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terça-feira, 28 de abril de 2020

agradece

Abro os olhos. Mais um dia. A criança acorda. Pede comida. Reclama. Porque tem que escovar os dentes, porque tem que se trocar e lavar a própria louça do café da manhã. Essa mania dele reclamar da vida, não sei de quem puxou. Sigo dizendo: agradece, agradece, agradece! Olha como você é afortunado – e listo as razões pelas quais ele deveria apenas ser grato. Ele parece não me ouvir. Ele não me ouve. Mais um dia sem ser ouvida.

O copo está cheio. As costas doem. É um peso descomunal não ter com quem dividir a responsabilidade de criar um ser humano, em todos os níveis. Uma criança é um projeto de, no mínimo, dois. Não sou vítima. E não falo só por mim, por ser mãe solo. Falo pela grande maioria de nós, acompanhadas ou não, mas extremamente sós nesta missão de criar filh@s. Falo por esse sistema escroto que nos obriga a criar nossos homens, além de nossos filhos, para que aprendam a criar os filhos deles. Falo pela inconsciência de muitas de nós sequer nos darmos conta dessa perversidade. Ou, se nos damos, silenciamos e seguimos perpetuando esta dor ancestral. A dor de uma linhagem inteira de mulheres subtraídas de suas potencialidades, ensinadas a acreditar que nasceram para ser mães.

Rezo para me conectar a estas velhas bruxas sábias, que elas nos mostrem o que amavam e sabiam fazer e despertem em nós essa liberdade. E agradeço - porque afinal só tenho a agradecer!


sábado, 20 de julho de 2019

alucinação

Embarcamos na estação Vila Madalena num domingo frio, perto das 23h. Antonio cansado de um dia de muitas brincadeiras, logo se aconchegou para uma soneca no banco duro do metrô vazio. Meu celular estava sem bateria, então já havia combinado com meu pai pelo telefone da Nicole para ele nos apanhar na estação Paraíso dentro de 10-15 minutos.

Sempre me dá alegria a boniteza dos rostos de vidro na estação Sumaré. Então sorrio. E ele entra no vagão. Fones no ouvido, volume mais alto do que o necessário - nessas horas, sempre me lembro do Daniel dizendo que estamos forjando uma geração de surdos. Bonito não seria bem o adjetivo para defini-lo, mas aquele ar de hipster abandonado me fez olhar para ele duas vezes sorrindo. Então ele ocupa o assento preferencial ao nosso lado. Seus poros exalam cerveja de uma tarde de domingo com os amigos. Faço carinho no Antonio. Tenho a impressão de ser uma mãe imaculada para a qual não se pode olhar, sorrir, tocar - pensei em sair por aí com um cartaz: "sou main mas não to morta!". Meu sorriso não foi retribuído nem por gentileza e foda-se também - mal sabia ele que eu sorria por dentro e não era pra ele.

De repente, um solavanco. Metrô para de supetão pouco antes de chegar ao Trianon Masp. Não é uma freada normal, é uma parada brusca. Motores e ar condicionado desligam imediatamente. Alguns segundos em silêncio no meio da galeria escura. Então ele retira os fones e pela primeira vez me olha buscando alguma conexão, algum reconhecimento, certa reciprocidade.
- Estamos parados por motivo de usuário na via, anuncia o condutor.
E ali ficamos por 10 minutos, que viraram 15, 20. Havia pouca gente no vagão, mas já se comunicavam com familiares e amigos "tamo aqui por causa de um filho da puta que resolveu se matar", dizia um. "Vai atrapalhar a vida das pessoas num domingo à noite, ah, faça-me o favor!", dizia a outra. Ele só mandava mensagens de texto e começava a suspirar ansioso. Da estação se ouviam comandos no microfone de códigos incompreensíveis: "todas as estações, DX56" Também comecei a ficar aflita porque queria avisar meu pai sobre nosso atraso.
- Será que eu posso usar seu telefone? Estou sem bateria e preciso avisar a pessoa que está me esperando na estação.
Ele me passou o celular com o rosto aflito.
"Pai, sou eu. Estamos parados no Trianon por causa de usuário na via. Sem previsão. Espera a gente".
"Estou sabendo. Estou na estação Paraíso. Teve um óbito aqui" - foi a resposta.
Olhei para aquela mensagem incrédula e passei o celular para ele com os olhos mareados. Ele leu e segurou a cabeça entre as mãos.
- Vivemos tempos difíceis...
Foi a única coisa que consegui dizer. Aliviada porque Antonio dormia e não precisei explicar para ele o que estava acontecendo, por que alguém faria isso? Calou fundo em mim a imagem de uma garota se atirando nos trilhos num domingo gélido. Como iria dormir aquele condutor de trem naquela noite? Um inocente escolhido a dedo para matar alguém. Como entender o tamanho do drama de alguém que resolve tirar a própria vida? Como manter a coragem em uma sociedade tão adoecida e desequilibrada?

