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terça-feira, 28 de abril de 2020

agradece

Abro os olhos. Mais um dia. A criança acorda. Pede comida. Reclama. Porque tem que escovar os dentes, porque tem que se trocar e lavar a própria louça do café da manhã. Essa mania dele reclamar da vida, não sei de quem puxou. Sigo dizendo: agradece, agradece, agradece! Olha como você é afortunado – e listo as razões pelas quais ele deveria apenas ser grato. Ele parece não me ouvir. Ele não me ouve. Mais um dia sem ser ouvida.

O copo está cheio. As costas doem. É um peso descomunal não ter com quem dividir a responsabilidade de criar um ser humano, em todos os níveis. Uma criança é um projeto de, no mínimo, dois. Não sou vítima. E não falo só por mim, por ser mãe solo. Falo pela grande maioria de nós, acompanhadas ou não, mas extremamente sós nesta missão de criar filh@s. Falo por esse sistema escroto que nos obriga a criar nossos homens, além de nossos filhos, para que aprendam a criar os filhos deles. Falo pela inconsciência de muitas de nós sequer nos darmos conta dessa perversidade. Ou, se nos damos, silenciamos e seguimos perpetuando esta dor ancestral. A dor de uma linhagem inteira de mulheres subtraídas de suas potencialidades, ensinadas a acreditar que nasceram para ser mães.

Rezo para me conectar a estas velhas bruxas sábias, que elas nos mostrem o que amavam e sabiam fazer e despertem em nós essa liberdade. E agradeço - porque afinal só tenho a agradecer!


quinta-feira, 26 de março de 2020

fruta com amor no nome

Antonio e eu passamos 3 dias colhendo amoras, sonhando uma geleia. Intensas caminhadas, buscando amoreiras: será que o passarinho comeu? Será que já amadureceu? Deixa eu subir no pé pra colher as que estão mais altas! E sempre se apresentava uma linda surpresa de encher mãos e potinhos improvisados, até termos a quantidade suficiente para fazermos a geleia. Me lembrei da minha infância na Itália: "Robi, andiamo a fare i frutti di bosco?". Aí a gente pegava a cestinha e se embenhava pelo mato. "Frutas do bosque", rasteiras ou arbustivas, entre elas amora, framboesa, moranguinhos silvestres, mirtilos... E depois da colheita, minha tia Emilia preparava uma marmelada para rechear a "crostata". Lembranças tão doces...

Na última sexta-feira, ela partiu, vítima do vírus. Foi uma dor tão grande que o tempo parou. Essa mulher foi minha segunda mãe, minha avó, minha tia em tempos tão distintos da minha vida... Me ensinou a plantar, a amar a natureza, a acampar, a parir nenéns, a viajar, a cozinhar tantas delicias... então entendi que esse lance todo das amoras foi nosso ritual de despedida. Minha geleia virou na verdade uma marmelada, com a consistência exata para rechear uma crostata - como as que ela fazia.

Siga na luz, zia Emilia.



quarta-feira, 18 de março de 2020

quando tudo passar

Meu sonho é que a gente acorde deste pesadelo despertos. Que um número muito grande de pessoas  dê uma grande guinada e seja incapaz de permanecer levando uma vida vazia.

Que percebam o quão possível e natural é ficar na pausa com os seus fazendo "nada", gastando "nada", comprando "nada", mas sentindo tudo. Compartilhando e refletindo sobre o valor real das coisas, sobre a essência de estarmos aqui, sobre o divino que é SER HUMANO. 

Sonho que as pessoas vivam plenamente esse ócio criativo, tocar, cozinhar, tricotar, ler, debulhar feijão, passar um café, fazer pão, prosear, contar histórias de família... e que depois de tudo se perguntem: "o que pode ser melhor que isso? por que preciso abrir mão de tudo isso para viver?"

Sonho que a gente consiga olhar para tudo que temos, olhar e agradecer, mas perceber que não precisamos de um décimo de tudo aquilo. Que, ao acordarmos, possamos reavaliar nossas necessidades materiais reais, acumular menos, doar mais.

Se doar mais. 

Sonho que despertemos deste torpor e que coloquemos nossos corações em marcha. 

[Hilma Af Klint]



terça-feira, 25 de setembro de 2018

inferno astral

À beira dos 37 muito bem vividos, me emociono ao perceber como ainda me deixo ser tocada pela vida. Sigo mais suscetível do que nunca e choro as dores do outro, que são as minhas próprias. Não quero nem vou mudar isso. Manter-me permeável num mundo blindado é resistência. Manter-me sensível e disposta neste contexto acirrado é amor. Manter-me atenta ao entorno é conexão. Resistência, amor e conexão: o que mais desejar para um novo ciclo?

