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quinta-feira, 14 de maio de 2020

amor de quarentena

A pandemia já mudou o amor.

Ainda bem, eu diria.

Não sei, nem ninguém sabe para aonde vai esse rumo novo, mas ele será diferente.

O amor estava precisado de um susto, os relacionamentos andavam trazendo mais dor que liberdade, mais confusão que proteção, mais apego que afinidade.

Tomara que a gente precise tirar a máscara para beijar direito.

E tomara que a gente tome mais tempo para entrar nos relacionamentos e tomara mil vezes mais que a gente precise de bem mais tempo para sair deles, se assim for mesmo o melhor.

Que a gente entenda que um novo amor precisa se acostumar a amar de novo e isso demora mesmo e que os incríveis primeiros meses são anestesia gostosa para nos dar fôlego para recebermos o pacote completo que virá depois, pois sempre vem e caso não venha, ache estranho.

Todo mundo traz brindes surpresa!

Inclusive você, só para lembrar!

É no brinde que está o prêmio. É no defeito que mora a evolução.

É na implicância que mora a maturidade.

É na aceitação do outro que mora a aceitação de si.

Os amores que dão certo passam mais por proteção externa que interna.

Passam por isolamentos profundos, acomodações turbulentas, recessões doloridas, revoluções barulhentas e até um pouco antes de levantarem voo eles reclamam, duvidam, estranham e temem, mas não param de correr em direção ao impulso, pois é disso que é feita a vida a dois.

Eu espero amorosamente que tudo que está acontecendo faça de nós melhores amantes, melhores amados, em melhores voos.

Tempo Rei, oh tempo Rei, transformai as velhas formas de viver! .

Texto de Claudia Lebie
Ilustração @sabeth_art




terça-feira, 12 de maio de 2020

deriva

- Ficaremos sempre juntos?
- Não.
- Como assim? Você disse que me ama.
- Amo, mas não estaremos sempre juntos.
- Por que?
- Porque às vezes eu terei que ir pros meus cômodos reorganizar ideias ou lembranças.
- E eu?
- Você provavelmente terá que fazer o mesmo, mas não vai me dizer por medo que eu não entenda, ou talvez porque seus cômodos já estejam organizados e você não vai sentir necessidade de ir pra lá. Aí você vai pedir pra ver os meus, mas não vai poder.
- E a partilha?
- Partilharemos muito, tudo aquilo que terei prazer em te mostrar e tudo aquilo que você tiver vontade de me mostrar. E também tudo o que vamos adorar descobrir juntos. Mas nunca vamos entrar sem bater na porta do coração – Oi, você está ai? Posso entrar?
- Então vamos ter segredos!
- Não chamaria de segredos, mas de minha vida e sua vida, que às vezes pode se tornar nossa vida, às vezes não.
- Mas nos momentos em que você não estiver vou me sentir só no meio do mar e certamente vou me afogar!
- Mas eu não sou uma rocha e você não será minha margem.
- Então, o que é tudo isso?
- Eu espero que seja uma deriva, sem saber se haverá uma cachoeira ou um tubarão, jacarés ou pescadores. Espero que neste fluir entre fortes correntezas, enquanto eu nadar minha salvação e você nadar a sua, não nos percamos de vista e não percamos a coragem de ficar na água.
Se estivermos com sorte, pode ser que encontremos um velho tronco que sirva de apoio, juntos respirando (respirando-nos) e contando histórias. Em outras situações, teremos apenas olhos para nos fitar.
- Então será uma deriva?
- Sim, então será um amor.

[livre tradução do texto de Francesca Pachetti, La Raccontadina


quinta-feira, 12 de março de 2020

auto-alta

Hoje me dei alta da terapia. Eu mesma.
Nunca tinha feito isso e me senti muito corajosa.

To num desassossego. A gata inquieta anda, mia, come, se estica, pula pela janela, se roça na minha canela. Espelha meu estado de espirito. Não consigo dormir. Comecei a ler sobre o tal do vírus. Humanidade doente (literalmente, agora). Penso como conseguimos chegar nisso: odiar a vida a ponto de querer aniquilar a sua própria. Bicho homem. Tão apartado de tudo, como desaprendeu tão rápido?

Aquela chuva toda de semanas atrás lavou muita coisa aqui dentro.
Árvores caíram.
Desprenderam suas raízes para dar espaço a novas sementes.

