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terça-feira, 20 de março de 2012

elas estão casadas

Eu sei que de repente trinta. Saímos do país, de casa, da cidade, da terra firme em momentos diferentes, mas nunca nos separamos de fato. Somos muitas, o suficiente para fazer uma bagunça boa, fechar o bar, rir até dobrar - até passar vergonha. Perdi a conta de quantos brigadeiros de colher fizemos, de quantas vezes choramos no colo uma da outra - por homens, é claro. E depois por muitas outras razões triviais. Viajamos juntas, menos do que eu gostaria, mas nunca é tarde. Celebramos nascimentos, mortes e muitas separações. Intensamente. Brigamos, sem dúvida, porque o conflito é fundamental. Mas crescemos e nos entendemos. E, por mais maluco que tudo possa parecer, nos apoiamos. Acreditamos em nossas buscas. Então agora, de repente, como os trinta que chegaram num bater de asas, estão todas "casadas". O que era uma virou dois. A família cresceu com pessoas legais. E eu chego de longe, olho de perto, e vejo todas felizes, com brilhinho nos olhos e contando histórias, zelando pelo amor. Eu as vejo fazendo malas, fazendo planos, comprando passagens-destino-felicidade. E me sinto orgulhosa: meninas de janela que viraram mulheres incríveis. Viva o amor e a amizade. Sempre.

domingo, 22 de janeiro de 2012

como faz?

Subject: como?
Date: Thu, 19 Jan 2012 22:01:33 -0200

Ei. Essa coisa de sumir do mapa e ir pra longe...
Como faz?
Tua opção me cativa um bocado.
Ouviria histórias se quiser contar.
Bjo.
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Muitos amigos têm me escrito manifestando vontade de voar.
Deixo aqui um pouco da minha transpiração - que a cada dia se transforma em muita inspiração.

Meu querido,
Sou tão feliz pela minha escolha, que poderia passar a noite aqui te dando motivos para me imitar. Como? Como é muito fácil: arrume uma mala pequena, compre a passagem e parta pra onde o teu coração sugerir, mesmo que você não saiba direito o que está indo fazer lá. Foi assim que eu fiz.
Mas eu sei que não é a este "como" que você se refere. O movimento, ao contrário do que parece, é algo que está dentro de nós, então você só o fará se ele fizer profundo sentido para você. E mesmo que ele faça sentido, não é fácil. Na verdade, eu diria que é difícil pra caramba. É preciso ter muito desprendimento, força de vontade, confiança e alegria pra suportar a distância total da sua zona de conforto. Mas vale à pena, porque se afastando dela, você abre espaço para o novo, um espaço que você nem sabia que existia dentro de você. Se estiver disposto a enfrentar o medo do desconhecido, o medo de baratas, o medo da solidão, será recompensado de maneira absolutamente surpreendente, com um pote dourado dentro do qual estarão todas as ferramentas para a sua FELICIDADE. Se estiver com a mente aberta para aceitar verdadeiramente as diferenças, se tiver tempo para olhar a natureza e diariamente se der conta da efemeridade da vida, será muito menos penoso lidar com as crises existenciais e com as coisas que te desagradam. A vida se tornará mais leve e você, uma pessoa melhor.
Não sei te dizer exatamente "como", não tem receita de bolo. Levei alguns anos para efetivar essa escolha. Fui arando o terreno, regando um pouquinho todos os dias, preparando a retirada e, sobretudo, consultando meu coração, precioso oráculo. Me perguntava se a vontade de partir não era meramente uma fuga. No fundo, não me iludo: acho que todas as partidas são fugas, mas fugir consciente é diferente de fugir por fugir. Então, atenção a este ponto. E se for uma fuga descarada mesmo, que seja bem claro do que você está fugindo, porque pode ter certeza de que vai voltar - mesmo que você more no paraíso.
Ontem ouvi que minha vida é uma "montanha russa". Achei essa imagem bem engraçada. Irônico que, quando criança, eu ia ao playcenter e nunca gostei desse brinquedo que me deixava com enjôo e me dava muito medo - nunca subi em uma. No imaginário coletivo, a montanha russa é um desafio delicioso: todo mundo quer andar nela, pra poder gritar a vontade, extravasar, viver os medos face to face. No fundo, a gente gosta.
Então, depois de tudo isso, se eu puder te dar um conselho: vá andar de montanha russa, passe pelos loopings, frios na barriga, vômitos, frios, suadouros. Passe pela experiência, por todas as possíveis, se possível. Não deixe que as experiências passem, passe você por elas. Depois você vai ter muito mais do que um bocado de histórias pra contar: vai perceber que ainda tem um SEM FIM de descobertas por fazer.
Beijos,
Beta