Neste fim de semana de emoções atropeladas, pensei um pouquinho em você - fazia tempo que você não aparecia por aqui. Pensei que talvez sejamos mais parecidos do que eu gostaria. Pensei que talvez você vote no coiso e isso imediatamente me fez espanar as poucas memórias agradáveis que ainda guardo da gente. Mas fui além e me perguntei: quanto do "coiso" existe dentro de cada um de nós que não queremos ver? Quanto de louco, radical, preconceituoso, feio, bizarro, escroto, mau, incoerente, nojento existe em você? E foi então que percebi também o quanto de você há em mim. Você que só critica e julga. Talvez por isso doa tanto te ver assim de frente.

Tudo que é perturbador é também revelador.

Talvez o segredo seja olhar no espelho e aceitar o que vier. Até o auto-engano.


sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

meu bem, meu zen, meu crack

Metade do meu sangue é drama mediterrâneo, então pode parecer que eu goste de sofrer. Sim, ainda choro profundamente. Sim, ainda penso em você, muito mais do que gostaria. Não me envergonho de ter te amado, só não consigo entender as recaídas. É muito ruim, como se você fosse meu crack.

Mas eu sou filha do sol e mereço brilhar.

Acho que já te agradeci por tudo. Já rezei todas os rezos que conheço. Já te pedi perdão por não ser aquela que você esperava. Já não tenho seu telefone, nem seu endereço. Já faz tempo, mas ele insiste em caminhar lento pra mim, no que se refere a nós.

Recentemente te mandei à merda.
E vou aproveitar pra te mandar uns boletos também:
250 paus numa Constelação pra ver todas as suas dores lá escancaradas.
150 paus numa sessão de Barras de Access pra sacar o padrão que me prende a você. 
250 paus para te vomitar numa sessão de ayahuasca com a galera mais escorpiana que eu conheci na vida - aprendendo com os scorpions!
Chorar como uma criança no colo de uma preta velha e perguntar "por quê?" - pra ouvir a resposta que eu já sabia (esse foi de graça).  
E mais 120 pilas em outra sessão de ayahuasca pra te vomitar mais um pouco. Detox geral.  
Veio Palo Santo da Colômbia.
Veio São Miguel Arcanjo.
Veio Osho
... e a galera toda!

Mas... é só o tempo. O analgésico da vida. 


quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

mandinga

Outro dia li uma daquelas placas de "trago seu amor de volta" e fiquei imaginando quantas milhares de pessoas procuram esses serviços. Que tipo de loucura leva uma pessoa a querer atar alguém a si própria sem que a outra assim o consinta? Que solidão é essa que nos escraviza emocionalmente? Em que poço de dor profunda temos que mergulhar para nos curar e conseguirmos amar verdadeiramente?

Amor é liberdade.

Me peguei triste ao imaginar alguém implorando amor pr'aquele número de telefone do cartaz. É uma dor física essa de ser preterida, de ser deixada, de não ser desejada. Dá pra entender que, na nossa incapacidade de lidar com a dor, buscamos qualquer coisa que prometa nos livrar dela. Qualquer coisa.

Nosso ego grita pra ser ouvido.
Nossa mente cria cenários ilusórios, sombrios.
Nossa pele... ah, nossa pele.

Eu não sei que feitiço foi esse que você me jogou. Mas pegou.


segunda-feira, 13 de novembro de 2017

dor de crescimento

Noite passada você sofreu muito. Contorcia seu corpinho de recém feitos 4 anos, sentindo dores nas pernas, nas juntas, nos músculos. Tão cansado de tanto pulo, correria, diversão... como você brinca gostoso, filho!

Mas durante a noite, sofreu.

Não acordou, mas choramingava alto, reclamando das pontadas agudas que um dia de intensas atividades e ansiedades gerou no seu corpo. Eu massageava suas perninhas.
Tentei arnica. Tentei lavanda. Tentei sucupira. Tentei amor - no meio da noite insone.
Até que, de exaustão, você dormiu.

Você está crescendo e está doendo.

Então eu queria te falar uma coisa, filho: crescer dói. É assim mesmo. Essa sua dor física é uma amostra do que há de vir pra quem é buscador como você. Você nasceu buscador, como sua mãe. E quem busca, nem sempre acha, mas sempre desabrocha.

Buscar é motor pra crescer. A dor passa. O crescimento fica.
Buscar é sair do casulo e virar borboleta.
Buscar é expandir. É olhar além. Encontrar beleza e realeza.
Buscar é experimentar o novo sem medo. E com medo também.

Que suas buscas andem sempre de mãos dadas com seu crescimento.
E não se preocupe: a dor passa.