Fui invadida por milhares de perguntas sem respostas. Senti calor, depois frio, depois falta de ar. Ele também ficou desbaratinado. Me olhou em busca de acolhimento. Aquele vagão vazio parecia imenso e aqueles minutos, eternos. Não precisamos falar nada. Aquela tragédia nos unia irremediavelmente de uma forma única. Apenas nós dois ali sabíamos o que havia de fato acontecido. 30 minutos dentro de um vagão parado, instantes de luto para elaborar minimamente o ato corriqueiro de sair dali e chegar em casa e tomar um banho e comer alguma coisa e colocar a cabeça no travesseiro e acordar de novo e tomar mais um metro e seguir a vida como se nada tivesse acontecido. Porque no fundo é isso que estão querendo fazer parecer: que nada acontece. Tudo é banal e estamos perdendo a capacidade de nos afetar para garantir nossa própria sobrevivência.

O metro começou a andar vagarosamente. Chegamos na estação Trianon, alguns passageiros entraram e uma moça disse que alguém havia se machucado bastante. Ao chegar no Paraíso, um suspiro de alivio. Num ato de gentileza, ele pegou minha mochila e disse: - Também vou desembarcar aqui. Acordei Antonio e saímos do vagão. De pé, os três na plataforma sem saber muito como se comportar. Pensei em apenas pegar a mochila e agradecer, mas ele então se aproximou, me deu um abraço demorado que só dois cúmplices podem dar.
Nos perdemos no meio da multidão com a promessa de não olhar pra trás.

A minha alucinação
É suportar o dia-a-dia

E meu delírio
É a experiência
Com coisas reais

[Belchior]

 
   

domingo, 11 de novembro de 2018

Uma mão cheia

Parece inacreditável que daqui a 2 dias você vai fazer 5 anos.
"Uma mão cheia", como você diz.
Quase não consigo mais te pegar no colo, você já é um menino grandão que fala gírias. Tão generoso e amoroso. E eu torço pra que este mundo não te endureça. Você sabe que os tempos são árduos. Nunca te escondo minhas lágrimas, que ultimamente têm sido frequentes. Quero que você cresça sabendo que pode chorar, que mostrar suas fragilidades não te torna fraco, pelo contrário. Desejo que você possa manifestar suas tristezas sem vergonha e que não tenha medo de sofrer. Por isso não te poupo do meu sofrimento. Para que a dor não seja um tabu.

Tenho tentado te mostrar que você é 100% responsável pelas suas escolhas. E que cada escolha terá consequências diferentes. Hoje, depois de preparar um ovo para você, eu disse: "vamos agradecer a galinha por este ovinho maravilhoso, por ela ter dado o pintinho dela pra gente comer".
Você me olhou atônito "o pintinho tá aí?".
"Não, filho, o pintinho não nasceu. O ovo é que nem uma sementinha, quando a gente deixa ele no tempo certo, sai um pintinho de dentro dele. Mas quando a gente tira ele de perto da mãe, ele vira ovo com gema".
"Então eu não vou mais comer ovo porque eu quero ver o pintinho sair".
Eu disse que isso poderia ser uma escolha sua se fosse bom pra você, mas que a mamãe gostava muito de ovo e ia continuar comendo mesmo sabendo que o pintinho não ia nascer. Você devorou 2 ovos e não me pareceu muito inclinado a salvar pintinhos. Mas acho importante que você saiba que pode não ser conivente com a morte deles.

E que, se assim você decidir, saiba que este ato individual vai fazer muita diferença pro mundo. Não importa se o ovo vai estar na granja esperando para ser comprado. Se você decidir não comprá-lo, isso vai fazer diferença, porque muitas pessoas podem tomar a mesma decisão que você. E é assim que as coisas mudam.

Então, estes tempos mudaram bastante porque muitas pessoas tomaram a decisão de eleger um cara esquito para chefiar nosso país. Este cara, que você chama de "bolsonario", é um homem que pensa muito diferente de mim em vários sentidos. Foi difícil te explicar porque "Ele Não", mas acho que você entendeu. Foi difícil também te explicar porque só o Lula está preso enquanto um monte de bandido continua em liberdade - acho que isso você não entendeu (porque não tem como entender mesmo, filho).

Estamos num momento de profunda mudança e talvez os próximos anos sejam marcados por muita dureza. Por isso comecei este texto desejando que o mundo não te endureça. Neste momento, a resistência não tem a ver com dureza, mas com amor. Amor e sonhos. Amor e aceitação. Amor e amor e amor.

Feliz 5 anos! Que sejam os melhores, porque serão os únicos!


domingo, 8 de julho de 2018

carta pro filho 4

Estou sendo engolida pela vida e você está crescendo rápido demais. Deixo escapar nas entrelinhas dos dias as frases mágicas que você solta - aquelas bem engraçadas que a gente devia anotar pra rir até 2050... Você fala sem parar. Conta histórias vividas e histórias fantásticas. É uma criança imaginativa, brilhante, solar e comunicativa. E precisa de ouvidos atentos. Busco estar presente, apesar dos deslizes. Uma coisa que não vou dizer jamais é que não aproveitamos juntos a sua infância: quando não estou trabalhando, eu sou quase toda pra você. Não só o tempo e a rotina me engolem, mas sobretudo minha exigência. Em ser a melhor mãe (a maior cagada, eu sei, mas não consigo fazer diferente neste momento). Nesse esforço insano, nessa insistência de querer dar conta de tudo, acaba brotando também o pior de mim. Eu brinco que você deve pensar que eu sou bipolar, ou algo do tipo. Mas não sou, filho. Sou demasiadamente humana, só isso. Te encho de beijos e carinhos e depois quebro o pau. Eu queria que isso fosse mais equilibrado, mas é uma tarefa quase impossível para mim. Então, enquanto busco dentro de mim a paciência nossa de cada dia, observo como somos parecidos para tentar pacificar minha culpa.

