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quinta-feira, 12 de março de 2020

auto-alta

Hoje me dei alta da terapia. Eu mesma.
Nunca tinha feito isso e me senti muito corajosa.

To num desassossego. A gata inquieta anda, mia, come, se estica, pula pela janela, se roça na minha canela. Espelha meu estado de espirito. Não consigo dormir. Comecei a ler sobre o tal do vírus. Humanidade doente (literalmente, agora). Penso como conseguimos chegar nisso: odiar a vida a ponto de querer aniquilar a sua própria. Bicho homem. Tão apartado de tudo, como desaprendeu tão rápido?

Aquela chuva toda de semanas atrás lavou muita coisa aqui dentro.
Árvores caíram.
Desprenderam suas raízes para dar espaço a novas sementes.

Aquele curso - na sequencia da chuva toda - encontrou uma placenta.
Absolutamente fértil.
Attraversiamo?


quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Em cartaz

Tão difícil reestrear no amor quanto na escrita. Tantos processos vividos nestes anos de poucas escritas e poucos amores: muita maternidade muito ralo muito choro. Preparação intensa dos alicerces para vir a ser o que agora sou. Tão inteira, depois de tantos tropeços. E essa mania cruel de olhar pro pouco que fiz, pro pouco que sou. E a mania de me boicotar. E a dificuldade de ouvir que sou foda. É muito difícil reestrear.

Mas hoje senti que o palco está pronto. Iluminado na medida certa. O microfone na altura certa. O som já passado e repassado mil vezes: tinindo.

Vejo alguém para dividir. o caminhar. o vinho. a viagem que é viver. o Chá. as risadas. as dores. as curas. Estou profundamente grata por te ver, finalmente. 




terça-feira, 5 de novembro de 2019

incapaz

Sinto-me incapaz de ser amada. Assim, homem-mulher-par-companheiros. Posso dizer a verdade? Sinto. Será sentimento comum às mães de crianças pequenas? Será, ou é só minha a sensação-vento? Sinto assim, como se meu universo não encaixasse. E não é baixa estima, assim, corriqueira. Não. É uma sensação de que não pode ser. É uma sensação de desencaixe. É como se minha rotina fosse tão tão que... né? Nem dá. Nem dá. Eu tenho esse sentimento como quem olha e não habita. Como quem deseja, mas nem ousa. Como quem camufla, mas nem aprofunda. Aos que dançam sozinhos, toda uma completude. Que o seja. E esforço-me para não transparecer. Lá vai ela, mãe. Lá vai ela, sendo. Distancio dos encontros porque chove, porque chovo, porque não dou conta. De ser. Amada. Porque controlo meus impulsos com este choro baixinho. De canto. Em canto. Se me dói? Às vezes sim, noutras não. Acolho. Como joaninhas que nos alugam as saias, sigo com ela ali – presa na estampa florida. Presa e solta, mas ali. Aqui. E dá vontade de soprar: a joaninha. Vá ao vento, vá, vá.. Mas nem. Nem. Agora, sinto-me velha. Não interessam-me mais tanto as baladas, os jogos de romance, o habitar de in-serenidades. Agora, sinto que é muito mais branda e muito mais calma a necessidade. Coisa pouca. Carinho leve. Nenhum grande apaixonar, nenhuma galopada rude de arrancar os ossos. Assim, com crianças ao lado... Como crianças ao lado. Só um tilintar. Dia. Após dia. As coisas pequenas, os sentimentos profundamente silenciosos e nem por isso menos. Essa vontade de pertencer, só isso. De partilhar, só isso. Essa vontade calma. Esse recuar invisível. Esta confusa verdade. A mulher que vive em mim e que anda assim, gota. Assim, água. Assim.

[Genifer Gerhardt]

terça-feira, 25 de setembro de 2018

inferno astral

À beira dos 37 muito bem vividos, me emociono ao perceber como ainda me deixo ser tocada pela vida. Sigo mais suscetível do que nunca e choro as dores do outro, que são as minhas próprias. Não quero nem vou mudar isso. Manter-me permeável num mundo blindado é resistência. Manter-me sensível e disposta neste contexto acirrado é amor. Manter-me atenta ao entorno é conexão. Resistência, amor e conexão: o que mais desejar para um novo ciclo?

