desprezível, de costas mesmo. Os olhos se cruzaram no espelho do elevador. Tantos anos morando no mesmo edifício e ela nunca havia percebido que esse moço poderia ser interessante. Na verdade ele não era - não para ela. E o fato deles terem se cruzado num aplicativo de relacionamento geolocalizado na noite anterior não o tornava mais interessante. A única coisa que eles pareciam ter em comum realmente era morar no mesmo prédio.

- Tudo bem? 
- Tudo... e você?
- Seu cadarço tá desamarrado.
- Ah, nossa, to sempre correndo apressada... amarrei o de um pé só (risos).
- Não se apressa tanto não...
- Como?
- Tive um infarto no mês passado. Eu estava sempre muito apressado. 

O elevador chega no térreo. Ele abre a porta sorrindo.

- Desculpa te falar assim, é que depois dessa experiência eu aprendi tanto...
- Imagina...uau, mas que bom que você está bem, né? Recuperação rápida!
- Quase morri. E quase morrer é uma sensação muito louca. Na verdade eu acho que morri mesmo, porque agora sou outro. Você tá indo pro metrô?

De repente, ela sentiu ternura por aquele homem. Como se compartilhar um milimetro de intimidade tivesse o poder de tornar as pessoas subitamente interessantes.

Em apenas quatro andares.

- Estou sim. Como você se chama mesmo?
- Luiz, prazer. Eu também to indo pro metrô. Vamos juntos?
- Vamos. Prazer. E feliz vida nova :) 

Pra quê mesmo a gente precisa de aplicativos de relacionamentos se a gente pode conhecer as pessoas no elevador?


sexta-feira, 15 de setembro de 2017

era ela, era eu

Era uma tarde qualquer. Ela entrou no vagão, não reparei bem em qual estação. Logo me chamou atenção sua barriga empinada, 8 meses, talvez mais. Linda. De relance, me lembrei da minha saudosa gravidez. Fitei aquele barrigão por alguns instantes, cheguei até a sorrir. Realmente estar grávida é um estado de graça - pensei. 

Então olhei para ela toda. Morena, bonita, altiva. Romantizei naquela aparência a felicidade daquela mulher. Mas então percebi que sob os óculos escuros escorria uma lágima. E depois outra. Meu coração apertou. Me levantei e fui me esgueirando por entre os passageiros distraídos. Cheguei ao seu lado, muito próxima mesmo, e a abracei. Sem pedir licença, simplesmente a abracei. 

Como quem estava esperando aquele abraço, ela retribuiu. E soluçou. 

- Vamos descer na próxima estação para conversar um pouco?
Ela acenou que sim com a cabeça. 

Descemos do trem juntas. Ela me agradeceu. E nos abraçamos mais. Janaina estava com 33 semanas. Seu choro angustiado me dizia muito mais do que qualquer história que ela pudesse me contar. Eu sentia que ali havia uma solidão conhecida.

- Sabe, o pai do meu filho... ele é uma boa pessoa, mas ele não entende o que está acontecendo. Ele me faz promessas vazias. Ele não me ajuda em nada. Como estou cansada, como estou cansada! Eu estou tão feliz, mas tão cansada. E como vai ser quando o neném nascer?

Meu coração já pulsava na garganta. "Sim, querida, sim. Te entendo", eu dizia. Janaina era, como eu, vítima de um abandono gestacional. E olhando bem firme dentro de seus olhos falei: "Presta atenção: agora é você e o bebê! Você não pode contar com esse cara pra nada. Não fique nesta ilusão". 

Foi um baque pra ela. Como uma desconhecida no metrô me abraça, me consola, me acolhe e me diz algo tão duro assim? Falei do meu sofrimento, de como o superei, de como é bom ter um filho companheiro. Ela me ouviu. Silenciamos. Seus olhos já estavam mais serenos e muito agradecidos. 

- Muito obrigada. Você mudou meu dia. Na verdade, você mudou muito mais que o meu dia. 

Nos abraçamos de novo em despedida. Janaina entrou no trem. Eu fiquei ali, desaguando toda a dor daquele encontro de cura. E depois subi as escadas, com um ar de dignidade que há muito tempo não sentia.

Que nós mulheres possamos nos unir e nos ajudar, com coragem, sempre e mais.