Você é superlativo, como eu. Nada é morno pra você. Ou é quente, ou é gelado, ou é maravilhoso, ou tá muito ruim. Queria te dizer que enxergar tons de cinza pode ajudar às vezes, mas não vai adiantar. Você vai aprender isso com a vida (ou não). Você é irado e não leva desaforo pra casa. Você é musical e ama tudo que se relaciona ao ritmo. Você nada em águas profundas, como eu. Você é ligeiro e não perde um detalhe. Está sempre observando com o canto do olho. Tem a percepção aguçada de um aprendiz. Você é por demais sensível - não aquela sensibilidade de quem se machuca e chora. Você sente o clima e transforma em palavras o que não é dito. Você é meio bruxo, filho, e como eu, uma alma velha. Percebo a pureza do seu coração e que os caminhos que estou trilhando com você estão te ajudando a se tornar um homem bom. O que mais eu posso querer da vida?

Eu sinto muito, me perdoe, eu te amo, eu sou muito grata.

  

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

carta pro filho 3

Ontem desenhamos desejos para este novo ano. Eu fiz uma casa na praia com gramado, coqueiro e rede de balançar. Você me ajudou a colorir e depois desenhou um sol. Mas o que ontem era uma garatuja, do dia pra noite se transformou num sol com raios. A surpresa de ver brotar daquele papel formas mais conhecidas por mim, me fez brilhar os olhos, como um passo antes da escrita.

Nestes dias de férias, em que a intensidade da convivência não é pouca bobagem, testemunhar suas conquistas tem me feito chorar. A cada pedalada na sua bici nova, você abre um sorriso de satisfação que nunca vi em nenhum outro rosto. É um milagre. E quando você cai, meu coração vem até a garganta, mas você se levanta, limpa a mão na camiseta e sorri. Você é tão corajoso, curioso e valente, filho. Admiro muito isso em você. Observo sua sede de autonomia, seu ânimo de viver, sua doçura bruta, sua desobediência civil: você é a criança que eu gostaria de ter sido. Você brilha.

Quero me contaminar pelo seu riso frouxo. E ouvir atentamente seus ensinamentos com o coração aberto: "Cada um tem seu jeito de fazer as coisas, mamãe" ou "Você precisa aceitar o nonno como ele é", ou ainda "Mangia che ti fa bene!". 
  
Nesta insana proximidade, agradeço a oportunidade de nos reconectarmos - como fizemos nas férias de julho. Agradeço por perceber como sou boba quando perco a paciência por besteiras, como repito contigo os mesmos erros que cometeram comigo. Preciso calibrar minhas emoções pra dar conta de tantos aprendizados. Gratidão por ter me escolhido para te maternar, meu pequeno-grande Mestre. 


quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

verdadeiramente solo

Nunca me pesou essa coisa de ser mãe solo. Talvez pelo apoio incondicional dos meus pais, nunca senti de fato essa "solidão". Por três anos me encerrei na maternidade e a ausência (mesmo) de alguém para compartilhar as conquistas do pequeno. Meu lado controlador adorou estar "no controle" (risos) de tudo.

Mas ontem (ai), ontem eu fui conhecer uma escola linda.

E na reunião de apresentação, só casais. Olhei pro lado: 5 casais. E eu.

Fato é que Antonio foi contemplado com uma bolsa integral nessa escola linda. E foi também agraciado com uma vaga na escola pública cobiçada por nós. Quanta abundância, benzadeus!

Na escola linda, o sonho.
Na EMEI, o ativismo.

Na escola linda, um abismo. Na EMEI, outro abismo.
De um lado, uma bolha protetora. Do outro, a realidade nua e crua.

Estou muito dividida. A escola do seu filho é uma decisão grande. E pela primeira vez me sinto sozinha nessa escolha. Verdadeiramente solo.


segunda-feira, 13 de novembro de 2017

dor de crescimento

Noite passada você sofreu muito. Contorcia seu corpinho de recém feitos 4 anos, sentindo dores nas pernas, nas juntas, nos músculos. Tão cansado de tanto pulo, correria, diversão... como você brinca gostoso, filho!

Mas durante a noite, sofreu.

Não acordou, mas choramingava alto, reclamando das pontadas agudas que um dia de intensas atividades e ansiedades gerou no seu corpo. Eu massageava suas perninhas.
Tentei arnica. Tentei lavanda. Tentei sucupira. Tentei amor - no meio da noite insone.
Até que, de exaustão, você dormiu.

Você está crescendo e está doendo.

Então eu queria te falar uma coisa, filho: crescer dói. É assim mesmo. Essa sua dor física é uma amostra do que há de vir pra quem é buscador como você. Você nasceu buscador, como sua mãe. E quem busca, nem sempre acha, mas sempre desabrocha.

Buscar é motor pra crescer. A dor passa. O crescimento fica.
Buscar é sair do casulo e virar borboleta.
Buscar é expandir. É olhar além. Encontrar beleza e realeza.
Buscar é experimentar o novo sem medo. E com medo também.

Que suas buscas andem sempre de mãos dadas com seu crescimento.
E não se preocupe: a dor passa.

