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segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Comunica(dor)

Estou com muita dor. Pensei que talvez não fosse um bom momento para escrever. Mas é das dores que nascem as curas, e está sendo lindo ver isso brotar do meu corpo, da minha garganta. Arde, arranha, dói, inflamada como um vulcão.

A garganta, canal da minha comunicação: ao mesmo tempo minha fortaleza e o lugar onde me sinto tão vulnerável. Se lanço flechas, ferem. Se não lanço, o silêncio fere a mim. Profundamente. A não-resposta. A garganta (sempre ela) pigarreia para não deixar sair. Fingir não se importar nunca funcionou pra me apaziguar. Não guardo mágoas, mas as migalhas - aquelas que insistimos em não varrer - incomodam.

Já lancei muitas flechas. Já feri muito. Hoje prefiro resguardar as relações. Aguardo com paciência a sabedoria do tempo para acessar o que não falei. E o que devia ter falado. Será que devia ter falado? O que é de fato relevante? Aguardo e guardo ainda a um alto custo. Porque eu gosto mesmo é de varrer migalhas - e não para debaixo do tapete. Gosto de tudo "bem limpinho e arrumadinho", como diria alguém que eu conheço. Não deixo pra lá. Sabe-se lá onde é este "pra lá", vai que ele aparece de novo aqui - e via de regra aparece.

Então firmo aqui essa comunicação amorosa, diretamente do coração. O que eu tenho pra te falar vai te trazer curas. O que eu ouvir de você também. Vamos abrir este espaço saudável de crescimento e verdade. Verdade sempre.



domingo, 26 de maio de 2013

aventura

Que grande aventura é a maternidade! Eu, que amo viajar, comparo esta espera à preparação de uma viagem para um destino longínquo. Muitas expectativas boas, mas muitas inseguranças. Você lê tudo a respeito do lugar, pega dicas com quem já foi, mas as incertezas permanecem, porque a experiência de cada um é única. Você coloca na mala um monte de coisas que depois acaba por não usar. Planeja rotas que desviam e paradas que não faz. Conhece estranhos que fazem algo dar muito certo naquele dia em que você estava sozinha esperando o ônibus (errado) debaixo de chuva. Conhece a todo instante pessoas que te mostram novos caminhos e que passam a fazer para sempre parte da sua vida.
A maternidade tem sido, até agora, uma grande viagem. Uma revisão. Revejo tudo o que vivi e agradeço.Revejo uma juventude plena, bem aproveitada, rica de experiências em todos os sentidos. Revejo medos que supunha muito bem resolvidos mostrarem suas garras novamente. É hora de encará-los! Revejo conceitos e a necessidade constante de mudar para evoluir junto com esta estrelinha que vem para abrilhantar ainda mais minha vida. Vejo meu corpo e honro o cuidado que até hoje tive com ele, preparando-o para esta jornada. A metamorfose física diária é uma magia, um mistério, uma dádiva. Vejo que esta é a melhor hora da minha existência para partir para esta imensa viagem.
Estou arrumando a mala com toda a dedicação para ter nela tudo o que eu precisar. Sei que vou esquecer algumas coisas, mas é bom pra aprender a improvisar. Deixo de lado mapas e guias e me entrego ao desconhecido, vou pelo caminho da intuição, confiante de que sempre encontrarei pessoas maravilhosas dispostas a nos acompanhar.
Bem vindo, filho.

terça-feira, 10 de julho de 2012

banho quente

Sorrio pensando que passei um ano tomando banho frio. Não era um grande problema quando chegava da praia, corpo quente de sol. Mas em dias chuvosos era uma verdadeira tortura chinesa. Nessa época, namorava um cara que tinha uma casa com um chuveirão quente, eu costumava dizer que só estava com ele por causa daquele benesse – e talvez fosse mesmo. A gente teve uma história conturbada de algumas indas e vindas, e toda vez que terminávamos eu pensava que um banho frio estava à minha espera. Agora a vida mudou um pouco. Eu me mudei. Tenho meu próprio chuveiro quente, que está a postos para fazer minha felicidade nestes dias nublados. Aqui é minha casa, é onde me sinto bem, onde escolhi estar. Pari uma viagem cheia de sonhos. Voltei convicta. Sofro porque é da minha natureza mediterrânea, mas sei que tudo não passa de uma grande brincadeira. E, sejamos honestos, não há um dia em que brincar não se faça necessário. Loucos, famintos, desamados, buscadores: estamos novamente todos sob o mesmo céu, cheio de estrelas.

