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terça-feira, 3 de setembro de 2013

dos finais

[porque os meus têm que ser sempre apoteóticos, senão não são finais dignos]

Suely Carvalho me falou de finais não-tradicionais, não precisa ser aquela quebra, corte seco para a próxima cena. Ela falou de possibilidades transitórias, menos impactantes, daquelas que dão tempo de digerir, interiorizar, reafinar o instrumento. Isso me tocou. Gostaria de provar desta calma, mas percebo que todos os meus finais são abruptos, apesar dos meus esforços em fazer diferente. Será possível torná-los suaves e dar-se conta, com serenidade, que é preciso deixar ir (let go)?

Mas nem tudo está perdido, já que na minha crença todo final é um recomeço!

Tô com a alma suspensa: muitos finais ao mesmo tempo para recomeços definitivos. Porque ter um filho é muito definitivo: é materialização pura, é concretizar sua passagem por este planeta.

Eis o que se passa:
final 1: adeus individualidade, agora sou dois;
recomeço 1: sou mãe do Antonio, nunca mais estarei sozinha (pelo menos por um bom tempo).
 
final 2: ideal de família Doriana despedaçado - este final é formado por vários finaizinhos melodramáticos e deve estar perto de seu Gran Finale;
recomeço 2: apenas recomeçar (aaaaai, que preguiçaaaaaa!).

final 3: deixar meu 'lar salgado lar' - este me causa dor e alívio ao mesmo tempo;

recomeço 3: não faço a menor ideia.

É, muitos desafios pela frente, alguém já tinha me avisado. Um pouco ansiosa, confesso, mas confiante. Não sei exatamente em que direção seguir, mas não tenho escolha, senão seguir caminhando. E caminhar com confiança é bem melhor!

terça-feira, 27 de março de 2012

são paulo

Eu amo você. Não, não é porque agora já não mais te habito. Eu sempre tive com você um casamento daqueles que a gente se espanca e se ama com a voracidade dos loucos. Nada saudável, por isso a escolha de me afastar de você. Mas na verdade, sinto que sempre vou te habitar. De alguma forma eu te pertenço. Porque você me oprime e me obriga a refletir sobre a minha condição, porque você me empurra pra frente, me impele aos meus múltiplos movimentos, me cobra resultados. Sua vibração é tão intensa que me assusta. Eu te amo, minha cidade maltratada, mal querida, mal aproveitada. Você acolhe a todos e seu valor salta aos olhos. Graças a tudo que você me deu até hoje, estou preparada para circular por outras vias com passos firmes, apreciar cada paisagem com olhos úmidos de curiosidade. Graças a todo os interesses que você me desperta, a todos os estímulos que me oferece, a todos os encontros e reencontros que nos proporciona, enquanto percorro suas artérias me sinto viva. Obrigada Sampa, até logo e até sempre.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

ilhada

Tô. Tô sim. Melancólica até debaixo d'água. Fui mergulhar cinza, esperando voltar azul, mas lá embaixo a melancolia só tem outro peso, outra densidade, outra cor. Ela continua penetrando, viscosa e opaca. O mar estava inquieto, exigiu concentração. Só depois, navegando de volta ao porto, barco feroz rasgando ondas escuras, me deu tempo de pensar em como a felicidade desaba sobre mim com a mesma intensidade que a tristeza. Altíssimos e baixíssimos, diria sabiamente a Gabi. Tô melancólica porque há 4 dias estou absolutamente desconectada do mundo, sem internet, sem telefone, sem a liberdade de poder me comunicar. Pela primeira vez, me sinto literal: estou ilhada. Tô melancólica porque a saudade dos meus amigos está cortante, falta-nos coragem para transpor a distância. Porque sinto falta repentina de cheiros conhecidos, de deitar no meu futon com a Vitória, fechar a porta de casa e deixar o mundo lá fora.

Hoje eu só queria soltar a cabeça no colo da minha mãe e usufruir do melhor cafuné do mundo.

terça-feira, 28 de junho de 2011

burgovanguardistas

Ele, administrador de empresas - na verdade cineasta frustrado. Ela, recém chegada de Harvard. Alugam apartamento espaçoso no centro da cidade: edifício Hortência. Decoração minimalista. Do cubo branco ela sabe falar, apesar de nunca ter lido Rosalind Krauss. Sobre o chão de mármore da sua casa-conceito, espalham despretenciosamente exemplares do New York Times e Der Spiegel. Imagem é tudo, aprenderam em Harvard.

Do outro lado da cidade, planejam ter gêmeos. Ele engenheiro, ela empresária. Mas... como? Planejar ter gêmeos?! Sim, acreditam que hoje tudo se resolve com dinheiro e remédios. Até a vida.

Noutra manhã, um cineasta batiza a filha na igreja, com direito a padre, água benta e tudo. Artistas, cinegrafistas, produtores, todos os "amigos" presentes, mas desconfortáveis: coisa mais demodê batizar a filha na igreja, pelamor, hein?!