 


terça-feira, 1 de agosto de 2017

volver

Há dias late aqui o desejo de dedilhar sem pausa o teclado impertinente. Repousar os olhos sobre a tela branca sem nenhum compromisso me remete a um passado nostálgico, em que essa era minha rotina: escrever todos os dias: buscar inspirações: encontrar tempo: encontrar a policromia da vida. 

Então aqui estou - tentando voltar, dois anos depois, ainda meio de ressaca. Com os olhos cheios d'água, por algo que me tocou tão profundamente inda agora - e como foi forte: a lembrança de quando me descobri grávida, absolutamente surpreendida pela missão que me fora confiada. Pela rejeição àquele que já me habitava. No desespero de quem sentiu as asas amputadas, o chão sumir, o peso da 'inconsequência', a incerteza do futuro, a certeza da solidão. "Não quero, não vou ter esse filho" - eu repetia.

E chorava - constatando a ineficácia de qualquer mecanismo de controle. Constatando, desde aquele milímetro de feto, que eu seria incapaz de abortar. O que eu abortaria seria meu discurso feminista da vida inteira.

Tive coragem de escolher. 
"Ainda bem" - dizem. 
"Ainda bem" - digo.

Antonio faz tudo valer à pena? Foi a pergunta-brinde que ganhei esta noite e que me fez escancarar esta ferida e curar o que faltava desse pedaço de história. 

Antonio é meu mestre. O mestre te ensina pelo amor e pela dor. Te ensina por vias escusas e tortuosas, mas sempre com muita ternura e compaixão. Ter um filho é um salto quântico na existência, sem dúvida o maior desafio da minha vida. Ter um filho é aprender a ser filha. É o ato mais altruísta da humanidade. É tomar consciência de todos que vieram antes de você e tornaram isso possível. Ter um filho é insanidade, psicodelia, cura e recompensa. Muitas coisas valem à pena sem filhos, não posso ser hipócrita. Mas quase tudo vale mais à pena com eles.

Honro minhas escolhas e agradeço a guiança que acompanha minha estrela. 


terça-feira, 11 de agosto de 2015

meu vô

Hoje precisei sair cedo e chegar tarde. Deu uma saudade danada. Foi a primeira vez que você passou o dia inteiro sem mim e adormeceu sem mamar. Fiquei tranquila porque você estava com seus avós, nossos parceiros nessa jornada. Mas à noite sua vó teve um curso e precisou sair. Fiquei receosa porque seu avô nunca havia trocado uma fralda. Mas ele se garantiu. Não só trocou sua fralda, como deu banho, janta, afago e fez você dormir.
Quando eu cheguei, fiquei emocionada e cheia de orgulho.
Percebi a magia que há em ser avô.
É viver tudo aquilo que não foi vivido com os filhos.
É redimir o passado.
É tornar-se ídolo.
É reencontrar-se com você mesmo e encontrar-se com o novinho em folha, que acabou de chegar e tem tanto a ensinar.

Gratidão ao meu pai, seu avô, que no dia seguinte do dia dos pais, me deu este presente. 

segunda-feira, 22 de junho de 2015

enquanto você dorme

Te coloco na cama e suspiro. Passaram-se pouco mais de 500 dias desde que você chegou, e este segue sendo um ritual solene. Suspiro, te olho com ternura, faço uma oração ao seu anjo para que você durma bem - no começo ele estava meio distraído, mas tem dado mais ouvidos as minhas palavras ultimamente.
Então você dorme. E hoje te olhei com inveja - queria mesmo ter deitado ali ao seu lado e só acordar com os primeiros raios deste sol invernal. Mas saboto meu desejo. Me boicoto por responsabilidade, por pressão, pra ter paz de consciência. Me boicoto pra dar conta. Enquanto você dorme, eu tenho uma lista de coisas pra terminar, realizar, começar... e se eu não fizer por nós, quem vai fazer? Não temos com quem dividir tarefas. Somos só eu e você, filho. Então, por mais duro que seja, eu preciso sair de uma cama quentinha no meio da madrugada gelada pra voltar pra casa antes de você acordar. Sem peso, isso faz parte do pacote.
Mas às vezes gostaria que minha maternagem solitária fosse mais compreendida nas pequenas coisas. Sim, numa sociedade em que amamentar uma cria até os 6 meses é luxo, deve ser difícil entender como alguém escolhe ainda amamentar seu filho até 1 ano e 7 meses. Meu suspiro é de cansaço, de pesar por me sentir nada pertencente a este sistema. Mas sobretudo meu suspiro é de missão cumprida: enquanto você dorme, eu cuido pro mundo te receber.

"Desejo que quem mergulhe na maternidade como eu mergulhei, possa entender que, por mais que pareça que você só está perdendo, (perdendo amigos, perdendo o corpo de antes, perdendo dinheiro, perdendo carreira) acredite, você está ganhando: um sentido maior para a vida".

segunda-feira, 15 de junho de 2015

carta pro filho [2]

Essa coisa de ser mãe tá ficando cada dia mais interessante: você agora entende tudo o que eu te digo. Tudo não é força de expressão. É tudo mesmo! Entende na medida da sua curiosidade pelo mundo, com a inocência de quem nunca ouviu aquela novidade antes. É lindo de ver.