domingo, 27 de maio de 2012

a terceira margem do rio

Quando dei um passo rumo ao outro lado do rio, Red Hot começou a tocar "Parallel Universe" no meu ipod. Essa sincronicidade me fez sorrir secretamente, como se aquele universo paralelo fosse na verdade meu universo particular, como se somente eu no mundo, naquele momento, pudesse compreender o significado daquela coincidencia. "Parallel Universe" era a musica perfeita para cruzar aquela ponte.
A ponte representava o surrealismo indiano que nem Dali, com toda sua criatividade e loucura, pode imaginar. A ponte, diria Lenine, "nao é para ir nem pra voltar, a ponte é somente atravessar, caminhar sobre as aguas desse momento". Me bateu uma nostalgia antecipada ao perceber que aquela seria a ultima vez (desta vez) que cruzaria a ponte. Aproveitei ao maximo todas as sensaçoes, dei passos em camera lenta, troquei longos olhares com estranhos, observei tudo com a inocencia de uma criança, como se fosse a primeira vez. Fui caminhando por entre o barulho, as buzinas, as vacas, os mendigos, os macacos, os turistas, acompanhada pelos urros de Antony Kiedis, que fazia toda aquele fantastico parecer normal, todo aquele universo paralelo estar ao alcance das minhas maos.
Chegando à outra margem, nao olhei pra tras. Olhar pra tras nao serve pra nada, senao pra aprender, pensei. Mas neste momento me faria sentir mais nostalgica. Me restavam apenas algumas horas antes de tomar o taxi para Delhi. Apesar de menos de 300 Km separarem Rishikesh da capital, a viagem poderia durar ate 8 horas, dependendo do transito. Assim, em decisao pensada e cuidadosamente avaliada, contratei um taxi particular para me levar diretamente ao aeroporto, sem a desagradavel passagem pela insana Delhi. Me certifiquei de que o taxista era de confiança e sobretudo de que nao dormiria ao volante, ja que pegariamos a estrada à noite.
Malas prontas, por volta das 23h30, como combinado, o taxi me buscou no ashram. Nao pude deixar de derramar algumas lagrimas nao de tristeza, mas sobretudo de gratidao pelo intenso mes de aprendizados. Tentando me distrair do meu estado emotivo, o motorista se apresentou calorosamente, com seu jeito bonachao, como uma inacreditavel piada pronta:
- Boa noite, madam. Qual seu nome?
- Beta.
- Beta? Prazer, Beta! Meu nome é Sono.
Sono?!?!?!
Achei melhor nao explicar pra ele o que "sono" significava em portugues.
- Prazer, disse. E seja o que Deus quiser.
Entre as muitas coisas que aprendo com a minha mae, a primeira é: confie. E a segunda: ouça atentamente sua intuiçao, ela nunca se engana. Eu estava confiante. No fundo, la no fundo mesmo, eu tinha certeza de que minha integridade fisica nao seria comprometida. No começo da viagem, dei uma relaxada, mas minha intuiçao nao me deixava dormir...
Logo, Sono parou o carro. "Estou cansado". Estavamos na metade do caminho, e poderiamos parar por uma hora para descansar e chegar em Delhi a tempo de pegar meu aviao, afirmou. Concordei, mas dez minutos depois, Sono nao conseguia pegar no sono e resolveu seguir viagem. Trocadilho infame a parte, a viajante aqui começava a ficar tensa. Ainda teriamos mais de tres horas ate Delhi e nao estava muito animada com a perspectiva de um motorista cansado.
Tentei puxar assunto e, de repente, Sono simplismente dormiu ao volante. Dei-lhe um chacoalhao e perguntei se ele queria que eu dirigisse. A resposta veio imeditamente: ele encostou o carro no "acostamento" e pediu para que eu pulasse para o banco do motorista. Enquanto eu dirigia numa estrada indiana, na mao direita, no meio da noite, Sono dormia o sono dos justos praticamente deitado no meu colo - e ganhava 60 dolares por isso! Parallel Universe.
Eu nao sabia se rir ou chorar, mas como em quase todas as situaçoes desta viagem, escolhi o riso. Dirigi por quase duas horas, apreensiva e atenta, zelando pela minha vida que tanto amo, por entre caminhoes na contramao e motoristas sonambulos, buzinando a cada 30 segundos, porque assim se dirige na India. Eu que tanto odeio buzinar, veja voce que ironia... Sono, vez em nunca, abria os olhos e escancarava um sorriso: "indian driver!!! Good!!!". Nas proximidades de Delhi, o transito se intensificou e pedi a Sono que pegasse o volante. Estava cansada e muito brava com a cara de pau dele, mas so queria chegar ao aeroporto o mais rapido possivel.
Quando entrei no aviao, tudo aquilo parecia um sonho. Percebi que o universo paralelo estava muito alem da ponte: o fantastico estava presente em cada momento, em cada cena alucinante dessa incredible India.
Feliz em poder voltar pra casa, adormeci suavemente.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

