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terça-feira, 28 de abril de 2020

agradece

Abro os olhos. Mais um dia. A criança acorda. Pede comida. Reclama. Porque tem que escovar os dentes, porque tem que se trocar e lavar a própria louça do café da manhã. Essa mania dele reclamar da vida, não sei de quem puxou. Sigo dizendo: agradece, agradece, agradece! Olha como você é afortunado – e listo as razões pelas quais ele deveria apenas ser grato. Ele parece não me ouvir. Ele não me ouve. Mais um dia sem ser ouvida.

O copo está cheio. As costas doem. É um peso descomunal não ter com quem dividir a responsabilidade de criar um ser humano, em todos os níveis. Uma criança é um projeto de, no mínimo, dois. Não sou vítima. E não falo só por mim, por ser mãe solo. Falo pela grande maioria de nós, acompanhadas ou não, mas extremamente sós nesta missão de criar filh@s. Falo por esse sistema escroto que nos obriga a criar nossos homens, além de nossos filhos, para que aprendam a criar os filhos deles. Falo pela inconsciência de muitas de nós sequer nos darmos conta dessa perversidade. Ou, se nos damos, silenciamos e seguimos perpetuando esta dor ancestral. A dor de uma linhagem inteira de mulheres subtraídas de suas potencialidades, ensinadas a acreditar que nasceram para ser mães.

Rezo para me conectar a estas velhas bruxas sábias, que elas nos mostrem o que amavam e sabiam fazer e despertem em nós essa liberdade. E agradeço - porque afinal só tenho a agradecer!


terça-feira, 5 de novembro de 2019

incapaz

Sinto-me incapaz de ser amada. Assim, homem-mulher-par-companheiros. Posso dizer a verdade? Sinto. Será sentimento comum às mães de crianças pequenas? Será, ou é só minha a sensação-vento? Sinto assim, como se meu universo não encaixasse. E não é baixa estima, assim, corriqueira. Não. É uma sensação de que não pode ser. É uma sensação de desencaixe. É como se minha rotina fosse tão tão que... né? Nem dá. Nem dá. Eu tenho esse sentimento como quem olha e não habita. Como quem deseja, mas nem ousa. Como quem camufla, mas nem aprofunda. Aos que dançam sozinhos, toda uma completude. Que o seja. E esforço-me para não transparecer. Lá vai ela, mãe. Lá vai ela, sendo. Distancio dos encontros porque chove, porque chovo, porque não dou conta. De ser. Amada. Porque controlo meus impulsos com este choro baixinho. De canto. Em canto. Se me dói? Às vezes sim, noutras não. Acolho. Como joaninhas que nos alugam as saias, sigo com ela ali – presa na estampa florida. Presa e solta, mas ali. Aqui. E dá vontade de soprar: a joaninha. Vá ao vento, vá, vá.. Mas nem. Nem. Agora, sinto-me velha. Não interessam-me mais tanto as baladas, os jogos de romance, o habitar de in-serenidades. Agora, sinto que é muito mais branda e muito mais calma a necessidade. Coisa pouca. Carinho leve. Nenhum grande apaixonar, nenhuma galopada rude de arrancar os ossos. Assim, com crianças ao lado... Como crianças ao lado. Só um tilintar. Dia. Após dia. As coisas pequenas, os sentimentos profundamente silenciosos e nem por isso menos. Essa vontade de pertencer, só isso. De partilhar, só isso. Essa vontade calma. Esse recuar invisível. Esta confusa verdade. A mulher que vive em mim e que anda assim, gota. Assim, água. Assim.

[Genifer Gerhardt]

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

era ela, era eu

Era uma tarde qualquer. Ela entrou no vagão, não reparei bem em qual estação. Logo me chamou atenção sua barriga empinada, 8 meses, talvez mais. Linda. De relance, me lembrei da minha saudosa gravidez. Fitei aquele barrigão por alguns instantes, cheguei até a sorrir. Realmente estar grávida é um estado de graça - pensei. 

Então olhei para ela toda. Morena, bonita, altiva. Romantizei naquela aparência a felicidade daquela mulher. Mas então percebi que sob os óculos escuros escorria uma lágima. E depois outra. Meu coração apertou. Me levantei e fui me esgueirando por entre os passageiros distraídos. Cheguei ao seu lado, muito próxima mesmo, e a abracei. Sem pedir licença, simplesmente a abracei. 

Como quem estava esperando aquele abraço, ela retribuiu. E soluçou. 

- Vamos descer na próxima estação para conversar um pouco?
Ela acenou que sim com a cabeça. 

Descemos do trem juntas. Ela me agradeceu. E nos abraçamos mais. Janaina estava com 33 semanas. Seu choro angustiado me dizia muito mais do que qualquer história que ela pudesse me contar. Eu sentia que ali havia uma solidão conhecida.