Aquele curso - na sequencia da chuva toda - encontrou uma placenta.
Absolutamente fértil.
Attraversiamo?


quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Em cartaz

Tão difícil reestrear no amor quanto na escrita. Tantos processos vividos nestes anos de poucas escritas e poucos amores: muita maternidade muito ralo muito choro. Preparação intensa dos alicerces para vir a ser o que agora sou. Tão inteira, depois de tantos tropeços. E essa mania cruel de olhar pro pouco que fiz, pro pouco que sou. E a mania de me boicotar. E a dificuldade de ouvir que sou foda. É muito difícil reestrear.

Mas hoje senti que o palco está pronto. Iluminado na medida certa. O microfone na altura certa. O som já passado e repassado mil vezes: tinindo.

Vejo alguém para dividir. o caminhar. o vinho. a viagem que é viver. o Chá. as risadas. as dores. as curas. Estou profundamente grata por te ver, finalmente. 




terça-feira, 5 de novembro de 2019

incapaz

Sinto-me incapaz de ser amada. Assim, homem-mulher-par-companheiros. Posso dizer a verdade? Sinto. Será sentimento comum às mães de crianças pequenas? Será, ou é só minha a sensação-vento? Sinto assim, como se meu universo não encaixasse. E não é baixa estima, assim, corriqueira. Não. É uma sensação de que não pode ser. É uma sensação de desencaixe. É como se minha rotina fosse tão tão que... né? Nem dá. Nem dá. Eu tenho esse sentimento como quem olha e não habita. Como quem deseja, mas nem ousa. Como quem camufla, mas nem aprofunda. Aos que dançam sozinhos, toda uma completude. Que o seja. E esforço-me para não transparecer. Lá vai ela, mãe. Lá vai ela, sendo. Distancio dos encontros porque chove, porque chovo, porque não dou conta. De ser. Amada. Porque controlo meus impulsos com este choro baixinho. De canto. Em canto. Se me dói? Às vezes sim, noutras não. Acolho. Como joaninhas que nos alugam as saias, sigo com ela ali – presa na estampa florida. Presa e solta, mas ali. Aqui. E dá vontade de soprar: a joaninha. Vá ao vento, vá, vá.. Mas nem. Nem. Agora, sinto-me velha. Não interessam-me mais tanto as baladas, os jogos de romance, o habitar de in-serenidades. Agora, sinto que é muito mais branda e muito mais calma a necessidade. Coisa pouca. Carinho leve. Nenhum grande apaixonar, nenhuma galopada rude de arrancar os ossos. Assim, com crianças ao lado... Como crianças ao lado. Só um tilintar. Dia. Após dia. As coisas pequenas, os sentimentos profundamente silenciosos e nem por isso menos. Essa vontade de pertencer, só isso. De partilhar, só isso. Essa vontade calma. Esse recuar invisível. Esta confusa verdade. A mulher que vive em mim e que anda assim, gota. Assim, água. Assim.

[Genifer Gerhardt]

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

desperta

Se escolher amar uma mulher desperta, entenda que estará entrando em um território novo, radical e exigente. Se escolher amar uma mulher desperta não poderá continuar adormecido.

Se escolher amar uma mulher desperta cada parte da sua alma será despertada, não apenas seus órgãos sexuais, mas também seu coração. Mas, se pretende uma vida normal, siga com uma mulher normal.

Se deseja uma vida dócil, encontre uma mulher que decidiu ser submissa. Se deseja apenas mergulhar o dedo do pé nas águas que correm de Shakti, mantenha-se com uma mulher correta, que ainda não mergulhou na fúria do oceano sagrado feminino. É fácil amar uma mulher que ainda não ativou seus poderes sagrados internos, porque ela nada exigirá.

Ela não te porá à prova.

Ela não exigirá que te tornes o mais alto Ser que podes ser.

Ela não acordará as partes esquecidas e anestesiadas do seu Espírito pedindo que se lembre que há mais possibilidades de vida do que isso.

Ela não vai olhar fundo em seus olhos cansados e enviar raios de Verdade através do seu corpo, balançando-o acordado e sacudindo seus desejos perdidos há muito dentro de você.

