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domingo, 8 de julho de 2018

carta pro filho 4

Estou sendo engolida pela vida e você está crescendo rápido demais. Deixo escapar nas entrelinhas dos dias as frases mágicas que você solta - aquelas bem engraçadas que a gente devia anotar pra rir até 2050... Você fala sem parar. Conta histórias vividas e histórias fantásticas. É uma criança imaginativa, brilhante, solar e comunicativa. E precisa de ouvidos atentos. Busco estar presente, apesar dos deslizes. Uma coisa que não vou dizer jamais é que não aproveitamos juntos a sua infância: quando não estou trabalhando, eu sou quase toda pra você. Não só o tempo e a rotina me engolem, mas sobretudo minha exigência. Em ser a melhor mãe (a maior cagada, eu sei, mas não consigo fazer diferente neste momento). Nesse esforço insano, nessa insistência de querer dar conta de tudo, acaba brotando também o pior de mim. Eu brinco que você deve pensar que eu sou bipolar, ou algo do tipo. Mas não sou, filho. Sou demasiadamente humana, só isso. Te encho de beijos e carinhos e depois quebro o pau. Eu queria que isso fosse mais equilibrado, mas é uma tarefa quase impossível para mim. Então, enquanto busco dentro de mim a paciência nossa de cada dia, observo como somos parecidos para tentar pacificar minha culpa.

Você é superlativo, como eu. Nada é morno pra você. Ou é quente, ou é gelado, ou é maravilhoso, ou tá muito ruim. Queria te dizer que enxergar tons de cinza pode ajudar às vezes, mas não vai adiantar. Você vai aprender isso com a vida (ou não). Você é irado e não leva desaforo pra casa. Você é musical e ama tudo que se relaciona ao ritmo. Você nada em águas profundas, como eu. Você é ligeiro e não perde um detalhe. Está sempre observando com o canto do olho. Tem a percepção aguçada de um aprendiz. Você é por demais sensível - não aquela sensibilidade de quem se machuca e chora. Você sente o clima e transforma em palavras o que não é dito. Você é meio bruxo, filho, e como eu, uma alma velha. Percebo a pureza do seu coração e que os caminhos que estou trilhando com você estão te ajudando a se tornar um homem bom. O que mais eu posso querer da vida?

Eu sinto muito, me perdoe, eu te amo, eu sou muito grata.

  

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

elevador geolocalizado

Apressada como sempre, amarrou o cadarço no hall enquanto esperava o elevador chegar. Atrasada como sempre, entrou afobada já pegando o blush de dentro da bolsa. Até chegar no térreo daria pra dar um tapa (na cara). Esta cara ainda jovem, de uma menininha, diziam alguns (uma leoa, na verdade). 

Lançou um olhar de poder pro espelho. Ainda daria tempo de passar o rimmel. De repente sentiu o solavanco do elevador, parou no 4. Abre a porta aquele moço grisalho simpático. Ele tem uma moto dessas grandonas, os menino pira tudo na moto do cara. 

- Bom dia.
- Bom dia.
O bom dia foi meio desprezível, de costas mesmo. Os olhos se cruzaram no espelho do elevador. Tantos anos morando no mesmo edifício e ela nunca havia percebido que esse moço poderia ser interessante. Na verdade ele não era - não para ela. E o fato deles terem se cruzado num aplicativo de relacionamento geolocalizado na noite anterior não o tornava mais interessante. A única coisa que eles pareciam ter em comum realmente era morar no mesmo prédio.

- Tudo bem? 
- Tudo... e você?
- Seu cadarço tá desamarrado.
- Ah, nossa, to sempre correndo apressada... amarrei o de um pé só (risos).
- Não se apressa tanto não...
- Como?
- Tive um infarto no mês passado. Eu estava sempre muito apressado. 

O elevador chega no térreo. Ele abre a porta sorrindo.

- Desculpa te falar assim, é que depois dessa experiência eu aprendi tanto...
- Imagina...uau, mas que bom que você está bem, né? Recuperação rápida!
- Quase morri. E quase morrer é uma sensação muito louca. Na verdade eu acho que morri mesmo, porque agora sou outro. Você tá indo pro metrô?

De repente, ela sentiu ternura por aquele homem. Como se compartilhar um milimetro de intimidade tivesse o poder de tornar as pessoas subitamente interessantes.

Em apenas quatro andares.

