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segunda-feira, 14 de abril de 2014

relato de parto

Outro dia, minha mãe me perguntou quando eu havia optado pelo parto natural, quando essa escolha se tornou uma possibilidade para mim. Eu pensei por alguns instantes e a única coisa que eu consegui responder foi: “Não foi uma opção, sempre foi uma certeza!”.

Agora, enquanto ouço o set list de músicas que preparei para tocar durante o meu parto, me emociono ao lembrar de flashs daquele que, sem dúvida, foi o maior momento da minha vida até hoje. Já não consigo imaginar como seria viver sem ter passado pela experiência de trazer Antonio ao mundo como eu sonhei e como ele desejou.

E foi assim: na segunda-feira, 11 de novembro, me olhei no espelho antes de dormir e vi meu lábio superior muito inchado, parecia que eu tinha depilado o buço. Como este é um dos indícios da preparação do seu corpo para o parto, pensei: é amanhã! Acordei sentindo algumas contrações e liguei para minha doula, Thiana. Ela é de Jundiaí, mas estava em São Paulo, pois havia acompanhado um parto no dia anterior na cidade. Perguntei se ela poderia passar em casa para nos vermos, pois não tinha certeza se aquilo já era o início do meu trabalho ou se era um falso alarme. Só que ela, junto com minha parteira Camila, estavam a caminho de Jundiaí onde outra gestante já estava em trabalho de parto. Ops, pensei... e agora? E se não der tempo delas chegarem aqui? Ela se certificou de que minhas contrações ainda não estavam ritmadas, me tranquilizou, e disse que à noite ela e Camila estariam comigo. “Respira que vai dar tudo certo!”. E foi isso que eu fiz, comecei a respirar.

Decidi ir até o Parque do Ibirapuera com minha mãe. Levamos uma canga e ficamos deitadas à sombra de uma grande árvore conversando, rezando e aproveitando os raios de sol da manhã. As contrações ainda estavam bem espaçadas e fraquinhas, mas eu sabia que estava perto. Voltando para casa, preparamos o almoço e fui descansar um pouco. Durante todo o tempo, Thiana e Camila ficaram em contato comigo, trocando mensagens e monitorando meu estado. Eu estava de fato tranquila. À tarde, perto das 16h00, Thiana me ligou avisando que Valentina, filha da outra gestante, já havia nascido.

Confesso que fiquei aliviada. Eu ainda não estava em trabalho de parto de fato, mas as contrações já estavam um pouco mais doloridas. Minha mãe estava o tempo todo comigo. Pedi doce de leite, ela começou a fazer um panelão. Ainda havia algumas coisinhas pra pendurar no quarto de Antonio, então pedi a meu pai que pegasse o martelo, porque “de hoje não passa”. Foi nesse momento, por volta das 19h30, enquanto ele martelava a parede do nosso quarto, que senti uma pontada mais forte. E depois de oito minutos, outra. E depois de cinco, mais outra. A evolução foi bem rápida, ou não sei se fui eu que não percebi que as contrações estavam ficando mais frequentes, mas minha sensação foi que aconteceu de repente. Liguei para as meninas, elas estavam saindo de Jundiaí. Pedi pra acelerarem um pouco na estrada, pois o negócio estava apertando.

Decidi entrar na banheira para dar uma relaxada. Apaguei as luzes e acendi umas velinhas que já havíamos preparado. Minha mãe ao meu lado, começamos a rezar juntas. Eu respirava concentrada e quando a contração vinha, me ajoelhava na banheira e vocalizava um grande aaaaahhhhh, ou ooohhhhhh, soltando o ar junto. Foi instintivo. Até aí ainda estava tranquilo, pois as contrações estavam bem breves.