 


sexta-feira, 3 de novembro de 2017

despedida

Eu queria ter tido a chance de me despedir de você. De olhar lá no fundo dos seus olhos para desvendar o que sua alma guarda. Eu queria poder te dar um abraço demorado. Dizer que sinto muito. Sentir seu coração batendo pra ter certeza de que ele não congelou. Eu queria te dizer o quão injusto foi fazer tantos planos e deixar que eles derretessem como gelo no sol. Eu queria ouvir de você que existe outra pessoa, porque só assim essa ruptura covarde, virtual e insensata faria algum sentido.

Eu queria te ver frágil e sensível, sem máscaras.

Queria que se deixasse amar - independente de haver ou não algo entre nós. Eu queria mesmo que você pudesse receber este amor que estou cultivando em mim - não este amor banal, carnal. Amor de Ser Humano. Queria eu também receber seu cuidado. Não este cuidado de homem/mulher: cuidado de Ser Humano. Gente que se cuida porque se importa.

Mas nada mais importa. E não sei se algum dia de fato importou. Hoje acho que tudo não passou de um grande mal entendido. Chego a pensar que aquela manhã ensolarada podia ter amanhecido nublada e chuvosa, assim quiçá nunca teríamos nos cruzado na vida. Mas não há como mudar o que foi. Só há como mudar o que é. Essa dor que me rasga o peito, essa incompreensão, esse vazio que você deixou em mim: isso vai mudar. Hoje.


quinta-feira, 19 de outubro de 2017

run for your life

É primavera. Tá exuberante a Natureza. Borboletas coloridas, flores perfumadas, a grama verdinha e a fruta no pé. Pitanga e amora. Os insetos felizes. Dama da noite cheira até de dia. Me reconheço neste desabrochar. Tenho ido correr no parque, tem sido um presente pros olhos. No meio do caos desta cidade, do ocaso aqui dentro, a Natureza me salva. Como sempre. 

Corro pra fortalecer o coração. Ele está batendo como nunca na energia do amor. Na insistência no amor. Só ele pode nos salvar do ódio, da loucura e até do desejo. Eu acredito nisso porque ainda te amo. Quer dizer, te amo e pronto (sem ainda). Porque amor que é amor não acaba nunca. Então fiquei pensando na eficácia do amor: é capaz até de aplacar o próprio amor. 

Corro para libertar minhas memórias. Como uma alcoólatra, cada instante sem você é um instante a mais comigo. A leveza está sendo uma conquista diária. 

Corro para oxigenar a razão, que não para de tentar entender porque você quis ir embora. Assim de repente, soltou da minha mão. Como a gente trata com distanciamento alguém que acabou de estar tão perto, ao seu lado, há pouco deitada na sua cama, onde algo tão intimo como dividir a cama e os lençóis quando o dia amanhece e os lençóis ficam lá escancarados com suas manchas e sua noite impregnadas. Como alguém sai da sua vida para a nulidade? 

Corro para compreender quão profunda é essa caverna onde você se enfiou. É preciso de coragem pra colocar o dedo na ferida e superar a dor. É preciso de coragem para ir até o mais escuro dos intestinos. É preciso de coragem para receber este amor. Te desejo coragem.

Corro. Corro pela vida. 


sexta-feira, 15 de setembro de 2017

era ela, era eu

Era uma tarde qualquer. Ela entrou no vagão, não reparei bem em qual estação. Logo me chamou atenção sua barriga empinada, 8 meses, talvez mais. Linda. De relance, me lembrei da minha saudosa gravidez. Fitei aquele barrigão por alguns instantes, cheguei até a sorrir. Realmente estar grávida é um estado de graça - pensei. 

Então olhei para ela toda. Morena, bonita, altiva. Romantizei naquela aparência a felicidade daquela mulher. Mas então percebi que sob os óculos escuros escorria uma lágima. E depois outra. Meu coração apertou. Me levantei e fui me esgueirando por entre os passageiros distraídos. Cheguei ao seu lado, muito próxima mesmo, e a abracei. Sem pedir licença, simplesmente a abracei. 

Como quem estava esperando aquele abraço, ela retribuiu. E soluçou. 

- Vamos descer na próxima estação para conversar um pouco?
Ela acenou que sim com a cabeça. 

Descemos do trem juntas. Ela me agradeceu. E nos abraçamos mais. Janaina estava com 33 semanas. Seu choro angustiado me dizia muito mais do que qualquer história que ela pudesse me contar. Eu sentia que ali havia uma solidão conhecida.

- Sabe, o pai do meu filho... ele é uma boa pessoa, mas ele não entende o que está acontecendo. Ele me faz promessas vazias. Ele não me ajuda em nada. Como estou cansada, como estou cansada! Eu estou tão feliz, mas tão cansada. E como vai ser quando o neném nascer?

Meu coração já pulsava na garganta. "Sim, querida, sim. Te entendo", eu dizia. Janaina era, como eu, vítima de um abandono gestacional. E olhando bem firme dentro de seus olhos falei: "Presta atenção: agora é você e o bebê! Você não pode contar com esse cara pra nada. Não fique nesta ilusão". 