Tem também um encontro deslocado do tempo e espaço convencionais, sem logica, sem razão num apartamento cool na zona oeste com vista extensa sobre a cidade molhada. Ele, que enxerga tantos pela sua lente - bichos e gente - não consegue parar de falar de si. Ela só queria contar que vai finalmente fazer uma tatuagem, mas não conseguiu.

Enquanto isso, tomamos vinho nesta noite muito fria em que imagem é quase nada e damos muita risada de todas as imagens. Como diria Alice Ruiz, somos vanguarditas, pois extremamente contemporâneas.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

fantástica fábrica de fantasias

são paulo. insalubre. insana. insaciáveis os que a habitam. teatro, boate, cinema, qualquer prazer não satisfaz. me desencontro nessas ruas de incongruências, nessa espontaneidade tão fria e suja, paradoxalmente tão acolhedora e repleta de possibilidades.

me encontro nessas esquinas de loucura.

me inspira andar sobre suas veias, uma quantidade de sangue jorra, dando vida ao que por vezes está quase morto.

sob o vão do masp, muitas cenas felizes: o translúcido nos olhos de curiosos, passantes, mendigos, crianças, todos vidrados no filme de john ford. juntos compartilhando fantasias.

no caminho de volta, já sinto saudades do que não quero mais que me causes.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

lá longe

Sem fôlego, sem rumo, erro o caminho.
Respira-se melancolia na cidade fria.
Todo mundo tem um amor que não cicatriza.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

o mendigo e o cachorro

Neste fim de tarde inusitado, andando na garoa como há muito tempo não fazia, curtindo o visual da minha avenida preferida, dei de cara com uma cena muito corriqueira. Sentados na calçada, um mendigo - pés muito pretos e barba longa - e seu clássico vira-lata mais fofo do mundo. Com um amor imensurável, o mendigo beijava o cão, fazia carinhos, afagava o bichinho até cansar, e repetia uma dose de beijos verdadeiros. Era tanto amor que transbordava daquele homem sujo, com frio, talvez com fome...! que eu pensei: talvez eu esteja sendo exigente demais com o amor.

Por via das dúvidas, cheguei em casa e agarrei a Vitória.
Só pra não perder o hábito.

terça-feira, 13 de julho de 2010

se sente pequena, tão impotente, cercada por tantas regras e sistemas. São Paulo não é mais o seu lugar - talvez nunca tenha sido. Mas ela fica se enganando, achando que pode passar por cima, ao lado, por baixo. E vai superando os próprios limites, como se respeitá-los fosse desrespeitoso. A superação é o lema do homem moderno.

Mas agora que o tecido tá esgarçado e a pele, já à mostra, mostra o que não se quer ver, o que fazer agora? Tanta fragilidade que haja creme nivea.

Cair não é tão ruim quanto ter que levantar. Levantar dói muito mais.

E apenas porque nada, absolutamente nada, parece fazer sentido e tudo parece se repetir ad infinitum ela não quer se levantar.

Tá?

sexta-feira, 2 de julho de 2010

tudoaomesmotempoagora

socorro: férias. Preciso sair dessa cidade maluca, que nunca, nunca, nunca dorme. Inclusive eu não durmo, fico aqui pensando na viagem, no trabalho (ou na falta dele), no frila, no tás a ver?, no imbecil com quem saí na semana passada, no outro com quem saí na semana retrasada. Rememoro os encontros de ontem, as cervejas de hoje. Concluo que a minha vida é muito boa e o mundo tá muito gay, caramba! ... o canto, a conta bancária, todas as coisas que ainda quero fazer, todas as que quero deixar de fazer. E no que vou ler nas férias. Hoje fui ver "Empoeirados" no Oficina. Fazia anos que não ia lá e que não ouvia uma das músicas que eles cantaram na peça, canção tão doce, como tudo que a Ceumar faz. E essa música me trouxe outro pensamento: que a arte existe pra nos lembrar de que estamos vivos. São Genésio, conceda a todos o ganha pão, para que não nos esqueçamos da vida.

terça-feira, 15 de junho de 2010

estranha beleza

2010 está estranho. Estou meio amarga e ranzinza: meu olhar, que estava acostumado a ver o copo meio cheio, agora voltou a flechar pessimista e descrente. Ando muito realista e pouco sonhadora. São Paulo me parece insuportavelmente atraente: quero fugir, mas desejo ficar. A música, essa me escapa pelos dedos, e não consigo ver tanta poesia como antes.
Apesar de tudo, há uma estranha beleza no ar gelado. Desafios, escolhas, encontros. Coisas bonitas mesmo. Amanhã meu pai está voltando, depois de sete anos fora do Brasil. Ele está feliz como uma criança e pediu até pra eu ir buscá-lo no aeroporto - coisa pra qual ele não liga a mínima. Apesar do intenso frio e da baita gripe que me pegou, os dias têm sido de um azul muito azul - e eu adoro dias muito azuis. Daqui a 29 dias eu saio de férias e as possibilidades são infinitas (e todas bonitas). E na sala ao lado mora uma pessoa realmente querida, que estou aos poucos conhecendo e descobrindo, surpresa das melhores desse outono. A Vitória se esgueira por entre as minhas pernas enquanto escrevo. Mia. Ela quer conversa, lindeza.
E agora pouco, fui até a cozinha buscar um chá e dei de cara com a máquina de lavar transbordando sabão por todo lado, borbulhas brancas descontroladas. Isso podia ser muito chato, mas eu dei risada, e atentei pro doce perfume de roupa lavada que ficou na minha casa. Estranho, mas belo.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

