Mostrando postagens com marcador família. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador família. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 28 de abril de 2020

agradece

Abro os olhos. Mais um dia. A criança acorda. Pede comida. Reclama. Porque tem que escovar os dentes, porque tem que se trocar e lavar a própria louça do café da manhã. Essa mania dele reclamar da vida, não sei de quem puxou. Sigo dizendo: agradece, agradece, agradece! Olha como você é afortunado – e listo as razões pelas quais ele deveria apenas ser grato. Ele parece não me ouvir. Ele não me ouve. Mais um dia sem ser ouvida.

O copo está cheio. As costas doem. É um peso descomunal não ter com quem dividir a responsabilidade de criar um ser humano, em todos os níveis. Uma criança é um projeto de, no mínimo, dois. Não sou vítima. E não falo só por mim, por ser mãe solo. Falo pela grande maioria de nós, acompanhadas ou não, mas extremamente sós nesta missão de criar filh@s. Falo por esse sistema escroto que nos obriga a criar nossos homens, além de nossos filhos, para que aprendam a criar os filhos deles. Falo pela inconsciência de muitas de nós sequer nos darmos conta dessa perversidade. Ou, se nos damos, silenciamos e seguimos perpetuando esta dor ancestral. A dor de uma linhagem inteira de mulheres subtraídas de suas potencialidades, ensinadas a acreditar que nasceram para ser mães.

Rezo para me conectar a estas velhas bruxas sábias, que elas nos mostrem o que amavam e sabiam fazer e despertem em nós essa liberdade. E agradeço - porque afinal só tenho a agradecer!


quinta-feira, 26 de março de 2020

fruta com amor no nome

Antonio e eu passamos 3 dias colhendo amoras, sonhando uma geleia. Intensas caminhadas, buscando amoreiras: será que o passarinho comeu? Será que já amadureceu? Deixa eu subir no pé pra colher as que estão mais altas! E sempre se apresentava uma linda surpresa de encher mãos e potinhos improvisados, até termos a quantidade suficiente para fazermos a geleia. Me lembrei da minha infância na Itália: "Robi, andiamo a fare i frutti di bosco?". Aí a gente pegava a cestinha e se embenhava pelo mato. "Frutas do bosque", rasteiras ou arbustivas, entre elas amora, framboesa, moranguinhos silvestres, mirtilos... E depois da colheita, minha tia Emilia preparava uma marmelada para rechear a "crostata". Lembranças tão doces...

Na última sexta-feira, ela partiu, vítima do vírus. Foi uma dor tão grande que o tempo parou. Essa mulher foi minha segunda mãe, minha avó, minha tia em tempos tão distintos da minha vida... Me ensinou a plantar, a amar a natureza, a acampar, a parir nenéns, a viajar, a cozinhar tantas delicias... então entendi que esse lance todo das amoras foi nosso ritual de despedida. Minha geleia virou na verdade uma marmelada, com a consistência exata para rechear uma crostata - como as que ela fazia.

Siga na luz, zia Emilia.



domingo, 11 de novembro de 2018

Uma mão cheia

Parece inacreditável que daqui a 2 dias você vai fazer 5 anos.
"Uma mão cheia", como você diz.
Quase não consigo mais te pegar no colo, você já é um menino grandão que fala gírias. Tão generoso e amoroso. E eu torço pra que este mundo não te endureça. Você sabe que os tempos são árduos. Nunca te escondo minhas lágrimas, que ultimamente têm sido frequentes. Quero que você cresça sabendo que pode chorar, que mostrar suas fragilidades não te torna fraco, pelo contrário. Desejo que você possa manifestar suas tristezas sem vergonha e que não tenha medo de sofrer. Por isso não te poupo do meu sofrimento. Para que a dor não seja um tabu.