Neste fim de semana de emoções atropeladas, pensei um pouquinho em você - fazia tempo que você não aparecia por aqui. Pensei que talvez sejamos mais parecidos do que eu gostaria. Pensei que talvez você vote no coiso e isso imediatamente me fez espanar as poucas memórias agradáveis que ainda guardo da gente. Mas fui além e me perguntei: quanto do "coiso" existe dentro de cada um de nós que não queremos ver? Quanto de louco, radical, preconceituoso, feio, bizarro, escroto, mau, incoerente, nojento existe em você? E foi então que percebi também o quanto de você há em mim. Você que só critica e julga. Talvez por isso doa tanto te ver assim de frente.

Tudo que é perturbador é também revelador.

Talvez o segredo seja olhar no espelho e aceitar o que vier. Até o auto-engano.


sábado, 28 de abril de 2018

cadê você

O amor não é simples. É um sentimento muito sofisticado. E eu sou uma fonte pura e inesgotável dessa sofisticação. Tento, a cada dia, não me engatilhar nas armadilhas da mente e agir com o coração. Nem sempre consigo, mas tento. Vivo assim minha verdade. Você é mente pura, tá engatilhado todo, cheio de nós. Cheio de corações partidos pelo caminho. Cheio de vazios. Não tô muito interessada em águas rasas. Quero mergulhar sem ver o fundo. Surpreende a profundidade da nossa ligação, mas não há mergulho. E aí eu mergulho sozinha. De novo - E de novo.
[É sempre bom nadar, mas muito melhor nadar junto].

Então, cadê você? Pergunto: cadê você, amor? Cadê o tempo bom de só estar, sem sentir as horas passar, sem pressa de levantar? Cadê pés se encostando de manhãzinha, café, amor, banho, café? Cadê as conversas de não terminar, tecendo fios sobre a existência? Cadê que eu nem lembro mais como é: dormir, acordar, dormir, acordar, abraçar, brigar, chorar, rir, rir rir rir... Cadê os planos? Vamos viajar, vamos fazer outro filho, vamos comprar um colchão novo... Vamos ler juntos e lançar doçuras em nossas amarguras diárias pra vida fagulhar? Cadê aquela palavra que nem precisa ser dita, porque já foi entendida quando pensada? E cantar juntos aquela música que a gente gosta. Cadê aquela música? E plantar juntos, colher juntos, comer juntos. Cadê nosso quintal? Onde é que ele é? Cadê eu não gostar das tuas manias e tu das minhas? Cadê eu amar outras manias tuas e poder escrever sobre elas e sobre os detalhes do teu jeito de espalhar as mãos enquanto fala - e de espalhar suas mãos sobre o meu corpo como eu gosto. Ah, como eu gosto...! Cadê você que acredita em Deus, que ama a Natureza, que consegue apaziguar brigas com um abraço? Cadê nossas respirações se sincronizando dentro de um abraço demorado? E aquele beijo desapressado?
Aquele arrepio, cadê?
Cadê você que é meio minha sombra e meio metade minha?



quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

envergo, mas não quebro

Eu achei que este dia não ia chegar. Sinto meu coração transbordando de gratidão e uma tranquilidade como há tanto tempo não sentia - ainda desperto por vezes em sobressalto achando ser um sonho. Mas não é sonho. Assim como o passado também não foi pesadelo. Pés descalços no caminho pedregoso sob o sol escaldante, lágrimas secas, coração vazio: nada foi em vão. Sou agora o resultado deste percurso. Olhei bem fundo na cara do medo. Às vezes me desesperei. Pedi muita ajuda e tive muita ajuda. Meus amigos: meus tesouros. Meus anjos, meus gurus. Meus antepassados. Ganhei um amor de presente pra amansar os dias mais difíceis. Honro esses dias, os melhores e os piores. Não me orgulho do sofrimento, apenas agradeço os aprendizados. Hoje valorizo outras coisas, meus desejos se transformaram, sou muito maior. Hoje escolho me libertar de julgamentos que me cegam, de crenças que me limitam, de condicionamentos que me aprisionam. Prefiro olhar pra dentro e me relacionar sem máscaras. Eu, mais eu do que nunca. Coração.
Pode vir. Tô pronta.


sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

blur

As noites têm sido curtas, os dias longos e cheios. Poucas horas de sono, muito trabalho. Eu costumo enfiar a cara no trabalho depois de uma desilusão amorosa. É um jeito produtivo de se distrair. Dei sorte: mal tenho tempo pra tomar banho. Hoje fiquei com vontade de saber como você está. Lembrei do dia em que me disse: "Você vai ver, amor, as coisas vão se abrir pra nós ao mesmo tempo e vamos poder curtir juntos, vai dar tudo certo". Queria saber se as coisas tão dando certo pra você como estão dando pra mim. Você não deve estar muito interessado, mas estou feliz. Fase boa da vida, finalmente tranquila. Sei que você "torce muito por mim" - foi o que me disse da última vez que nos falamos, então de qualquer forma achei que ficaria feliz em saber que estou bem. Todas as manhãs converso longamente com Deus e isso me mantém elevada. Sigo me emocionando muito com a imprevisibilidade da vida e ando muito impressionada com minha intuição. Coração ainda meio tropego, será esta uma característica dele? Mas enfim, já vivemos juntos há 36 anos, temos aquela intimidade que reconhece até o ritmo da respiração do outro, então no fundo é pura conexão. Esbarrei num cara de coração puro como o meu que tem o melhor abraço do mundo e a sensibilidade de poucos homens. Acho que estou me apaixonando por ele, mas quando ainda me pego chorando pelas nossas memórias, fico na dúvida se sou tola ou imbecil. É um misto de raiva e pena de mim mesma. Sei que já estou quase na reta final dessa insana caminhada que é te esquecer. Aos poucos, sua fotografia vai ficando embaçada. Num dia acordo e me dou conta de que esqueci o formato dos seus olhos. Aos poucos, você se esvai.
Um borrão.
Blur: algo que não posso ver claramente.
Ou talvez, nunca pude.


sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

meu bem, meu zen, meu crack

Metade do meu sangue é drama mediterrâneo, então pode parecer que eu goste de sofrer. Sim, ainda choro profundamente. Sim, ainda penso em você, muito mais do que gostaria. Não me envergonho de ter te amado, só não consigo entender as recaídas. É muito ruim, como se você fosse meu crack.

Mas eu sou filha do sol e mereço brilhar.

Acho que já te agradeci por tudo. Já rezei todas os rezos que conheço. Já te pedi perdão por não ser aquela que você esperava. Já não tenho seu telefone, nem seu endereço. Já faz tempo, mas ele insiste em caminhar lento pra mim, no que se refere a nós.

Recentemente te mandei à merda.
E vou aproveitar pra te mandar uns boletos também:
250 paus numa Constelação pra ver todas as suas dores lá escancaradas.
150 paus numa sessão de Barras de Access pra sacar o padrão que me prende a você. 
250 paus para te vomitar numa sessão de ayahuasca com a galera mais escorpiana que eu conheci na vida - aprendendo com os scorpions!
Chorar como uma criança no colo de uma preta velha e perguntar "por quê?" - pra ouvir a resposta que eu já sabia (esse foi de graça).  
E mais 120 pilas em outra sessão de ayahuasca pra te vomitar mais um pouco. Detox geral.  
Veio Palo Santo da Colômbia.
Veio São Miguel Arcanjo.
Veio Osho
... e a galera toda!

Mas... é só o tempo. O analgésico da vida. 


quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

mandinga

Outro dia li uma daquelas placas de "trago seu amor de volta" e fiquei imaginando quantas milhares de pessoas procuram esses serviços. Que tipo de loucura leva uma pessoa a querer atar alguém a si própria sem que a outra assim o consinta? Que solidão é essa que nos escraviza emocionalmente? Em que poço de dor profunda temos que mergulhar para nos curar e conseguirmos amar verdadeiramente?