Se isso não for suficiente para você - se o seu coração, corpo e espírito anseiam pela "Outra Mulher" - então deve saber que está prestes a transformar a alma. Deve saber que está fazendo uma escolha séria com consequências cármicas. Pois, se decidir adentrar a aura e o corpo de uma mulher cujo fogo espiritual está queimando, então saiba que estas ansiando por um certo nível de risco e perigo, com o propósito de crescer. Uma vez que começa a amar uma mulher dessa natureza você deve aceitar a responsabilidade.

Sua vida não será mais confortavelmente sonolenta o tempo todo. Sua vida não permitirá que fique preso aos velhos sulcos e rotinas estagnadas, pois ela - A Vida - assumirá radicalmente novo sabor e aroma.

Você será inflamado pela presença do selvagem feminino e irá sintonizar-se com o chamado Divino.

A escolha de ser sexualmente e amorosamente íntimo de uma mulher desperta, é para os homens que precisam de coragem para caminhar sem medo do desconhecido. Mas esse homem, vai colher recompensas além da compreensão da sua mente. Ela o levará a mundos desconhecidos de mistério e magia. Ela vai levá-lo hipnotizado e meio entorpecido de amor, às florestas selvagens do êxtase sensual e de admiração. Ela não vai fugir da sua "escuridão", porque a sua escuridão não vai assustá-la. Ela falará palavras que a sua alma entende.


É um risco enorme amar uma mulher desperta, porque de repente não há um lugar para se esconder. Ela vê tudo, para que ela possa amar com profundidade. Amar uma mulher como essa é escolher começar a viver com a sua alma no fogo. Sua vida nunca mais será a mesma, uma vez que convidou essa energia para entrar. Certifique-se, caso escolha amar uma mulher desperta de que escolheu por não passar o resto da vida olhando para trás sobre o seu ombro, tentando enxergar mais uma vez a visão turva de mistério feminino que desapareceu de sua vista. Pois ela terá voltado para as estrelas e galáxias distantes do céu...de onde ela veio.

Sophie Bashford

domingo, 8 de julho de 2018

carta pro filho 4

Estou sendo engolida pela vida e você está crescendo rápido demais. Deixo escapar nas entrelinhas dos dias as frases mágicas que você solta - aquelas bem engraçadas que a gente devia anotar pra rir até 2050... Você fala sem parar. Conta histórias vividas e histórias fantásticas. É uma criança imaginativa, brilhante, solar e comunicativa. E precisa de ouvidos atentos. Busco estar presente, apesar dos deslizes. Uma coisa que não vou dizer jamais é que não aproveitamos juntos a sua infância: quando não estou trabalhando, eu sou quase toda pra você. Não só o tempo e a rotina me engolem, mas sobretudo minha exigência. Em ser a melhor mãe (a maior cagada, eu sei, mas não consigo fazer diferente neste momento). Nesse esforço insano, nessa insistência de querer dar conta de tudo, acaba brotando também o pior de mim. Eu brinco que você deve pensar que eu sou bipolar, ou algo do tipo. Mas não sou, filho. Sou demasiadamente humana, só isso. Te encho de beijos e carinhos e depois quebro o pau. Eu queria que isso fosse mais equilibrado, mas é uma tarefa quase impossível para mim. Então, enquanto busco dentro de mim a paciência nossa de cada dia, observo como somos parecidos para tentar pacificar minha culpa.

Você é superlativo, como eu. Nada é morno pra você. Ou é quente, ou é gelado, ou é maravilhoso, ou tá muito ruim. Queria te dizer que enxergar tons de cinza pode ajudar às vezes, mas não vai adiantar. Você vai aprender isso com a vida (ou não). Você é irado e não leva desaforo pra casa. Você é musical e ama tudo que se relaciona ao ritmo. Você nada em águas profundas, como eu. Você é ligeiro e não perde um detalhe. Está sempre observando com o canto do olho. Tem a percepção aguçada de um aprendiz. Você é por demais sensível - não aquela sensibilidade de quem se machuca e chora. Você sente o clima e transforma em palavras o que não é dito. Você é meio bruxo, filho, e como eu, uma alma velha. Percebo a pureza do seu coração e que os caminhos que estou trilhando com você estão te ajudando a se tornar um homem bom. O que mais eu posso querer da vida?

Eu sinto muito, me perdoe, eu te amo, eu sou muito grata.