Tenho tentado te mostrar que você é 100% responsável pelas suas escolhas. E que cada escolha terá consequências diferentes. Hoje, depois de preparar um ovo para você, eu disse: "vamos agradecer a galinha por este ovinho maravilhoso, por ela ter dado o pintinho dela pra gente comer".
Você me olhou atônito "o pintinho tá aí?".
"Não, filho, o pintinho não nasceu. O ovo é que nem uma sementinha, quando a gente deixa ele no tempo certo, sai um pintinho de dentro dele. Mas quando a gente tira ele de perto da mãe, ele vira ovo com gema".
"Então eu não vou mais comer ovo porque eu quero ver o pintinho sair".
Eu disse que isso poderia ser uma escolha sua se fosse bom pra você, mas que a mamãe gostava muito de ovo e ia continuar comendo mesmo sabendo que o pintinho não ia nascer. Você devorou 2 ovos e não me pareceu muito inclinado a salvar pintinhos. Mas acho importante que você saiba que pode não ser conivente com a morte deles.

E que, se assim você decidir, saiba que este ato individual vai fazer muita diferença pro mundo. Não importa se o ovo vai estar na granja esperando para ser comprado. Se você decidir não comprá-lo, isso vai fazer diferença, porque muitas pessoas podem tomar a mesma decisão que você. E é assim que as coisas mudam.

Então, estes tempos mudaram bastante porque muitas pessoas tomaram a decisão de eleger um cara esquito para chefiar nosso país. Este cara, que você chama de "bolsonario", é um homem que pensa muito diferente de mim em vários sentidos. Foi difícil te explicar porque "Ele Não", mas acho que você entendeu. Foi difícil também te explicar porque só o Lula está preso enquanto um monte de bandido continua em liberdade - acho que isso você não entendeu (porque não tem como entender mesmo, filho).

Estamos num momento de profunda mudança e talvez os próximos anos sejam marcados por muita dureza. Por isso comecei este texto desejando que o mundo não te endureça. Neste momento, a resistência não tem a ver com dureza, mas com amor. Amor e sonhos. Amor e aceitação. Amor e amor e amor.

Feliz 5 anos! Que sejam os melhores, porque serão os únicos!


quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

envergo, mas não quebro

Eu achei que este dia não ia chegar. Sinto meu coração transbordando de gratidão e uma tranquilidade como há tanto tempo não sentia - ainda desperto por vezes em sobressalto achando ser um sonho. Mas não é sonho. Assim como o passado também não foi pesadelo. Pés descalços no caminho pedregoso sob o sol escaldante, lágrimas secas, coração vazio: nada foi em vão. Sou agora o resultado deste percurso. Olhei bem fundo na cara do medo. Às vezes me desesperei. Pedi muita ajuda e tive muita ajuda. Meus amigos: meus tesouros. Meus anjos, meus gurus. Meus antepassados. Ganhei um amor de presente pra amansar os dias mais difíceis. Honro esses dias, os melhores e os piores. Não me orgulho do sofrimento, apenas agradeço os aprendizados. Hoje valorizo outras coisas, meus desejos se transformaram, sou muito maior. Hoje escolho me libertar de julgamentos que me cegam, de crenças que me limitam, de condicionamentos que me aprisionam. Prefiro olhar pra dentro e me relacionar sem máscaras. Eu, mais eu do que nunca. Coração.
Pode vir. Tô pronta.


quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

carta pro filho 3

Ontem desenhamos desejos para este novo ano. Eu fiz uma casa na praia com gramado, coqueiro e rede de balançar. Você me ajudou a colorir e depois desenhou um sol. Mas o que ontem era uma garatuja, do dia pra noite se transformou num sol com raios. A surpresa de ver brotar daquele papel formas mais conhecidas por mim, me fez brilhar os olhos, como um passo antes da escrita.

Nestes dias de férias, em que a intensidade da convivência não é pouca bobagem, testemunhar suas conquistas tem me feito chorar. A cada pedalada na sua bici nova, você abre um sorriso de satisfação que nunca vi em nenhum outro rosto. É um milagre. E quando você cai, meu coração vem até a garganta, mas você se levanta, limpa a mão na camiseta e sorri. Você é tão corajoso, curioso e valente, filho. Admiro muito isso em você. Observo sua sede de autonomia, seu ânimo de viver, sua doçura bruta, sua desobediência civil: você é a criança que eu gostaria de ter sido. Você brilha.