E que a gente entenda que não dá pra abraçar o mundo.
Mas dá pra abraçar algumas pessoas e fazer a diferença. 
Clarissa Corrêa



quinta-feira, 16 de abril de 2015

eu não sei mais escrever

Minha escrita anda quase irremediavelmente enferrujada. Fico aqui pensando que já tá muito tarde, que deveria aproveitar para descansar enquanto o bebê dorme, que a pressa não vai deixar a inspiração chegar.

Escrevo, apago.

Escrevo, apago.

Não consigo mais amar as palavras que um dia já foram tão minhas. Acho que desaprendi a escrever. Acho que tive que guardar minha sensibilidade numa caixinha. Engavetei emoções. Me perdi no rebuliço da maternidade. Respiro curtinho, enredada em mil afazeres profissionais, domésticos, maternais, filhais... Esqueci das minhas vontades. Há quanto tempo não suspiro de prazer?

Neste que é, até agora, meu momento mais cheio de vazio, de incertezas, de desrumos. Nesta era de crises planetárias, nacionais, governamentais. Neste tempo de excesso de egos, de ofertas, de virtualidades... neste tempo, me desencontro de mim, da minha essência. Não sei onde vim parar. E nem como daqui sair. Talvez o retorno a estas letras me ajude a encontrar o caminho de volta pra casa do coração.  

domingo, 29 de setembro de 2013

meninos de boné

Eu não gosto de meninos que usam boné. Aquela imagem americanizada de moleque que nunca cresce me é desagradável aos olhos. Aquele ar de malandro mal resolvido me afasta. Que tipo de homem precisa usar um boné? Por que não um chapéu charmoso, uma boina, um gorro? Boné esconde os olhos, achata os cabelos, encurta a testa. Boné é sintético. É feio!
Pode reparar: meninos que não usam boné são mais especiais.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

anemia

De repente, no meio do pontinho de felicidade, a lágrima borra o olho. Passo a ver neblinado, dia cheio de suspiros. Sobretudo quando se aproxima a noitinha, ventosa, farfalhar de folhas enlouquecidas do lado de fora da minha segurança. O gato mia. A garganta dói por algo que não é dito. E sigo sem saber o que dizer. Gostaria de me sentir diferente, de acreditar em olhares cúmplices, na possibilidade de voar juntos, em roteiros de viagem. Mas algo lá no fundo chove. E não para de chover...

quarta-feira, 23 de maio de 2012

chama-se viagem

Voce pisca os olhos e ja passou. Voce faz tantas coisas, vive experiencias inimaginaveis, conhece pessoas que mudam sua vida, e tudo nao passa de um lapso da sua breve existencia. Chama-se viagem. Eu lembro que, antes de partir, nos encontramos para um cafe numa padaria de uma esquina familiar. Como sempre, voce tirou com a minha cara: "Claro...esta viagem vai mudar a sua vida, voce vai voltar oooutra pessoa", disse com um sorrisinho ironico. Faltou entendimento de que eu mudo todo dia, sou mutante, buscadora, a impermanencia é o que me alimenta. Sou curiosa, atenta e observo cada detalhe, fotografo cores, recorto palavras. Eu sou assim. To ligada na V-I-D-A. Viajar me transforma, pode acreditar.
Lembro tambem que, no dia antes de partir, sempre quero desistir. Me da uma dor de barriga dos infernos, e a sensacao de que nao vai ter ninguem me esperando no aeroporto me enfraquece. Mas depois que eu entro no aviao, viro uma leoa. E na vespera da volta, nunca quero voltar. Sempre acho que poderia ficar uns dias a mais, ou simplesmente ficar.
Na outra noite, minha mae me perguntou por telefone:
"E ai, ja ta de saco cheio da India ou quer ficar mais??".
"De saco cheio da India eu to desde a primeira semana... mas... quero ficar!", respondi.
Vai entender... a India é assim.