Amor é liberdade.

Me peguei triste ao imaginar alguém implorando amor pr'aquele número de telefone do cartaz. É uma dor física essa de ser preterida, de ser deixada, de não ser desejada. Dá pra entender que, na nossa incapacidade de lidar com a dor, buscamos qualquer coisa que prometa nos livrar dela. Qualquer coisa.

Nosso ego grita pra ser ouvido.
Nossa mente cria cenários ilusórios, sombrios.
Nossa pele... ah, nossa pele.

Eu não sei que feitiço foi esse que você me jogou. Mas pegou.


terça-feira, 28 de novembro de 2017

a tua presença

Então o tempo passa. E em mim passou uma miríade de sensações. Cheguei a pensar que não havia nada mais para ser dito. Pensei que não te amava. Depois, que seria impossível não te amar. Então comecei a estudar finamente o amor em seus diversos aspectos: gratidão, compaixão, liberdade. 

É isso: eu te amo. Estava resolvido. 

A partir desse momento, me permiti sofrer em paz. Mergulhei em águas profundas. Sua ausência cada vez mais pungente. Oras bem, oras no chão. CHÃO. Cheguei a pensar que não iria mais te encontrar. Depois, fiquei imaginando como seria estar na sua presença. Insistia na sua presença. Internamente, alimentei a esperança genuína de te olhar e desgostar de todo você. 

Então, um café. Aquele café que tinha tudo pra ser amargo. Mas não foi.

Foi eu te ver de barba mal feita que quase desmaiei [acho que você fez de propósito]. Foi um abraço de mais de um minuto que a livraria inteira parou pra invejar. Foi risada, história, lágrima, pedido de perdão. Foi tanto carinho e tanta verdade, que nem sobrou espaço pro ressentimento. A mágoa foi fazer morada noutro lugar. A raiva saiu com o rabinho entre as pernas. Foi caminhada lenta com vontade de não acabar mais. 

Foi tão gostoso estar na tua presença que eu quase me esqueci que a gente não é mais um casal.

Ismael Nery, Nós, 1926

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

despedida

Eu queria ter tido a chance de me despedir de você. De olhar lá no fundo dos seus olhos para desvendar o que sua alma guarda. Eu queria poder te dar um abraço demorado. Dizer que sinto muito. Sentir seu coração batendo pra ter certeza de que ele não congelou. Eu queria te dizer o quão injusto foi fazer tantos planos e deixar que eles derretessem como gelo no sol. Eu queria ouvir de você que existe outra pessoa, porque só assim essa ruptura covarde, virtual e insensata faria algum sentido.

Eu queria te ver frágil e sensível, sem máscaras.

Queria que se deixasse amar - independente de haver ou não algo entre nós. Eu queria mesmo que você pudesse receber este amor que estou cultivando em mim - não este amor banal, carnal. Amor de Ser Humano. Queria eu também receber seu cuidado. Não este cuidado de homem/mulher: cuidado de Ser Humano. Gente que se cuida porque se importa.

Mas nada mais importa. E não sei se algum dia de fato importou. Hoje acho que tudo não passou de um grande mal entendido. Chego a pensar que aquela manhã ensolarada podia ter amanhecido nublada e chuvosa, assim quiçá nunca teríamos nos cruzado na vida. Mas não há como mudar o que foi. Só há como mudar o que é. Essa dor que me rasga o peito, essa incompreensão, esse vazio que você deixou em mim: isso vai mudar. Hoje.


quinta-feira, 19 de outubro de 2017

run for your life

É primavera. Tá exuberante a Natureza. Borboletas coloridas, flores perfumadas, a grama verdinha e a fruta no pé. Pitanga e amora. Os insetos felizes. Dama da noite cheira até de dia. Me reconheço neste desabrochar. Tenho ido correr no parque, tem sido um presente pros olhos. No meio do caos desta cidade, do ocaso aqui dentro, a Natureza me salva. Como sempre. 

