Mostrando postagens com marcador teatro. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador teatro. Mostrar todas as postagens

domingo, 26 de setembro de 2010

sobre a reciprocidade

Ontem fui ver "Inverno da luz vermelha", de Adam Rapp. Daniela Thomas como sempre arrasando no cenário e Monique Gardeberg na direção, conduzindo muito bem aqueles três jovens atores. O texto é muito perspicaz. Cheio de surrealismos e situações improváveis, mas também tão real que me assustou. É impressionante como o teatro, quando bem feito, traz a vida em toda sua potência: é a sua vida sendo representada no palco e contada por outrém. Isso dá muita energia para dejavus nem sempre desejados. Eis que o psicodrama involuntário trouxe de volta aquela noite almodovariana.

Eu pensava:
Foi tão forte que não era possível que você tivesse sentido diferente. Tinha que ser igualmente intenso, especial, excepcional, incrível para você. Como podia ser só um passatempo, um encontro casual, uma conversa corriqueira de bar? Não! Definitivamente aquele sentimento era recíproco!! Eu batia no peito bradando que eu SABIA, que eu não era uma imbecil, que não podia estar enganada, porque eu SENTIA que você e eu estávamos em uma conexão profunda.

Mas eu estava enganada. E a peça de ontem fez cair a ficha: por mais forte que pareça, nem sempre o que é pra um, é verdadeiro pros dois.
Tá tudo certo.

Eu sou você que se vai no sumidouro do espelho.
Guinga e Aldir Blanc

sexta-feira, 2 de julho de 2010

tudoaomesmotempoagora

socorro: férias. Preciso sair dessa cidade maluca, que nunca, nunca, nunca dorme. Inclusive eu não durmo, fico aqui pensando na viagem, no trabalho (ou na falta dele), no frila, no tás a ver?, no imbecil com quem saí na semana passada, no outro com quem saí na semana retrasada. Rememoro os encontros de ontem, as cervejas de hoje. Concluo que a minha vida é muito boa e o mundo tá muito gay, caramba! ... o canto, a conta bancária, todas as coisas que ainda quero fazer, todas as que quero deixar de fazer. E no que vou ler nas férias. Hoje fui ver "Empoeirados" no Oficina. Fazia anos que não ia lá e que não ouvia uma das músicas que eles cantaram na peça, canção tão doce, como tudo que a Ceumar faz. E essa música me trouxe outro pensamento: que a arte existe pra nos lembrar de que estamos vivos. São Genésio, conceda a todos o ganha pão, para que não nos esqueçamos da vida.

terça-feira, 1 de junho de 2010

cutucando

Apesar de toda poesia, de tanta música, apesar de olhos inundados pelos brilhos da noite molhada. Apesar dos encontros fortuitos, do bom teatro, dos emails agradáveis, apesar das fotos antigas revisitadas, das respirações profundas. Apesar de ter finalmente conseguido começar a ler a biografia da Clarice. Apesar de tanto Noel Rosa. Apesar de tanto, apesar de tudo, un buco profondo.
Minha inspiração foge quando você não está por perto.

vazio agudo
ando meio
cheio de tudo.
{Leminski}

segunda-feira, 31 de maio de 2010

um navio no espaço

Acreditei que se amasse de novo
esqueceria outros
pelo menos três ou quatro rostos que amei...
organizei a memória em alfabetos
como quem conta carneiros e amansa
no entanto flanco aberto não esqueço
e amo em ti os outros rostos.
Ana Cristina César
[Contagem regressiva in Inéditos e Dispersos]

Brilhante e imperdível.

sábado, 10 de abril de 2010

... é que eu sou alérgica à solidão. E, por mais venenosos que sejam os homens, são o único antídoto capaz de me curar.

IN ON IT
Com: Emilio de Mello e Fernando Eiras
Direção: Enrique Diaz
Texto: Daniel MacIvor
Vencedor do Prêmio Shell RJ nas categorias ator e direção.
(fim de temporada no Teatro Faap, mas reestréia no Eva Herzt em 07/05). Não percam!

segunda-feira, 5 de abril de 2010

doida

Há textos teatrais que deveriam ser vistos por todas as pessoas. Sobretudo pelos que, como eu, questionam sua própria lucidez em tempos tão árduos de convivência humana. Pelos que, também como eu, sentem um deslocamento quase perene em relação a estes tempos. Deslocamento geográfico, temporal, atmosférico: incompletude de sentidos.

Sim, sou doida. Sou poeta, sou artista, sou visceral, sou extrema. E por vezes sou vil, como todos os seres humanos. Amo a vida, no entanto muitas vezes desejo morrer. Porque para viver eu preciso de poesia. E quero ver poesia em torno de mim. E quando ela me falta, falta-me o ar.

Sou doida por acreditar que a arte é um tratamento de choque para jogar as pessoas na sensação, para tirá-las desse estado de torpor.

Doida por amar demais, por me apaixonar demais, por achar que o que aconteceu na verdade não aconteceu. Ou vice-versa, mas não importa.

Doido esse coração de tanto doer.