- Estou sim. Como você se chama mesmo?
- Luiz, prazer. Eu também to indo pro metrô. Vamos juntos?
- Vamos. Prazer. E feliz vida nova :) 

Pra quê mesmo a gente precisa de aplicativos de relacionamentos se a gente pode conhecer as pessoas no elevador?


segunda-feira, 15 de junho de 2015

carta pro filho [2]

Essa coisa de ser mãe tá ficando cada dia mais interessante: você agora entende tudo o que eu te digo. Tudo não é força de expressão. É tudo mesmo! Entende na medida da sua curiosidade pelo mundo, com a inocência de quem nunca ouviu aquela novidade antes. É lindo de ver.

Hoje te contei que, neste planeta que habitamos, não existem duas pessoas iguais. Tem loiros, rastafaris, budistas, baixos, altos, orientais, muçulmanos, cegos, morenos, meninas que gostam de meninos ou de meninas (ou dos dois)... mas pra muito além disso - e você me olhava muito sério e compenetrado - não existem duas pessoas com a essência igual.

Essa é a grandeza mágica de ser humano, filho: somos parte de uma espécie imensa, mas nem sequer um representante desta espécie é igual ao outro. Tão complexos e fascinantes, cada qual com caminho de evolução, cada um de nós galgando um aprendizado diário único e individual. 

Mas ao mesmo tempo, somos muito parecidos. Precisamos nos parecer para pertencer. Nossa parecência é coisa que nos identifica. Sentimentos, emoções e sonhos em comum nos unificam. Um dia você vai ter a sorte de encontrar alguém que não se parece em nada com você, mas vai ser idêntico a você. Soa estranho, mas isso vai te fazer sentir um bem estar indescritível, como se sua alma tivesse encontrado outra alma idêntica a sua, uma complementação perfeita. A isso damos o nome de amor. Desejo que você cultive sempre o amor no seu coração, filho. É só o amor que nos faz superar diferenças, limitações, preconceitos.
O amor nos faz ser Humanos.



terça-feira, 13 de maio de 2014

carta pro filho [1]

Oi filho,
Hoje faz 6 meses que você chegou nesta órbita. Falta tempo para curtir cada segundo seu na terra. Você mamando é o maior dos milagres; dormindo é doçura infinita.Vejo você conquistar pequenos movimentos, seus passos de gigante. Observo suas descobertas tão inocentes e acho que tudo é obra de Deus. Digo todos os dias baixinho no seu ouvido que te amo, que você é minha estrelinha brilhante. Não sabia que tinha tanta ternura guardada até você chegar. Não sabia que seu sorriso ia me trazer tanta leveza pra encarar os desafios. E sempre soube que nossa conexão ia ser profunda. Você me faz acessar diariamente minha intuição.
Mas nem tudo são flores. Houve muitos espinhos nestes 180 dias. Queria ter mais tempo, mais grana, mais disposição, mais coragem [às vezes], menos preocupações. Faltam horas de sono, falta paciência, falta-me aceitação, falta-me a yoga (imensamente), falta a liberdade de antes.
Mas sobra amor. E isso é tudo.
Que venham mais 180 mil dias com você, meu pequeno grande homem.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

31

De repente percebo que começo a ter rugas. São marcas indeléveis de uma vida intensa, lindamente construída sobre minhas vontades e escolhas. Trago marcas pra todos os gostos, de tristezas profundas e alegrias indescritíveis, amores muitos, viagens loucas, poucos excessos, porque sempre amei muito meu corpo.
Mas viver conforme a orientação da minha alma é muita guerra. É preciso buscar coragem lá no fundo do coração, coragem para agir com fé a amor, coragem para desapegar-se do que não está para mim. Eu, que pouco me importo com “os outros”, me percebo triste ao constatar que um ato tão puro como agir a partir das vontades da minha alma gera incompreensão alheia. Aos olhos dos outros parece descaso, parece loucura, mas na verdade é só altruísmo, porque quando você liberta, está prestando um serviço a várias dimensões, não só a você mesmo.
Esta não é a primeira solidão da minha vida – e nem será a última. Já sobrevivi antes, às vezes mais morta do que viva, e aqui estou, mais viva e fiel do que nunca. Eu amo demais, amar é coisa muito boa. E parto para novas viagens com o coração aberto, pra mostrar fotos ainda inéditas, contar e ouvir causos e descobrir novas canções.