45 horas

Eu queria que meu dia fosse mais longo pra eu poder fazer tudo o que eu gosto - e ainda assim não daria tempo. Aula de canto, de percussão, de yoga, pós-graduação, trabalho oficial, trabalhos oficiosos, coletivos, boemia, projetos, fotos, blog, namorar (de vez em quando), correr, conversas prolongadas com amigos distantes, emails para responder, cursos, livros para ler, cozinhar, ir ao teatro, ao cinema, ao show, jantar com a minha mãe.
Eu queria que meu dia fosse mais longo, mas ele tá ficando cada vez mais curto.
Acho que tô precisando de férias.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

o que me atrai nesta cidade

Saindo de um debate no MASP, fim desta tarde quase noite, uma sensação de liberdade imensa. Ululavam perguntas jamais respondíveis: A Cultura pode salvar São Paulo?

De quais culturas falamos? E qual São Paulo queremos salvar?

Andando na Avenida Paulista - a vontade era voar sob o vento-temporal -, escorreguei pelo buraco das Consolação. Decidida, passos firmes, passei meu bilhete único encarecido. Foi então que magicamente pisei na escada rolante. Este momento inevitavelmente me transporta aos meus 18 anos, aos meses vividos em Londres, rolando as escadas das estações de Tottenham ou Canary Wharf, trocando olhares cumplices e abafados, e sons que seriam finalmente revelados na chagada à plataforma, no artista talentoso que salva a metrópole à custa de alguns trocados jogados no case de seu violão.

A magia é que, lá ou aqui, as pessoas, rolando em sentidos opostos, se cruzam e se fitam curiosas, flertando, fingindo ser íntima uma relação estabelecida apenas por uma breve e singular troca de olhares. E quando a escada rolante enfim se envolve novamente em seu rolo contínuo, leva consigo o sonho dos olhares cruzados.
Cada um toma seu caminho.
E voltamos a ser homens comuns.

... mas o meu coração de poeta projeta-me em tal solidão...
Caetano Veloso

terça-feira, 6 de outubro de 2009

pitangas

Eu ando pela rua prestando atenção. Nas pessoas, no vento, na pouca poesia que o cinza nos oferece. Recorto o céu entre franjas de prédios, tento achar o horizonte que não há. Muitas vezes, absorta na música minha de cada dia, meu pão. Mas eu presto atenção. E no domingo, andando por aí, por aqui, por lá, vi o chão tingido de vermelho-alaranjado. E senti o cheiro daquele chiclete azedinho que comíamos quando criança. Na primeira, pisei firme e segui. Na segunda arvinha, reparei. Na terceira, parei. Parei em frente à pitangueira, pequenina mas robusta, subi no canteiro e me pus a catar pitangas. Senti a pungência de olhares constrangidos dos que esperavam o farol abrir, dos que se esforçavam pra não rir do mico daquela louca trepada no canteiro catando pitangas em plena Avenida Paulista.

Mas, meus caros, quantos em São Paulo ainda têm o privilégio de catar pitangas na rua em que nasceram?!?

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

cidade partilhada

Estive pensando uma coisa sobre territórios: o Filial é meu. O Genial, com seu arroz de polvo, é seu. A Roosevelt é seu pedaço - quase proibido pra mim. Da Consolação pra cá, sentido Higienópolis, é onde ganho meu pão. Desconfio que não esteja aparecendo por lá nem mesmo para ir ao Itaú ou tomar um açaí no seu amigo. Partilhamos cordialmente a mesma cidade, um território tão pequeno desta imensa cidade. Separados apenas pela consolação, onde geralmente as histórias terminam.
A Augusta... essa é de domínio público. Território Neutro. Puta - agora fashion - deusa dos emos, dos descolados e dos "qualquer-coisa".

Quem sabe voltamos a nos cruzar entre a podridão dos puteiros.

A sorte é que o Ailton voltou pro Filial!

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

vanilla caffè

De tanto fazer os mesmos caminhos e andar sem rumo procurando você, seguindo teu cheiro, teus rastros, tua música, uma hora o encontro ia ter de acontecer. Um encontro que não foi propriamente um encontro, foi um esbarrão, desses que a vida te dá quando já não dá mais. Desses que a vida te dá quando é pra você se tocar que precisa mesmo é vomitar o passado. Meu estômago já vinha embrulhado pressentindo talvez esse infeliz esbarrão. E de fato, duas quadras depois, o vômito. Ali, no meio da calçada da consolação, como quem deixa uma parte de seu corpo na rua para não carregar mais peso. Na consolação.