chama-se viagem

Voce pisca os olhos e ja passou. Voce faz tantas coisas, vive experiencias inimaginaveis, conhece pessoas que mudam sua vida, e tudo nao passa de um lapso da sua breve existencia. Chama-se viagem. Eu lembro que, antes de partir, nos encontramos para um cafe numa padaria de uma esquina familiar. Como sempre, voce tirou com a minha cara: "Claro...esta viagem vai mudar a sua vida, voce vai voltar oooutra pessoa", disse com um sorrisinho ironico. Faltou entendimento de que eu mudo todo dia, sou mutante, buscadora, a impermanencia é o que me alimenta. Sou curiosa, atenta e observo cada detalhe, fotografo cores, recorto palavras. Eu sou assim. To ligada na V-I-D-A. Viajar me transforma, pode acreditar.
Lembro tambem que, no dia antes de partir, sempre quero desistir. Me da uma dor de barriga dos infernos, e a sensacao de que nao vai ter ninguem me esperando no aeroporto me enfraquece. Mas depois que eu entro no aviao, viro uma leoa. E na vespera da volta, nunca quero voltar. Sempre acho que poderia ficar uns dias a mais, ou simplesmente ficar.
Na outra noite, minha mae me perguntou por telefone:
"E ai, ja ta de saco cheio da India ou quer ficar mais??".
"De saco cheio da India eu to desde a primeira semana... mas... quero ficar!", respondi.
Vai entender... a India é assim.

Algumas observaçoes inusitadas/uteis/talvez interessantes, porque eu gosto de fazer listas (sempre):
  • Pra que outro sapato?! Tudo o que voce precisa chama-se "HAVAIANAS"! Leve, lavavel, nao da chule, confortavel, é brasileira, barata e ta no pé do mundo inteiro.
  • REALMENTE nao use roupas justas, bermudas, camisetas sem mangas, shorts e saias curtas nem pensar. Isso muda a qualidade da sua relaçao com as pessoas, especialmente se voce for mulher.
  • As vaquinhas soltas nas ruas sao uma gracinha e sagradas pros hindus, mas nao pra voce. Nao se meta a besta com elas, principalmente se forem touros, eles tem chifres.
  • Em 5 minutos, o preço de qualquer item - desde uma corrida de rickshaw ate uma encharpe de seda - pode cair de 2000 pra 10. Sorte de quem sabe barganhar. Nao é o meu caso...
  • Nao pergunte muitos porques. As coisas sao como sao, nosso conceito de "razao" nao se aplica por aqui.
  • A Lei Universal da Fisica de que dois corpos nao ocupam o mesmo lugar no mesmo tempo tambem nao se aplica. Na India, muitos corpos podem ocupar um lugar onde mal caberia um, no mesmo tempo - e por muito tempo!
  • Quando voce acha que todas as bizarrices ja aconteceram, pode se preparar que vem mais por ai.

India. Nunca mais ou até ja. Para sempre.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

cuca fresca

Este post eh sobre muitas coisas - essa eh a desculpa que eu dou quando minha cabeca nao consegue organizar tudo que eu tenho pra dizer.
Estou revendo muitos dos meus conceitos aqui na India. Eh uma viagem transformadora porque todas sao, mas sobretudo porque resolvi mergulhar em mim - coisa que poderia ter perfeitamente feito no Brasil, mas nao sei porque resolvi fazer aqui. Enfim, como ja escrevi em algum momento, esta eh uma viagem pra dentro.
Comecei a fazer um tratamento ayurvedico (medicina tradicional indiana) de alguns dias. Procurei alguns medicos, fui conhecer clinicas e optei pela Dra. Usha - eu desconfio que as mulheres consigam entender mais sobre as questoes femininas, sera?
Conversamos por mais de uma hora, ela me fez muitas perguntas sobre meus habitos, meu estado de saude e como encaro as situacoes da vida. Depois de definido o tratamento, decidi comecar no dia seguinte - nao foi uma decisao facil: o tratamento seria via anal. Engracado, pensei, os indianos tem todo esse pudor com o corpo de nao poder se mostrar, se tocar... mas na hora de enfiar o dedo no cu do outro, tudo bem, ne?! E ao mesmo tempo, nos ocidentais temos toda a liberdade com o corpo, usamos fio dental na praia, mas em geral temos uma imensa dificuldade em lidar com o corpo-verdadeiro, com suas manifestacoes absolutamente naturais. Confessa ai que fazer coco na casa do cara onde voce dormiu pela primeira vez na vida eh a coisa mais facil do mundo?! Ou que voce nao vai morrer de vergonha se, no meio daquela festinha com seus amigos mais cools, sair correndo pra vomitar? Ishh, nao deu tempo de chegar no banheiro??? Ai voce quer abrir um buraco no chao e se enterrar ate ninguem mais lembar que voce existiu! E aquele pum que nao da mais pra segurar?! Voce se alivia fisicamente, mas o peso na consciencia nunca foi tao grande, fala a verdade? Ainda por cima, olha pro resto da galera que ta na mesma sala com aquela cara de "poxa, que sem nocao soltar esse peido aqui, hein?!".
Pois eh, aqui isso nao existe. Arrotos, escarros, vomitos e quetais sao manifestacoes NATURAIS do nosso corpo - justamente - e portanto consideradas com tal naturalidade. Quem foi o imbecil que inventou que a gente nao pode arrotar em publico?? Meu pai sofre de esofagite ha decadas e sempre foi um problema em casa quando ele passava mal durante as refeicoes. O coitado tinha que ficar aguentando caras feias e, constrangido, se levantava da mesa para que o corpo pudesse se manifestar em paz. Mesma coisa com os escarros: sempre achei deploravel a mania dele cuspir na rua, mas se eu nao tivesse engolido tanto catarro na minha vida, certamente estaria respirando melhor agora. Minha existencia estaria mais leve.
De maneira alguma acredito que seja justificavel a falta de higiene dos indianos e alguns habitos, que, apesar de saudaveis, sao muito radicais para minha mente obtusa ocidental. Mas acredito sim que temos muito o que aprender com eles. Nao, nao se preocupem: nao vou voltar pra casa sem simancol - certas coisas estao tao enraizadas em nossa cultura, que nem paramos para pensar se poderia ser diferente - so quando nos deparamos com situacoes opostas a tudo que praticamos ate hoje.
Trocando em miudos, meu tratamento foi tao simples quanto tomar um comprimido. A naturalidade com que a terapeuta me tratou foi tamanha que, no segundo dia, eu ja estava achando normalissimo. E depois de tudo, ganhei deliciosas massagens a quatro maos, saunas, e um oleo na cabeca "efeito-bala Halls". Minha cuca ficou fesquinha, fresquinha...

