Mostrando postagens com marcador sonho. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador sonho. Mostrar todas as postagens

domingo, 31 de julho de 2011

telefonema

Noite passada tivemos uma conversa de nunca acabar. Você me contava estórias deliciosas da sua infância. De viagens, do seu avô. Você estava fanho e tomando chá de alho pra curar a gripe (e a ressaca). Aí você pediu pra eu cantar pra você. Eu quero a sorte de um amor tranquilo, com sabor de fruta mordida. Nós na batida, no embalo da rede, matando a sede na saliva.

...e você não parava de repetir – que linda, que linda! Me disse que estava chegando, que eu não devia me preocupar, pois tudo chega no tempo certo. Eu suspirei de leve, tentando não deixar você perceber que para mim chegadas são na verdade partidas e que nada nem ninguém chega pra ficar. As pessoas tão de passagem, eu disse. Não, eu vou pra ficar! – você respondeu.

Tudo que eu vejo ao meu lado, tudo que eu sonho, vai entrar no coração.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

a praça dos sonhos

Eu não sei como funciona a vida para os que não sonham, mas deve ser muito chata. Eu sonho demais e muitos dos meus sonhos se tornam realidade material e concreta em frente aos meus olhos. Quando isso acontece, uma sensação de imenso prazer me invade, meu corpo formiga, não consigo (nem quero) esconder sorrisos. Aqui em Fernando de Noronha, um grupo de pessoas (eu incluída) está trabalhando num projeto de resgate de uma feira de artesanato que há 12 anos não acontece. Estamos reunindo os artesãos da ilha, trabalhando com seus sonhos, suas visões de futuro, seus desejos. Bonito de ver. Além de valorizar a arte e os produtos locais com um viés de sustentabilidade (escolhido por nós), pretendemos que esta feira se transforme num espaço de encontro para a comunidade, onde todos possam se sentir em casa, acolhidos por um clima de entusiasmo, encantamento, inspiração. A feira tem acontecido e tem sido um sucesso, mas é claro: estamos encontrando diversas pedras no caminho. Faz parte. Bate aquele desânimo, vontade de desistir, me pergunto porque eu sempre me meto nessas pra me matar de trabalhar... me desgasto... e no final, sobra o quê?!

Há algumas semanas, decidimos dar uma pausa no evento para avaliar o processo, melhorar de fato o que precisa ser melhorado e resolver algumas questões pontuais dentro do grupo organizador. Noutra noite, caminhando solta pela brisa, passei em frente à praça onde a feira ocorre. A praça não sofreu nenhuma interferência estrutural significativa: apenas uma grande luz verde foi instalada no topo de um coqueiro. Bastou isso. O que pude ver? A mesma praça iluminada por uma lâmpada verde?? Não. O que eu vi foi meu sonho se tornando realidade, ali, aos poucos, muito sutilmente. Crianças brincando de pega-pega, jovens senhoras conversando e rindo da vida, pessoas caminhando e curtindo o barato de ter uma luz verde iluminando a praça que antes servia de estacionamento. Essa cena boba e corriqueira me fez sorrir e pensar que as coisas são muito mais simples do que imaginamos. E que tudo parece pequeno quando já passou. Então, em resposta à minha pergunta: resta o sonho. E isso não é pouco não.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

bom dia amor

Só a calmaria de dias de amor pode trazer tamanha lucidez. A grama do vizinho não é mais verde. A pancada não é saudável. O que é bom é a construção - e o mais difícil também. E enquanto finjo não saber, fico esperando pela pancada: estou viciada naquela sensação de adrenalina, de torpor, e não quero saber de sentir outra coisa. Depois das velas consumidas, 90% é volúpia, apenas 10% é paz. Obstinada, me pergunto: o que precisamos provar pra quem - a não ser pra nós mesmos?
As coisas estão bem na frente do nosso nariz. É só querer enxergá-las.