Quero me contaminar pelo seu riso frouxo. E ouvir atentamente seus ensinamentos com o coração aberto: "Cada um tem seu jeito de fazer as coisas, mamãe" ou "Você precisa aceitar o nonno como ele é", ou ainda "Mangia che ti fa bene!". 
  
Nesta insana proximidade, agradeço a oportunidade de nos reconectarmos - como fizemos nas férias de julho. Agradeço por perceber como sou boba quando perco a paciência por besteiras, como repito contigo os mesmos erros que cometeram comigo. Preciso calibrar minhas emoções pra dar conta de tantos aprendizados. Gratidão por ter me escolhido para te maternar, meu pequeno-grande Mestre. 


sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

vai casar

Sempre fui a menos sozinha das solteiras. Aqui e acolá, sempre tinha um hômi a tiracolo, raramente estive sozinha na vida. A grande maioria das minhas amigas tinha namoros duradouros, desses de anos... eu quase nunca. Tive um - e quase casei de véu e grinalda. Por sorte percebi a tempo que ainda era muito jovem para me privar de conhecer tantas pessoas interessantes.

De fato, a escolha de não levar adiante o único relacionamento looongo que tive me trouxe mais ganhos que perdas. Tive experiências muito apaixonadas, conheci muita gente louca, vivi intensamente (claro). Se pudesse voltar atrás, faria tudo de novo.

Hoje: 36 anos, 1 filho que já se veste sozinho... acho que quero casar! Se dependesse do tanto de vezes que já peguei o buquê, devia ter fila na minha porta. Fato é que não sei bem qual modelo de relacionamento desejo. Não acredito no casamento como está posto, mas também não sei muito pra onde correr. Talvez muita gente não goste de ler isso, mas não vejo muitos casais se divertindo pela vida. Vejo conveniências, acomodações. Vejo pouca vontade de crescer junto e muito apego aos vícios e obstáculos. Devo estar errada, por supuesto, caso contrário ninguém veria vantagem em continuar casado ;)  Estas são apenas impressões de uma solteira observadora.

Se eu tivesse que dizer o que acredito mesmo, seria: as pessoas são livres, ninguém é de ninguém. Mas sigo dizendo (até para mim mesma) o que a sociedade quer ouvir: vou casar. Como conciliar estas duas visões? Como se livrar do maldito amor romântico e viver plenamente a liberdade tão própria de quem ama? Esta é uma pergunta que tem me perseguido nos últimos tempos.

Da turma mais chegada, estão todas casadas. E pra festa de Natal, na lista eu leio "Beta + Tom". Me dá uma certa angustia. Não é inveja, não é dor de cotovelo, não é medo de envelhecer solteira - já que sozinha de fato quase nunca estive! É uma incerteza que não tem horizonte. Um lugar novo em mim que chama por um par que não seja meu filho. Um par(ceiro). Pra vida.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

meu vô

Hoje precisei sair cedo e chegar tarde. Deu uma saudade danada. Foi a primeira vez que você passou o dia inteiro sem mim e adormeceu sem mamar. Fiquei tranquila porque você estava com seus avós, nossos parceiros nessa jornada. Mas à noite sua vó teve um curso e precisou sair. Fiquei receosa porque seu avô nunca havia trocado uma fralda. Mas ele se garantiu. Não só trocou sua fralda, como deu banho, janta, afago e fez você dormir.
Quando eu cheguei, fiquei emocionada e cheia de orgulho.
Percebi a magia que há em ser avô.
É viver tudo aquilo que não foi vivido com os filhos.
É redimir o passado.
É tornar-se ídolo.
É reencontrar-se com você mesmo e encontrar-se com o novinho em folha, que acabou de chegar e tem tanto a ensinar.

Gratidão ao meu pai, seu avô, que no dia seguinte do dia dos pais, me deu este presente. 

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

de repente, 2015!