Corro pra fortalecer o coração. Ele está batendo como nunca na energia do amor. Na insistência no amor. Só ele pode nos salvar do ódio, da loucura e até do desejo. Eu acredito nisso porque ainda te amo. Quer dizer, te amo e pronto (sem ainda). Porque amor que é amor não acaba nunca. Então fiquei pensando na eficácia do amor: é capaz até de aplacar o próprio amor. 

Corro para libertar minhas memórias. Como uma alcoólatra, cada instante sem você é um instante a mais comigo. A leveza está sendo uma conquista diária. 

Corro para oxigenar a razão, que não para de tentar entender porque você quis ir embora. Assim de repente, soltou da minha mão. Como a gente trata com distanciamento alguém que acabou de estar tão perto, ao seu lado, há pouco deitada na sua cama, onde algo tão intimo como dividir a cama e os lençóis quando o dia amanhece e os lençóis ficam lá escancarados com suas manchas e sua noite impregnadas. Como alguém sai da sua vida para a nulidade? 

Corro para compreender quão profunda é essa caverna onde você se enfiou. É preciso de coragem pra colocar o dedo na ferida e superar a dor. É preciso de coragem para ir até o mais escuro dos intestinos. É preciso de coragem para receber este amor. Te desejo coragem.

Corro. Corro pela vida. 


segunda-feira, 9 de outubro de 2017

é amor

Eu lembro quando te contei que, na faculdade, eu tive uma paixão fulminante que mudou muito minha vida naquele momento - eu ia me casar aos 22, e desisti por causa dessa paixão, que durou três semanas. Nada mais. Nunca mais.

Agora eu me sinto mais ou menos assim: como se você tivesse mudado o rumo da minha vida. Graças a você, estou mergulhando em mim como nunca estive. Era isso que eu queria te falar.

Ainda arrepio ao lembrar, a intensidade não amorna tão facilmente neste corpo.

Ainda não compreendo como viramos fumaça, mas ao mesmo tempo, tudo faz um sentido profundo. 18 fotos. A primeira delas, um clarão branco pra escrevermos uma nova história. Não juntos. Cada um a sua - mas nova.

Estou muito orgulhosa da gente, do passo que demos rumo à felicidade, da escolha que fizemos de viver isso. Um privilégio. Estou muito feliz por me despir e perceber a beleza que se esconde por trás das diferenças - onde mora o grande aprendizado. Apesar de sermos opostos, somos pessoas incríveis fazendo o melhor que podemos.

Honro nossa verdade e nossa entrega. Sempre fomos nós mesmos, nunca outros. Por isso deu tão certo. E quando é uma coisa de verdade é pra sempre. Uma vez, um cara de quem eu gostei muito me disse: "Se for só pra você me ensinar a lixar as unhas, já vai ter valido à pena". É isso. 


Eu sinto muito pois sua dor é também a minha dor.

Me perdoe por te julgar.

Eu te amo por ser exatamente quem você é.

Eu sou grata por nossos caminhos terem se cruzado.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

perdas e ganhos

Um tufão passou por aqui bagunçou um pouco a vida, mas deixou bons legados.

Ganhos
- Voltei a usar Phebo (como algum dia eu pude deixar de usar?!).
- Retomei a escrita afetiva.
- Comecei a sonhar de novo.
- Descobri que óleo de coco é bom pra tudo (mesmo).
- Me lembrei que qualquer coisa é possível.
- Percebi que há dores imensuráveis - e que as minhas são minúsculas.
- Me dei conta (sem me dar conta) que amor não é sexo e sexo não é amor.
- Reafirmei que os opostos não se atraem. Se distraem.
- Quebrei (mais) paradigmas.
- Superei alguns (poucos) preconceitos.
- Percebi que nem todo fim precisa ser dramático. 
- Descobri que quanto menos a gente procura, mais a gente acha.