Foi um baque pra ela. Como uma desconhecida no metrô me abraça, me consola, me acolhe e me diz algo tão duro assim? Falei do meu sofrimento, de como o superei, de como é bom ter um filho companheiro. Ela me ouviu. Silenciamos. Seus olhos já estavam mais serenos e muito agradecidos. 

- Muito obrigada. Você mudou meu dia. Na verdade, você mudou muito mais que o meu dia. 

Nos abraçamos de novo em despedida. Janaina entrou no trem. Eu fiquei ali, desaguando toda a dor daquele encontro de cura. E depois subi as escadas, com um ar de dignidade que há muito tempo não sentia.

Que nós mulheres possamos nos unir e nos ajudar, com coragem, sempre e mais.

E que a gente entenda que não dá pra abraçar o mundo.
Mas dá pra abraçar algumas pessoas e fazer a diferença. 
Clarissa Corrêa



segunda-feira, 14 de abril de 2014

relato de parto

Outro dia, minha mãe me perguntou quando eu havia optado pelo parto natural, quando essa escolha se tornou uma possibilidade para mim. Eu pensei por alguns instantes e a única coisa que eu consegui responder foi: “Não foi uma opção, sempre foi uma certeza!”.

Agora, enquanto ouço o set list de músicas que preparei para tocar durante o meu parto, me emociono ao lembrar de flashs daquele que, sem dúvida, foi o maior momento da minha vida até hoje. Já não consigo imaginar como seria viver sem ter passado pela experiência de trazer Antonio ao mundo como eu sonhei e como ele desejou.

E foi assim: na segunda-feira, 11 de novembro, me olhei no espelho antes de dormir e vi meu lábio superior muito inchado, parecia que eu tinha depilado o buço. Como este é um dos indícios da preparação do seu corpo para o parto, pensei: é amanhã! Acordei sentindo algumas contrações e liguei para minha doula, Thiana. Ela é de Jundiaí, mas estava em São Paulo, pois havia acompanhado um parto no dia anterior na cidade. Perguntei se ela poderia passar em casa para nos vermos, pois não tinha certeza se aquilo já era o início do meu trabalho ou se era um falso alarme. Só que ela, junto com minha parteira Camila, estavam a caminho de Jundiaí onde outra gestante já estava em trabalho de parto. Ops, pensei... e agora? E se não der tempo delas chegarem aqui? Ela se certificou de que minhas contrações ainda não estavam ritmadas, me tranquilizou, e disse que à noite ela e Camila estariam comigo. “Respira que vai dar tudo certo!”. E foi isso que eu fiz, comecei a respirar.

Decidi ir até o Parque do Ibirapuera com minha mãe. Levamos uma canga e ficamos deitadas à sombra de uma grande árvore conversando, rezando e aproveitando os raios de sol da manhã. As contrações ainda estavam bem espaçadas e fraquinhas, mas eu sabia que estava perto. Voltando para casa, preparamos o almoço e fui descansar um pouco. Durante todo o tempo, Thiana e Camila ficaram em contato comigo, trocando mensagens e monitorando meu estado. Eu estava de fato tranquila. À tarde, perto das 16h00, Thiana me ligou avisando que Valentina, filha da outra gestante, já havia nascido.

Confesso que fiquei aliviada. Eu ainda não estava em trabalho de parto de fato, mas as contrações já estavam um pouco mais doloridas. Minha mãe estava o tempo todo comigo. Pedi doce de leite, ela começou a fazer um panelão. Ainda havia algumas coisinhas pra pendurar no quarto de Antonio, então pedi a meu pai que pegasse o martelo, porque “de hoje não passa”. Foi nesse momento, por volta das 19h30, enquanto ele martelava a parede do nosso quarto, que senti uma pontada mais forte. E depois de oito minutos, outra. E depois de cinco, mais outra. A evolução foi bem rápida, ou não sei se fui eu que não percebi que as contrações estavam ficando mais frequentes, mas minha sensação foi que aconteceu de repente. Liguei para as meninas, elas estavam saindo de Jundiaí. Pedi pra acelerarem um pouco na estrada, pois o negócio estava apertando.

Decidi entrar na banheira para dar uma relaxada. Apaguei as luzes e acendi umas velinhas que já havíamos preparado. Minha mãe ao meu lado, começamos a rezar juntas. Eu respirava concentrada e quando a contração vinha, me ajoelhava na banheira e vocalizava um grande aaaaahhhhh, ou ooohhhhhh, soltando o ar junto. Foi instintivo. Até aí ainda estava tranquilo, pois as contrações estavam bem breves.