  

sábado, 28 de abril de 2018

cadê você

O amor não é simples. É um sentimento muito sofisticado. E eu sou uma fonte pura e inesgotável dessa sofisticação. Tento, a cada dia, não me engatilhar nas armadilhas da mente e agir com o coração. Nem sempre consigo, mas tento. Vivo assim minha verdade. Você é mente pura, tá engatilhado todo, cheio de nós. Cheio de corações partidos pelo caminho. Cheio de vazios. Não tô muito interessada em águas rasas. Quero mergulhar sem ver o fundo. Surpreende a profundidade da nossa ligação, mas não há mergulho. E aí eu mergulho sozinha. De novo - E de novo.
[É sempre bom nadar, mas muito melhor nadar junto].

Então, cadê você? Pergunto: cadê você, amor? Cadê o tempo bom de só estar, sem sentir as horas passar, sem pressa de levantar? Cadê pés se encostando de manhãzinha, café, amor, banho, café? Cadê as conversas de não terminar, tecendo fios sobre a existência? Cadê que eu nem lembro mais como é: dormir, acordar, dormir, acordar, abraçar, brigar, chorar, rir, rir rir rir... Cadê os planos? Vamos viajar, vamos fazer outro filho, vamos comprar um colchão novo... Vamos ler juntos e lançar doçuras em nossas amarguras diárias pra vida fagulhar? Cadê aquela palavra que nem precisa ser dita, porque já foi entendida quando pensada? E cantar juntos aquela música que a gente gosta. Cadê aquela música? E plantar juntos, colher juntos, comer juntos. Cadê nosso quintal? Onde é que ele é? Cadê eu não gostar das tuas manias e tu das minhas? Cadê eu amar outras manias tuas e poder escrever sobre elas e sobre os detalhes do teu jeito de espalhar as mãos enquanto fala - e de espalhar suas mãos sobre o meu corpo como eu gosto. Ah, como eu gosto...! Cadê você que acredita em Deus, que ama a Natureza, que consegue apaziguar brigas com um abraço? Cadê nossas respirações se sincronizando dentro de um abraço demorado? E aquele beijo desapressado?
Aquele arrepio, cadê?
Cadê você que é meio minha sombra e meio metade minha?



sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

blur

As noites têm sido curtas, os dias longos e cheios. Poucas horas de sono, muito trabalho. Eu costumo enfiar a cara no trabalho depois de uma desilusão amorosa. É um jeito produtivo de se distrair. Dei sorte: mal tenho tempo pra tomar banho. Hoje fiquei com vontade de saber como você está. Lembrei do dia em que me disse: "Você vai ver, amor, as coisas vão se abrir pra nós ao mesmo tempo e vamos poder curtir juntos, vai dar tudo certo". Queria saber se as coisas tão dando certo pra você como estão dando pra mim. Você não deve estar muito interessado, mas estou feliz. Fase boa da vida, finalmente tranquila. Sei que você "torce muito por mim" - foi o que me disse da última vez que nos falamos, então de qualquer forma achei que ficaria feliz em saber que estou bem. Todas as manhãs converso longamente com Deus e isso me mantém elevada. Sigo me emocionando muito com a imprevisibilidade da vida e ando muito impressionada com minha intuição. Coração ainda meio tropego, será esta uma característica dele? Mas enfim, já vivemos juntos há 36 anos, temos aquela intimidade que reconhece até o ritmo da respiração do outro, então no fundo é pura conexão. Esbarrei num cara de coração puro como o meu que tem o melhor abraço do mundo e a sensibilidade de poucos homens. Acho que estou me apaixonando por ele, mas quando ainda me pego chorando pelas nossas memórias, fico na dúvida se sou tola ou imbecil. É um misto de raiva e pena de mim mesma. Sei que já estou quase na reta final dessa insana caminhada que é te esquecer. Aos poucos, sua fotografia vai ficando embaçada. Num dia acordo e me dou conta de que esqueci o formato dos seus olhos. Aos poucos, você se esvai.
Um borrão.
Blur: algo que não posso ver claramente.
Ou talvez, nunca pude.


sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

vai casar

Sempre fui a menos sozinha das solteiras. Aqui e acolá, sempre tinha um hômi a tiracolo, raramente estive sozinha na vida. A grande maioria das minhas amigas tinha namoros duradouros, desses de anos... eu quase nunca. Tive um - e quase casei de véu e grinalda. Por sorte percebi a tempo que ainda era muito jovem para me privar de conhecer tantas pessoas interessantes.