Hoje te contei que, neste planeta que habitamos, não existem duas pessoas iguais. Tem loiros, rastafaris, budistas, baixos, altos, orientais, muçulmanos, cegos, morenos, meninas que gostam de meninos ou de meninas (ou dos dois)... mas pra muito além disso - e você me olhava muito sério e compenetrado - não existem duas pessoas com a essência igual.

Essa é a grandeza mágica de ser humano, filho: somos parte de uma espécie imensa, mas nem sequer um representante desta espécie é igual ao outro. Tão complexos e fascinantes, cada qual com caminho de evolução, cada um de nós galgando um aprendizado diário único e individual. 

Mas ao mesmo tempo, somos muito parecidos. Precisamos nos parecer para pertencer. Nossa parecência é coisa que nos identifica. Sentimentos, emoções e sonhos em comum nos unificam. Um dia você vai ter a sorte de encontrar alguém que não se parece em nada com você, mas vai ser idêntico a você. Soa estranho, mas isso vai te fazer sentir um bem estar indescritível, como se sua alma tivesse encontrado outra alma idêntica a sua, uma complementação perfeita. A isso damos o nome de amor. Desejo que você cultive sempre o amor no seu coração, filho. É só o amor que nos faz superar diferenças, limitações, preconceitos.
O amor nos faz ser Humanos.



quinta-feira, 16 de abril de 2015

eu não sei mais escrever

Minha escrita anda quase irremediavelmente enferrujada. Fico aqui pensando que já tá muito tarde, que deveria aproveitar para descansar enquanto o bebê dorme, que a pressa não vai deixar a inspiração chegar.

Escrevo, apago.

Escrevo, apago.

Não consigo mais amar as palavras que um dia já foram tão minhas. Acho que desaprendi a escrever. Acho que tive que guardar minha sensibilidade numa caixinha. Engavetei emoções. Me perdi no rebuliço da maternidade. Respiro curtinho, enredada em mil afazeres profissionais, domésticos, maternais, filhais... Esqueci das minhas vontades. Há quanto tempo não suspiro de prazer?

Neste que é, até agora, meu momento mais cheio de vazio, de incertezas, de desrumos. Nesta era de crises planetárias, nacionais, governamentais. Neste tempo de excesso de egos, de ofertas, de virtualidades... neste tempo, me desencontro de mim, da minha essência. Não sei onde vim parar. E nem como daqui sair. Talvez o retorno a estas letras me ajude a encontrar o caminho de volta pra casa do coração.  

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

de repente, 2015!

Faz uns meses que to tomando fôlego pra escrever e de repente amanhã já é ano novo! A vida deu uma guinada de 360 graus em looping, a rotina me engole, o cansaço de consome, a necessidade de sobrevivência se impõe. Sigo adiante, sem escrever, sem expressar, pra não desmontar. Mas esse seu sorriso maroto sempre presente me dá confiança no ser humano. Estou com saudades de quem eu era, sinto uma falta IMENSA da minha independência, mas olhar para você dormindo ou mamando ou gargalhando me faz lembrar que esta missão é muito maior. E quer saber? Acho que com todos os percalços, tô me saindo muito bem! E não sei como seria sem a presença dos seus avós maravilhosos, que nos lambem como crias pequeninas que nunca deixaremos de ser. E sem os amigos incríveis que cultivei ao longo da vida, que estão conosco pro que der e vier! E sem seu pai, sem o qual você simplesmente não existiria...

2014 foi um ano duro. Que em 2015 a gente consiga mais leveza (venimim, levezaaaa!!!). Que eu seja mais corajosa pra me jogar com você no mundo. Que a gratidão, a positividade e a confiança permeiem todas as nossas relações. Que a nossa saúde siga perfeita. Que a vida siga nos presenteando com encontros mágicos, abundância, amor e felicidade. Porque a gente merece. Feliz novo ano.

terça-feira, 13 de maio de 2014

carta pro filho [1]

Oi filho,
Hoje faz 6 meses que você chegou nesta órbita. Falta tempo para curtir cada segundo seu na terra. Você mamando é o maior dos milagres; dormindo é doçura infinita.Vejo você conquistar pequenos movimentos, seus passos de gigante. Observo suas descobertas tão inocentes e acho que tudo é obra de Deus. Digo todos os dias baixinho no seu ouvido que te amo, que você é minha estrelinha brilhante. Não sabia que tinha tanta ternura guardada até você chegar. Não sabia que seu sorriso ia me trazer tanta leveza pra encarar os desafios. E sempre soube que nossa conexão ia ser profunda. Você me faz acessar diariamente minha intuição.
Mas nem tudo são flores. Houve muitos espinhos nestes 180 dias. Queria ter mais tempo, mais grana, mais disposição, mais coragem [às vezes], menos preocupações. Faltam horas de sono, falta paciência, falta-me aceitação, falta-me a yoga (imensamente), falta a liberdade de antes.
Mas sobra amor. E isso é tudo.
Que venham mais 180 mil dias com você, meu pequeno grande homem.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

relato de parto

Outro dia, minha mãe me perguntou quando eu havia optado pelo parto natural, quando essa escolha se tornou uma possibilidade para mim. Eu pensei por alguns instantes e a única coisa que eu consegui responder foi: “Não foi uma opção, sempre foi uma certeza!”.

Agora, enquanto ouço o set list de músicas que preparei para tocar durante o meu parto, me emociono ao lembrar de flashs daquele que, sem dúvida, foi o maior momento da minha vida até hoje. Já não consigo imaginar como seria viver sem ter passado pela experiência de trazer Antonio ao mundo como eu sonhei e como ele desejou.