Algumas observaçoes inusitadas/uteis/talvez interessantes, porque eu gosto de fazer listas (sempre):
  • Pra que outro sapato?! Tudo o que voce precisa chama-se "HAVAIANAS"! Leve, lavavel, nao da chule, confortavel, é brasileira, barata e ta no pé do mundo inteiro.
  • REALMENTE nao use roupas justas, bermudas, camisetas sem mangas, shorts e saias curtas nem pensar. Isso muda a qualidade da sua relaçao com as pessoas, especialmente se voce for mulher.
  • As vaquinhas soltas nas ruas sao uma gracinha e sagradas pros hindus, mas nao pra voce. Nao se meta a besta com elas, principalmente se forem touros, eles tem chifres.
  • Em 5 minutos, o preço de qualquer item - desde uma corrida de rickshaw ate uma encharpe de seda - pode cair de 2000 pra 10. Sorte de quem sabe barganhar. Nao é o meu caso...
  • Nao pergunte muitos porques. As coisas sao como sao, nosso conceito de "razao" nao se aplica por aqui.
  • A Lei Universal da Fisica de que dois corpos nao ocupam o mesmo lugar no mesmo tempo tambem nao se aplica. Na India, muitos corpos podem ocupar um lugar onde mal caberia um, no mesmo tempo - e por muito tempo!
  • Quando voce acha que todas as bizarrices ja aconteceram, pode se preparar que vem mais por ai.

India. Nunca mais ou até ja. Para sempre.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

indigo

Cara, nao da pra escrever sobre tudo... nem que eu quisesse, eu conseguiria. Porque cada acontecimento, cada pausa, cada encontro eh uma historia de varios capitulos!! Eh geralmente assim em viagens, mas garanto que aqui eh imbativel.
Eu sei que depois de almocar na casa da Bharti com toda a familia dela (so este almoco mereceria um capitulo a parte), e ouvir historias de vida de uma moca rebelde de uma familia tradicional indiana (outro capitulo), eu peguei um trem para Jodhpur. Trem este que quase perdi, pois percebi que estava sem agua e nao ia ser legal encarar uma viagem de 6h sem agua potavel. Entao tive a brilhante ideia de descer rapidinho do trem, que comecou a se mover enquanto eu recebia o troco pela garrafa de agua que tinha acabado de comprar. Obviamente, o troco ficou no balcao, ou caiu no chao, ou sei la, ja que eu sai correndo pra pular no trem ja em movimento. Mais legal do que encarar 6h de viagem sem agua, seria o trem partir com a minha mochila la dentro, ne?? Putz, quase tive um treco, mas deu certo. Onus de viajar sozinha...
As 6h de viagem transcorreram tranquilas, comunicacao super fluindo com uma simpatica familia que nao falava sequer uma palavra de ingles... mas a gente se entendeu (na proxima encarnacao, ja combinei que vou voltar para aprender, no minimo, 10 idiomas - incluindo hindi). Sorte que no compartimento tambem estava um senhor que falava um pouco de ingles e, as vezes, traduzia coisas de suma importancia, por exemplo quando a senhora (mais velha) fez as duas perguntas classicas: 1."voce esta viajando sozinha?", 2."Voce nao eh casada???". Caraca, eu nao sou casada!!! Mas, desta vez, eu resolvi dizer que era, e que meu marido teve que desistir da viagem de ultima hora por motivos de trabalho. "ahhhh!", ufa! Todos fizeram uma cara de alivio por eu ser casada! Ate eu fiquei mais confiante, ehehehe... mentirinha inofensiva que amainou o choque cultural.
Enfim, 6h depois: Jodhpur, a cidade azul. A cidade dos tecidos e das especiarias - Carol, voce ia se deliciar aqui com tantos pozinhos e sementinhas magicas pra colocar na comida!!!!! Peguei um rickshaw ate o Haveli que escolhi no LP. To ficando esperta nesse negocio de motorista de rickshaw: eles pedem 100, no fim voce paga 60 e tem que ficar o caminho inteiro repetindo pra onde voce quer ir, senao eles te levam pra outro canto.
Cheguei na guest house quase onze da noite. Uma graca de lugar, toda colorida, decorada com flores e moveis antigos, cheirando a incenso e com lustres de mosaico. Feliz pela escolha acertada, dou de cara com o dono, que estava na recepcao todo descabelado, cambaleante, com calcas molhadas, tipo quase que completamente bebado.
OK. Saio correndo ou dou risada???
Comecei a dar muita risada. Ele mandou trazer uma Heineken pra mim "on the house" - ele disse, "por conta da casa". Bonus de viajar sozinha! Falamos do Brasil, sobre o fato dele estar bebado, a esposa dele apareceu (sobria) e ele nos apresentou. Ela sorriu pra mim e se foi. Ai ele disse: "Desculpe, nao vou poder te acompanhar ate o quarto, porque ontem cai da escada e tou todo fodido! Pois eh... eu desobedeci meu guru, ele mandou eu parar de beber, mas eu bebi, entao cai. Eh pra eu aprender...", concluiu com uma cara de bebado arrependido. Subi para o quarto e abri a cortina; a vista era incrivel!!!! Apesar da escuridao, eu podia ver que o Haveli ficava exatamente embaixo do Forte de Mehrangarh, o principal momumento da cidade. Incrivel, sensacional, o negocio parecia uma pintura bem em cima da minha cabeca!! Fui ate a laje, a lua brilhava linda sobre as casinhas da cidade indigo e iluminava o Forte, imponente como um gigante.
Cenario alucinante que mereceu mais uma Heineken. Cheers!

