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domingo, 22 de maio de 2011

prisioneiros do amor livre

...acho que é da Martha Medeiros essa frase. Título de uma crônica dela que li há algum tempo, sobre aquele livro bonito que ganhei da Ju, que conta a história da Simone de Beauvoir e do Sartre. Queria ter esse livro agora em minhas mãos, para reler um trecho que certamente sublinhei na época, em que Simone dizia da incapacidade de seu homem de ser verdadeiramente livre no amor. Sartre apregoava a liberdade suprema, uma relação aberta com Simone: ele tinha outras mulheres e ela, por sua vez, seus amantes. Mas no fim das contas, nenhum dos dois bancava a brincadeira. Ela arranjava mulheres pra ele e literalmente adoecia, prisioneira do seu amor por Sartre. Ele, escravo da sua ideologia de liberdade, parecia obcecado em se ater a este estilo de vida mais para provar sua teoria do que por acreditar nela. Enfim, um desastre.
Aí acontece que, quase um século depois da Simone e do Sartre, percebo que não sabemos lidar com nada disso. E acho que não aprenderemos. É muito da boca pra fora que a gente aprova que o outro tenha outros. Principalmente para os homens, é muito difícil aceitar que topamos o que eles propoem - na verdade eu acho que eles nunca nos levam a sério. Então bom mesmo é o que vem do coração, quando ele fica todo preenchido com alguém insubstituível, alguém que você não vai encontrar em mais ninguém. Amor livre o cassete! Descobri que sou bem egoista nesse ponto: eu quero um só pra mim.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

o mundo é dos meninos?

Estou lendo "O Segundo Sexo". Está sendo uma experiência. Durante essa semana estive em alguns ambientes eminentemente masculinos e na sexta voltei pra casa pensando em como estamos repentinamente deixando de realizar nossa feminilidade, aos poucos, e de maniera muito cruel. Estamos cada vez mais parecidas com os homens: menos sedutoras, menos fêmeas, mais fálicas e soberanas. Menos sensíveis, mais práticas. Estamos nos distanciando da nossa essência, da nossa intuição, do nosso poder criador, para legitimar nossa independência, para eliminar a humilhante memória inconsciente de sermos objetos e presas.
Mas não seria essa a nossa natureza biológica e instintiva?
SOMOS presas! E eles são os caçadores. E quando há presa querendo virar caçador... ai, a presa vira contra o caçador? É isso? (ou ficou confuso?).
O que mais tenho ouvido, não é de hoje, é a mulherada reclamar da solteirice. Ultimamente eu mesma, inclusive, ando perdendo as esperanças de achar outro grande amor e blasfemo por aí frases feitas sobre os homens. Mas está claro: a presa virou contra o caçador! Inconscientemente viramos rivais. Estamos competindo não sei o que, nem sei por quê, eles achando que queremos tomar o lugar deles, nós achando que eles devem nos aceitar assim: mais parecidas com eles. Nossa independência os intimida e nossa auto-suficiência os afasta. Conselho de um amigo outro dia: melhor ficar na moita, fingindo ser aquela mocinha de voz doce, gestos delicados, opinião frágil e mutável "Tanto faz", disse ele "porque no final quem bota o pau na mesa são vocês". Dei risada. E ele completou: "Não chame o garçom pra fazer o pedido. Deixe o cara fazer isso por você. Ele sabe que você é perfeitamente capaz de fazer isso, mas sente um prazer quase inexplicável ao te mostrar como ele é bom em adivinhar que você gosta de água com gás".

O título do livro de Beauvoir, "O Segundo Sexo", define a mulher como segundo mesmo, em ordem de prioridade. O primeiro - number one! - é o sexo masculino. De acordo com a escritora, o homem é o "Sujeito" desse mundo, e a mulher o "Outro".

Deve ser por isso que ficamos tentando virar hominhos... eu, hein?!