Depois de um tempo, decidi sair da banheira e comecei a preparar o ambiente no quarto dos meus pais, onde havia escolhido realizar o parto. Peguei meu tapetinho da yoga, estendi no chão, e coloquei por cima várias toalhas que já estavam separadas. Tentei encontrar a posição mais confortável para mim, sempre respirando e me concentrando muito. De quatro era o modo como me sentia melhor. Acho que já era perto das 21h00 quando eu realmente comecei a ficar um pouco aflita por estar sem o amparo das meninas, mas eu sabia que dentro de poucos minutos elas chegariam. De fato, dali a 20 ou 30 minutos Thiana e Camila chegaram. Eu já estava meio em alfa, as contrações já estavam bem dolorosas e nem sei mais de quanto em quanto tempo estavam vindo, mas sei que era pouco.

Logo Camila fez o toque e constatou que eu estava com 5 para 6 cm de dilatação. Já?, perguntei. Nossa, que rápido... uau, em apenas duas horas eu já tinha andado mais da metade do caminho. E sozinha! Fiquei confiante e feliz com a notícia. E assim prosseguimos. Elas me apresentaram outras posições que poderiam ajudar e juntas fomos construindo as próximas horas. O ambiente estava aconchegante na penumbra e havia muitas velas espalhadas por todo o quarto. Meus pais não saiam de perto de mim.

Inicialmente eu havia pedido para meu pai não participar do parto, pois ele se afligiria e me deixaria mais nervosa. Mas, para minha surpresa, foi ele quem ficou ao meu lado até o final, quase ininterruptamente, aplicando um passe de energia em silêncio. No final, foi minha mãe quem deu uma sumida - depois fiquei sabendo que ela ficou bastante nervosa em me ver com dor e não aguentou ficar próxima.

Não demorou muito, chegou também a Dani, assistente da parteira Camila, cuja presença foi essencial. Seu toque forte e carinhoso me massageou muito em vários momentos, e sua voz maravilhosa ajudou a embalar o parto com músicas lindas que cantamos juntas, além de tocar também alguns instrumentos para chamar Antonio para este mundo.

Acho que perto da meia noite, a bolsa rompeu e pude sentir aquela água viscosa e quentinha, que por nove meses havia guardado meu filho, escorrer por entre as minhas pernas. A esta altura, eu já estava com muita dor. Thiana me instruía a não resistir, a me entregar à dor, dizendo que ela não era mais forte do que eu, e que ia passar. Enquanto isso, eu falava palavras doces para meu filho, convidando-o a chegar e realizar a passagem. Lembro de ter falado pra ele que iria leva-lo para conhecer os golfinhos em Fernando de Noronha e que todos estavam muito felizes esperando por ele aqui fora. Durante todo o processo, o bebê era auscultado com frequência e eu podia ouvir seu coraçãozinho batendo a milhão, o que me tranquilizava bastante.

Já perto do início do expulsivo, voltei pra banheira quentinha. Isso ajudou muito a atenuar a dor das contrações. Neste momento, acho que por volta da 1h30 da manhã, eu já estava com 9 cm de dilatação, mas Antonio estava gostando de ficar lá dentro e não descia. Então, Camila pediu que eu saísse da banheira para ficarmos um pouco em pé rebolando, que auxiliaria na expulsão. Relutei porque estava muito melhor ficar na água, mas sabia que era necessário. Voltei então pro quarto e aí o bicho pegou.

Começou a doer muito, de forma quase insuportável. Mas o corpo é muito sábio e, depois de uma contração dolorosíssima, vinha outra mais leve para poder recobrar energias. E a tal da vontade de fazer força chegou. Camila me orientou a ficar de cócoras e disse que estava muito perto, Dani me sustentava por trás. Era muita dor, muita! De repente, o urro da leoa trouxe Antonio de uma vez, chegou chegando!
Não consegui chorar. Ele veio direto pro meu colo, fiquei olhando atônita, maravilhada. Exausta. Ele também não chorou. Era rosadinho e grandão. Meus pais se chegaram e eu senti o amor da família com toda sua potencia. Eu e Antonio só existíamos porque meus pais existiam.

Ficamos alguns instantes nos namorando, eu e meu pequeno. Logo depois, fui para a cama e na sequência a placenta dequitou inteirinha. O cordão foi cortado pela minha mãe assim que parou de pulsar, uns 15 minutos depois. Antonio nasceu com 3.700kg e 53 cm. Não tive laceração e minha recuperação foi espetacular, muito rápida. Mas o que mais me inspirou, o que me faz dizer hoje que passaria por tudo isso de novo, foi o respeito e o amor com que fui tratada. Estar na minha casa, junto
dos meus queridos, amparada por uma equipe amorosa e atenciosa, tendo liberdade para me mover, comer, gritar sem ser julgada, tudo isso não tem preço.