Perdas
- Você.







sexta-feira, 29 de setembro de 2017

elevador geolocalizado

Apressada como sempre, amarrou o cadarço no hall enquanto esperava o elevador chegar. Atrasada como sempre, entrou afobada já pegando o blush de dentro da bolsa. Até chegar no térreo daria pra dar um tapa (na cara). Esta cara ainda jovem, de uma menininha, diziam alguns (uma leoa, na verdade). 

Lançou um olhar de poder pro espelho. Ainda daria tempo de passar o rimmel. De repente sentiu o solavanco do elevador, parou no 4. Abre a porta aquele moço grisalho simpático. Ele tem uma moto dessas grandonas, os menino pira tudo na moto do cara. 

- Bom dia.
- Bom dia.
O bom dia foi meio desprezível, de costas mesmo. Os olhos se cruzaram no espelho do elevador. Tantos anos morando no mesmo edifício e ela nunca havia percebido que esse moço poderia ser interessante. Na verdade ele não era - não para ela. E o fato deles terem se cruzado num aplicativo de relacionamento geolocalizado na noite anterior não o tornava mais interessante. A única coisa que eles pareciam ter em comum realmente era morar no mesmo prédio.

- Tudo bem? 
- Tudo... e você?
- Seu cadarço tá desamarrado.
- Ah, nossa, to sempre correndo apressada... amarrei o de um pé só (risos).
- Não se apressa tanto não...
- Como?
- Tive um infarto no mês passado. Eu estava sempre muito apressado. 

O elevador chega no térreo. Ele abre a porta sorrindo.

- Desculpa te falar assim, é que depois dessa experiência eu aprendi tanto...
- Imagina...uau, mas que bom que você está bem, né? Recuperação rápida!
- Quase morri. E quase morrer é uma sensação muito louca. Na verdade eu acho que morri mesmo, porque agora sou outro. Você tá indo pro metrô?

De repente, ela sentiu ternura por aquele homem. Como se compartilhar um milimetro de intimidade tivesse o poder de tornar as pessoas subitamente interessantes.

Em apenas quatro andares.

- Estou sim. Como você se chama mesmo?
- Luiz, prazer. Eu também to indo pro metrô. Vamos juntos?
- Vamos. Prazer. E feliz vida nova :) 

Pra quê mesmo a gente precisa de aplicativos de relacionamentos se a gente pode conhecer as pessoas no elevador?


terça-feira, 26 de setembro de 2017

amor demodê

Vivemos tempos tão desconexos que até o amor tá em baixa. Coitado, justo ele, o amor: o único que pode nos salvar desta barbárie. Eu mesma fui questionada sobre minha capacidade de amar, sobre o tamanho do meu amor. Será que é tudo isso mesmo? Será que você não tá se iludindo? Será que não tá confundindo amor com carência?

Porra, a pessoa faz Hoponopono todo santo dia pra humanidade melhorar e ainda tem que ouvir uma dessas... era pra deixar o camarada falando sozinho na mesa do bar, neam? Mas não. Pacientemente expliquei que amo sim, de todo coração. Acredite ou não, eu amo fácil. E você é fácil de amar.

Outro dia me perguntaram se eu ainda amo o pai do meu filho. Eu disse que sim, que amava ele como amo qualquer outro ser humano. Que não desejo vê-lo sofrer, que quero vê-lo feliz. "Mas o cara só faz cagada, como você ainda o ama?". Vou fazer o quê? Odiá-lo vai ajudar?

E tem o Prem Baba abraçando o Prefeitop, né? Esse foi o ato de amor mais incompreendido das redes sociais dos últimos dias. A esquerdofobia taca-lhe pau no Baba - que só faz pregar amor. Se o cara prega amor, ele precisa ser coerente e amar sem distinção, certo? O que ele deveria fazer, cuspir na cara do Doria? "Ele podia simplesmente não fazer aquela foto", dirão alguns. "Porque a Dilma ele nunca abraçou, blablabla". Como líder espiritual, o Baba tem que abraçar o prefeito. Ele tem que abraçar até o Trump, se rolar. Isso não significa que ele goste do cara, que ele concorde com o cara, que ele assine embaixo do que o cara faz. Significa apenas (neste contexto isolado) que ele tá sendo coerente e espalhando amor. O Prem Baba é um cara de uma vibração espiritual muito elevada. Pra quem acredita, estar na presença dele é uma oportunidade. Que bom que o Doria teve essa oportunidade, quem sabe ele não melhora um pouquinho?