De fato, a escolha de não levar adiante o único relacionamento looongo que tive me trouxe mais ganhos que perdas. Tive experiências muito apaixonadas, conheci muita gente louca, vivi intensamente (claro). Se pudesse voltar atrás, faria tudo de novo.

Hoje: 36 anos, 1 filho que já se veste sozinho... acho que quero casar! Se dependesse do tanto de vezes que já peguei o buquê, devia ter fila na minha porta. Fato é que não sei bem qual modelo de relacionamento desejo. Não acredito no casamento como está posto, mas também não sei muito pra onde correr. Talvez muita gente não goste de ler isso, mas não vejo muitos casais se divertindo pela vida. Vejo conveniências, acomodações. Vejo pouca vontade de crescer junto e muito apego aos vícios e obstáculos. Devo estar errada, por supuesto, caso contrário ninguém veria vantagem em continuar casado ;)  Estas são apenas impressões de uma solteira observadora.

Se eu tivesse que dizer o que acredito mesmo, seria: as pessoas são livres, ninguém é de ninguém. Mas sigo dizendo (até para mim mesma) o que a sociedade quer ouvir: vou casar. Como conciliar estas duas visões? Como se livrar do maldito amor romântico e viver plenamente a liberdade tão própria de quem ama? Esta é uma pergunta que tem me perseguido nos últimos tempos.

Da turma mais chegada, estão todas casadas. E pra festa de Natal, na lista eu leio "Beta + Tom". Me dá uma certa angustia. Não é inveja, não é dor de cotovelo, não é medo de envelhecer solteira - já que sozinha de fato quase nunca estive! É uma incerteza que não tem horizonte. Um lugar novo em mim que chama por um par que não seja meu filho. Um par(ceiro). Pra vida.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

mandinga

Outro dia li uma daquelas placas de "trago seu amor de volta" e fiquei imaginando quantas milhares de pessoas procuram esses serviços. Que tipo de loucura leva uma pessoa a querer atar alguém a si própria sem que a outra assim o consinta? Que solidão é essa que nos escraviza emocionalmente? Em que poço de dor profunda temos que mergulhar para nos curar e conseguirmos amar verdadeiramente?

Amor é liberdade.

Me peguei triste ao imaginar alguém implorando amor pr'aquele número de telefone do cartaz. É uma dor física essa de ser preterida, de ser deixada, de não ser desejada. Dá pra entender que, na nossa incapacidade de lidar com a dor, buscamos qualquer coisa que prometa nos livrar dela. Qualquer coisa.

Nosso ego grita pra ser ouvido.
Nossa mente cria cenários ilusórios, sombrios.
Nossa pele... ah, nossa pele.

Eu não sei que feitiço foi esse que você me jogou. Mas pegou.


terça-feira, 28 de novembro de 2017

a tua presença

Então o tempo passa. E em mim passou uma miríade de sensações. Cheguei a pensar que não havia nada mais para ser dito. Pensei que não te amava. Depois, que seria impossível não te amar. Então comecei a estudar finamente o amor em seus diversos aspectos: gratidão, compaixão, liberdade. 

É isso: eu te amo. Estava resolvido. 

A partir desse momento, me permiti sofrer em paz. Mergulhei em águas profundas. Sua ausência cada vez mais pungente. Oras bem, oras no chão. CHÃO. Cheguei a pensar que não iria mais te encontrar. Depois, fiquei imaginando como seria estar na sua presença. Insistia na sua presença. Internamente, alimentei a esperança genuína de te olhar e desgostar de todo você. 

Então, um café. Aquele café que tinha tudo pra ser amargo. Mas não foi.

Foi eu te ver de barba mal feita que quase desmaiei [acho que você fez de propósito]. Foi um abraço de mais de um minuto que a livraria inteira parou pra invejar. Foi risada, história, lágrima, pedido de perdão. Foi tanto carinho e tanta verdade, que nem sobrou espaço pro ressentimento. A mágoa foi fazer morada noutro lugar. A raiva saiu com o rabinho entre as pernas. Foi caminhada lenta com vontade de não acabar mais. 