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

feliz aniversário

que engraçado: eu não me livro de você. Mesmo se eu for morar no Butão ainda vou encontrar alguém que ouça interessado à história de como a gente se conheceu, que eu te pedi em casamento no primeiro encontro e que você adorou. Por que, convenhamos, qual é a chance de alguém me abordar na rua e perguntar se eu te conheço numa ilha no meio do oceano??? Passam os anos e nossos caminhos voltam a se cruzar, por um motivo ou por outro, a gente se encontra na fila do cinema, ou no meio da noite eu te ligo pra te perguntar... "que música é essa mesmo?". Eu não sei porque isso acontece, você é tipo uma ressaca. Nem sei como ainda sei seu número de telefone decor, acho que deve ser o único no mundo que eu sei decor, mesmo sem discá-lo há anos. Mas eu desconfio que tem amor demais na música que sempre nos uniu, e que talvez a gente tenha se gostado o suficiente pra nunca nos separarmos definitivamente. Não importa quem a gente namore pro resto dos dias, com quem a gente case ou tenha filhos. A gente já foi pra nova iorque e comprou all stars coloridos e pegou o "A train".
Apesar de tudo, eu acho nossa história linda. Fomos passaportes pra sermos pessoas melhores. Feliz aniversário.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

ilhada

Tô. Tô sim. Melancólica até debaixo d'água. Fui mergulhar cinza, esperando voltar azul, mas lá embaixo a melancolia só tem outro peso, outra densidade, outra cor. Ela continua penetrando, viscosa e opaca. O mar estava inquieto, exigiu concentração. Só depois, navegando de volta ao porto, barco feroz rasgando ondas escuras, me deu tempo de pensar em como a felicidade desaba sobre mim com a mesma intensidade que a tristeza. Altíssimos e baixíssimos, diria sabiamente a Gabi. Tô melancólica porque há 4 dias estou absolutamente desconectada do mundo, sem internet, sem telefone, sem a liberdade de poder me comunicar. Pela primeira vez, me sinto literal: estou ilhada. Tô melancólica porque a saudade dos meus amigos está cortante, falta-nos coragem para transpor a distância. Porque sinto falta repentina de cheiros conhecidos, de deitar no meu futon com a Vitória, fechar a porta de casa e deixar o mundo lá fora.

Hoje eu só queria soltar a cabeça no colo da minha mãe e usufruir do melhor cafuné do mundo.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

o amor verdadeiro

Uma amiga foi traída virtualmente. Acho que a dor é tão grande como se fosse presencial, não ter consumado o fato em si não significa nada. A repulsa é a mesma. Quando flagrada, a palavra escrita é mais pesada, mais concreta. Fere fundo ler frases como "estou loucamente apaixonada por você" ou "nunca tive uma conexão assim com alguém", ou até mesmo coisas de teor sexual que você nunca imaginou que seu parceiro pudesse te falar. Completamente apaixonada pelo namorado, está naquele velho dilema: algo se quebrou, não sei como recuperar a confiança, mas é o amor da minha vida. O que fazer? Ele diz que não significou nada, que me ama, mas não consigo confiar nisso. Então diga isso a ele, sugeri. Será?! Diante da cara de dúvida, perguntei: qual é o seu medo? Que apresentando essa desconfiança ele diga: "então, se você não confia mais em mim, é melhor terminarmos"? Talvez...
Então, siga seu coração! foi o que eu disse. Por mais clichê que possa parecer, é a mais pura verdade. Nosso coração, a voz de nossa alma, é a única guia que nunca nos engana. É nossa linha-mestre, nosso termômetro, nossa verdade. E pode apostar que o medo sempre vai surgir pra nos bloquear, pra nos desviar do nosso caminho de felicidade. Mas... e se ele me deixar?? Eu vou ficar solteirona, abandonada??? A solidão vai me consumir?

Pegue o seu coração e deixe-se voar. Seguir em frente, mesmo com medo, é abrir-se para a vida, que pulsa fora de nosso controle. Um dia, quando abdiquei de um amor em prol do meu coração, um amigo querido me disse: "Que incrível lição se apaixonar por alguém, mas quando esse alguém não está maduro para fazer as coisas no caminho de uma integridade, ter o poder de quebrar isso".