Amar tá confuso, como todo o resto. Amor não tem nada a ver com sexo, com gênero, não tem nada a ver com desejo, com poder, com política (e tem tudo a ver com tudo isso ao mesmo tempo). Mas acima de tudo, amar tem a ver com compaixão. Estar ao lado de um ser humano que você supostamente despreza e se dispor a abraça-lo é o maior ato de amor que podemos ter. Explicar pra um homem que te questiona sobre o tanto que você o ama, é um grande ato de compaixão. Sentir gratidão e neutralidade pelo pai do seu filho que só faz cagada: é amor.

Deixem o amor viver. Deixem o amor crescer.
#maisamorporfavor


segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Comunica(dor)

Estou com muita dor. Pensei que talvez não fosse um bom momento para escrever. Mas é das dores que nascem as curas, e está sendo lindo ver isso brotar do meu corpo, da minha garganta. Arde, arranha, dói, inflamada como um vulcão.

A garganta, canal da minha comunicação: ao mesmo tempo minha fortaleza e o lugar onde me sinto tão vulnerável. Se lanço flechas, ferem. Se não lanço, o silêncio fere a mim. Profundamente. A não-resposta. A garganta (sempre ela) pigarreia para não deixar sair. Fingir não se importar nunca funcionou pra me apaziguar. Não guardo mágoas, mas as migalhas - aquelas que insistimos em não varrer - incomodam.

Já lancei muitas flechas. Já feri muito. Hoje prefiro resguardar as relações. Aguardo com paciência a sabedoria do tempo para acessar o que não falei. E o que devia ter falado. Será que devia ter falado? O que é de fato relevante? Aguardo e guardo ainda a um alto custo. Porque eu gosto mesmo é de varrer migalhas - e não para debaixo do tapete. Gosto de tudo "bem limpinho e arrumadinho", como diria alguém que eu conheço. Não deixo pra lá. Sabe-se lá onde é este "pra lá", vai que ele aparece de novo aqui - e via de regra aparece.

Então firmo aqui essa comunicação amorosa, diretamente do coração. O que eu tenho pra te falar vai te trazer curas. O que eu ouvir de você também. Vamos abrir este espaço saudável de crescimento e verdade. Verdade sempre.



terça-feira, 29 de agosto de 2017

palpitante

Já não consigo controlar o atrevimento de ser como sou. Eu quero mesmo é ir morar no mar. Eu quero bradar aos quatro cantos que milagres existem. A viagem é pra dentro de mim, e eu quero ir com você.

Quero entender o porquê das coisas, sabe como é: inquieta desde 10 de outubro de 1981.

Quero saber mais sobre sexo. E fazer mais amor. 

Ir a fundo em todas as experiências espirituais que surgirem - sendo o amor a primeira delas. 

Amo acima de tudo a Natureza. Quero ser refinadamente simples e viver a simplicidade como valor supremo. Isso a Natureza nos ensina todos os dias: faça chuva ou sol, está ali, resiliente.

Preciso de músicas inspiradoras. A arte nutre profundamente meu espírito e me faz ser uma pessoa melhor. 

Sou desperta e buscadora. Cozinho bem - gosto de curry e cúrcuma. Sou uma mãe em eterna (des)construção. De vez em quando eu medito. De vez em quando eu surto. 

Estou emancipada a mulher incrível que sou. Que somos! Não há nada mais sublime do que ser mulher. Sei elogiar uma mulher bonita, amo a energia feminina. Não acredito na competição entre nós. E não gosto de generalizações. Pelo contrário, minha missão é desconstruir estereótipos.