Faz uns meses que to tomando fôlego pra escrever e de repente amanhã já é ano novo! A vida deu uma guinada de 360 graus em looping, a rotina me engole, o cansaço de consome, a necessidade de sobrevivência se impõe. Sigo adiante, sem escrever, sem expressar, pra não desmontar. Mas esse seu sorriso maroto sempre presente me dá confiança no ser humano. Estou com saudades de quem eu era, sinto uma falta IMENSA da minha independência, mas olhar para você dormindo ou mamando ou gargalhando me faz lembrar que esta missão é muito maior. E quer saber? Acho que com todos os percalços, tô me saindo muito bem! E não sei como seria sem a presença dos seus avós maravilhosos, que nos lambem como crias pequeninas que nunca deixaremos de ser. E sem os amigos incríveis que cultivei ao longo da vida, que estão conosco pro que der e vier! E sem seu pai, sem o qual você simplesmente não existiria...

2014 foi um ano duro. Que em 2015 a gente consiga mais leveza (venimim, levezaaaa!!!). Que eu seja mais corajosa pra me jogar com você no mundo. Que a gratidão, a positividade e a confiança permeiem todas as nossas relações. Que a nossa saúde siga perfeita. Que a vida siga nos presenteando com encontros mágicos, abundância, amor e felicidade. Porque a gente merece. Feliz novo ano.

terça-feira, 13 de maio de 2014

carta pro filho [1]

Oi filho,
Hoje faz 6 meses que você chegou nesta órbita. Falta tempo para curtir cada segundo seu na terra. Você mamando é o maior dos milagres; dormindo é doçura infinita.Vejo você conquistar pequenos movimentos, seus passos de gigante. Observo suas descobertas tão inocentes e acho que tudo é obra de Deus. Digo todos os dias baixinho no seu ouvido que te amo, que você é minha estrelinha brilhante. Não sabia que tinha tanta ternura guardada até você chegar. Não sabia que seu sorriso ia me trazer tanta leveza pra encarar os desafios. E sempre soube que nossa conexão ia ser profunda. Você me faz acessar diariamente minha intuição.
Mas nem tudo são flores. Houve muitos espinhos nestes 180 dias. Queria ter mais tempo, mais grana, mais disposição, mais coragem [às vezes], menos preocupações. Faltam horas de sono, falta paciência, falta-me aceitação, falta-me a yoga (imensamente), falta a liberdade de antes.
Mas sobra amor. E isso é tudo.
Que venham mais 180 mil dias com você, meu pequeno grande homem.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

relato de parto

Outro dia, minha mãe me perguntou quando eu havia optado pelo parto natural, quando essa escolha se tornou uma possibilidade para mim. Eu pensei por alguns instantes e a única coisa que eu consegui responder foi: “Não foi uma opção, sempre foi uma certeza!”.

Agora, enquanto ouço o set list de músicas que preparei para tocar durante o meu parto, me emociono ao lembrar de flashs daquele que, sem dúvida, foi o maior momento da minha vida até hoje. Já não consigo imaginar como seria viver sem ter passado pela experiência de trazer Antonio ao mundo como eu sonhei e como ele desejou.

E foi assim: na segunda-feira, 11 de novembro, me olhei no espelho antes de dormir e vi meu lábio superior muito inchado, parecia que eu tinha depilado o buço. Como este é um dos indícios da preparação do seu corpo para o parto, pensei: é amanhã! Acordei sentindo algumas contrações e liguei para minha doula, Thiana. Ela é de Jundiaí, mas estava em São Paulo, pois havia acompanhado um parto no dia anterior na cidade. Perguntei se ela poderia passar em casa para nos vermos, pois não tinha certeza se aquilo já era o início do meu trabalho ou se era um falso alarme. Só que ela, junto com minha parteira Camila, estavam a caminho de Jundiaí onde outra gestante já estava em trabalho de parto. Ops, pensei... e agora? E se não der tempo delas chegarem aqui? Ela se certificou de que minhas contrações ainda não estavam ritmadas, me tranquilizou, e disse que à noite ela e Camila estariam comigo. “Respira que vai dar tudo certo!”. E foi isso que eu fiz, comecei a respirar.