domingo, 4 de março de 2012

professores da leveza

Tenho encontrado professores muito competentes em matéria de leveza. Faltei nessa aula na escola, na faculdade e também na pós graduação, mas nunca é tarde para se aprender. Queria dar um toque para aqueles que tentam me ensinar a ser leve me dando tapas na cara: não funciona. Não adianta me abandonar no meio do caminho, endurecer, negar. Estas são atitudes que, nos piores momentos, espelham as minhas. E o espelho não é uma estratégia eficaz para uma libriana com ascendente em aquário. Preciso de leveza pra aprender a ser leve. Preciso que coloquem um balanço no meu quintal, que me façam ouvir música de criança, que tirem sarro da minha cara enquanto esbravejo, que me façam docemente perceber o quão ridículas são minhas atitudes, como é patético meu comportamento, como eu perco a vida passando ferro quente nas roupas amassadas - é necessário que eu mesma entenda que tem amassaduras que nunca vão desamassar. E tudo isso com delicadeza. Porque a visão altruísta é um ato de amor. E eu acredito que o encontro seja uma magia para nos melhorar: eu nunca mais vou ser a mesma depois de alguém ter cruzado meu caminho. Ninguém é insignificante, qualquer um agrega alguma coisa - principalmente os que nos incomodam. Então eu preciso te dizer de novo como a sua dureza me fere. Sua formalidade e sua rigidez me agridem. Porque eu tenho um pouco de dificuldade de aceitar que talvez eu não seja tão especial assim. Porque talvez você, ao contrário de mim, acredite que as pessoas apenas passem, sem deixar nada. E talvez eu seja uma dessas na sua vida. Porque talvez, pensando bem, nós sejamos mais parecidos do que eu gostaria. Você também anda buscando a leveza, só que não teve, como eu, a sorte de encontrar professores tão bons. Aulas que não se esquecem.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

desejo

"E eu tenho vontade de segurar seu rosto e ordenar que você seja esperto e jamais me perca e seja feliz. E que entenda que temos tudo o que duas pessoas precisam para ser feliz: a gente dá muitas risadas juntos. A gente admira o outro desde o dedinho do pé até onde cada um chegou sozinho. A gente acha que o mundo está maluco e sonha com sonos jamais despertados antes do meio-dia. A gente tem certeza de que nenhum perfume do mundo é melhor do que a nuca do outro no final do dia. A gente se reconheceu de longa data quando se viu pela primeira vez na vida."

[Tati Bernardi]

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

morna

Estou vazia. É uma sensação curiosa, como se finalmente estivesse sobrando espaço pra nada, pra ninguém, espaço pra nenhuma expectativa, só vazio criativo. Aqui na varanda da casinha mais gostosa com que um dia tive o privilégio de sonhar, a lua gigante manda recado de novo ciclo. Apesar do cansaço, não tenho vontade nem de dormir. Quero viver cada gota. Meu sangue italiano ferve, depois esfria, depois amorna. Morna é a temperatura da ternura. Então minha pele se enternece, fica macia pro seu aconchego. Fico amortecida, como se não fosse mais doer a queda. Mas dói, porque nunca é igual. Porque eu nunca estou preparada pro pior, estou sempre desarmada, no fundo sou uma romântica desprovida de táticas para jogar esse jogo que me afasta do que é essencial: o amor. Só estou disponível inteira. Ao contrário do que eu pensava, versão Beta não é para testes. Não é provisória, mas definitiva. Sempre por ser melhorada, claro, mas já pronta para o uso. 100% de mim. Meu sangue ferve e me faz lembrar de que estou muito viva, e isso é bom. Mas você tem razão: ter mais calma vai ser melhor para mim, este é um ajuste necessário que estou fazendo por ninguém, senão por mim mesma. Obrigada por assoprar isso no meu ouvido. Ouço atenta e cuidadosamente cada recado. Um dia escrevi que sou um mosaico enorme, formada por pecinhas deixadas por cada pessoa que passou pela minha vida. É isso: você já está. Seu lugar no meu mosaico está garantido.