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

o ovo e a galinha

Entre todos, este é de longe o conto mais hermético e fantástico da Clarice. Já reli várias vezes, assisti a linda adaptação pra teatro da Vanessa... e a cada revisitada, novas belezas surgem dele, imagens recheadas de significados. O ovo é mesmo uma coisa impressionante!! Uma das coisas mais privadas do mundo, é, provavelmente, um ovo antes de ser quebrado. Eu agora moro entre dois galinheiros. Um pertence ao vizinho do lado esquerdo e o outro, ao do lado direito. Todas as manhãs, acordo com o galo cantando alto, muito alto - bem melhor do que o brega do vizinho anterior, fato. Vez por outra, me pego curiosa observando o comportamento das galinhas. Entendi muita coisa sobre elas, e sobre as expressões que usamos, como "essa mulher é uma galinha", "briga de galinheiro", "gritando que nem uma galinha", "mãe galinha" etc. Reinava um silêncio absoluto até que duas bípedes começaram a brigar. Foi tanto cocorocó que eu fui até o quintal espiar. Duas galinhas se enfrentavam com bicadas, dando voadelas. A grande surpresa foi que o galinheiro inteiro se uniu em coro, cacarejando sem parar e num volume impressionante, como se estivessem torcendo para uma vencedora. Esta cena durou muito tempo. Descobri que no galinheiro a briga é feia... eu, hein!? Já ontem, estava lendo na rede e vi um teju (grande lagarto) rastejando para dentro do outro galinheiro, que estava em paz divina. "Vixe", pensei, "já eram os ovinhos caipiras que eu ia ganhar do vizinho...". As madames galinhas, empoleiradas mães zelosas, ou são muito sonsas ou se fizeram de estátua pra despistar o teju: nem um pio. Até que ele comeu todos os ovos que estavam ao seu alcance! E foi ele sair do galinheiro que a mãe "roubada" (suponho) começou a gritar de desespero. Um cacarejar-pedido-de-socorro ensurdecedor, contínuo e monotom. Minutos a fiooooo. Realmente, essa mãe é um escândalo, pensei comigo. .

O Ovo e a Galinha - de Clarice Lispector from Teatro Para Alguém on Vimeo.

"O ovo é o grande sacrifício da galinha. O ovo é a cruz que a galinha carrega na vida. O ovo é o sonho inatingível da galinha. A galinha ama o ovo. Ela não sabe que existe o ovo. Se soubesse que tem em si mesma o ovo, perderia o estado de galinha. Ser galinha é a sobrevivência da galinha. Sobreviver é a salvação. Pois parece que viver não existe. Viver leva a morte." [Clarice Lispector, in Felicidade Clandestina]

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

as aranhas também amam

Aprendi a conviver pacificamente com os insetos - exceto as baratas, que ainda me tiram do sério, mas por sorte não há muitas por aqui. Há alguns meses, vivem umas aranhas no meu banheiro, eram pequenas e muitas, viraram grandes e apenas três. Ontem, escovando os dentes, uma delas estava bem próxima ao espelho, então assoprei pra ela se mudar, afinal tudo bem conviver, mas não precisa ser tão de perto! Fui assoprando e ela foi se movendo rumo ao teto, onde estava a outra, coladinha na sua teia. Foi subindo, subindo, até chegar na teia da amiga. Começaram a mover freneticamente as patinhas, talvez por pouco mais de um minuto; para mim parecia mesmo que estavam numa briga danada. E de repente, puft: uma delas fez uma manobra alucinante e colou na outra. Eu, na minha atividade corriqueira de escovação de dentes, olhei incrédula: será que era mesmo o que eu estava pensando?!
Alguns segundos de pausa e logo os artrópodes iniciaram movimentos repetitivos de encaixe. Ah, a natureza: imprevisível e simplismente natural... Eu, pra provocar, dei mais umas assopradas, enquanto a aranha "de cima" movia a extremidade do corpo, tentando se ajustar à parceira, em um movimento muito humano!!
Fiquei impressionada. Não foi só a curiosidade de assistir uma cópula de aracnídeos pela primeira vez na vida, mas sobretudo me tocou perceber que, às vezes, basta um empurraõzinho (ou uma assopradinha...) pras coisas acontecerem! Né mesmo?!?