Decidi ir até o Parque do Ibirapuera com minha mãe. Levamos uma canga e ficamos deitadas à sombra de uma grande árvore conversando, rezando e aproveitando os raios de sol da manhã. As contrações ainda estavam bem espaçadas e fraquinhas, mas eu sabia que estava perto. Voltando para casa, preparamos o almoço e fui descansar um pouco. Durante todo o tempo, Thiana e Camila ficaram em contato comigo, trocando mensagens e monitorando meu estado. Eu estava de fato tranquila. À tarde, perto das 16h00, Thiana me ligou avisando que Valentina, filha da outra gestante, já havia nascido.

Confesso que fiquei aliviada. Eu ainda não estava em trabalho de parto de fato, mas as contrações já estavam um pouco mais doloridas. Minha mãe estava o tempo todo comigo. Pedi doce de leite, ela começou a fazer um panelão. Ainda havia algumas coisinhas pra pendurar no quarto de Antonio, então pedi a meu pai que pegasse o martelo, porque “de hoje não passa”. Foi nesse momento, por volta das 19h30, enquanto ele martelava a parede do nosso quarto, que senti uma pontada mais forte. E depois de oito minutos, outra. E depois de cinco, mais outra. A evolução foi bem rápida, ou não sei se fui eu que não percebi que as contrações estavam ficando mais frequentes, mas minha sensação foi que aconteceu de repente. Liguei para as meninas, elas estavam saindo de Jundiaí. Pedi pra acelerarem um pouco na estrada, pois o negócio estava apertando.

Decidi entrar na banheira para dar uma relaxada. Apaguei as luzes e acendi umas velinhas que já havíamos preparado. Minha mãe ao meu lado, começamos a rezar juntas. Eu respirava concentrada e quando a contração vinha, me ajoelhava na banheira e vocalizava um grande aaaaahhhhh, ou ooohhhhhh, soltando o ar junto. Foi instintivo. Até aí ainda estava tranquilo, pois as contrações estavam bem breves.

Depois de um tempo, decidi sair da banheira e comecei a preparar o ambiente no quarto dos meus pais, onde havia escolhido realizar o parto. Peguei meu tapetinho da yoga, estendi no chão, e coloquei por cima várias toalhas que já estavam separadas. Tentei encontrar a posição mais confortável para mim, sempre respirando e me concentrando muito. De quatro era o modo como me sentia melhor. Acho que já era perto das 21h00 quando eu realmente comecei a ficar um pouco aflita por estar sem o amparo das meninas, mas eu sabia que dentro de poucos minutos elas chegariam. De fato, dali a 20 ou 30 minutos Thiana e Camila chegaram. Eu já estava meio em alfa, as contrações já estavam bem dolorosas e nem sei mais de quanto em quanto tempo estavam vindo, mas sei que era pouco.

Logo Camila fez o toque e constatou que eu estava com 5 para 6 cm de dilatação. Já?, perguntei. Nossa, que rápido... uau, em apenas duas horas eu já tinha andado mais da metade do caminho. E sozinha! Fiquei confiante e feliz com a notícia. E assim prosseguimos. Elas me apresentaram outras posições que poderiam ajudar e juntas fomos construindo as próximas horas. O ambiente estava aconchegante na penumbra e havia muitas velas espalhadas por todo o quarto. Meus pais não saiam de perto de mim.

Inicialmente eu havia pedido para meu pai não participar do parto, pois ele se afligiria e me deixaria mais nervosa. Mas, para minha surpresa, foi ele quem ficou ao meu lado até o final, quase ininterruptamente, aplicando um passe de energia em silêncio. No final, foi minha mãe quem deu uma sumida - depois fiquei sabendo que ela ficou bastante nervosa em me ver com dor e não aguentou ficar próxima.

Não demorou muito, chegou também a Dani, assistente da parteira Camila, cuja presença foi essencial. Seu toque forte e carinhoso me massageou muito em vários momentos, e sua voz maravilhosa ajudou a embalar o parto com músicas lindas que cantamos juntas, além de tocar também alguns instrumentos para chamar Antonio para este mundo.