A única maneira, é enfrentar o medo, sem medo.
Não existe amor mais verdadeiro do que o amor para com você mesmo.

terça-feira, 28 de junho de 2011

burgovanguardistas

Ele, administrador de empresas - na verdade cineasta frustrado. Ela, recém chegada de Harvard. Alugam apartamento espaçoso no centro da cidade: edifício Hortência. Decoração minimalista. Do cubo branco ela sabe falar, apesar de nunca ter lido Rosalind Krauss. Sobre o chão de mármore da sua casa-conceito, espalham despretenciosamente exemplares do New York Times e Der Spiegel. Imagem é tudo, aprenderam em Harvard.

Do outro lado da cidade, planejam ter gêmeos. Ele engenheiro, ela empresária. Mas... como? Planejar ter gêmeos?! Sim, acreditam que hoje tudo se resolve com dinheiro e remédios. Até a vida.

Noutra manhã, um cineasta batiza a filha na igreja, com direito a padre, água benta e tudo. Artistas, cinegrafistas, produtores, todos os "amigos" presentes, mas desconfortáveis: coisa mais demodê batizar a filha na igreja, pelamor, hein?!

Tem também um encontro deslocado do tempo e espaço convencionais, sem logica, sem razão num apartamento cool na zona oeste com vista extensa sobre a cidade molhada. Ele, que enxerga tantos pela sua lente - bichos e gente - não consegue parar de falar de si. Ela só queria contar que vai finalmente fazer uma tatuagem, mas não conseguiu.

Enquanto isso, tomamos vinho nesta noite muito fria em que imagem é quase nada e damos muita risada de todas as imagens. Como diria Alice Ruiz, somos vanguarditas, pois extremamente contemporâneas.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

um pouco mais sobre mim

Hoje, depois do almoço mais indigesto de 2010, senti uma imensa sensação de gratidão. Aprendi muito mais sobre mim e sobre o mundo. Falei pouco, ouvi muito, coisas muito importantes, fortes, difíceis. Este ano do tigre veio com tudo, pra destruir o que não é pra ser, pra limpar os caminhos: começa com um estrondo, termina com um choramingo.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

ano novo

É muito bom fazer aniversário!! Queria que fosse todo mês. Receber abraços longos, afagos, amigos, palavras bonitas e desejos de tudo que é mais lindo e positivo no mundo. Ter vontades e mimos realizados num piscar de olhos. Ganhar bolo, sorrisos, presentes, sonhos de padaria e beijos.
Definitivamente: aniversário devia ser mensal!

terça-feira, 31 de agosto de 2010

sorriso

Fechei a porta e o dong tocou. Me contaram que o dong, quando vibra, deixa pra fora todas as energias negativas, protegendo a casa das coisas estranhas e mantendo aqui dentro apenas aconchego. Funciona mais ou menos como os sapatos, que eu tiro antes de passar a soleira, diariamente, para livrar o ambiente das cargas da rua.
Então, depois de um show louco, chocolate, massagem e longo abraço (e outro), você calça os sapatos e me deixa um sorriso no rosto. Permanente. Que até agora, 20 minutos depois, teima em quase me causar caibra nas bochechas. Me deixa com esse sentimento que não sei explicar - e que bom que é não saber explicar alguma coisa na minha vida! É bom e isso basta. Preenchimento. E sorriso.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

tudoaomesmotempoagora

socorro: férias. Preciso sair dessa cidade maluca, que nunca, nunca, nunca dorme. Inclusive eu não durmo, fico aqui pensando na viagem, no trabalho (ou na falta dele), no frila, no tás a ver?, no imbecil com quem saí na semana passada, no outro com quem saí na semana retrasada. Rememoro os encontros de ontem, as cervejas de hoje. Concluo que a minha vida é muito boa e o mundo tá muito gay, caramba! ... o canto, a conta bancária, todas as coisas que ainda quero fazer, todas as que quero deixar de fazer. E no que vou ler nas férias. Hoje fui ver "Empoeirados" no Oficina. Fazia anos que não ia lá e que não ouvia uma das músicas que eles cantaram na peça, canção tão doce, como tudo que a Ceumar faz. E essa música me trouxe outro pensamento: que a arte existe pra nos lembrar de que estamos vivos. São Genésio, conceda a todos o ganha pão, para que não nos esqueçamos da vida.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