Meu parto domiciliar foi um ato de puro amor. Acredito que tenha sido a primeira vez na vida que me dispus a vivenciar todas as sensações de coração aberto, sem reclamar, sem julgar. E foi um exercício lindo de doação. Sou outra mulher, agora mãe.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

dos finais

[porque os meus têm que ser sempre apoteóticos, senão não são finais dignos]

Suely Carvalho me falou de finais não-tradicionais, não precisa ser aquela quebra, corte seco para a próxima cena. Ela falou de possibilidades transitórias, menos impactantes, daquelas que dão tempo de digerir, interiorizar, reafinar o instrumento. Isso me tocou. Gostaria de provar desta calma, mas percebo que todos os meus finais são abruptos, apesar dos meus esforços em fazer diferente. Será possível torná-los suaves e dar-se conta, com serenidade, que é preciso deixar ir (let go)?

Mas nem tudo está perdido, já que na minha crença todo final é um recomeço!

Tô com a alma suspensa: muitos finais ao mesmo tempo para recomeços definitivos. Porque ter um filho é muito definitivo: é materialização pura, é concretizar sua passagem por este planeta.

Eis o que se passa:
final 1: adeus individualidade, agora sou dois;
recomeço 1: sou mãe do Antonio, nunca mais estarei sozinha (pelo menos por um bom tempo).
 
final 2: ideal de família Doriana despedaçado - este final é formado por vários finaizinhos melodramáticos e deve estar perto de seu Gran Finale;
recomeço 2: apenas recomeçar (aaaaai, que preguiçaaaaaa!).

final 3: deixar meu 'lar salgado lar' - este me causa dor e alívio ao mesmo tempo;

recomeço 3: não faço a menor ideia.

É, muitos desafios pela frente, alguém já tinha me avisado. Um pouco ansiosa, confesso, mas confiante. Não sei exatamente em que direção seguir, mas não tenho escolha, senão seguir caminhando. E caminhar com confiança é bem melhor!

domingo, 18 de agosto de 2013

engano

Era pra ter sido assim:

CENA 1 - EXTERIOR/ MANHÃ ENSOLARADA

ELA dirige um buggy. Cabelos ao vento, olhar distraído, vê ELE andando a pé. Encosta o carro.

- Oi, tudo bem? tá indo pra onde?
- Oi, tudo!! To de folga, e tu?
- Entra aí, to indo pra praia do Leão. Quer ir?
- Ah, valeu, tenho um compromisso, não vai dar.
- Beleza, a gente se encontra por aí então...
- Até, aproveita!
- Tchau.

FADE OUT.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

super mulher



Eu já não sabia mais como lidar com uma vida cheia de atribuições. Tive que me exilar numa ilha semi deserta no meio do Atlântico pra deixar de ter 4 empregos, fazer pós graduação, estudar canto, assistir a todos os filmes em cartaz, ir ao supermercado, ser bem cuidada, culta, sociável e namorável...
Não sucedi muito. Foram poucos meses de “experiência do vazio”. Logo comecei a me envolver em trabalhos comunitários, cursos, atividades mil fora o meu trabalho oficial – que eu tinha jurado que era a única coisa que eu ia fazer porque realmente precisava! Então o tempo foi me engolindo, a rotina frenética foi se apaixonando por mim novamente. Aceitei que esta é minha essência, não posso fugir dela. Não deixei de ir à praia, mergulhar, aproveitar a ilha... mas fui acumulando funções, recheando meus dias de compromissos e horários.
Então entra em cena uma barriga. Atualmente com 24 cm. Ela me impôs limites. De repente, cadê minha independência? Onde foi parar minha vontade própria? Cadê minha disposição para enfrentar jornadas de trabalho, estudo, prazer?? Essa história de gravidez é uma insanidade! Eu preciso deixar tudo em ordem pra quando meu filho chegar!!!! Estar saudável e cuidar para que ele esteja, praticar yoga, cozinhar e comer bem, ganhar e guardar dinheiro, fazer um caderninho de memórias para ele, pensar em como será o parto, onde, quando e com quem, concluir trabalhos e realizar repasses e treinamentos, lidar com o fim de um relacionamento no meio deste turbilhão emocional, cuidar da relação com meu pai, ter paciência com a imbecil que tirou 15 dias de atestado médico no trabalho, organizar chás de fraldas e ter um enxoval mínimo para receber o pequeno, cortar o cabelo, a unha, ser blogueira, conciliadora, versátil, magra e... louca??? chegaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!