sábado, 11 de junho de 2011

estrangeira de lugar nenhum

Aqui é um pouco terra de ninguém, mas todos se sentem muito daqui. Aqui é uma ilha, então o sentimento de pertecer é diferente do que em qualquer outro lugar, acredite. Ou você pertence, ou você vaza. Dizem que, quando bem vindo, a ilha te engole. E que ela mesmo se encarrega de te cuspir quando não for mais pra você ficar. Dizem também que cada um tem "seu tempo" de ilha: quando der a sua hora, você irá em paz, sem a sensação de que deixou algo pra trás.

As pessoas se referem ao continente como "lá fora". Hoje me perguntaram: "onde você mora mesmo?". Eu respondi "No Trinta". "Nããão, eu quis dizer onde você mora de verdade... lá fora!".

Ah, tá. "É que eu moro aqui agora, entende? Mas eu nasci em São Paulo".

Satisfeito com a resposta, sem querer mais filosofar, calou-se. Mas dentro de mim ficou a sensação forte de pertencer.
Eu não sou estrangeira.
E moro aqui.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

felinianas

Os gatos de Noronha são carentes. Eles miam muito, gratuitamente. Um miado firme, decidido, de quem não se arrisca no pedido. Mimados, insistentes, obstinados, chegam a ser grosseiros: aprenderam que para viver aqui, ou é assim ou vão morrer de fome. Em 10 dias de ilha, morando com 14 homens em um alojamento coletivo, lavando roupa na mão, indo a pé pro trabalho debaixo de tempestades, mergulhando até 18m de profundidade, nadando com tubarões e raias, trabalhando muito, comendo pouco... percebi que pra viver aqui precisa mesmo ser muito macho! Falo daquele estereótipo de macho nordestino, forte, duro, imbatível, de poucas gentilezas, machista, mas no fundo muito carente. Os homens aprenderam com os gatos que aqui, para viver, é preciso de uma crosta protetora. Eu, avessa a qualquer barreira que me impeça de acessar gatos ou seres humanos, estou sofrendo um bocado - mas aprendendo dia-a-dia. Reforço que a afetividade, a amorosidade, o sorriso e a gentileza são a única via possível para mim. Ontem mesmo já conquistei o primeiro gato. Miado estridente atrás de um pão de queijo que eu comia. Dividi com ele, fiz um afago. E ele ronronou.
Simples assim.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

o mendigo e o cachorro

Neste fim de tarde inusitado, andando na garoa como há muito tempo não fazia, curtindo o visual da minha avenida preferida, dei de cara com uma cena muito corriqueira. Sentados na calçada, um mendigo - pés muito pretos e barba longa - e seu clássico vira-lata mais fofo do mundo. Com um amor imensurável, o mendigo beijava o cão, fazia carinhos, afagava o bichinho até cansar, e repetia uma dose de beijos verdadeiros. Era tanto amor que transbordava daquele homem sujo, com frio, talvez com fome...! que eu pensei: talvez eu esteja sendo exigente demais com o amor.

Por via das dúvidas, cheguei em casa e agarrei a Vitória.
Só pra não perder o hábito.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

la nevera se muere

Minha geladeira dá sinais de falência múltipla de órgãos. O médico já veio aqui em casa visitar, tentou reanimá-la, mas não adianta. Ela quer mesmo se despedir desse mundo. Isso é ótimo e significativo em um momento em que estou mais é querendo esquentar a vida e descongelar tudo.

terça-feira, 22 de junho de 2010

sorria!