E foi assim: na segunda-feira, 11 de novembro, me olhei no espelho antes de dormir e vi meu lábio superior muito inchado, parecia que eu tinha depilado o buço. Como este é um dos indícios da preparação do seu corpo para o parto, pensei: é amanhã! Acordei sentindo algumas contrações e liguei para minha doula, Thiana. Ela é de Jundiaí, mas estava em São Paulo, pois havia acompanhado um parto no dia anterior na cidade. Perguntei se ela poderia passar em casa para nos vermos, pois não tinha certeza se aquilo já era o início do meu trabalho ou se era um falso alarme. Só que ela, junto com minha parteira Camila, estavam a caminho de Jundiaí onde outra gestante já estava em trabalho de parto. Ops, pensei... e agora? E se não der tempo delas chegarem aqui? Ela se certificou de que minhas contrações ainda não estavam ritmadas, me tranquilizou, e disse que à noite ela e Camila estariam comigo. “Respira que vai dar tudo certo!”. E foi isso que eu fiz, comecei a respirar.

Decidi ir até o Parque do Ibirapuera com minha mãe. Levamos uma canga e ficamos deitadas à sombra de uma grande árvore conversando, rezando e aproveitando os raios de sol da manhã. As contrações ainda estavam bem espaçadas e fraquinhas, mas eu sabia que estava perto. Voltando para casa, preparamos o almoço e fui descansar um pouco. Durante todo o tempo, Thiana e Camila ficaram em contato comigo, trocando mensagens e monitorando meu estado. Eu estava de fato tranquila. À tarde, perto das 16h00, Thiana me ligou avisando que Valentina, filha da outra gestante, já havia nascido.

Confesso que fiquei aliviada. Eu ainda não estava em trabalho de parto de fato, mas as contrações já estavam um pouco mais doloridas. Minha mãe estava o tempo todo comigo. Pedi doce de leite, ela começou a fazer um panelão. Ainda havia algumas coisinhas pra pendurar no quarto de Antonio, então pedi a meu pai que pegasse o martelo, porque “de hoje não passa”. Foi nesse momento, por volta das 19h30, enquanto ele martelava a parede do nosso quarto, que senti uma pontada mais forte. E depois de oito minutos, outra. E depois de cinco, mais outra. A evolução foi bem rápida, ou não sei se fui eu que não percebi que as contrações estavam ficando mais frequentes, mas minha sensação foi que aconteceu de repente. Liguei para as meninas, elas estavam saindo de Jundiaí. Pedi pra acelerarem um pouco na estrada, pois o negócio estava apertando.

Decidi entrar na banheira para dar uma relaxada. Apaguei as luzes e acendi umas velinhas que já havíamos preparado. Minha mãe ao meu lado, começamos a rezar juntas. Eu respirava concentrada e quando a contração vinha, me ajoelhava na banheira e vocalizava um grande aaaaahhhhh, ou ooohhhhhh, soltando o ar junto. Foi instintivo. Até aí ainda estava tranquilo, pois as contrações estavam bem breves.

Depois de um tempo, decidi sair da banheira e comecei a preparar o ambiente no quarto dos meus pais, onde havia escolhido realizar o parto. Peguei meu tapetinho da yoga, estendi no chão, e coloquei por cima várias toalhas que já estavam separadas. Tentei encontrar a posição mais confortável para mim, sempre respirando e me concentrando muito. De quatro era o modo como me sentia melhor. Acho que já era perto das 21h00 quando eu realmente comecei a ficar um pouco aflita por estar sem o amparo das meninas, mas eu sabia que dentro de poucos minutos elas chegariam. De fato, dali a 20 ou 30 minutos Thiana e Camila chegaram. Eu já estava meio em alfa, as contrações já estavam bem dolorosas e nem sei mais de quanto em quanto tempo estavam vindo, mas sei que era pouco.

Logo Camila fez o toque e constatou que eu estava com 5 para 6 cm de dilatação. Já?, perguntei. Nossa, que rápido... uau, em apenas duas horas eu já tinha andado mais da metade do caminho. E sozinha! Fiquei confiante e feliz com a notícia. E assim prosseguimos. Elas me apresentaram outras posições que poderiam ajudar e juntas fomos construindo as próximas horas. O ambiente estava aconchegante na penumbra e havia muitas velas espalhadas por todo o quarto. Meus pais não saiam de perto de mim.

Inicialmente eu havia pedido para meu pai não participar do parto, pois ele se afligiria e me deixaria mais nervosa. Mas, para minha surpresa, foi ele quem ficou ao meu lado até o final, quase ininterruptamente, aplicando um passe de energia em silêncio. No final, foi minha mãe quem deu uma sumida - depois fiquei sabendo que ela ficou bastante nervosa em me ver com dor e não aguentou ficar próxima.

Não demorou muito, chegou também a Dani, assistente da parteira Camila, cuja presença foi essencial. Seu toque forte e carinhoso me massageou muito em vários momentos, e sua voz maravilhosa ajudou a embalar o parto com músicas lindas que cantamos juntas, além de tocar também alguns instrumentos para chamar Antonio para este mundo.