sonhei que acordava ao teu lado e te dizia bom dia amor, bom dia
que sonho este sonhando acordar ao teu lado, bom dia
que dia cheio de outros dias que deitamos juntos, amor
que dia, acordar nos teus braços do lado de cá do teu lado
bom dia amor, bom sonho de amor dormir assim
teus perfumados graus centígrados bem perto amor, bom dia
a tua pele e a manhã aconchegada, bom dia amor, que dia quente
bom dia de luz que entra e já não sai do quarto
um sonho amor, um sonho de luz que já não sai mais do dia
amor, sonhei que acordava ao teu lado e te dizia bom dia amor, bom dia
[Nuno Milagre]

sábado, 18 de setembro de 2010


Chegando em casa de um dia de muitas emoções, detém seu olhar no espelho por alguns segundos, prende os cabelos com desajeito, enfiando uma piranha entre os cachos para lavar o rosto. A fronteira entre a loucura e a sanidade é muito (muito) tênue - pensa enquanto joga água fria sobre os olhos. Um pouco louca, um pouco sã. Seca o rosto. Sem condições de decidir nada, sem vontade de pensar em ninguém, nem de cantar, com preguiça do voyeurismo, das discussões conceituais, apaga a luz. E se lembra que, desde pequena, acha que seu penteado, feito no instante de lavar o rosto à noite, fica ótimo assim desprentecioso.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

amaciando

tô tentando não perder a mão
manter a calma, apesar da explosão
manter a doçura, mesmo na solidão

espalhar pétalas no corredor
para passos flutuantes
e silenciosos

perfumar meu cangote com gerânio
não deixar a tristeza se instalar

só passar

sorrir com a alma,
ouvir conselhos bons.

tô tentando não perder a mão:
quero achá-la na sua.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

shelter

Quando eu viajo pra cá, eu como muito (bem), bebo muito, durmo muito, faço muita yoga, tomo banho de rio e de mar. Quando eu durmo aqui, meus sonhos acordam frescos. Aqui é meu refúgio, onde abrigo minhas tristezas e me apaziguo. Na noite passada, sonhei com a mesa da sala que eu quero comprar. Era ela, exatamente bela como eu imaginei. Ainda não sei onde encontrá-la e nem quanto ela custa, mas agora ela tem forma. É engraçado como cores, texturas, formas e cheiros me confortam, ainda que só em sonho. E no meio do meu devaneio noturno veio a casa Battló, a Pedrera, o parque Guell, muito Gaudí, loucamente inspirador com suas formas e cores, e eu andando em corredores de vento.
Acordei pra outra viagem, pronta para recobrar a poesia em mais andanças, novos olhares, encontros e inspirações. E decidida a adiar um pouco mais a compra da mesa nova - agora ela já tem forma mesmo, né?

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

até o verão

Acordei o sol alto já aquecia o quarto. Uma fresta de claridade penetrava pelo blackout mal fechado. Espreguicei o corpo, nenhuma dor [sorri: raramente nada dói em meu corpo]. E neste momento único de se encolher e se esticar no lençol quentinho da manhã, piscando as palpebras lentamente pra deixar o mundo entrar aos poucos, lembrei do seu olhar desabando luz em cima de mim. E não sabia mais se era sonho ou memória aquele rio correndo forte, os seus braços fortes correndo pelas minhas costas, num abraço de não ter fim. Nós correndo sobre aquela ponte até o (des)fôlego fazer as pernas pararem, a espontaneidade dos gestos, a liberdade das palavras, e o seu olhar-feito-luz sem desviar, num misto de admiração, desejo, respeito e amor. O amor, outra vez, preenchendo os poros. Na nossa gana de buscar outras possibilidades de amor, a vontade de não ir embora nunca.
Apesar do frio, apesar da hora, apesar dos outros.

Olhei pro lado e encontrei anotado numa folha amassada sobre o criado-mudo: "até o verão...".
E ainda não sei se foi sonho ou memória.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

enquanto eu aqui, insone,
você aí, sem luz nem paz.

eu aqui, sem chão, com frio
pensando em abrir o portão e rodar como na Valsinha de Vinicius.

você aí, dormindo e sonhando
enquanto eu desaprendo a sonhar para me salvar.