Acho que perto da meia noite, a bolsa rompeu e pude sentir aquela água viscosa e quentinha, que por nove meses havia guardado meu filho, escorrer por entre as minhas pernas. A esta altura, eu já estava com muita dor. Thiana me instruía a não resistir, a me entregar à dor, dizendo que ela não era mais forte do que eu, e que ia passar. Enquanto isso, eu falava palavras doces para meu filho, convidando-o a chegar e realizar a passagem. Lembro de ter falado pra ele que iria leva-lo para conhecer os golfinhos em Fernando de Noronha e que todos estavam muito felizes esperando por ele aqui fora. Durante todo o processo, o bebê era auscultado com frequência e eu podia ouvir seu coraçãozinho batendo a milhão, o que me tranquilizava bastante.

Já perto do início do expulsivo, voltei pra banheira quentinha. Isso ajudou muito a atenuar a dor das contrações. Neste momento, acho que por volta da 1h30 da manhã, eu já estava com 9 cm de dilatação, mas Antonio estava gostando de ficar lá dentro e não descia. Então, Camila pediu que eu saísse da banheira para ficarmos um pouco em pé rebolando, que auxiliaria na expulsão. Relutei porque estava muito melhor ficar na água, mas sabia que era necessário. Voltei então pro quarto e aí o bicho pegou.

Começou a doer muito, de forma quase insuportável. Mas o corpo é muito sábio e, depois de uma contração dolorosíssima, vinha outra mais leve para poder recobrar energias. E a tal da vontade de fazer força chegou. Camila me orientou a ficar de cócoras e disse que estava muito perto, Dani me sustentava por trás. Era muita dor, muita! De repente, o urro da leoa trouxe Antonio de uma vez, chegou chegando!
Não consegui chorar. Ele veio direto pro meu colo, fiquei olhando atônita, maravilhada. Exausta. Ele também não chorou. Era rosadinho e grandão. Meus pais se chegaram e eu senti o amor da família com toda sua potencia. Eu e Antonio só existíamos porque meus pais existiam.

Ficamos alguns instantes nos namorando, eu e meu pequeno. Logo depois, fui para a cama e na sequência a placenta dequitou inteirinha. O cordão foi cortado pela minha mãe assim que parou de pulsar, uns 15 minutos depois. Antonio nasceu com 3.700kg e 53 cm. Não tive laceração e minha recuperação foi espetacular, muito rápida. Mas o que mais me inspirou, o que me faz dizer hoje que passaria por tudo isso de novo, foi o respeito e o amor com que fui tratada. Estar na minha casa, junto
dos meus queridos, amparada por uma equipe amorosa e atenciosa, tendo liberdade para me mover, comer, gritar sem ser julgada, tudo isso não tem preço.

Meu parto domiciliar foi um ato de puro amor. Acredito que tenha sido a primeira vez na vida que me dispus a vivenciar todas as sensações de coração aberto, sem reclamar, sem julgar. E foi um exercício lindo de doação. Sou outra mulher, agora mãe.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

doce novembro

Filho, chegou seu mês. Parecia tão longe que eu achei que não ia chegar. Fiquei inventando um monte de coisas na minha cabeça de que você ia vir antes, que você não ia ser um novembrino... mas estava enganada! Você é um escorpiano mesmo, que em breve estará aqui pequenino nos meus braços. E eu fico imaginando como vai ser a primeira noite com você do lado de fora da minha barriga. Eu acho que vou acordar de supetão sentindo falta de uma parte do meu corpo. Aí vou olhar pro lado e vou te ver ali respirando curtinho do meu lado, puro milagre. Não vai ter mais ninguém com a gente, mas seremos tão grandes!
Sabe filho, eu ando pensando muito em quem eu sou e acho que sua chegada me faz querer ser melhor pra você. Não sei se estou conseguindo, mas estou tentando. E acho que junto com você eu vou conseguir. Tem tanta gente legal te esperando aqui, sabia? Muitas pessoas já te amam sem te conhecer. Você já está, aí de dentro, operando reencontros e transformações. Imagina então quando chegar, quanta luz vai trazer!!
Vem então, cumprir sua missão neste mundo lindo.
Estamos te esperando, minha estrelinha brilhante.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

nunca entendi tão pouco de tudo

...faz hooooras que estou com essa página aberta esperando as letras surgirem magicamente, um download divino baixar e que dele nasça um texto inspirado e publicável. Mas ele não vem! Talvez seja mesmo o momento de admitir como me sinto confusa, atordoada, esquecida, frágil, impaciente, faminta, sonolenta, solitária... grávida?! sim, talvez seja mesmo o momento de admitir como me sinto grávida, com tudo o que isso traz de maravilhoso e de... esquisito?