domingo, 8 de janeiro de 2012

elevation of love

Então me espreguiço e suspiro uma maquiagem no rosto pra vida ficar mais colorida. Mas tem dias que só pintando a cara toda mesmo, ai como eu queria pintar a cara toda, passar um batom vermelho, muito blush, encher os olhos inchados de rimmel, talvez o nariz da Levita também caísse bem. Pena que algumas coisas eu fui abandonando pelo caminho... também não dá pra carregar a vida toda numa mala, né!? E como a cara toda também não dá pra pintar, deslizo suavemente o pincel, clareza e suavidade pra enfrentar o dia com a beleza protegida.
Outra coisa que não dá mais é pra continuar matando uma a uma essas atormentadas formigas voadoras, tem que haver outro jeito de eliminá-las coletivamente - sim, eu sou eco cri cri, mas já tentei até inseticida; não funciona. Estou exausta de ter que fazer absolutamente tudo por mim: sinto vontade de me abandonar um pouco. Mas olho pro lado e não consigo. Na verdade, é acima de tudo de mim que tenho que cuidar, dá trabalho mas é retorno garantido. Investimento seguro. Entendo quando meu pai diz que lhe falta motivação. Como encontrá-la, se já não há? Onde buscá-la, se já partiu? E como fazer isso... sozinho?!?
Simplicidade (com ternura). Voltar à paz de não precisar fazer nada e sentir o prazer do ócio criativo sem culpa. Voltar pras artes, mais música, mais pintura, mais teatro. Voltar pro coração, sem medo. Voltar pra dentro.

Viajar.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

refém

Estou muito abalada.

Sofri um sequestro.

Relâmpago - mas anunciado.

Virei refém da minha intensidade, prisioneira das minhas palavras. Cai na minha própria armadilha, tropecei nos meus passos meticulosamente calculados.

Durante o sequestro, um sem fim de auto-torturas. O tempo parecia não passar, um calor sufocante me tirava o fôlego: não conseguia respirar sua presença. Qual será minha culpa? Por que tanto abandono, medo e arrependimento? Ao longe, podia ouvir Marcelo Camelo cantando uma daquelas letras pseudo-intelectuais. Nem pra ter bom gosto musical, esse sequestrador filho da puta... Me fazer engolir rockinhos modernetes com letras melosas e suicidas era a pior parte, sem dúvida. Breve, muito breve, eu sabia que poderia suspirar da pedra mais alta, mergulhar na transparência com um cardume brilhante de sardinhas e me sentir livre como nunca. Mas agora não. Agora era rezar pra ele (o sequestrador, eu mesma?) ter compaixão. COM PAIXÃO. Por favor, por piedade, eu não quero passar por isso de novo. De novo não! Não quero dor, não quero lágrimas, não quero abandono.

Quero morango com chantilly delivery.
Passos de gigante juntos.
Ternura e cafés da manhã com flores.

É isso que eu quero.

E é isso que eu queria ter te falado, desde sempre.

[ufa]

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

bliss

Vou confessar uma coisa: faz tempo que não me sinto assim. Essa lufada de vento que escancarou a porta, a janela, a camisa, a boca. Parece um tufão, um swell gigante desses que cobrem o pier do porto...
Fiquei tão tonta que decidi ir ao médico. Disse a ele que devia ser o labirinto, mas ele receitou remédio pro coração: serenidade. É indicado que eu viva tudo com os olhos e ouvidos bem fechados para o resto do mundo. É profundamente indicado que eu me esqueça do abandono, das ameaças, que eu limpe meu dna emocional das marcas e feridas. "Isso aí é felicidade na certa", ele disse. "Só que tudo em excesso faz mal, você sabe, né?"
Pra amenizar os sintomas: mergulhos no azul, muitos jantares com amigos, algum sol e duas sessões de cinema.

Viver tudo novo.
De novo, mas como se fosse a primeira vez.

O segredo não é correr atrás das borboletas. É cuidar do jardim pra que elas venham até você.
[Quintana]

sábado, 26 de novembro de 2011

o peixe de manhazinha

O pé saiu do lençol macio e não reconheceu o chão quente de madeira. Pisando leve como uma garça, trocou de shorts ainda com os olhos entreabertos. Qualquer passo move a casa toda, é preciso pisar em ovos pra não acordar o peixe. O peixe. Dormia num sossego de dar inveja. Na noite anterior, se exibia com volteios em seu pequeno aquário, abrindo as guelras e brilhando à luz da lanterna. Ela observava fascinada, não tinham sido apresentados assim tão de perto. Era um peixe homônimo a ela - e parecido com ela. Muito colorido, muito exibido, muito briguento e, ao mesmo tempo, muito delicado. A natureza espelhando nossas personalidades...