"A pessoa não nasce mulher, antes torna-se mulher".
Simone de Beauvoir

terça-feira, 4 de agosto de 2009

swallow it, babe

tô de volta à paulicéia.
não é fácil engolir lembranças.
e nem mudar de canal em 24 horas.
hoje trabalhei que nem uma camela, deve ser pra evitar depressão pós-férias.

agora não consigo dormir.
a Simone me espera pras últimas páginas.

então vou ler e fingir que escuto o mar.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

rebeldia solitària

Às vezes, Beauvoir chamava sua rebeldia solitària de "uma embriaguez". Mas tinha consciência de que precisaria de uma forca extraordinària. "Eu gostaria muito de ter o direito, eu tambèm, de ser simples e muito fraca, de ser mulher", confessou no diàrio. Sentia que, para as mulheres, o amor tinha um custo, e que havia uma parte dela que provavelmente nenhum homem aceitaria. "Falo do amor de forma mìstica, sei o preco", diz ela. "Sou muito inteligente, muito exigente e muito engenhosa para alguèm ser capaz de se encarregar completamente de mim. Ninguèm me conhece nem me ama completamente. Sò tenho a mim".

Tète-a-tète - Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre
Hazel Rowley

domingo, 14 de junho de 2009

voltando pra casa

Essa semana foi uma grande abstração na minha vida. Participei do 23 Congresso internacional do ISPA (International Society for the Performing Arts), evento que reuniu mais de 300 gestores culturais, artistas e produtroes de 23 países aqui em São Paulo. Conheci muita gente bacana, passei por experiências únicas, fiz contatos que serão uteis para o meu trabalho, outros certamente essenciais para a vida. A festa de encerramento foi na Sala São Paulo. Chiquérrima e super bem cuidada, como foi todo o congresso, que ocorreu em diversos locais, desde o Museu de Arte de São Paulo, passando pelo Parque da Água Branca, até o CEU Alvarenga, zona sul da cidade. Comi e bebi maravilhosamente bem, estive ao lado da Fernanda Montenegro, jantei com Benson Puah, dancei até a perna pedir arrego, dei muita risada.
...
E o que causa em mim (quase sempre) o desconforto repentino?

Encontrei com a Andreia Dias, da Banda Glória, enquanto ambas atacávamos a mesa de doces: - Andreia, oi. Queria te dizer que você - quando ainda tinha cabelos compridos - fazia minhas noites felizes no União Fraterna. Você canta que é uma delícia!
Ela sorriu amarelo, colocando na boca um bocado de morango com suspiros. Suspirou.
Eu perguntei: - Você tá feliz? (que ideia, perguntar isso bêbada às 2h00 da manhã pra uma cantora...)
- Mais ou menos... - respondeu ela. - É engraçado, agora que a banda tá bem, minha carreira solo está em destaque, entra muito pouca grana. Isso dá um bode...
Seguimos conversando. Confessei que, naquelas noites de 2005, enquanto ela cantava sacolejando seu vestido vermelho, sua música embalava minha dança apaixonada com um homem muito importante na minha vida.
- Que bom! (sorriso menos amarelo). Vocês ainda estão juntos?
- Não... mas ele foi um grande amor.
- ah, então, é isso que importa!

Depois disso, ela voltou ao palco, eu à pista, mas tudo ficou meio sem sentido. Passei a semana discutindo como viabilizar e fazer circular bens culturais, em como facilitar seu acesso à população, formar platéias, e a cantora afirma que simplesmente não consegue tirar seu ganha pão do seu ofício.
Fui para o canto da pista de dança e fiquei observando, pela vidraça, a Estação Julio Prestes. Duas moças arrastavam seus rodos limpando o chão e os trens parados na plataforma. Dois seguranças se encolhiam dentro de seus casacos, buscando se proteger do frio. Eu, do lado de dentro, ensaiava uns passos de samba e os convidei pra dançar com um sorriso. Eles retribuiram, mas não se moveram. E de repente uma incrível melancolia me invadiu. Olhei pra aquela cena e percebi que nada mudou. Há séculos, há quem dança do lado de cá do vidro e quem, lá fora, nunca entrará na dança. Há séculos que ninguém olha pra isso e nem quer olhar. Há séculos continuamos perpetuando essa lógica. Até quando, meu Deus?!

Hoje [voltando pra casa] desejei ardentemente ser uma daquelas mocinhas que se confessam e guardam dentro de si um pouco de serenidade.
Simone de Beauvoir