Doido
de Elias Andreatto
Teatro Ágora
sáb (21h30) e dom (18h)
até 30/05

quarta-feira, 24 de março de 2010

o que muda quando algo muda?

Corte Seco é sobre os cortes que podem mudar tudo. Acasos. Perdas. Encontros. Desencontros. Acidentes. Repetições. Pessoas que passam. Passagens. Ruas e avenidas. Vigilância. Fragmentos da vida? Janelas. Muitas janelas. O que tem por trás? O que tem por trás do que não vemos? Nós voyeres de nós mesmos. Teatro. Essa pequena sociedade que se forma a cada dia. Atores e personagens. O que tem pro trás do que não vemos? A estrutura aparente. Transparente. Visível. O jogo mostrado, vivido, ao vivo. O corte em cena, como na vida, será inesperado. Como na vida, o teatro um jogo sem rede. Risco. Risco. Risco no chão. Corta. Corte Seco, ainda sangra? Sangra. Mas traz o novo. De novo. O novo. Sem medo. E fim.
[Christiane Jatahy]

segunda-feira, 22 de março de 2010

too much

Já escrevi aqui sobre a loucura (dos outros). É isso: difícil é assumir as próprias loucuras. Trêmula, sou obrigada a reconhecer que não há loucura individual sem loucura coletiva. Não há o invidual sem o coletivo. Não há você sem mim, nem eu sem você. E está faltando este entendimento. Estamos por demais ensimesmados em nossas próprias loucuras. Hoje fui assistir ao espetáculo "Escuro", da Cia Hiato, que escarra na nossa cara que todas as patologias daquelas personagens patéticas estão coladas em nós. A cegueira, a mudez, a limitação da linguagem são parte do nosso cotidiano urbano. Realizamos grandes coisas e cremos que isso nos torna importantes, únicos. Pobres de nós. Grande ilusão: estamos gradualmente perdendo o olhar pro outro, a capacidade de nos relacionarmos com profundidade, o diálogo com o outro.
Este mundo está demais pra mim, evasivo demais, barulhento demais, conexões demais, choro demais, riso demais, lixo demais, trânsito demais, dinheiro demais, televisão demais, miséria demais, loucura demais.

sábado, 14 de novembro de 2009

de como fiquei bruta flor

quis levantar e sair. quis, em vão, conter as lágrimas. mas deixei os olhos ardendo. resisti, porque só quem já teve um grande amor que se esvaiu viveu a perplexidade do fim, o fundo do poço, o ritual de sobrevivência (respira!), o eu e o outro, o interim, o último encontro, o ritual de cura, a paramentação para a morte e finalmente o renascimento. quis te escrever pra te contar quantas chaves eu ganhei, quantas portas eu já abri e quantas já fechei. mas na impossibilidade, escrevo aqui, "como se falando do nosso amor ele não moresse nunca e eu mantivesse um romance secreto sem nem sequer você saber...".
É que eu preciso de um amor assim como um respiro para entrar num compasso.

De como fiquei bruta flor ou espasmos literários de um coração desvairado
de Claudia Schapira
Direção Cibele Forjaz
Elenco: Lucienne Guedes e Mariana Senne
SESC Consolação
Espaço Beta - 3o andar
quintas e sextas às 21h
Até 04/12

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

saia, já!

Sai daí.
Saia do meu caminho, deixe ele livre.
Agora que toda chuva já caiu, limpou, levou, lavou e o mundo não se acabou, passe você por outras ruas.
Saia dos fragmentos falsos de vida que você compõe.
Saia, saia, saia.
Saia já [da minha vida].
.
Hoje o dia foi difícil.
A noite não foi tão ruim: arrematada com um puta texto do dostoievski em francês, um prosecco (vários...) e alguns petit-fours deliciosos.
.
Amanhã vou sair de saia.
Mulherzinha, que sou!

sábado, 5 de setembro de 2009

aqui dentro aqui fora

Quando o mundo estiver em suas mãos, passe-o adiante com cuidado.

Aqui dentro: Tusp – R. Maria Antônia, 294. Quintas e sextas às 21h30
Aqui fora: Galeria Olido – Av: São João, 473. Terças e quartas às 16h
Criação do grupo O Povo em Pé.
R$ 20,00 / 10,00 (meia entrada)
Absolutamente SENSACIONAL.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

não há cimento que te impeça de respirar

Sublime. Lindo texto, descrições minuciosas, sutilezas sustentadas pela maravilhosa interpretação de Clara Carvalho.

Dueto da Solidão
de Sérgio Roveri
Com Clara Carvalho, Chico Carvalho, Gustavo Haddad e Leonardo Miggiorin
Sesc Vila Mariana
Rua Pelotas, 41 - 11/5080-3000
Às terças e quartas, às 21h
De R$ 3 a R$ 12
Até 24/6

segunda-feira, 1 de junho de 2009

autopsicografia

Tem horas que é melhor não escrever nada.
É por isso que eu não vou escrever, só parafrasear.