Fico aqui imaginando que nove meses é pouquíssimo tempo pra se preparar pra tudo isso que está por vir. A sensação é de que nunca estarei pronta. Claro, a graça toda está na surpresa, nas descobertas, nos aprendizados gigantes, nas mudanças - isso é o que sinto. Mas a mente não dá tréguas: custava a gente poder desvendar um pouquinho desse mistério antes dele acontecer? É tanta ansiedade, um sem fim de incertezas, expectativas, um tanto de querer fazer planos, dividir tudo o que se passa. E ao mesmo tempo, um silêncio, uma necessidade de estar quieta, aproveitando cada segundo, cada movimento, cada sensação nova... ufa, sei lá. Nunca entendi tão pouco de tudo.

sábado, 11 de maio de 2013

vida definitiva

Estabilidade é uma ilusão. Não acredito nela, nem a desejo, pois é através do movimento que se atinge o equilibrio. Gosto da vida em movimento e do movimento da vida. Só estou um pouco cansada de sua provisoriedade. Não quero mais uma vida provisória, me sujeitar a algumas coisas só porque "é por pouco tempo". Quanto tempo é pouco tempo? No provisório, pouco tempo pode ser muito tempo - como é meu caso. O tempo da minha provisoriedade expirou. Agora preciso de algo mais "definitivo", se é que se pode chamar assim. Um armário pra guardar roupas de cama cheirosinhas, pés se encostando sob os lençóis todos os dias, um trabalho que eu ame, macarronada na casa da mamma aos domingos, ver as plantas que eu plantei crescerem, comer dos frutos que elas dão, voltar a estudar. Uma vida com alguns horizontes, digamos assim... Aqui o horizonte é maravilhoso e único, mas é limitado, apesar de tão imenso às vistas. Não, não é só a maternidade que me enraiza, já sentia isso antes, mas agora pode ser mais intenso, mais necessário. Novos caminhos, novos rumos. Saudades sempre de tudo o que ainda nem vivi.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Um nó na garganta.
É o que tenho que desfazer hoje.

domingo, 4 de julho de 2010

dora

Hoje o almoço de domingo em família contou com um membro sui generis. Ela foi "adotada" pela minha vó Marina, lá nos idos anos de 1983, quando começou a trabalhar em sua casa como empregrada doméstica. Eu tinha uns 2 anos de idade. Minha nonna, com seu português mal ajambrado, tentava ensinar àquela então jovem menina do interior de Minas Gerais alguma palavra que fizesse sentido, a assinatura do próprio nome, ou a contar o dinheiro do paozinho francês. De pouco adiantou: Dora permaneceu quase completamente analfabeta. Mas passou a considerar a minha avó como mãe, e talvez tenha sofrido mais do que todos nós quando ela se foi, em 1992. Acompanhou de perto o câncer da sua mãe de adoção, suas idas e vindas do hospital, cuidou dela como uma filha devotada. Me viu crescer e nutriu por mim o amor de uma irmã mais velha. E nunca perdemos o contato. Para ela, eu continuo sendo a Nina, aquela menininha de 3 anos. Aos meus olhos, ela não envelhece, apesar de seus 51.
Só que Dora parou no tempo. Com sua voz de criança, ela fala da minha avó no presente, como se ela ainda estivesse viva, e sua mente oscila entre a racionalidade lúcida e o seu mundo de palavras inventadas. Hoje por exemplo, ela disse que a atual patroa quebrou a "veícula", querendo dizer "clavícola". Também tentou explicar o que ela chama de "dinheiro grudado" - uma nota de R$ 20,00 que na verdade são duas de R$ 10,00 grudadas. Será isso?!? Ela começou a ficar nervosa tentando se explicar, então achei melhor entender assim...
Este mundo é muito confuso pra ela. Não é loucura, é um "mundo-dorado" todo particular, misto de ingenuidade infantil e manias de uma pessoa bem velhinha.