- Sabe, o pai do meu filho... ele é uma boa pessoa, mas ele não entende o que está acontecendo. Ele me faz promessas vazias. Ele não me ajuda em nada. Como estou cansada, como estou cansada! Eu estou tão feliz, mas tão cansada. E como vai ser quando o neném nascer?

Meu coração já pulsava na garganta. "Sim, querida, sim. Te entendo", eu dizia. Janaina era, como eu, vítima de um abandono gestacional. E olhando bem firme dentro de seus olhos falei: "Presta atenção: agora é você e o bebê! Você não pode contar com esse cara pra nada. Não fique nesta ilusão". 

Foi um baque pra ela. Como uma desconhecida no metrô me abraça, me consola, me acolhe e me diz algo tão duro assim? Falei do meu sofrimento, de como o superei, de como é bom ter um filho companheiro. Ela me ouviu. Silenciamos. Seus olhos já estavam mais serenos e muito agradecidos. 

- Muito obrigada. Você mudou meu dia. Na verdade, você mudou muito mais que o meu dia. 

Nos abraçamos de novo em despedida. Janaina entrou no trem. Eu fiquei ali, desaguando toda a dor daquele encontro de cura. E depois subi as escadas, com um ar de dignidade que há muito tempo não sentia.

Que nós mulheres possamos nos unir e nos ajudar, com coragem, sempre e mais.

E que a gente entenda que não dá pra abraçar o mundo.
Mas dá pra abraçar algumas pessoas e fazer a diferença. 
Clarissa Corrêa



segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Comunica(dor)

Estou com muita dor. Pensei que talvez não fosse um bom momento para escrever. Mas é das dores que nascem as curas, e está sendo lindo ver isso brotar do meu corpo, da minha garganta. Arde, arranha, dói, inflamada como um vulcão.

A garganta, canal da minha comunicação: ao mesmo tempo minha fortaleza e o lugar onde me sinto tão vulnerável. Se lanço flechas, ferem. Se não lanço, o silêncio fere a mim. Profundamente. A não-resposta. A garganta (sempre ela) pigarreia para não deixar sair. Fingir não se importar nunca funcionou pra me apaziguar. Não guardo mágoas, mas as migalhas - aquelas que insistimos em não varrer - incomodam.

Já lancei muitas flechas. Já feri muito. Hoje prefiro resguardar as relações. Aguardo com paciência a sabedoria do tempo para acessar o que não falei. E o que devia ter falado. Será que devia ter falado? O que é de fato relevante? Aguardo e guardo ainda a um alto custo. Porque eu gosto mesmo é de varrer migalhas - e não para debaixo do tapete. Gosto de tudo "bem limpinho e arrumadinho", como diria alguém que eu conheço. Não deixo pra lá. Sabe-se lá onde é este "pra lá", vai que ele aparece de novo aqui - e via de regra aparece.

Então firmo aqui essa comunicação amorosa, diretamente do coração. O que eu tenho pra te falar vai te trazer curas. O que eu ouvir de você também. Vamos abrir este espaço saudável de crescimento e verdade. Verdade sempre.



segunda-feira, 8 de julho de 2013

nunca entendi tão pouco de tudo

...faz hooooras que estou com essa página aberta esperando as letras surgirem magicamente, um download divino baixar e que dele nasça um texto inspirado e publicável. Mas ele não vem! Talvez seja mesmo o momento de admitir como me sinto confusa, atordoada, esquecida, frágil, impaciente, faminta, sonolenta, solitária... grávida?! sim, talvez seja mesmo o momento de admitir como me sinto grávida, com tudo o que isso traz de maravilhoso e de... esquisito?

Fico aqui imaginando que nove meses é pouquíssimo tempo pra se preparar pra tudo isso que está por vir. A sensação é de que nunca estarei pronta. Claro, a graça toda está na surpresa, nas descobertas, nos aprendizados gigantes, nas mudanças - isso é o que sinto. Mas a mente não dá tréguas: custava a gente poder desvendar um pouquinho desse mistério antes dele acontecer? É tanta ansiedade, um sem fim de incertezas, expectativas, um tanto de querer fazer planos, dividir tudo o que se passa. E ao mesmo tempo, um silêncio, uma necessidade de estar quieta, aproveitando cada segundo, cada movimento, cada sensação nova... ufa, sei lá. Nunca entendi tão pouco de tudo.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