Com frequência eu me lembro da voz da Didi, suave, falando pra gente manter um semblante sereno durante a meditação - quase esboçando um sorriso leve para suavizar a expressão. Sempre que essa orientação sopra no meu ouvido, onde quer que eu esteja, procuro segui-la, e percebo como isso causa uma mudança imediata no meu estado de espírito. Hoje de manhã, vindo para o trabalho, olhei para as caras das pessoas no ônibus, todas amarradas, sisudas. Mas havia um jovem senhor, de aparência muito simples, cuja face inteira sorria: os olhos, a tez, os lábios, as sobracelhas, todos os ossinhos do seu rosto pareciam estar em formato-sorriso. Então nossos olhares se cruzaram e por impulso eu também sorri, na tentativa de espalhar por aí um pouco da leveza que há de nos livrar deste torpor cinza.

terça-feira, 15 de junho de 2010

estranha beleza

2010 está estranho. Estou meio amarga e ranzinza: meu olhar, que estava acostumado a ver o copo meio cheio, agora voltou a flechar pessimista e descrente. Ando muito realista e pouco sonhadora. São Paulo me parece insuportavelmente atraente: quero fugir, mas desejo ficar. A música, essa me escapa pelos dedos, e não consigo ver tanta poesia como antes.
Apesar de tudo, há uma estranha beleza no ar gelado. Desafios, escolhas, encontros. Coisas bonitas mesmo. Amanhã meu pai está voltando, depois de sete anos fora do Brasil. Ele está feliz como uma criança e pediu até pra eu ir buscá-lo no aeroporto - coisa pra qual ele não liga a mínima. Apesar do intenso frio e da baita gripe que me pegou, os dias têm sido de um azul muito azul - e eu adoro dias muito azuis. Daqui a 29 dias eu saio de férias e as possibilidades são infinitas (e todas bonitas). E na sala ao lado mora uma pessoa realmente querida, que estou aos poucos conhecendo e descobrindo, surpresa das melhores desse outono. A Vitória se esgueira por entre as minhas pernas enquanto escrevo. Mia. Ela quer conversa, lindeza.
E agora pouco, fui até a cozinha buscar um chá e dei de cara com a máquina de lavar transbordando sabão por todo lado, borbulhas brancas descontroladas. Isso podia ser muito chato, mas eu dei risada, e atentei pro doce perfume de roupa lavada que ficou na minha casa. Estranho, mas belo.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

olhos ardendo vermelhos inchados

é difícil se deparar com a mesquinharia humana.
Mas basicamente:

Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!

[Mário Quintana]

sexta-feira, 26 de março de 2010

matemática da vida

Trinta e poucos anos, provavelmente classificado pelo IBGE como "pardo". Mãos grossas, calejadas, com permanentes resquícios de tinta branca. Julgo que fosse pintor de parede. Sacolejava no barulhento 7228/10 sentido Pinheiros e levava aberto um livro de matemática antigo, daqueles de capa dura e papel couchê usados nas escolas públicas na década de 70. Apesar das páginas levemente amareladas, estava bem conservado. Passeava com a ponta de um lápis mal apontado pelas formas arredondadas: estava no capítulo de "conjuntos". Detinha-se especialmente no entendimento das intersecções. Voltava para a página anterior, repetia mentalmente o racioncínio acompanhado do lápis mal apontado, virava a folha, fazia um leve sim com a cabeça, logo um não. Fechou o livro, num misto de cansaço e resignação, para contemplar a paisagem molhada da cidade que o ônibis rasgava sem dó.
Fiquei então imaginando qual seria o valor daquele aprendizado: conjuntos matemáticos pura e simplismente, descontextualizados de qualquer elemento com que aquele sujeito pudesse estabalecer conexão. Nunca fui boa aluna de matemática e carrego até hoje o ônus disso. Reconheço a importância do desenvolvimento do raciocínio lógico e analítico, talvez o modo como me foi ensinada a matemática foi tão equivocado quanto o que está sendo ensinado àquele jovem senhor no ônibus. Entrei na minha utopia diária de pirar sobre como as coisas poderiam ser diferentes (e mais legais!), de como poderia ser mais interessante compreender (e vivenciar) os sistemas, os conjuntos, os elementos matemáticos como representações gráficas das nossas estruturas sociais cotidianas, da nossa condição de indivídios inseridos na coletividade. E daí as intersecções, a riqueza e a multiplicidade de possibilidades que elas trazem: milhões de cruzamentos, reencontros, enlaces, nuances, níveis de profundidade. Gostaria que tivessem me ensinado matemárica assim.
a + b = X não significa nada.
eu + você = nós. Isso é muita coisa.