Acho que perto da meia noite, a bolsa rompeu e pude sentir aquela água viscosa e quentinha, que por nove meses havia guardado meu filho, escorrer por entre as minhas pernas. A esta altura, eu já estava com muita dor. Thiana me instruía a não resistir, a me entregar à dor, dizendo que ela não era mais forte do que eu, e que ia passar. Enquanto isso, eu falava palavras doces para meu filho, convidando-o a chegar e realizar a passagem. Lembro de ter falado pra ele que iria leva-lo para conhecer os golfinhos em Fernando de Noronha e que todos estavam muito felizes esperando por ele aqui fora. Durante todo o processo, o bebê era auscultado com frequência e eu podia ouvir seu coraçãozinho batendo a milhão, o que me tranquilizava bastante.

Já perto do início do expulsivo, voltei pra banheira quentinha. Isso ajudou muito a atenuar a dor das contrações. Neste momento, acho que por volta da 1h30 da manhã, eu já estava com 9 cm de dilatação, mas Antonio estava gostando de ficar lá dentro e não descia. Então, Camila pediu que eu saísse da banheira para ficarmos um pouco em pé rebolando, que auxiliaria na expulsão. Relutei porque estava muito melhor ficar na água, mas sabia que era necessário. Voltei então pro quarto e aí o bicho pegou.

Começou a doer muito, de forma quase insuportável. Mas o corpo é muito sábio e, depois de uma contração dolorosíssima, vinha outra mais leve para poder recobrar energias. E a tal da vontade de fazer força chegou. Camila me orientou a ficar de cócoras e disse que estava muito perto, Dani me sustentava por trás. Era muita dor, muita! De repente, o urro da leoa trouxe Antonio de uma vez, chegou chegando!
Não consegui chorar. Ele veio direto pro meu colo, fiquei olhando atônita, maravilhada. Exausta. Ele também não chorou. Era rosadinho e grandão. Meus pais se chegaram e eu senti o amor da família com toda sua potencia. Eu e Antonio só existíamos porque meus pais existiam.

Ficamos alguns instantes nos namorando, eu e meu pequeno. Logo depois, fui para a cama e na sequência a placenta dequitou inteirinha. O cordão foi cortado pela minha mãe assim que parou de pulsar, uns 15 minutos depois. Antonio nasceu com 3.700kg e 53 cm. Não tive laceração e minha recuperação foi espetacular, muito rápida. Mas o que mais me inspirou, o que me faz dizer hoje que passaria por tudo isso de novo, foi o respeito e o amor com que fui tratada. Estar na minha casa, junto
dos meus queridos, amparada por uma equipe amorosa e atenciosa, tendo liberdade para me mover, comer, gritar sem ser julgada, tudo isso não tem preço.

Meu parto domiciliar foi um ato de puro amor. Acredito que tenha sido a primeira vez na vida que me dispus a vivenciar todas as sensações de coração aberto, sem reclamar, sem julgar. E foi um exercício lindo de doação. Sou outra mulher, agora mãe.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

doce novembro

Filho, chegou seu mês. Parecia tão longe que eu achei que não ia chegar. Fiquei inventando um monte de coisas na minha cabeça de que você ia vir antes, que você não ia ser um novembrino... mas estava enganada! Você é um escorpiano mesmo, que em breve estará aqui pequenino nos meus braços. E eu fico imaginando como vai ser a primeira noite com você do lado de fora da minha barriga. Eu acho que vou acordar de supetão sentindo falta de uma parte do meu corpo. Aí vou olhar pro lado e vou te ver ali respirando curtinho do meu lado, puro milagre. Não vai ter mais ninguém com a gente, mas seremos tão grandes!
Sabe filho, eu ando pensando muito em quem eu sou e acho que sua chegada me faz querer ser melhor pra você. Não sei se estou conseguindo, mas estou tentando. E acho que junto com você eu vou conseguir. Tem tanta gente legal te esperando aqui, sabia? Muitas pessoas já te amam sem te conhecer. Você já está, aí de dentro, operando reencontros e transformações. Imagina então quando chegar, quanta luz vai trazer!!
Vem então, cumprir sua missão neste mundo lindo.
Estamos te esperando, minha estrelinha brilhante.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

dos finais

[porque os meus têm que ser sempre apoteóticos, senão não são finais dignos]

Suely Carvalho me falou de finais não-tradicionais, não precisa ser aquela quebra, corte seco para a próxima cena. Ela falou de possibilidades transitórias, menos impactantes, daquelas que dão tempo de digerir, interiorizar, reafinar o instrumento. Isso me tocou. Gostaria de provar desta calma, mas percebo que todos os meus finais são abruptos, apesar dos meus esforços em fazer diferente. Será possível torná-los suaves e dar-se conta, com serenidade, que é preciso deixar ir (let go)?

Mas nem tudo está perdido, já que na minha crença todo final é um recomeço!

Tô com a alma suspensa: muitos finais ao mesmo tempo para recomeços definitivos. Porque ter um filho é muito definitivo: é materialização pura, é concretizar sua passagem por este planeta.

Eis o que se passa:
final 1: adeus individualidade, agora sou dois;
recomeço 1: sou mãe do Antonio, nunca mais estarei sozinha (pelo menos por um bom tempo).
 
final 2: ideal de família Doriana despedaçado - este final é formado por vários finaizinhos melodramáticos e deve estar perto de seu Gran Finale;
recomeço 2: apenas recomeçar (aaaaai, que preguiçaaaaaa!).

final 3: deixar meu 'lar salgado lar' - este me causa dor e alívio ao mesmo tempo;

recomeço 3: não faço a menor ideia.