O (gesto do) peixe a comoveu: seu nado gentil, cortejo suave espanando seu véu furtacor. Então ele dormia enquanto a luz da manha começava a penetrar a casa - ele gostava de dormir no escuro. Ela se despediu. Deixou bilhete rascunhado de sono interrompido e foi distribuir bons dias.

Hoje o dia amanheceu azul.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

gosto de você, mas não é muito

na verdade eu gosto mais de mim, de certo. Em primeiro, segundo e terceiro lugar, sou eu que importo. É comigo que eu acordo todos os dias, é a minha cara que olho no espelho e perplexa pergunto: mais uma vez, sua trouxa?!? Sou eu mesma quem seco minhas lágrimas, mordo o lábio e amargo o coração - por alguns segundos apenas. Depois tudo vira ternura. Olho para baixo: só o chão e meus passos, que já são mais de um milhão rumo ao entendimento profundo de mim. Busco ser uma pessoa melhor a cada dia - e acho que consigo. Por isso, de ti não guardo raiva nenhuma. Nem ressentimento, nem nada ruim. Gosto de você, porque você é uma pessoa extremamente gostável. Sensível. Mas no fundo não provoca emoção. Seu olhar é diplomático, suas reações, calculadas. Seu nome é responsabilidade, caracteristica que estou tentando afastar de mim, cada vez mais. Você não se deixa acessar, acha mais seguro dividir sua intimidade com a cachorra. Talvez por essas razões, eu goste de você, mas não é muito. Então, o que haveria de errado em estar com você apenas para tomar um banho quente de vez em quando, ou assistir um filme num dia de chuva? Nada. E seria muito bom. Mas persigo uma leveza que não consigo conquistar e isso me aflige. Não consigo. Talvez porque eu goste de você um pouco mais do que muito.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

que graça

Eu fico me achando boba de achar graça em você. Mas eu acho.

Graça nessa sua melancolia, que faz o mundo chover fininho. É uma melancolia super londrina, curtida, sentida até a última gota. Ela transborda pela sua fisionomia, seu rosto fica macio, seu olhar de soslaio, fingindo não ver.

Eu fico me achando boba por ter certeza. Mas eu tenho.
Tô me sentindo uma menina de 15 anos.
Que graça.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

amaciando

tô tentando não perder a mão
manter a calma, apesar da explosão
manter a doçura, mesmo na solidão

espalhar pétalas no corredor
para passos flutuantes
e silenciosos

perfumar meu cangote com gerânio
não deixar a tristeza se instalar

só passar

sorrir com a alma,
ouvir conselhos bons.

tô tentando não perder a mão:
quero achá-la na sua.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

sorriso

Fechei a porta e o dong tocou. Me contaram que o dong, quando vibra, deixa pra fora todas as energias negativas, protegendo a casa das coisas estranhas e mantendo aqui dentro apenas aconchego. Funciona mais ou menos como os sapatos, que eu tiro antes de passar a soleira, diariamente, para livrar o ambiente das cargas da rua.
Então, depois de um show louco, chocolate, massagem e longo abraço (e outro), você calça os sapatos e me deixa um sorriso no rosto. Permanente. Que até agora, 20 minutos depois, teima em quase me causar caibra nas bochechas. Me deixa com esse sentimento que não sei explicar - e que bom que é não saber explicar alguma coisa na minha vida! É bom e isso basta. Preenchimento. E sorriso.

domingo, 4 de julho de 2010

dora

Hoje o almoço de domingo em família contou com um membro sui generis. Ela foi "adotada" pela minha vó Marina, lá nos idos anos de 1983, quando começou a trabalhar em sua casa como empregrada doméstica. Eu tinha uns 2 anos de idade. Minha nonna, com seu português mal ajambrado, tentava ensinar àquela então jovem menina do interior de Minas Gerais alguma palavra que fizesse sentido, a assinatura do próprio nome, ou a contar o dinheiro do paozinho francês. De pouco adiantou: Dora permaneceu quase completamente analfabeta. Mas passou a considerar a minha avó como mãe, e talvez tenha sofrido mais do que todos nós quando ela se foi, em 1992. Acompanhou de perto o câncer da sua mãe de adoção, suas idas e vindas do hospital, cuidou dela como uma filha devotada. Me viu crescer e nutriu por mim o amor de uma irmã mais velha. E nunca perdemos o contato. Para ela, eu continuo sendo a Nina, aquela menininha de 3 anos. Aos meus olhos, ela não envelhece, apesar de seus 51.
Só que Dora parou no tempo. Com sua voz de criança, ela fala da minha avó no presente, como se ela ainda estivesse viva, e sua mente oscila entre a racionalidade lúcida e o seu mundo de palavras inventadas. Hoje por exemplo, ela disse que a atual patroa quebrou a "veícula", querendo dizer "clavícola". Também tentou explicar o que ela chama de "dinheiro grudado" - uma nota de R$ 20,00 que na verdade são duas de R$ 10,00 grudadas. Será isso?!? Ela começou a ficar nervosa tentando se explicar, então achei melhor entender assim...
Este mundo é muito confuso pra ela. Não é loucura, é um "mundo-dorado" todo particular, misto de ingenuidade infantil e manias de uma pessoa bem velhinha.