Cansei de ser super mulher.  Não quero. Não preciso.
Mas não sei como ser diferente.
#levedesespero

quarta-feira, 19 de junho de 2013

hora de acordar


Liguei pra te contar do perfume dos jasmins em flor. E falar das frutas da estação. E do banho de chuva que pensei em tomar (com você). Desta vez, não quis me preocupar com julgamentos à minha verdade, sendo contigo apenas eu mesma. Queria falar a sua língua, para que entendesses cada sílaba de mim. Tive, por um breve e ilusório instante, a certeza de que minha transparência serviria para te fazer compreender que cada ato meu foi mais uma tentativa de aproximação de mim mesma. E logo de ti.
Queria me sentir livre na sua presença - porque ainda me sinto uma estranha quando não estás. Torci para que cada palavra minha fosse um sentimento bom, e que cada sentimento se transmutasse em compaixão. E que eu pudesse apenas sorrir quando você diz o que nem sabe que está dizendo. Queria que essas lágrimas tolas parassem de insistir, me sinto ingrata por chorar em um momento tão abençoado. E que apenas as boas lembranças povoassem minha mente. Que refletida na minha íris cor de mel, eu pudesse ver seu olhar apaixonado e inocente de um dia. Queria que eu fosse a linha, e você o linho, pra sua vida bordar na minha. E fosse reaparecendo aos poucos nosso amor.
Sonho acabou, é hora de acordar.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

ahimsa

Meu primeiro dia em Rishikesh foi um caos, como nos outros lugares em que cheguei - ate ai nenhuma novidade. Mas aqui fiquei com raiva, porque as ruas sao um grande mercado de espiritualidade, felicidade, bem estar, conexao com o cosmos. Ah tah (pensei), agora tudo faz sentido: atravessei dois oceanos pra comprar um cedezinho de mantras, tomar uns milagrosos remedinhos ayurvedicos e alcancar a iluminacao!
Primeiro (e totalmente paradoxal): eu nao entendo como pode haver tantos iluminados num lugar tao caotico, barulhento, sujo, desrespeitoso, consumista.
Segundo: o que eu vim fazer aqui?!?! (de novo!).
Encontrei um oasis no meio de toda essa zona e resolvi mergulhar - que saudades de mergulhar...Entao ate hoje, esta foi uma viagem rica como qualquer outra. Agora passou a ser uma viagem para dentro, acho que eh isso que a India tem de melhor para oferecer. Se tem uma coisa que eu gosto de fazer eh viajar, e posso dizer que ja embarquei em algumas boas viagens pra dentro. Sei que o caminho eh arduo. Doi pra caramba.
Nunca respirei tanto. Passo pelo menos 4 horas do meu dia observando como respiro, e quanto, e onde. Respirar doi: eh abrir espaco, regar o coracao, ouvir a musica do corpo. Eh encontrar os nos e desata-los na marra, respirando.
O corpo eh o que mais reclama. Tudo doi, porque a minha mente se acha muito esperta e ainda nao aprendeu a respeitar os meus limites. Ela sempre quer o otimo, mas a perfeicao eh violenta, ela eh agressiva e tola, como qualquer vicio. Entao estou aqui, como um bebe, aprendendo a respirar e a praticar ahimsa comigo mesma. Ahimsa significa "nao violencia" e eh um dos principios que regem o yoga. Estou aqui pra aprender que eh comigo mesma, antes de tudo e principalmente, que tenho que praticar ahimsa.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

morna

Estou vazia. É uma sensação curiosa, como se finalmente estivesse sobrando espaço pra nada, pra ninguém, espaço pra nenhuma expectativa, só vazio criativo. Aqui na varanda da casinha mais gostosa com que um dia tive o privilégio de sonhar, a lua gigante manda recado de novo ciclo. Apesar do cansaço, não tenho vontade nem de dormir. Quero viver cada gota. Meu sangue italiano ferve, depois esfria, depois amorna. Morna é a temperatura da ternura. Então minha pele se enternece, fica macia pro seu aconchego. Fico amortecida, como se não fosse mais doer a queda. Mas dói, porque nunca é igual. Porque eu nunca estou preparada pro pior, estou sempre desarmada, no fundo sou uma romântica desprovida de táticas para jogar esse jogo que me afasta do que é essencial: o amor. Só estou disponível inteira. Ao contrário do que eu pensava, versão Beta não é para testes. Não é provisória, mas definitiva. Sempre por ser melhorada, claro, mas já pronta para o uso. 100% de mim. Meu sangue ferve e me faz lembrar de que estou muito viva, e isso é bom. Mas você tem razão: ter mais calma vai ser melhor para mim, este é um ajuste necessário que estou fazendo por ninguém, senão por mim mesma. Obrigada por assoprar isso no meu ouvido. Ouço atenta e cuidadosamente cada recado. Um dia escrevi que sou um mosaico enorme, formada por pecinhas deixadas por cada pessoa que passou pela minha vida. É isso: você já está. Seu lugar no meu mosaico está garantido.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