sobre o Amor

Desde ontem tô emocionada. Uma sensação de bem-estar me tomou repentinamente, insistindo em conviver com aquela melancolia habitual, o que, ao invés de me entristecer, está me emocionando.
Só pode ser o Amor.
No começo da aula de ontem, a Tita, inspiradíssima em mais um de seus downloads divinos, falou palavras lindas sobre o Amor. Palavras que me fizeram chorar. E como nunca antes, a certeza tão certa de que é muito mais; de que esse que conhecemos, esse Amor condicional que nos ensinaram a sentir... não é nada disso!
Amor é incondicional. E só quem sente ou já sentiu, vai entender do que estou falando. Eu falo de um Amor imensurável por todas as coisas deste mundo, mesmo as que parecem ser ruins. Com esse tipo de Amor é possível ao menos compreendê-las. Eu falo de um Amor que é superação, liberdade, predisposição.
Então, o claro entendimento: até hoje, muito do Amor que eu senti não era ESSE Amor! Daí a incompreensão, a mágoa, os medos.
E isso não tem nada a ver com Amor...

Hoje o dia foi muito legal.
Estou me sentindo livre.

domingo, 13 de junho de 2010

limite

Algumas coisas demoramos a perceber e, às vezes, já é tarde para trocar de percurso. O limite é uma grande placa vermelha, quando o coração bate diferente, quando a realidade parece ser sonho, quando você se dá conta de que não faz a menor ideia do que vai acontecer nos próximos míseros 5 minutos.
Eu adoro um amor inventado.
Pra mim é tudo ou nunca mais.

domingo, 6 de junho de 2010

amigos e amantes

Minha mãe sempre me diz: "Escolha um homem para dividir a sua vida com quem você possa sobretudo conversar, porque isso é o que fica. Todo o resto passa".
De fato, é bom que nossos amantes sejam realmente nossos amigos, companheiros com quem possamos dialogar sobre tudo, e que todas as conversas sejam um tesão. É um tiquinho mais complicado quando nossos amigos se tornam nossos amantes. Difícil entender que a lógica mudou, que passamos a ter outro tipo de intimidade, que temos que compreender outras manias e razões. Perde-se a espontaneidade tão mágica da amizade, as alfinetadas bem dadas, as provocações. As reações passam a ser calculadas: já não é mais só um amigo, agora há outros interesses em jogo. E à amizade se sobrepõe então o jogo da sedução. Perde a graça.
Mulheres do mundo: mantenham intactos seus amigos!

quinta-feira, 27 de maio de 2010

tás a ver?

é assim que a gente trabalha...



+ em tasaver.org

terça-feira, 25 de maio de 2010

de como conhecer as pessoas

Tenho conhecido muita gente que não me faz perguntas sobre o que faço da vida, onde estudei, quem namorei, que países conheço... nada. Ou quase. Isso é um pouco irritante. A conversa flui sobre a superficialidade do momento, sobre as observações circuntanciais, ou sobre a história do outro - porque eu sou muito perguntadeira.
Até outro dia, considerei esse comportamento como um desinteresse do outro por mim. Mas nessa minha mania de aprender uma coisa nova a cada dia, descobri que existem diversas formas de acessar alguém.

A pessoa é o que é, não só o que conta ser. E uma das formas de saber quem ela é, é descobrir isso sozinho, não por meio da explicação dela mesma. Enquanto eu te conto coisas sobre mim, o que fiz, com quem andei, o que gosto de comer e assistir, você cria uma imagem minha na sua cabeça. As respostas e as explicações nos enchem de pré-conceitos.

Não saber é mais bonito, nos força a começar novas histórias, a nos re-conhecer.

A pessoa é o que é - e inevitavelmente carrega consigo o que viveu.

quarta-feira, 17 de março de 2010

sete ou oito amigos

Vínhamos conversando sobre amizade na luz bonita da noite molhada. Falamos que 7 ou 8 amigos é um bom número. Ótimo, eu diria. "Até o fim da vida", disse o Filé. São 7 ou 8 personagens que vão e vem, saem de cena, dando espaço a outros coadjuvantes. Às vezes voltam, nem sempre. E isso não é triste, só um movimento natural da convivência, das aspirações, dos momentos de vida de cada um. Saudades? Sempre há. Principalmente pros saudosistas como eu. Mas hoje entendo e respeito amizades que se foram e talvez não voltem. E já vivi algumas que foram e voltaram. E continuam indo e voltando... talvez esse seja seu ponto de equilíbrio. Já voltei pra algumas também (com muitas saudades) e parti de outras que não faziam mais sentido. Porque a vida é assim: movimento. E mesmo que às vezes esse movimento se pareça mais com um terremoto, a gente percebe que ele acontece pra tudo ficar no lugar. Perfeito.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

tás a ver?