Em tempo: dentre todas as vontades do nosso corpo alheias a nossa racionalidade, a que considerei mais absurda de tentarmos conter (se eh que tem alguma menos ou mais absurda...) sao nossas lagrimas. Por que sera que elas sao motivo de tanto constrangimento e sempre associadas a tristeza?? Deixa vir, deixa chorar. Na melhor das hipoteses, seus olhos vao ficar limpinhose lubrificados, prontos para enxergar melhor as belezas do mundo. 

domingo, 22 de abril de 2012

nice mala de mulungu

Tudo comecou quando cismei que queria ter um colar vermelho pra essa viagem. O quintal da casa Radiante estava forrado de sementes de mulungu, vermelhas como fogo. Nao tive duvidas: sai catando e juntei um saquinho bem parrudo. Levei pra Mari com a intecao de fazermos juntas, mas ela me surpreendeu ao entrega-lo prontinho da silva no dia antes da minha partida. Fomos la no atelier, eu, Cumbah e Cintia, e, com lagrimas nos olhos, ela me presenteou o colar e um par de brincos para ornar. Mal sabia ela o sucesso que este colar faria na India... Eu nao tiro mais do pescoco: virou meu amuleto e meu chamariz. As pessoas me param na rua, todos ficam vidrados no meu "mala" (colar, em hindi). "Nice mala!!! Onde voce comprou? Eh feito de feijao??", pergutam curiosos. A semente do mulungu se assemelha muito a um feijao vermelho, comestivel aqui na India. Quando explico que sao sementes brasileiras que eu mesma colhi no quintal da minha casa, eles adoram e enlouquecem. Dizem que aqui eu venderia este colar por um bom dinheiro.
Mas este eu nao dou, nao empresto, nao vendo por nada. Eh meu amuleto, minha conexao com Noronha, com a energia da ilha. Quando eu me sinto em perigo ou sozinha, eu seguro meu "mala", enrolo entre os dedos e aperto com forca, invocando a protecao de Oxum.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

ahimsa

Meu primeiro dia em Rishikesh foi um caos, como nos outros lugares em que cheguei - ate ai nenhuma novidade. Mas aqui fiquei com raiva, porque as ruas sao um grande mercado de espiritualidade, felicidade, bem estar, conexao com o cosmos. Ah tah (pensei), agora tudo faz sentido: atravessei dois oceanos pra comprar um cedezinho de mantras, tomar uns milagrosos remedinhos ayurvedicos e alcancar a iluminacao!
Primeiro (e totalmente paradoxal): eu nao entendo como pode haver tantos iluminados num lugar tao caotico, barulhento, sujo, desrespeitoso, consumista.
Segundo: o que eu vim fazer aqui?!?! (de novo!).
Encontrei um oasis no meio de toda essa zona e resolvi mergulhar - que saudades de mergulhar...Entao ate hoje, esta foi uma viagem rica como qualquer outra. Agora passou a ser uma viagem para dentro, acho que eh isso que a India tem de melhor para oferecer. Se tem uma coisa que eu gosto de fazer eh viajar, e posso dizer que ja embarquei em algumas boas viagens pra dentro. Sei que o caminho eh arduo. Doi pra caramba.
Nunca respirei tanto. Passo pelo menos 4 horas do meu dia observando como respiro, e quanto, e onde. Respirar doi: eh abrir espaco, regar o coracao, ouvir a musica do corpo. Eh encontrar os nos e desata-los na marra, respirando.
O corpo eh o que mais reclama. Tudo doi, porque a minha mente se acha muito esperta e ainda nao aprendeu a respeitar os meus limites. Ela sempre quer o otimo, mas a perfeicao eh violenta, ela eh agressiva e tola, como qualquer vicio. Entao estou aqui, como um bebe, aprendendo a respirar e a praticar ahimsa comigo mesma. Ahimsa significa "nao violencia" e eh um dos principios que regem o yoga. Estou aqui pra aprender que eh comigo mesma, antes de tudo e principalmente, que tenho que praticar ahimsa.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