sábado, 30 de janeiro de 2010

sonho ao contrário

Faz uns dias sonhei contigo. Falávamos ao telefone, você estava puto e me repreendia pela sinceridade dos meus sentimentos, pelos meus posts malditos, me condenando por expor nossa intimidade. Acordei esquisita - diz o João que, mesmo quando não nos lembramos dos nossos sonhos, acordamos sob o efeito deles. E o João também explicou brilhantemente - por meio de um raciocínio complexo que sou incapaz de reproduzir aqui - que, segundo Freud, os sonhos significam o contrário do que na verdade sonhamos. Supostamente você não estaria puto comigo, mas feliz por eu finalmente ter me libertado de você. E não estaria me repreendendo, mas me felicitando pela minha alforria.
Então: hoje, manhã chuvosa, caminhando o caminho meu de cada dia, um encontro molhado. Breve. Indolor. Quase indiferente. Dois cachorros ao invés de um. Nem me incomodou sua mentirinha inofensiva.
Fiquei leve e feliz depois de meia dúzia de palavras trocadas. Desci a rua saltitando, sorrindo pras gotas de chuva que caiam sobre as lentes dos meus óculos.
Vai ver o sonho era mesmo tudo ao contrário.
Estou curada.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

edukatora

Essa noite sonhei que tinha sequestrado um desses ricões que anda nesses carrões. Estava a caráter: encapuzada, armada e falando grosso com o cara, que suava e tremia e acho que fez xixi na calça no sonho, não lembro bem. Entramos no carro dele (eu e uns caras que eu não sei quem são) e fomos dirigindo pela Marginal Pinheiros, quilômetros a fio, até onde a cidade escurece e a ponte divide quem "acha que é" de quem "não tem o direito de ser". O mais engraçado é que o clima do sonho era tenso pra caramba, mas eu não estava assustada, me sentia à vontade, como se fizesse aquilo todo dia. Chegamos numa quebrada lá no extremo da Zona Sul e estacionamos o carrão. O cara desceu, tremia tanto que não conseguia nem andar direito. Entramos numa casa e o levamos pra um quartinho, onde só tinha uma cama e um aparelho de som. Eu peguei meu ipod e coloquei "Vida Loka" dos Racionais a todo volume pra ele ouvir. E fechei a porta.
Acordei.
Despertei cansada de dois mundos. Porque o mundo que eu amo é um só, ele é único, indivisível. Ele é redondo, não tem arestas. Ele é colorido, não branco e preto. E todo dia (todo dia, todo dia) aquele velhinho indo buscar latinhas, olho pra ele com piedade, fotografo ele em P&B e sinto quase vergonha, porque todo mundo nasceu igual, com o direito de ser. Todo mundo faz cocô igual e espirra igual e quando morrer, vai ser igual também.
Então eu não entendo: se somos tão iguais, por que é que somos tão diferentes?

sábado, 10 de janeiro de 2009

floresta encantada

Tenho uma novidade: coloquei um tapetinho na minha sala. Quadrado. Comprei numa tarde esturricante em Novo Airão. O artesão não me avisou, deixou que eu o comprasse, assim, displicentemente, como quem leva apenas um tapete de palha. Embrulhou-o com cautela, não disse nada. Trocamos algumas ideias sobre a cooperativa e, com toda a simpatia, nos mostrou as matérias primas com as quais trabalham. Não falou nada a respeito do tapete, apenas o preço. Não lançou olhares estranhos e sequer me deu dicas, nenhum delicado sinal sobre o objeto adquirido.
Carreguei meu rolinho pacientemente durante o resto da viagem. Tirei fotos com ele, levei para passear. Etiquetei como bagagem de mão. Mal podia esperar para vê-lo na minha sala.
Cortei os laços que o atavam, estendi, posicionei obliquo. Joguei duas almofadas por cima e me sentei sobre ele, realizada. Por que aquele artesão nada me dissera? Por que não me prevenira para tal surpresa? Alguns minutos após sentar-me, eu estava na floresta encantada. Com o Keka. O motor da voadeira desligado, apenas o ruído suave da corredeira. Apenas a cor âmbar do igarapé, o desenho antropofágico das folhas milimetricamente posicionadas sobre os galhos. A floresta submersa, todos os seus segredos revelados pelo reflexo perfeito.
A ilusão mais real ou a realidade mais ilusória?
Difícil colocar em palavras.
Agraciada, retornei para minha sala. Assim como a floresta, meu tapete também era encantado. Descobri, na verdade, que ele é voador e me leva para lá sempre que sobre ele me sento. Não sei se todos os tapetes produzidos pelos artesãos de Novo Airão têm essa qualidade. Desconfio que não. Penso, inclusive, que nem todos que se sentarem sobre ele poderão visitar a floresta mágica... Para tanto é preciso enxergar com outros olhos. Agora consigo compreender melhor porque o artesão não me avisou: surpresas são muito melhores quando permanecem surpresas.
E descobertas são mais valiosas quando nascem de surpresas.