Os domingos ficam muito mais genuinos e generosos quando ela está por perto.

domingo, 13 de junho de 2010

limite

Algumas coisas demoramos a perceber e, às vezes, já é tarde para trocar de percurso. O limite é uma grande placa vermelha, quando o coração bate diferente, quando a realidade parece ser sonho, quando você se dá conta de que não faz a menor ideia do que vai acontecer nos próximos míseros 5 minutos.
Eu adoro um amor inventado.
Pra mim é tudo ou nunca mais.

sábado, 3 de abril de 2010

neném

Nesses tempos de excessiva ansiedade percebi que tem uma coisa que me faz pausar. Não consigo conter as lágrimas ao ver um recém-nascido. Posso ficar contemplando por horas em silêncio aquele serzinho perfeito, a paz da sua breve respiração, os pés (enrugadinhos), as narinas (tão pequeninas), a maciez da pele, a moleza do corpinho ainda desprotegido, os olhos entreabertos para o mundo. Ontem fui visitar a Mel na Promatre. Ela nasceu na quarta-feira - calma, encantadora e saudável. Fiquei um tempo em frente à maternidade esperando a Ciça chegar e me enchi de esperança ao ver muitas grávidas felizes, muitas recém-mães felicíssimas, muitos recém-pais cuidadosos e amorosos. É incrível essa energia. E como se não bastasse a emoção de ter visto a Mel e a Maria Paula e ter partilhado da felicidade delas, eu também vi um neném nascendo! Porque lá na ProMatre eles têm umas salas cirurgicas com vidro e você pode assistir aos partos. É uma piração! Fui parar lá por acaso, quando saí do elevador meio sem direção tentando achar o quarto da Maria Paula, dei de cara com esse corredor de vitrines. E exatamente neste momento um bebê estava vindo ao mundo. Foi comoção generalizada, vó, tia, amigas... dentro da sala, o pai se acabava em lágrimas e beijava sem parar a esposa, numa das cenas mais doces que pude presenciar nos últimos anos. Em estado meio catatônico, as lágrimas jorravam involuntariamente dos meus olhos, felicidade sem fim.
A vida é realmente um milagre.

sábado, 18 de julho de 2009

mariposa

O tempo que uma borboleta leva para se reproduzir e se desenvolver - transformando-se em larva, depois em crisálida e finalmente em borboleta - é quase o dobro do que seu tempo real de vida. Ela viverá, em média, de 3 a 4 semanas e aproveitará sua juventude para depor seus ovos nas folhas, antes de iniciar a perder pequenas partes das bordas de suas asas, evento que anuncia a proximidade de sua morte.
Uma borboleta, como todas as criaturas deste planeta, é perfeita. A fêmea, após a cópula, conserva em seu corpinho um compartimento para os espermas e outro para os óvulos. Na extremidade de suas patinhas, ela tem sensores que lhe permitem reconhecer a folha certa que ela irá "fecundar" e, após a identificaçao, aciona seus compartimentos para liberar sobre a folha, em uma fraçao de segundos, a quantidade exata de esperma e de óvulo.
A borboleta, como eu, gosta de calor. A temperatura ideal para ela é de 28ºC. Abaixo dessa temperatura ou se o sol nao aparece, ela dificilmente voa - fica encolhidinha para reservar energias.

Hoje conheci um encantador de borboletas. Hoje aprendi a ama-las e respeitá-las. Elas sao sábias e fazem o que todos nós deveríamos fazer: dar mais importância ao processo do que ao fato em si.

Vale a pena ser borboleta colorida e voar por aí.