noites do deserto - parte 1

Olha, descobri que sem marido eu nao fico! Em 8 dias de India, coleciono pretendentes. Este ultimo, um partidao, dono do hotel onde estou hospedada, hoje no cafe da manha me disse que meu pai poderia ficar com todos os seus camelos (dez, ao todo), se eu me casasse com ele - pega essa pai!!! Quem sabe nao eh a salvacao financeira da familia???? :)
Sei nao, viu?! To muito confusa com tantas referencias diferentes. Nem mesmo em Angola senti tantos choques culturais, tanta disparidade entre os generos, entre os habitos... realmente isso aqui eh outro mundo, a Marina estava certa quando disse que neste lugar voce entra em contato com partes suas intocadas.
Entao, meu partidao (o nome dele eh Ashok) me convidou para jantar na casa de sua familia, num vilarejo de mil habitantes a 40 km de Jaisalmer. Ok, vou contextualizar: estou numa cidade medieval no meio do deserto do Rajastao, fronteira com o Paquistao. O Forte, tipico nas cidades desta regiao, eh uma das principais atracoes turisticas e a vida gira em torno dele. No caso de Jaisalmer, ha uma particularidade: o Forte, que data de 1156 d. C., eh habitado. Muitas familias vivem dentro dele (inclusive meu hotel esta aqui dentro), em pequenas casas construidas com pedras encaixadas, sem cimento ou reboco. Pedras que sao tipicas desta localidade, cor de areia, cor de mel, cor de ouro. Aqui o tempo cessou, o relogio atrasou e vive-se a vida seca do deserto. Ja houve um tempo em que muitos anos se passaram sem que sequer uma gota de agua caisse sobre Jaisalmer. Hoje, as mudancas climaticas trazem chuvas anuais na epoca das moncoes (a partir de julho), mas dois dias depois de iniciadas as chuvas, este povo reza aos deuses para que cessem de enviar agua dos ceus... Surreal...! Eh nesta secura toda que me encontro.
...E voltando ao jantar na aldeia de Ashok, foi uma experiencia sobre a qual eu deveria me debrucar e escrever nos minimos detalhes. Foi um teletransporte a nao sei qual seculo, nao sei qual tempo perdido. Cozinharam, conversaram e comemos. Em silencio. As mulheres separadas dos homens, servindo-os como deuses no olimpo. E eu, por ser convidada, tambem comi separadamente, observando cada detalhe, a maneira como tudo era preparado, servido, ingerido, lavado... E o que eu puder escrever ou contar, sera pouco perto da riqueza ritualistica daquele simples jantar.
Voltando para o hotel, o vento da noite refrescava meu corpo. Senti, como aqueles dias na Huila, que esta eh uma experiencia que eu jamais vou esquecer.

P.S.: Obviamente, apos me pedir em casamento, Ashok esclareceu: "Bem, agora voce ja conhece minha familia, viu que sou um homem de bem e que nao sou casado... Pense bem na minha poposta!".
Eu so dou risada.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