Já não sou o que eu disse que era - só há vida se há movimento. 

Enfim. Eu não sei exatamente o que quero dizer e cada hora digo uma coisa: sou libriana.

Eu sou uma figura. 

O resto vamos descobrindo pelo caminho. 

"Pacificamente violenta
Como aranha caranguejeira na teia
Eu canto pra que eu nunca esqueça
Pra que eu nunca esqueça
Pra que eu nunca esqueça"
(Ellen Oleria)


segunda-feira, 22 de junho de 2015

enquanto você dorme

Te coloco na cama e suspiro. Passaram-se pouco mais de 500 dias desde que você chegou, e este segue sendo um ritual solene. Suspiro, te olho com ternura, faço uma oração ao seu anjo para que você durma bem - no começo ele estava meio distraído, mas tem dado mais ouvidos as minhas palavras ultimamente.
Então você dorme. E hoje te olhei com inveja - queria mesmo ter deitado ali ao seu lado e só acordar com os primeiros raios deste sol invernal. Mas saboto meu desejo. Me boicoto por responsabilidade, por pressão, pra ter paz de consciência. Me boicoto pra dar conta. Enquanto você dorme, eu tenho uma lista de coisas pra terminar, realizar, começar... e se eu não fizer por nós, quem vai fazer? Não temos com quem dividir tarefas. Somos só eu e você, filho. Então, por mais duro que seja, eu preciso sair de uma cama quentinha no meio da madrugada gelada pra voltar pra casa antes de você acordar. Sem peso, isso faz parte do pacote.
Mas às vezes gostaria que minha maternagem solitária fosse mais compreendida nas pequenas coisas. Sim, numa sociedade em que amamentar uma cria até os 6 meses é luxo, deve ser difícil entender como alguém escolhe ainda amamentar seu filho até 1 ano e 7 meses. Meu suspiro é de cansaço, de pesar por me sentir nada pertencente a este sistema. Mas sobretudo meu suspiro é de missão cumprida: enquanto você dorme, eu cuido pro mundo te receber.

"Desejo que quem mergulhe na maternidade como eu mergulhei, possa entender que, por mais que pareça que você só está perdendo, (perdendo amigos, perdendo o corpo de antes, perdendo dinheiro, perdendo carreira) acredite, você está ganhando: um sentido maior para a vida".

terça-feira, 3 de setembro de 2013

dos finais

[porque os meus têm que ser sempre apoteóticos, senão não são finais dignos]

Suely Carvalho me falou de finais não-tradicionais, não precisa ser aquela quebra, corte seco para a próxima cena. Ela falou de possibilidades transitórias, menos impactantes, daquelas que dão tempo de digerir, interiorizar, reafinar o instrumento. Isso me tocou. Gostaria de provar desta calma, mas percebo que todos os meus finais são abruptos, apesar dos meus esforços em fazer diferente. Será possível torná-los suaves e dar-se conta, com serenidade, que é preciso deixar ir (let go)?

Mas nem tudo está perdido, já que na minha crença todo final é um recomeço!

Tô com a alma suspensa: muitos finais ao mesmo tempo para recomeços definitivos. Porque ter um filho é muito definitivo: é materialização pura, é concretizar sua passagem por este planeta.

Eis o que se passa:
final 1: adeus individualidade, agora sou dois;
recomeço 1: sou mãe do Antonio, nunca mais estarei sozinha (pelo menos por um bom tempo).
 
final 2: ideal de família Doriana despedaçado - este final é formado por vários finaizinhos melodramáticos e deve estar perto de seu Gran Finale;
recomeço 2: apenas recomeçar (aaaaai, que preguiçaaaaaa!).

final 3: deixar meu 'lar salgado lar' - este me causa dor e alívio ao mesmo tempo;

recomeço 3: não faço a menor ideia.

É, muitos desafios pela frente, alguém já tinha me avisado. Um pouco ansiosa, confesso, mas confiante. Não sei exatamente em que direção seguir, mas não tenho escolha, senão seguir caminhando. E caminhar com confiança é bem melhor!