Foi tão gostoso estar na tua presença que eu quase me esqueci que a gente não é mais um casal.

Ismael Nery, Nós, 1926

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

run for your life

É primavera. Tá exuberante a Natureza. Borboletas coloridas, flores perfumadas, a grama verdinha e a fruta no pé. Pitanga e amora. Os insetos felizes. Dama da noite cheira até de dia. Me reconheço neste desabrochar. Tenho ido correr no parque, tem sido um presente pros olhos. No meio do caos desta cidade, do ocaso aqui dentro, a Natureza me salva. Como sempre. 

Corro pra fortalecer o coração. Ele está batendo como nunca na energia do amor. Na insistência no amor. Só ele pode nos salvar do ódio, da loucura e até do desejo. Eu acredito nisso porque ainda te amo. Quer dizer, te amo e pronto (sem ainda). Porque amor que é amor não acaba nunca. Então fiquei pensando na eficácia do amor: é capaz até de aplacar o próprio amor. 

Corro para libertar minhas memórias. Como uma alcoólatra, cada instante sem você é um instante a mais comigo. A leveza está sendo uma conquista diária. 

Corro para oxigenar a razão, que não para de tentar entender porque você quis ir embora. Assim de repente, soltou da minha mão. Como a gente trata com distanciamento alguém que acabou de estar tão perto, ao seu lado, há pouco deitada na sua cama, onde algo tão intimo como dividir a cama e os lençóis quando o dia amanhece e os lençóis ficam lá escancarados com suas manchas e sua noite impregnadas. Como alguém sai da sua vida para a nulidade? 

Corro para compreender quão profunda é essa caverna onde você se enfiou. É preciso de coragem pra colocar o dedo na ferida e superar a dor. É preciso de coragem para ir até o mais escuro dos intestinos. É preciso de coragem para receber este amor. Te desejo coragem.

Corro. Corro pela vida. 


segunda-feira, 9 de outubro de 2017

é amor

Eu lembro quando te contei que, na faculdade, eu tive uma paixão fulminante que mudou muito minha vida naquele momento - eu ia me casar aos 22, e desisti por causa dessa paixão, que durou três semanas. Nada mais. Nunca mais.

Agora eu me sinto mais ou menos assim: como se você tivesse mudado o rumo da minha vida. Graças a você, estou mergulhando em mim como nunca estive. Era isso que eu queria te falar.

Ainda arrepio ao lembrar, a intensidade não amorna tão facilmente neste corpo.

Ainda não compreendo como viramos fumaça, mas ao mesmo tempo, tudo faz um sentido profundo. 18 fotos. A primeira delas, um clarão branco pra escrevermos uma nova história. Não juntos. Cada um a sua - mas nova.

Estou muito orgulhosa da gente, do passo que demos rumo à felicidade, da escolha que fizemos de viver isso. Um privilégio. Estou muito feliz por me despir e perceber a beleza que se esconde por trás das diferenças - onde mora o grande aprendizado. Apesar de sermos opostos, somos pessoas incríveis fazendo o melhor que podemos.

Honro nossa verdade e nossa entrega. Sempre fomos nós mesmos, nunca outros. Por isso deu tão certo. E quando é uma coisa de verdade é pra sempre. Uma vez, um cara de quem eu gostei muito me disse: "Se for só pra você me ensinar a lixar as unhas, já vai ter valido à pena". É isso. 


Eu sinto muito pois sua dor é também a minha dor.

Me perdoe por te julgar.

Eu te amo por ser exatamente quem você é.

Eu sou grata por nossos caminhos terem se cruzado.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

amor demodê

Vivemos tempos tão desconexos que até o amor tá em baixa. Coitado, justo ele, o amor: o único que pode nos salvar desta barbárie. Eu mesma fui questionada sobre minha capacidade de amar, sobre o tamanho do meu amor. Será que é tudo isso mesmo? Será que você não tá se iludindo? Será que não tá confundindo amor com carência?

Porra, a pessoa faz Hoponopono todo santo dia pra humanidade melhorar e ainda tem que ouvir uma dessas... era pra deixar o camarada falando sozinho na mesa do bar, neam? Mas não. Pacientemente expliquei que amo sim, de todo coração. Acredite ou não, eu amo fácil. E você é fácil de amar.