indigo

Cara, nao da pra escrever sobre tudo... nem que eu quisesse, eu conseguiria. Porque cada acontecimento, cada pausa, cada encontro eh uma historia de varios capitulos!! Eh geralmente assim em viagens, mas garanto que aqui eh imbativel.
Eu sei que depois de almocar na casa da Bharti com toda a familia dela (so este almoco mereceria um capitulo a parte), e ouvir historias de vida de uma moca rebelde de uma familia tradicional indiana (outro capitulo), eu peguei um trem para Jodhpur. Trem este que quase perdi, pois percebi que estava sem agua e nao ia ser legal encarar uma viagem de 6h sem agua potavel. Entao tive a brilhante ideia de descer rapidinho do trem, que comecou a se mover enquanto eu recebia o troco pela garrafa de agua que tinha acabado de comprar. Obviamente, o troco ficou no balcao, ou caiu no chao, ou sei la, ja que eu sai correndo pra pular no trem ja em movimento. Mais legal do que encarar 6h de viagem sem agua, seria o trem partir com a minha mochila la dentro, ne?? Putz, quase tive um treco, mas deu certo. Onus de viajar sozinha...
As 6h de viagem transcorreram tranquilas, comunicacao super fluindo com uma simpatica familia que nao falava sequer uma palavra de ingles... mas a gente se entendeu (na proxima encarnacao, ja combinei que vou voltar para aprender, no minimo, 10 idiomas - incluindo hindi). Sorte que no compartimento tambem estava um senhor que falava um pouco de ingles e, as vezes, traduzia coisas de suma importancia, por exemplo quando a senhora (mais velha) fez as duas perguntas classicas: 1."voce esta viajando sozinha?", 2."Voce nao eh casada???". Caraca, eu nao sou casada!!! Mas, desta vez, eu resolvi dizer que era, e que meu marido teve que desistir da viagem de ultima hora por motivos de trabalho. "ahhhh!", ufa! Todos fizeram uma cara de alivio por eu ser casada! Ate eu fiquei mais confiante, ehehehe... mentirinha inofensiva que amainou o choque cultural.
Enfim, 6h depois: Jodhpur, a cidade azul. A cidade dos tecidos e das especiarias - Carol, voce ia se deliciar aqui com tantos pozinhos e sementinhas magicas pra colocar na comida!!!!! Peguei um rickshaw ate o Haveli que escolhi no LP. To ficando esperta nesse negocio de motorista de rickshaw: eles pedem 100, no fim voce paga 60 e tem que ficar o caminho inteiro repetindo pra onde voce quer ir, senao eles te levam pra outro canto.
Cheguei na guest house quase onze da noite. Uma graca de lugar, toda colorida, decorada com flores e moveis antigos, cheirando a incenso e com lustres de mosaico. Feliz pela escolha acertada, dou de cara com o dono, que estava na recepcao todo descabelado, cambaleante, com calcas molhadas, tipo quase que completamente bebado.
OK. Saio correndo ou dou risada???
Comecei a dar muita risada. Ele mandou trazer uma Heineken pra mim "on the house" - ele disse, "por conta da casa". Bonus de viajar sozinha! Falamos do Brasil, sobre o fato dele estar bebado, a esposa dele apareceu (sobria) e ele nos apresentou. Ela sorriu pra mim e se foi. Ai ele disse: "Desculpe, nao vou poder te acompanhar ate o quarto, porque ontem cai da escada e tou todo fodido! Pois eh... eu desobedeci meu guru, ele mandou eu parar de beber, mas eu bebi, entao cai. Eh pra eu aprender...", concluiu com uma cara de bebado arrependido. Subi para o quarto e abri a cortina; a vista era incrivel!!!! Apesar da escuridao, eu podia ver que o Haveli ficava exatamente embaixo do Forte de Mehrangarh, o principal momumento da cidade. Incrivel, sensacional, o negocio parecia uma pintura bem em cima da minha cabeca!! Fui ate a laje, a lua brilhava linda sobre as casinhas da cidade indigo e iluminava o Forte, imponente como um gigante.
Cenario alucinante que mereceu mais uma Heineken. Cheers!

quinta-feira, 5 de abril de 2012

a chegada

quando pisei no solo encarpetado do aeroporto internacional Indira Ghandi, senti uma emocao de quem volta pra casa: coracao na garganta, uma explosao de felicidade dentro do peito. Esbocei um sorriso espontaneo de crianca que durou longos minutos. Welcome to India! Era uma e meia de uma madrugada clara e abafada. Muito cansada e um pouco gripada, pedi com amor (ao meu anjo e) ao taxista que me enfiou dentro do black cab, para que ele me levasse direto ao hotel que eu havia reservado, e nao ficasse dando mil voltas tentando me levar pra outro lugar. Jedi era o seu nome. Ele tinha uma cara boa. Sorriu e disse "all right" em um ingles quase incompreensivel, o que nao impediu uma boa prosa no caminho ate a cidade. O local do hotel era a visao do inferno, ainda mais a esta hora da noite, tudo fechado e com fogareiros isolados iluminando a estrada. Ainda bem que o Joao tinha me avisado que o lugar era "assustador", senao eu teria saido correndo, ou mesmo pedido ao Jedi que me levasse a outro hotel. Mas resolvi encarar. Desci do carro e fui andando por uma viela lugubre ao final da qual supostamente encontrava-se o tal hotel. Acho que foram os segundos 50 passos mais tensos da minha vida - os primeiros foram em Panama City, quando fui parar num bairro igualmente bizarro cercada por cafetoes e traficantes. Enfim... no hotel, o recepcionista dormia confortavelmente sobre um lencol estendido no hall. Caraca, a India eh impressionantemente caricata! Ele nao estava muito comunicativo. Fato eh que queria voltar a dormir logo e foi me dando a chave do quarto: "good night, mam". Ok, good night so se for pra voce! Como eh que eu vou ter uma good night num quarto sem janelas, aparentemente - e apenas aparentemente - limpo (eu adoro usar eufemismos!), e com lagartixas prestes a despencar do teto sobre a minha cama??? Apesar do cansaco dilacerante, dormi apenas algumas horas. O calor era insano, o lugar era insano, na verdade, eu sou insana! Pra que, me perguntei, pra que eh que eu fui deixar minha vidinha insular pra passar por isso??? Minha casinha de frente pro mar, Valentina, rede na varanda, meu preto me fazendo carinho... pra dormir com lagartixas em NOva Delhi?!??!?!?! Contudo, curiosamente, aquela sensacao de felicidade do aeroporto nao havia desaparecido. Tentei controlar o desespero e me lembrei de que, depois de tudo passado, a serenidade que brota eh incrivel e o que foi vivido faz sentido profundo. Foi assim com Noronha, onde muitas vezes me perguntei o que estava fazendo com a minha vida... Confio que sera assim tambem com esta viagem.
Depois de despertar 50 vezes no sono da manhazinha, resolvi levantar e encarar o dia - sem saber muito por onde comecar: procurar um hotel melhor ou resolver rapidamente o que precisava em Delhi para sair daqui o mais rapido possivel?? Estava muito confusa e perdida. Ha muito tempo nao me sentia assim. Muitas buzinas - quero dizer MUITAS mesmo: Napoli + Roma + Atenas + Sao Paulo na hora do rush elevado ao cubo! Todo mundo anda junto na Main Bazaar Rd. Rickshaws, velhos, taxis, motos, cegos, vacas, bicicletas, criancas, gringos...nos dois sentidos, um no sentido do outro, tanto faz, o importante eh buzinar! Tudo se auto organiza da maneira mais caotica possivel. Enquanto a velhinha quer ler minha mao, o cozinheiro me oferece pesteizinhos fritos na hora ao lado do senhorzinho que vende remedios ayurvedicos e incensos. Me sinto alimentada por tantos estimulos que nem tenho fome, ou vontade de comer. Peguei o metro, lindo e organizadissimo (de verdade), e fui comprar minha camera nova e um telefone indiano (ra!). Falei com o Brasil, comi um delicioso e apimentado falafel de lentilhas e espinafre e fui dormir feliz. Sabe que agora, ha poucas horas do desespero que durou poucos minutos, nem tudo eh tao ruim quanto parece, tudo depende de como a gente olha. E pretendo manter um olhar inocente e curioso pras coisas, pras pessoas, e me divertir com as coisas que derem "errado". Mudei pra um quarto com janela e, no apice da insonia, vi que a lua la fora ta linda, quase cheia.
Se vemos a mesma lua, nao estamos assim tao distantes, nao eh mesmo?