mulher

Não há outro caminho de entrada no mundo que não seja pelo corpo da mulher. A mulher é o portal para o universo. Ela é também o ventre do Ser. Cada pessoa no mundo começou a vida como um traço minúsculo nas profundezas da mãe cujo ventre é o espaço onde esse traço se expande e se abre para assumir a forma humana. Em termos de futura identidade e destino de uma pessoa caminhando pelo mundo, este é o tempo de máxima formação e influência. No encontro humano, nada chega a ser mais próximo do que isso; nunca dois seres poderão estar mais perto como quando um está se formando nas profundezas do outro. Naturalmente a relação é imensamente desequilibrada: um é uma pessoa completa, o outro é minúsculo, apenas começando sua jornada rumo à identidade absorvendo vida da mãe. Porém, na noite do corpo materno, cada um está desesperadamente aberto ao outro. Homem nenhum chega mais perto de uma mulher. Mulher nenhuma chega mais perto de outra mulher. Esse intricado nutrir e desabrochar de identidade se dá debaixo da luz no subconsciente físico de seu corpo. A mãe não vê nada. A jornada é inteiramente às escuras. É a mais longa jornada humana do invisível ao visível. De cada via interna, o labirinto de seu corpo aporta um fluxo de vida para formar e liberar esse peregrino interno. Imagine os incríveis eventos que vão chegando para formar o embrião: de como cada partícula de crescimento equivale à formação de um mundo oriundo de fragmentos.
[John O´Donohue]

domingo, 26 de maio de 2013

aventura

Que grande aventura é a maternidade! Eu, que amo viajar, comparo esta espera à preparação de uma viagem para um destino longínquo. Muitas expectativas boas, mas muitas inseguranças. Você lê tudo a respeito do lugar, pega dicas com quem já foi, mas as incertezas permanecem, porque a experiência de cada um é única. Você coloca na mala um monte de coisas que depois acaba por não usar. Planeja rotas que desviam e paradas que não faz. Conhece estranhos que fazem algo dar muito certo naquele dia em que você estava sozinha esperando o ônibus (errado) debaixo de chuva. Conhece a todo instante pessoas que te mostram novos caminhos e que passam a fazer para sempre parte da sua vida.
A maternidade tem sido, até agora, uma grande viagem. Uma revisão. Revejo tudo o que vivi e agradeço.Revejo uma juventude plena, bem aproveitada, rica de experiências em todos os sentidos. Revejo medos que supunha muito bem resolvidos mostrarem suas garras novamente. É hora de encará-los! Revejo conceitos e a necessidade constante de mudar para evoluir junto com esta estrelinha que vem para abrilhantar ainda mais minha vida. Vejo meu corpo e honro o cuidado que até hoje tive com ele, preparando-o para esta jornada. A metamorfose física diária é uma magia, um mistério, uma dádiva. Vejo que esta é a melhor hora da minha existência para partir para esta imensa viagem.
Estou arrumando a mala com toda a dedicação para ter nela tudo o que eu precisar. Sei que vou esquecer algumas coisas, mas é bom pra aprender a improvisar. Deixo de lado mapas e guias e me entrego ao desconhecido, vou pelo caminho da intuição, confiante de que sempre encontrarei pessoas maravilhosas dispostas a nos acompanhar.
Bem vindo, filho.

sábado, 11 de maio de 2013

vida definitiva

Estabilidade é uma ilusão. Não acredito nela, nem a desejo, pois é através do movimento que se atinge o equilibrio. Gosto da vida em movimento e do movimento da vida. Só estou um pouco cansada de sua provisoriedade. Não quero mais uma vida provisória, me sujeitar a algumas coisas só porque "é por pouco tempo". Quanto tempo é pouco tempo? No provisório, pouco tempo pode ser muito tempo - como é meu caso. O tempo da minha provisoriedade expirou. Agora preciso de algo mais "definitivo", se é que se pode chamar assim. Um armário pra guardar roupas de cama cheirosinhas, pés se encostando sob os lençóis todos os dias, um trabalho que eu ame, macarronada na casa da mamma aos domingos, ver as plantas que eu plantei crescerem, comer dos frutos que elas dão, voltar a estudar. Uma vida com alguns horizontes, digamos assim... Aqui o horizonte é maravilhoso e único, mas é limitado, apesar de tão imenso às vistas. Não, não é só a maternidade que me enraiza, já sentia isso antes, mas agora pode ser mais intenso, mais necessário. Novos caminhos, novos rumos. Saudades sempre de tudo o que ainda nem vivi.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