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Fernando Pessoa

Todos nós passamos por alguém que não somos. Ou você pensa o que? Que as pessoas sabem quem elas são? Ou que você mesmo saiba quem é?
Chega.

sábado, 14 de março de 2009

corpo hóspede

O que eu tenho é minha atitude. Essa foi a sensação que Homemúsica, do Michel Melamed, me deixou. Interatividade, interferência, variadas referências. Um espetáculo moderno, livre, solto, inventivo. O drama da existência e da vontade de inexistência abordados com bom humor. Ácidas críticas políticas e artísticas manifestadas em todas as partes de um corpo musical. Muita atitude e ousadia bem experimentada.
Outro dia a Tani falou sobre como, ao longo da vida, nos tornamos uma grande colagem: no meu corpo, levo um pedaço de cada amor, de cada amigo, de cada quase parente que até hoje passou por mim. Ela anda literalmente fazendo algumas colagens interessantíssimas utilizando fotos originais e recortes e formando assim um frankstein do bem de nós mesmos.
Depois que eu vi o Melamed expondo aquele corpo hóspede de todas as vidas, isso fez mais sentido pra mim. Pensei que sim, puxa!, é possível (e necessário) que nosso corpo hospede nossas atitudes de forma divertida e lúdica. E percebi o quão rica é essa colagem que nos tornamos a cada dia que passa. Por isso, tudo vale à pena. Até mesmo a dor mais insana.

Não pecam! Não percam!
HOMEMÚSICA
Até 29/03
SESC Consolação
sextas e sábados às 21h, domingos às 19h00

domingo, 8 de fevereiro de 2009

nossos corações não sabem ser leves

Todas as boas palavras estão pálidas de exaustão.
E carregadas de ironia.

Que linda essa comemoração de 15 anos da Sutil Companhia de Teatro, que trouxe novamente a SP "Não sobre o amor", peça de câmara de Felipe Hirsch e Murilo Hauser sobre a obra do russo Viktor Shklovosky e sua amada Elsa Triolet. Cenografia impagável da Daniela Thomas.

5 de fevereiro a 1º de março
Sextas-feiras e sábados
18 a 22 de março
Quarta-feira e quinta-feira
sempre às 20:00
De quinta-feira a domingo, R$10 (inteira) e R$5 (meia).
Entrada Franca às quartas-feiras.
Teatro FIESP, Av. Paulista 1313

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

mão na luva

Preservai o amor até as fronteiras do desconhecido.
O desconhecido é a terra dos homens.

Texto de Oduvaldo Vianna Filho
Concepção e interpretação: Isabella Lemos e Marcelo Pacífico
Núcleo experimental do grupo Tapa
Viga Espaço Cênico
R. Capote Valente, 1.323 - Pinheiros
Telefone: 3801-1843.
Ingresso: R$ 10 (ter. e qua.), R$ 20 (qui. e sex.) e R$ 30 (sáb. e dom.).
Até 15/fev

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

navalha na carne

Tenho ido muito ao teatro em busca de novas emoções, mesmo que efêmeras. Um pouco por necessidade profissional, um pouco por apego emocional. Não importa, aprendi a amar o teatro. Fato é que pouco tenho me emocionado. Poucos textos me tocam, poucas interpretações me arrepiam, muito poucas, diria. Pouco bom gosto, pouco refinamento é o que tenho encontrado. A cada novo ingresso adquirido, uma nova expectativa de encontrar um respiro à mesmice, à afetação, ao estereotipo. E nada.
Uma história sobre putas, cafetões e veados. Virulenta, cruel, dura, amarga. Mais estereotipada impossível. Mais do que uma navalha na carne, um soco no estômago, daqueles que deixam sem ar, que arrepiam a espinha. O formato de arena não poupa os espectadores: no início, tudo parece um grande circo de horrores, é rir pra não chorar - rir muito pra não chorar muito! Aos poucos, a platéia vai se calando, atônita, desacreditada. Gustavo Machado - que está mais gostoso que nunca, por sinal - vai habilmente construindo sua cafagestagem a ponto de ser odiado. Asqueroso. O patético de Gero Camilo é de cortar o coração. Maravilhoso! "Às vezes duvido se sou gente", diz a puta Neusa Sueli, interpretada por Paula Cohen, em meio a um monólogo atualíssimo-tapa-na-cara.
Mais que uma navalha na carne. Mais que uma história do submundo imundo - que permanece igualzinho ao de 1967, quando Plínio Marcos o levou aos palcos pela primeira vez. Mais que uma montagem chocante e sexualmente explícita. Essa é uma história de paixão, igualzinha a qualquer outra. Ao ver-se abandonada, mesmo mal tratada, a única pergunta que surge é: "Você volta???? Você volta, Vadinho???".
Finalmente encontrei o que buscava. Chorei. Me emocionei. Fiquei com taquicardia.

Você não volta.

Navalha na carne
texto: Plínio Marcos
direção: Pedro Granato
elenco: Gustavo Machado, Paula Cohen e Gero Camilo.
Terça a quinta, às 21h - R$15,00 (preço popular: dia 21/01 - R$2,00)
Centro Cultural São Paulo, até 19/02