sábado, 31 de março de 2012

devaneio parisiense

Depois de uma noite espremida numa lata de sardinha, a aeromoça joga o cafe da manha em cima da minha bandeja ainda mal aberta. Buen dia!, diz seu espanhol rascante. A boca pastosa, os olhos ardentes, a coluna em frangalhos denunciam: voce acordou do outro lado do mundo. Tinha esquecido como é linda e louca essa possibilidade! Adormeci em sao paulo, acordei em madrid, segui para paris, que me recebeu com um dia tipico de printemps - céu claro e brisa fresca. Tinha esquecido também: a cada cinco passos, um café charmoso, uma boulangerie colorida, uma lojinha desprenteciosamente linda. Bistrôs expoem seus menus suculentos escritos em giz sobre lousinhas de criança. Plat du jour: franceses saem pra rua com a chegada da primavera, sedentos por uma nesga de sol. Paris esta alegre. Pedimos uma taça de vinho na calçada. Enquanto devaneio sobre tudo isso, meio bebada de cansaço, Marie me relembra como é agradavel redescobrir sua propria cidade pelos olhos de outra pessoa. Sim, renovar o olhar é sempre precioso. Hoje a brincadeira começou.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

pé na estrada

Volto pisando rente aos passos que eu mesma dei pra ir. Não há rastro tão seguro quanto o que eu já tracei. Porque já ousei demais, sim. Essa é minha faísca. Só que agora é diferente: é ousadia equilibrada, é impulso cauteloso. Vida que continua pulsando, mas com maturidade. Na aflição de uma viagem que se promete transformadora, percebo, na verdade, que ela já foi iniciada. Ela é todo este caminho percorrido, já pisado, revisitado agora com passos paralelos, mas nunca sobre as mesmas pegadas. Ela é pra dentro e para fora, ao mesmo tempo, sem ponto de chegada definido. Ela é feita de paisagens jamais monótonas, certamente muitas montanhas a serem atraversadas.
Esta viagem é necessária e inevitável.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

de mudança

Faz tempo que não apareço por aqui. To sentindo falta de escrever. Um misto de preguiça e absoluta falta de inspiração me fizeram dar uma pausa. Não foi por ausência de estímulos, aliás, muito pelo contrário. Acho que esses foram até excessivos, por isso a falta de inspiração: como organizar tanta intensidade, encontros, novidades sem a cotidianidade de antes? Sem a pontualidade de antes? A vida está absolutamente desordenada e anti-burocrática, o que é bom, mas me deixa um pouco sem chão às vezes...

Só que ontem, depois de ouvir que esse blog serviu novamente de inspiração para alguém voltar a escrever, resolvi retomar palavras a colheradas.