É, muitos desafios pela frente, alguém já tinha me avisado. Um pouco ansiosa, confesso, mas confiante. Não sei exatamente em que direção seguir, mas não tenho escolha, senão seguir caminhando. E caminhar com confiança é bem melhor!

domingo, 11 de agosto de 2013

mama africa

Vou te contar uma coisa: o que não me mata, me fortalece. Mas quem disse que eu quero ficar mais forte?? Sou uma fortaleza já, dessas bem fortificadas. Pra quê mais?! Fato é que na vida a gente realmente se coloca numas ciladas e, na hora que vai ver, já tá no labirinto, girando em círculos, procurando a saída, morrendo de tanto sentir. Eu não sinto no conta-gotas, pra mim sempre foi tudo ou nada, ou é ou não é. Então cá estou eu, passando sozinha pela experiência mais assustadora, mais reveladora, mais transformadora de toda minha vida! Nunca imaginei que pudesse ser assim. Honestamente, nunca de fato levei a sério essa coisa de produção independente, sempre idealizei uma tríade como família, já que eu venho de uma tríade muito sólida, muito integra. Como criar um filho sem pai? Eu não sei como é crescer sem pai. O meu é incrível, presente, sempre me apoiou, mesmo silenciando quando não concorda com minhas decisões. Sempre se interessou por mim, pelas mínimas coisas que faço, que sinto, mesmo usando minha mãe como interlocutora. Meu pai me admira e me respeita, mesmo me achando "alternativa demais" às vezes. Meu pai me escuta. Meu pai é pai e minha mãe é mãe. E eu não sei como conciliar dois papéis em um, não sei bem como lidar com minhas próprias emoções contraditórias e não quero de jeito nenhum projetá-las no meu filho. Então vou seguindo, tomando consciência e dando passos cautelosos na tentativa de acertar, mas na certeza de que vou escorregar. Em paz e cada dia mais barriguda.

Feliz dia dos pais pra você que é mãe solteira.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

super mulher



Eu já não sabia mais como lidar com uma vida cheia de atribuições. Tive que me exilar numa ilha semi deserta no meio do Atlântico pra deixar de ter 4 empregos, fazer pós graduação, estudar canto, assistir a todos os filmes em cartaz, ir ao supermercado, ser bem cuidada, culta, sociável e namorável...
Não sucedi muito. Foram poucos meses de “experiência do vazio”. Logo comecei a me envolver em trabalhos comunitários, cursos, atividades mil fora o meu trabalho oficial – que eu tinha jurado que era a única coisa que eu ia fazer porque realmente precisava! Então o tempo foi me engolindo, a rotina frenética foi se apaixonando por mim novamente. Aceitei que esta é minha essência, não posso fugir dela. Não deixei de ir à praia, mergulhar, aproveitar a ilha... mas fui acumulando funções, recheando meus dias de compromissos e horários.
Então entra em cena uma barriga. Atualmente com 24 cm. Ela me impôs limites. De repente, cadê minha independência? Onde foi parar minha vontade própria? Cadê minha disposição para enfrentar jornadas de trabalho, estudo, prazer?? Essa história de gravidez é uma insanidade! Eu preciso deixar tudo em ordem pra quando meu filho chegar!!!! Estar saudável e cuidar para que ele esteja, praticar yoga, cozinhar e comer bem, ganhar e guardar dinheiro, fazer um caderninho de memórias para ele, pensar em como será o parto, onde, quando e com quem, concluir trabalhos e realizar repasses e treinamentos, lidar com o fim de um relacionamento no meio deste turbilhão emocional, cuidar da relação com meu pai, ter paciência com a imbecil que tirou 15 dias de atestado médico no trabalho, organizar chás de fraldas e ter um enxoval mínimo para receber o pequeno, cortar o cabelo, a unha, ser blogueira, conciliadora, versátil, magra e... louca??? chegaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!

Cansei de ser super mulher.  Não quero. Não preciso.
Mas não sei como ser diferente.
#levedesespero

domingo, 4 de agosto de 2013

tudo tão rápido

Eis que, de repente, 25 semanas. Isso quer dizer: pausa para nada. A vida corre desenfreada, mais do que antes. Já passei da metade do caminho e... tantas coisas para fazer! Acordo e adormeço querendo sorver cada segundo desta maravilhosa experiência, cada milímetro desta barriga, cada movimento deste pequeno ser que cresce dentro de mim, graças a mim, cresce comigo. Me preparo para recebê-lo com tudo que há de melhor em mim. Me dedico a orar com ele, falar com ele, cantar pra ele, desenhar pra ele, escrever pra ele. Me sinto bonita por ele e para ele. Quero que ele tenha uma mãe bonita. Sorrio mais por ele, tento relevar a vida por ele. Quero que ele tenha uma mãe bem humorada e leve. E quando ouço seu coração batendo que nem uma alfaia acelerada, não consigo imaginar nada maior do que este milagre. Sinceramente? Tudo inesperado. Nada disso pode sequer ser imaginado ou descrito sem que seja sentido na pele. É pura magia, a natureza dominando seu corpo com toda força. É só confiar e entregar!