ilhada

Tô. Tô sim. Melancólica até debaixo d'água. Fui mergulhar cinza, esperando voltar azul, mas lá embaixo a melancolia só tem outro peso, outra densidade, outra cor. Ela continua penetrando, viscosa e opaca. O mar estava inquieto, exigiu concentração. Só depois, navegando de volta ao porto, barco feroz rasgando ondas escuras, me deu tempo de pensar em como a felicidade desaba sobre mim com a mesma intensidade que a tristeza. Altíssimos e baixíssimos, diria sabiamente a Gabi. Tô melancólica porque há 4 dias estou absolutamente desconectada do mundo, sem internet, sem telefone, sem a liberdade de poder me comunicar. Pela primeira vez, me sinto literal: estou ilhada. Tô melancólica porque a saudade dos meus amigos está cortante, falta-nos coragem para transpor a distância. Porque sinto falta repentina de cheiros conhecidos, de deitar no meu futon com a Vitória, fechar a porta de casa e deixar o mundo lá fora.

Hoje eu só queria soltar a cabeça no colo da minha mãe e usufruir do melhor cafuné do mundo.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

insônia.noite2

A sala de espera do doctor era desconfortável. Tipo muito. E o doctor sempre atrasava. Tipo muito. Nunca entendi como um ortopedista que atrasa muito podia ter sofás tão desconfortáveis e anti-ergonômicos. Enfim, ele realmente não se importava com isso. Ficávamos lá afundados horas (esperando). Um dia, ele atrasou tanto que eu terminei de ler os textos da pós, o livro que eu tinha levado e já tinha folheado todas as Caras disponíveis. Comecei a arrancar as folhas coloridas da minha agenda e fiz trinta barquinhos de presente pra ele. Quando entrei no consultório, mão cheia de barquinhos coloridos de tamanhos variados, o doctor sorriu do fundo d'alma - acho que ele nunca teve uma paciente excêntrica que fez barquinhos de papel na sala de espera e ainda entrou sorrindo "olha o que eu trouxe de presente pra você!!".

O doctor atrasava porque não tinha pressa em atender. Ele ouvia atentamente minha história de vida, me olhando nos olhos e anotando de vez em quando. Estava interessado em mim, nos porquês das minhas dores. Pediu uma bateria de exames, me revirou do avesso. Entrei naquela máquina de fotografar o cérebro, em outras tantas que detalharam todos os ossinhos do meu corpo, visitei vários laboratórios da cidade. E esperei muito na sala desconfortável. No dia do veredito, ele não usou arrodeios: "querida, seus exames estão perfeitamente normais. Clinicamente, você não tem nada". "Como assim, não tenho nada??? Tenho sim! Eu sinto dores terríveis no meu corpo desde criança, tenho enxaquecas, dores nas articulações, minhas costas parecem as de uma velha de 80 anos.... pelo amor de deus, me fala que eu tenho alguma coisa, qualquer coisa, dessas que dê pra abrir e tirar e depois costurar de novo?".

Não teve jeito.

Nesse dia, o doctor conseguiu arrancar lágrimas de mim e me olhou calado. Perdi 8 meses da vida investigando meu DNA pra descobrir que minhas dores tinham uma raiz muito elementar: minhas emoções. E eu chorava porque no fundo já sabia - só que a solução era um tantinho mais complexa do que deitar numa mesa cirúrgica, cortar e costurar. E eu não sabia nem por onde começar.

Já tinha feito tudo o que podia, experimentado todas as técnicas, de agulhas a ginásticas orgânicas, terapias de vários tipos, até remédios que me deixavam doidona. O que fazer a seguir? mudar de cidade, de emprego, de namorado, de vida?

No pain, no gain, dizia um amigo meu. Custei a acreditar, mas acho que ele tem razão. A dor é uma grande professora. Física, em última instância. E cada vez que essas dores horríveis voltam, me bate um pânico, porque dói de verdade. Mas aí eu percebo que é só porque ainda tenho muito o que aprender.
Sorte que agora eu já comecei.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

vento bom

Parece que já se passaram alguns meses desde a minha volta. O retorno de saturno dando as caras de novo, com tudo. Pequenos terremotos internos, um novo módulo, um novo amor, uma nova companhia de quarto, um novo armário... O mar está mais frio, o sol mais fraco, o céu enevoado. E o vento sopra forte, dia e noite, parece querer abalar minhas verdades. Então, quando acho que não tenho mais onde me escorar, ele muda de direção, levantando poeira, deixando uma bagunça danada do lado de dentro, como quem diz: “tudo não passa de uma rajada, não há o que temer”.

Apesar do nó na garganta, sigo firme, inspirando fundo a noite clara. Abro os braços ao caminhar, para receber suas rajadas de peito aberto. Por mais que doa, sei que a qualquer momento pode mudar de direção e soprar a meu favor. E não vai demorar.

"Viração, virando vai
Olha o vento, a embarcação
Minha jangada não é navio não
Não é vapor nem avião
Mas carrega muito amor dentro do seu coração".
[Corrida de Jangada]