Outro dia me perguntaram se eu ainda amo o pai do meu filho. Eu disse que sim, que amava ele como amo qualquer outro ser humano. Que não desejo vê-lo sofrer, que quero vê-lo feliz. "Mas o cara só faz cagada, como você ainda o ama?". Vou fazer o quê? Odiá-lo vai ajudar?

E tem o Prem Baba abraçando o Prefeitop, né? Esse foi o ato de amor mais incompreendido das redes sociais dos últimos dias. A esquerdofobia taca-lhe pau no Baba - que só faz pregar amor. Se o cara prega amor, ele precisa ser coerente e amar sem distinção, certo? O que ele deveria fazer, cuspir na cara do Doria? "Ele podia simplesmente não fazer aquela foto", dirão alguns. "Porque a Dilma ele nunca abraçou, blablabla". Como líder espiritual, o Baba tem que abraçar o prefeito. Ele tem que abraçar até o Trump, se rolar. Isso não significa que ele goste do cara, que ele concorde com o cara, que ele assine embaixo do que o cara faz. Significa apenas (neste contexto isolado) que ele tá sendo coerente e espalhando amor. O Prem Baba é um cara de uma vibração espiritual muito elevada. Pra quem acredita, estar na presença dele é uma oportunidade. Que bom que o Doria teve essa oportunidade, quem sabe ele não melhora um pouquinho?

Amar tá confuso, como todo o resto. Amor não tem nada a ver com sexo, com gênero, não tem nada a ver com desejo, com poder, com política (e tem tudo a ver com tudo isso ao mesmo tempo). Mas acima de tudo, amar tem a ver com compaixão. Estar ao lado de um ser humano que você supostamente despreza e se dispor a abraça-lo é o maior ato de amor que podemos ter. Explicar pra um homem que te questiona sobre o tanto que você o ama, é um grande ato de compaixão. Sentir gratidão e neutralidade pelo pai do seu filho que só faz cagada: é amor.

Deixem o amor viver. Deixem o amor crescer.
#maisamorporfavor


terça-feira, 29 de agosto de 2017

palpitante

Já não consigo controlar o atrevimento de ser como sou. Eu quero mesmo é ir morar no mar. Eu quero bradar aos quatro cantos que milagres existem. A viagem é pra dentro de mim, e eu quero ir com você.

Quero entender o porquê das coisas, sabe como é: inquieta desde 10 de outubro de 1981.

Quero saber mais sobre sexo. E fazer mais amor. 

Ir a fundo em todas as experiências espirituais que surgirem - sendo o amor a primeira delas. 

Amo acima de tudo a Natureza. Quero ser refinadamente simples e viver a simplicidade como valor supremo. Isso a Natureza nos ensina todos os dias: faça chuva ou sol, está ali, resiliente.

Preciso de músicas inspiradoras. A arte nutre profundamente meu espírito e me faz ser uma pessoa melhor. 

Sou desperta e buscadora. Cozinho bem - gosto de curry e cúrcuma. Sou uma mãe em eterna (des)construção. De vez em quando eu medito. De vez em quando eu surto. 

Estou emancipada a mulher incrível que sou. Que somos! Não há nada mais sublime do que ser mulher. Sei elogiar uma mulher bonita, amo a energia feminina. Não acredito na competição entre nós. E não gosto de generalizações. Pelo contrário, minha missão é desconstruir estereótipos.

Já não sou o que eu disse que era - só há vida se há movimento. 

Enfim. Eu não sei exatamente o que quero dizer e cada hora digo uma coisa: sou libriana.

Eu sou uma figura. 

O resto vamos descobrindo pelo caminho. 

"Pacificamente violenta
Como aranha caranguejeira na teia
Eu canto pra que eu nunca esqueça
Pra que eu nunca esqueça
Pra que eu nunca esqueça"
(Ellen Oleria)


segunda-feira, 15 de junho de 2015

carta pro filho [2]

Essa coisa de ser mãe tá ficando cada dia mais interessante: você agora entende tudo o que eu te digo. Tudo não é força de expressão. É tudo mesmo! Entende na medida da sua curiosidade pelo mundo, com a inocência de quem nunca ouviu aquela novidade antes. É lindo de ver.