Estou de mudança. Dessa cidade, dessa vida, dessa eu. Não sei por quanto tempo e nem direito o porquê, mas no esforço de tentar não entender muito, apenas sentir, me deixo levar pelo que acredito ser bom neste momento. Nas arrumações, encontro objetos, escritos e fotos (muitas fotos) que me trazem uma saudade antiga e conhecida. Saudade de quem parte sem muito norte. Percebo que o tempo começa a passar rápido demais, porque já tenho tantas histórias pra contar que nem cabem mais nas caixas, álbuns, vídeos ou blogs. Percebo que tudo o que conheci, vivi e cruzei (seja mulher, paisagem ou caminho, como disse o Ruy Duarte), eu amei com todo o coração que tem em mim. E em mim tem muito coração.

Então vamolá, agora é pegar esse coração e colocá-lo a serviço do mundo.
Mais e sempre.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

fantástica fábrica de fantasias

são paulo. insalubre. insana. insaciáveis os que a habitam. teatro, boate, cinema, qualquer prazer não satisfaz. me desencontro nessas ruas de incongruências, nessa espontaneidade tão fria e suja, paradoxalmente tão acolhedora e repleta de possibilidades.

me encontro nessas esquinas de loucura.

me inspira andar sobre suas veias, uma quantidade de sangue jorra, dando vida ao que por vezes está quase morto.

sob o vão do masp, muitas cenas felizes: o translúcido nos olhos de curiosos, passantes, mendigos, crianças, todos vidrados no filme de john ford. juntos compartilhando fantasias.

no caminho de volta, já sinto saudades do que não quero mais que me causes.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

tempo, tempo, tempo

A vida tá interessante, mas incessante. Tô com muita vontade de arrumar uma mala bem pequena e tomar um avião pra lugares distantes onde ninguém, ou pouca gente, me conheça.
Então acho que é isso que eu vou fazer.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

shelter

Quando eu viajo pra cá, eu como muito (bem), bebo muito, durmo muito, faço muita yoga, tomo banho de rio e de mar. Quando eu durmo aqui, meus sonhos acordam frescos. Aqui é meu refúgio, onde abrigo minhas tristezas e me apaziguo. Na noite passada, sonhei com a mesa da sala que eu quero comprar. Era ela, exatamente bela como eu imaginei. Ainda não sei onde encontrá-la e nem quanto ela custa, mas agora ela tem forma. É engraçado como cores, texturas, formas e cheiros me confortam, ainda que só em sonho. E no meio do meu devaneio noturno veio a casa Battló, a Pedrera, o parque Guell, muito Gaudí, loucamente inspirador com suas formas e cores, e eu andando em corredores de vento.
Acordei pra outra viagem, pronta para recobrar a poesia em mais andanças, novos olhares, encontros e inspirações. E decidida a adiar um pouco mais a compra da mesa nova - agora ela já tem forma mesmo, né?

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

até o verão

Acordei o sol alto já aquecia o quarto. Uma fresta de claridade penetrava pelo blackout mal fechado. Espreguicei o corpo, nenhuma dor [sorri: raramente nada dói em meu corpo]. E neste momento único de se encolher e se esticar no lençol quentinho da manhã, piscando as palpebras lentamente pra deixar o mundo entrar aos poucos, lembrei do seu olhar desabando luz em cima de mim. E não sabia mais se era sonho ou memória aquele rio correndo forte, os seus braços fortes correndo pelas minhas costas, num abraço de não ter fim. Nós correndo sobre aquela ponte até o (des)fôlego fazer as pernas pararem, a espontaneidade dos gestos, a liberdade das palavras, e o seu olhar-feito-luz sem desviar, num misto de admiração, desejo, respeito e amor. O amor, outra vez, preenchendo os poros. Na nossa gana de buscar outras possibilidades de amor, a vontade de não ir embora nunca.
Apesar do frio, apesar da hora, apesar dos outros.

Olhei pro lado e encontrei anotado numa folha amassada sobre o criado-mudo: "até o verão...".
E ainda não sei se foi sonho ou memória.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

quem vai nem sempre volta

Voltei mas lá fiquei. Deixei meu coração no castelo, minha lágrima nos gerais, meu hálito nos lençóis.
Abaixo, impressões da minha última viagem.

dia 01

Sol escaldante na cara. As costas doem, os pés doem, a cabeça lateja, os joelhos falham. A paisagem é estonteante: algo muito, muito belo pintado por Deus na terra dos homens. Cruzamos o rio, último obstáculo. Já sem mais poder sustentar meu corpo em pé, desabo num choro de falência. Puxo o ar, soluço. O que é que eu vim fazer aqui? Rapidamente a cabeça explode em dor aguda. Seco os olhos, me levanto poeirenta e entro no passado. Uma casinha de taipa toda pintada de verde claro, e dentro dela um casal esquecido no meio do mundo encantando. Os grilos cantam a noite fresca que traz prosa regada a cachaça e comida caseira tão gostosa (mais gostosa do que a da minha avó!). Prosa de simplicidade, silêncios espontâneos e nada constrangedores. Vidas vividas abrindo caminhos. Despedida com beijos e doce de goiabada.
E eu choro, emocionada por tanta generosidade, zelo e amor.