31

De repente percebo que começo a ter rugas. São marcas indeléveis de uma vida intensa, lindamente construída sobre minhas vontades e escolhas. Trago marcas pra todos os gostos, de tristezas profundas e alegrias indescritíveis, amores muitos, viagens loucas, poucos excessos, porque sempre amei muito meu corpo.
Mas viver conforme a orientação da minha alma é muita guerra. É preciso buscar coragem lá no fundo do coração, coragem para agir com fé a amor, coragem para desapegar-se do que não está para mim. Eu, que pouco me importo com “os outros”, me percebo triste ao constatar que um ato tão puro como agir a partir das vontades da minha alma gera incompreensão alheia. Aos olhos dos outros parece descaso, parece loucura, mas na verdade é só altruísmo, porque quando você liberta, está prestando um serviço a várias dimensões, não só a você mesmo.
Esta não é a primeira solidão da minha vida – e nem será a última. Já sobrevivi antes, às vezes mais morta do que viva, e aqui estou, mais viva e fiel do que nunca. Eu amo demais, amar é coisa muito boa. E parto para novas viagens com o coração aberto, pra mostrar fotos ainda inéditas, contar e ouvir causos e descobrir novas canções.

quinta-feira, 22 de março de 2012

muito simples

querida, não complica: não é porque o cara te dá uma escova de dentes na primeira noite em que você dorme na casa dele, que ele está te pedindo em namoro. Ele só te deu uma escova de dentes. Não quer dormir com uma mulher com mau hálito.
Ele não é um canalha, nem esqueceu tudo de lindo que vocês viveram se, com a boca ainda quente da sua boca, afoga as mágoas em outra boca. Ele só experimentou outra boca, deu risadas com outras piadas, dançou as mesmas músicas com outras pernas. Provavelmente ele vai te dizer que não significou nada - e talvez não tenha significado mesmo.
O cara não está arrependido se, meses depois, te manda um email pedindo desculpas por tudo que te fez amargar e desejando boa viagem. Ele só está dizendo, de um jeito meio torto, que gosta de você - e que deseja boa viagem.

Mas se ele faz uma comidinha gostosa pra você, pode ter certeza de que não vai ser a macarronada que ele vai querer comer depois...

Então, veja você, a complexidade e a simplicidade são bem relativas.
Tudo é apenas uma questão de ponto de vista.

Às vezes, bem poucas vezes, eu desejaria conseguir agir como um homem.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

.

a pontuação que eu emprego no livro não é acidental e não resulta de uma ignorância das regras gramaticais. O senhor concordará que os princípios elementares de pontuação são ensinados em qualquer escola. Estou plenamente consciente das razões que me levaram a escolher essa pontuação e insisto que ela seja respeitada.

in Clarice,
de Benjamin Moser
pág. 306

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

o mundo é dos meninos?

Estou lendo "O Segundo Sexo". Está sendo uma experiência. Durante essa semana estive em alguns ambientes eminentemente masculinos e na sexta voltei pra casa pensando em como estamos repentinamente deixando de realizar nossa feminilidade, aos poucos, e de maniera muito cruel. Estamos cada vez mais parecidas com os homens: menos sedutoras, menos fêmeas, mais fálicas e soberanas. Menos sensíveis, mais práticas. Estamos nos distanciando da nossa essência, da nossa intuição, do nosso poder criador, para legitimar nossa independência, para eliminar a humilhante memória inconsciente de sermos objetos e presas.
Mas não seria essa a nossa natureza biológica e instintiva?
SOMOS presas! E eles são os caçadores. E quando há presa querendo virar caçador... ai, a presa vira contra o caçador? É isso? (ou ficou confuso?).
O que mais tenho ouvido, não é de hoje, é a mulherada reclamar da solteirice. Ultimamente eu mesma, inclusive, ando perdendo as esperanças de achar outro grande amor e blasfemo por aí frases feitas sobre os homens. Mas está claro: a presa virou contra o caçador! Inconscientemente viramos rivais. Estamos competindo não sei o que, nem sei por quê, eles achando que queremos tomar o lugar deles, nós achando que eles devem nos aceitar assim: mais parecidas com eles. Nossa independência os intimida e nossa auto-suficiência os afasta. Conselho de um amigo outro dia: melhor ficar na moita, fingindo ser aquela mocinha de voz doce, gestos delicados, opinião frágil e mutável "Tanto faz", disse ele "porque no final quem bota o pau na mesa são vocês". Dei risada. E ele completou: "Não chame o garçom pra fazer o pedido. Deixe o cara fazer isso por você. Ele sabe que você é perfeitamente capaz de fazer isso, mas sente um prazer quase inexplicável ao te mostrar como ele é bom em adivinhar que você gosta de água com gás".

O título do livro de Beauvoir, "O Segundo Sexo", define a mulher como segundo mesmo, em ordem de prioridade. O primeiro - number one! - é o sexo masculino. De acordo com a escritora, o homem é o "Sujeito" desse mundo, e a mulher o "Outro".

Deve ser por isso que ficamos tentando virar hominhos... eu, hein?!

"A pessoa não nasce mulher, antes torna-se mulher".
Simone de Beauvoir