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terça-feira, 2 de março de 2010

mais um adeus

Eu já devia estar acostumada, mas não consigo. Toda vez que ele vai, fica um buraco. Dessa vez ficou também um medo, talvez porque a fragilidade dessa vida tenha invadido a data mais festiva do ano de forma tão abrupta e tenha me fragilizado também. Talvez porque eu também esteja envelhecendo. Talvez porque eu mesma quisesse ter a coragem de fazer as malas e voar. Ou porque as piscadas abreviam os melhores momentos, que nunca parecem ter sido suficientes.
Não sei o que é. Mas não me habituo a essas despedidas.
Vai bem, querido. E não demora a volta.
Volta pra ficar.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

tás a ver?

É isso, gente. E muito mais.



quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

vento bom

Hoje ganhei um doce (e um novo amigo): um sorriso vespertino colou na minha boca. Hoje recebi um presente que há meses esperava: meu pai chegou de Angola, contando pequenas anedotas incrivelmente surreais, que só quem já viu é que acredita. Realizei, também, um desejo muito simples: jantei com a minha família unida na casa da minha mãe. E ao chegar em casa cansada e encontrar o iptu na soleira da porta, descobri que estou isenta este ano.

É nas coisas pequenas que estão as grandes coisas. E tenho dito.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

despedida virtual

Hoje foi um dia de resoluções e despedidas.
Reencontros e desamarrações.

- ... então um abraço, bem longo e aconchegado, daqueles que não consegui te dar.
- outro bem grande, desses que esperamos e não tivemos.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

a comoção de ser visto

"Porque o branco desfrutou durante três mil anos do privilégio de ver sem que o vissem; tratava-se de puro olhar, a luz dos seus olhos resgatava todas as coisas da sombra natal, a brancura da sua pele também era um olhar, de luz condensada. O homem branco, branco porque era homem, branco como o dia, branco como a verdade, como a virtude, iluminava a criação tal como uma tocha, desvendava a essência secreta e branca dos seres. O que esperáveis que acontecesse quando tirásseis a mordaça que tapava as bocas negras? Que vos entoassem louvores? As cabeças que os nosso pais tinham dobrado pela força até o chão, pensáveis, quando se reerguessem, que leríeis a adoração nos seus olhos? Ei-los em pé, os homens negros que nos olham, e faço votos para que sintais, como eu, a comoção de ser visto".
Sartre

SOSO arte contemporânea africana
Cláudia Veiga, Ihosvanny, Kiluanji, Yonamine
Avenida São João, 313
2o andar Centro São Paulo
inauguração: 05 de fev
de 06 de fevereiro a 21 de março de 2009
segunda a sexta: das 11h00 às 19h00 sábado: das 11h00 às 16h30


Yonamine, Angola, http://yonart.blogspot.com/

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

são paulo de luanda

Domingo mais uma vez ele tomou o avião e se foi. No caminho do aeroporto, pensativa no banco do passageiro ao seu lado, sua mão na minha mão, um aperto no peito. "Gostaria de ir com você desta vez, só por uns dias", disse-lhe.
Fechei os olhos e, por um instante, vi tudo como antes. Aquele estranho prazer em vivenciar o extremo do caos, a subversão dos valores e da (des)ordem das coisas. As conversas de quintal com a Marta. A doce kizomba do Pedro. A tarde no kimbo, mágica. Os passeios pela ilha com o Ruca. A bizarria de histórias só lá escutáveis e o desajeito de fotografar. A ingenuidade disfarçada do Manu. As aflições das descobertas. Aquela sensação de deslocamento e ao mesmo tempo de pertencimento profundo. A solidão bem acompanhada por uma nova eu.
Uma nova eu. Foi isso que Angola me deu. Às vezes finjo que esqueço, me salvaguardo com a minha ocidentalidade, me escondo atrás de referências antigas, falta-me coragem. Mas a verdade é que Angola descortinou para mim um outro mundo que eu não consigo mais (e nem quero) negar. Uma nova forma de viver e de conduzir a minha vida, a minha história.
Talvez seja essa a grande saudade: a do encontro. O encontro com algo novo que me mova, que me arrebate, que me assuste, que me incomode.
Deixa eu voltar...
Posso voltar? Apenas por alguns dias?

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

um poema na parede

Ganhei de presente do Sérgio Guerra, em Luanda, um lindo pôster com um poema do Drummond. Quando me mudei pra rua diana, pendurei-o devidamente emoldurado num canto da sala. Apesar de querer valorizá-lo, acabei por deixá-lo lá, reinando solitário, sem que ninguém o lesse, nem eu mesma.
Esta manhã - na dura batalha com o mamão disfarçado de granola, mel, banana e o que mais der pra eu não sentir seu gosto - me peguei desapercebidamente olhando para a parede e li o poema, uma e outra vez. E mais outra.
Descobri que tenho coisas maravilhosas dentro de casa.
E dentro de mim também.

As sem-razões do amor
(Carlos Drummond de Andrade)

Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
eu te amo porque te amo.
amor é estado de graça e
com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira,
no eclipse.
amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque te amo,
bastante ou demais a mim
porque amor não se troca,
não se conjuga
nem se ama
porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.