É isso, gente. E muito mais.



quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

vento bom

Hoje ganhei um doce (e um novo amigo): um sorriso vespertino colou na minha boca. Hoje recebi um presente que há meses esperava: meu pai chegou de Angola, contando pequenas anedotas incrivelmente surreais, que só quem já viu é que acredita. Realizei, também, um desejo muito simples: jantei com a minha família unida na casa da minha mãe. E ao chegar em casa cansada e encontrar o iptu na soleira da porta, descobri que estou isenta este ano.

É nas coisas pequenas que estão as grandes coisas. E tenho dito.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

saudades de lugar nenhum

Sábado fui num bar onde nunca estive. Ele existe há 17 anos em São Paulo, ou seja, eu tinha 10 quando abriu. Cheguei lá e achei o lugar um moquifo. Moquifos costumam ter ótima música, pensei. Depois de alguns passos, muito charmoso. Aconchegante, clima de "lá em casa". Luz baixa, várias mesinhas, pessoas interessantes e um palco ao fundo. Bem iluminado. Um garçom simpático faz toda a diferença. Gostei, certamente me tornarei uma habitué, pensei (de novo). Sentei com uns amigos que já tinham chegado. "Pô, legal esse lugar, né, meu? São Paulo surpreende a gente com uns buracos, vou te contar...".
"Pois é", diz uma amiga. "Hoje é a última noite, estão fechando".
Como assim????????? Hein?! Encontro um lugar de música bacana, barato, com pessoas bonitas, garçom simpático... e vai fechar?
Dezessete anos se passaram e vai fechar BEM hoje???
Daí em diante parecíamos um monte de bêbados saudosistas. No palco se sucediam músicos mais ou menos significativos - a maior parte deles realmente bons, que de alguma forma prestavam homenagem à casa que foi tão importante para a música brasileira dos anos 1990. O bar parava para ouvir. E aplaudir. Entre uma entrada e outra, os dois sócios se revezavam para narrar pequenas histórias do lugar, detalhes de personagens especiais, palavras bonitas e comoventes. Todos participavam de alguma forma - até nós, que estávamos lá pela primeira vez. O clima não estava derrotista, mas genuína e estranhamente esperançoso. Amigos de longa data trocando abraços, cantando e bebendo juntos num ambiente familiar. A última frase de que me lembro, e anotei para não esquecer antes de algumas doses de Seleta, foi o Rafa dizendo: "Puxa, já estou quase com saudades de um lugar onde nunca vim". Nos olhamos. E rimos muito: na felicidade melancólica que só a madrugada é capaz de trazer.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

again, again, again

Eu, pra variar, choramingava por um homem qualquer. Na sala de estar da nossa casa tipicamente inglesa, sentadas no chão, rodeadas por gatos, bebíamos Bacardi como água. A única regra era beber o suficiente para esquecer. Lá fora, frio. Do lado de dentro, aconchego. Talvez fosse a nossa latinidade ou o simples fato de nossos corações conseguirem conversar sem ressalvas. O cd do Sting que eu tinha acabado de ganhar da Pal comemorava nossa pré-ressaca. A faixa 01 "Brand New Day" foi a trilha daquela noite. Lembro de pedir inúmeras vezes pra ela voltar pra aquela faixa com aquela cadência de quem já passou do ponto: "agaaain, agaaain, agaaaain number óooone". E ela se levantava, cambaleando até o som, voltava para a faixa um. Acho que ela fez isso umas 25 vezes, até dobrarmos de dar tanta risada e não parar de falar "agaaaain, agaaaaain". Mesmo sem a música ter acabado, ela ia lá e apertava o botaozinho. E ríamos. Muito.
Coisa de bêbadas.
"My angel", foi como passei a chamá-la depois daquela noite. Ela me salvou de mais uma dor de cotovelo, cuidou da minha ressaca, e ainda se encarregou de aquecer outras geladas noitadas londrinas, com ideias mirabolantes, a boca sempre pronta pra um sorriso.
Faz 10 anos.
Tempos depois, nos encontramos em Buenos Aires. Recém-casada, orgulhosa de ser dona de casa, mulher trabalhadora, esposa, mas ainda conservava aquela menina traquinas de olhos grandes e brilhantes. Fez uma festa pra mim com empanadas, me apresentou seus amigos, seus pais, seus sonhos. Tomamos um porre rememorando os velhos tempos, ouvimos "Brand New Day", rimos muito. Choramos ao nos despedir.
Em seguida, a filha. A separação do marido.
"Às vezes a vida precisa de um 'agaaaaain'!", ela disse.
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Hoje percebi que não devia ter ficado tanto tempo distante de você.
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