Hoje te contei que, neste planeta que habitamos, não existem duas pessoas iguais. Tem loiros, rastafaris, budistas, baixos, altos, orientais, muçulmanos, cegos, morenos, meninas que gostam de meninos ou de meninas (ou dos dois)... mas pra muito além disso - e você me olhava muito sério e compenetrado - não existem duas pessoas com a essência igual.

Essa é a grandeza mágica de ser humano, filho: somos parte de uma espécie imensa, mas nem sequer um representante desta espécie é igual ao outro. Tão complexos e fascinantes, cada qual com caminho de evolução, cada um de nós galgando um aprendizado diário único e individual. 

Mas ao mesmo tempo, somos muito parecidos. Precisamos nos parecer para pertencer. Nossa parecência é coisa que nos identifica. Sentimentos, emoções e sonhos em comum nos unificam. Um dia você vai ter a sorte de encontrar alguém que não se parece em nada com você, mas vai ser idêntico a você. Soa estranho, mas isso vai te fazer sentir um bem estar indescritível, como se sua alma tivesse encontrado outra alma idêntica a sua, uma complementação perfeita. A isso damos o nome de amor. Desejo que você cultive sempre o amor no seu coração, filho. É só o amor que nos faz superar diferenças, limitações, preconceitos.
O amor nos faz ser Humanos.



quarta-feira, 19 de junho de 2013

hora de acordar


Liguei pra te contar do perfume dos jasmins em flor. E falar das frutas da estação. E do banho de chuva que pensei em tomar (com você). Desta vez, não quis me preocupar com julgamentos à minha verdade, sendo contigo apenas eu mesma. Queria falar a sua língua, para que entendesses cada sílaba de mim. Tive, por um breve e ilusório instante, a certeza de que minha transparência serviria para te fazer compreender que cada ato meu foi mais uma tentativa de aproximação de mim mesma. E logo de ti.
Queria me sentir livre na sua presença - porque ainda me sinto uma estranha quando não estás. Torci para que cada palavra minha fosse um sentimento bom, e que cada sentimento se transmutasse em compaixão. E que eu pudesse apenas sorrir quando você diz o que nem sabe que está dizendo. Queria que essas lágrimas tolas parassem de insistir, me sinto ingrata por chorar em um momento tão abençoado. E que apenas as boas lembranças povoassem minha mente. Que refletida na minha íris cor de mel, eu pudesse ver seu olhar apaixonado e inocente de um dia. Queria que eu fosse a linha, e você o linho, pra sua vida bordar na minha. E fosse reaparecendo aos poucos nosso amor.
Sonho acabou, é hora de acordar.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

mulher

Não há outro caminho de entrada no mundo que não seja pelo corpo da mulher. A mulher é o portal para o universo. Ela é também o ventre do Ser. Cada pessoa no mundo começou a vida como um traço minúsculo nas profundezas da mãe cujo ventre é o espaço onde esse traço se expande e se abre para assumir a forma humana. Em termos de futura identidade e destino de uma pessoa caminhando pelo mundo, este é o tempo de máxima formação e influência. No encontro humano, nada chega a ser mais próximo do que isso; nunca dois seres poderão estar mais perto como quando um está se formando nas profundezas do outro. Naturalmente a relação é imensamente desequilibrada: um é uma pessoa completa, o outro é minúsculo, apenas começando sua jornada rumo à identidade absorvendo vida da mãe. Porém, na noite do corpo materno, cada um está desesperadamente aberto ao outro. Homem nenhum chega mais perto de uma mulher. Mulher nenhuma chega mais perto de outra mulher. Esse intricado nutrir e desabrochar de identidade se dá debaixo da luz no subconsciente físico de seu corpo. A mãe não vê nada. A jornada é inteiramente às escuras. É a mais longa jornada humana do invisível ao visível. De cada via interna, o labirinto de seu corpo aporta um fluxo de vida para formar e liberar esse peregrino interno. Imagine os incríveis eventos que vão chegando para formar o embrião: de como cada partícula de crescimento equivale à formação de um mundo oriundo de fragmentos.
[John O´Donohue]

domingo, 2 de junho de 2013

Oração da Serenidade


Concedei-me, Senhor, a SERENIDADE necessária para aceitar as coisas que não posso modificar. CORAGEM para modificar aquelas que posso e SABEDORIA para distinguir umas das outras.