Os domingos ficam muito mais genuinos e generosos quando ela está por perto.

terça-feira, 15 de junho de 2010

estranha beleza

2010 está estranho. Estou meio amarga e ranzinza: meu olhar, que estava acostumado a ver o copo meio cheio, agora voltou a flechar pessimista e descrente. Ando muito realista e pouco sonhadora. São Paulo me parece insuportavelmente atraente: quero fugir, mas desejo ficar. A música, essa me escapa pelos dedos, e não consigo ver tanta poesia como antes.
Apesar de tudo, há uma estranha beleza no ar gelado. Desafios, escolhas, encontros. Coisas bonitas mesmo. Amanhã meu pai está voltando, depois de sete anos fora do Brasil. Ele está feliz como uma criança e pediu até pra eu ir buscá-lo no aeroporto - coisa pra qual ele não liga a mínima. Apesar do intenso frio e da baita gripe que me pegou, os dias têm sido de um azul muito azul - e eu adoro dias muito azuis. Daqui a 29 dias eu saio de férias e as possibilidades são infinitas (e todas bonitas). E na sala ao lado mora uma pessoa realmente querida, que estou aos poucos conhecendo e descobrindo, surpresa das melhores desse outono. A Vitória se esgueira por entre as minhas pernas enquanto escrevo. Mia. Ela quer conversa, lindeza.
E agora pouco, fui até a cozinha buscar um chá e dei de cara com a máquina de lavar transbordando sabão por todo lado, borbulhas brancas descontroladas. Isso podia ser muito chato, mas eu dei risada, e atentei pro doce perfume de roupa lavada que ficou na minha casa. Estranho, mas belo.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

moça de família

Se eu fossa filha de pais divorciados que se odeiam e se xingam, se meu pai fosse alcoolatra e minha mãe apanhasse, se ele fosse um mulherengo imbecil e minha mãe uma balzaquiana tarada, ou submissa a um machista violento... se tudo isso fosse verdade e possível, eu poderia ter uma boa desculpa para usar generalizações sobre o universo masculino - e sobre o feminino [e ainda assim relutaria, porque eu acredito no ser humano].
Acontece que eu sou uma moça de família. Bem nascida e bem criada numa família de classe média, bem educadinha mesmo. Nunca vivi num conto de fadas, nunca fui poupada dos problemas da casa - em sua maioria financeiros. Vi meus pais brigando muitas vezes - até hoje vejo - gritando, chorando, expondo o que há de verdadeiro num relacionamento: a dor, a raiva, a monotonia... e também a alegria de estar junto, de partilhar a vida, de celebrar as conquistas. Vi(vi) relacionamentos felizes (contraditórios, amargodoces, desistentes e resistentes) nascendo e se mantendo no seio de uma família burguesa e conscientemente feliz. Meus pais têm um casamento feliz. Meus avós tiveram casamentos felizes.
Então, de referências é que eu não padeço. Não tenho desculpa nenhuma pra acreditar que homens são canalhas, cretinos, machistas ou imaturos. Não acho que serei traída "porque ele é homem" (ponto). E quase nunca acho que as coisas vão dar errado: mesmo quando sinto que elas poderão não fluir, continuo querendo acreditar que elas podem dar certo de outro jeito.
Mas... tá difícil, viu? É com imenso pesar que vos confesso: tá dificil manter esse otimismo e, por ter essas referências, fica ainda mais complicado olhar pro mundo e perceber como as estruturas estão corroídas, como as relações estão no estágio anterior ao da superficialidade, gritando por um carinho, por um afago, por uma franqueza. Tá todo mundo desesperado por amor, as pessoas só não se dão conta disso.
Tô triste. (hoje) acho que não quero ter filhos.