Depois de um tempo, decidi sair da banheira e comecei a preparar o ambiente no quarto dos meus pais, onde havia escolhido realizar o parto. Peguei meu tapetinho da yoga, estendi no chão, e coloquei por cima várias toalhas que já estavam separadas. Tentei encontrar a posição mais confortável para mim, sempre respirando e me concentrando muito. De quatro era o modo como me sentia melhor. Acho que já era perto das 21h00 quando eu realmente comecei a ficar um pouco aflita por estar sem o amparo das meninas, mas eu sabia que dentro de poucos minutos elas chegariam. De fato, dali a 20 ou 30 minutos Thiana e Camila chegaram. Eu já estava meio em alfa, as contrações já estavam bem dolorosas e nem sei mais de quanto em quanto tempo estavam vindo, mas sei que era pouco.

Logo Camila fez o toque e constatou que eu estava com 5 para 6 cm de dilatação. Já?, perguntei. Nossa, que rápido... uau, em apenas duas horas eu já tinha andado mais da metade do caminho. E sozinha! Fiquei confiante e feliz com a notícia. E assim prosseguimos. Elas me apresentaram outras posições que poderiam ajudar e juntas fomos construindo as próximas horas. O ambiente estava aconchegante na penumbra e havia muitas velas espalhadas por todo o quarto. Meus pais não saiam de perto de mim.

Inicialmente eu havia pedido para meu pai não participar do parto, pois ele se afligiria e me deixaria mais nervosa. Mas, para minha surpresa, foi ele quem ficou ao meu lado até o final, quase ininterruptamente, aplicando um passe de energia em silêncio. No final, foi minha mãe quem deu uma sumida - depois fiquei sabendo que ela ficou bastante nervosa em me ver com dor e não aguentou ficar próxima.

Não demorou muito, chegou também a Dani, assistente da parteira Camila, cuja presença foi essencial. Seu toque forte e carinhoso me massageou muito em vários momentos, e sua voz maravilhosa ajudou a embalar o parto com músicas lindas que cantamos juntas, além de tocar também alguns instrumentos para chamar Antonio para este mundo.

Acho que perto da meia noite, a bolsa rompeu e pude sentir aquela água viscosa e quentinha, que por nove meses havia guardado meu filho, escorrer por entre as minhas pernas. A esta altura, eu já estava com muita dor. Thiana me instruía a não resistir, a me entregar à dor, dizendo que ela não era mais forte do que eu, e que ia passar. Enquanto isso, eu falava palavras doces para meu filho, convidando-o a chegar e realizar a passagem. Lembro de ter falado pra ele que iria leva-lo para conhecer os golfinhos em Fernando de Noronha e que todos estavam muito felizes esperando por ele aqui fora. Durante todo o processo, o bebê era auscultado com frequência e eu podia ouvir seu coraçãozinho batendo a milhão, o que me tranquilizava bastante.

Já perto do início do expulsivo, voltei pra banheira quentinha. Isso ajudou muito a atenuar a dor das contrações. Neste momento, acho que por volta da 1h30 da manhã, eu já estava com 9 cm de dilatação, mas Antonio estava gostando de ficar lá dentro e não descia. Então, Camila pediu que eu saísse da banheira para ficarmos um pouco em pé rebolando, que auxiliaria na expulsão. Relutei porque estava muito melhor ficar na água, mas sabia que era necessário. Voltei então pro quarto e aí o bicho pegou.

Começou a doer muito, de forma quase insuportável. Mas o corpo é muito sábio e, depois de uma contração dolorosíssima, vinha outra mais leve para poder recobrar energias. E a tal da vontade de fazer força chegou. Camila me orientou a ficar de cócoras e disse que estava muito perto, Dani me sustentava por trás. Era muita dor, muita! De repente, o urro da leoa trouxe Antonio de uma vez, chegou chegando!
Não consegui chorar. Ele veio direto pro meu colo, fiquei olhando atônita, maravilhada. Exausta. Ele também não chorou. Era rosadinho e grandão. Meus pais se chegaram e eu senti o amor da família com toda sua potencia. Eu e Antonio só existíamos porque meus pais existiam.

Ficamos alguns instantes nos namorando, eu e meu pequeno. Logo depois, fui para a cama e na sequência a placenta dequitou inteirinha. O cordão foi cortado pela minha mãe assim que parou de pulsar, uns 15 minutos depois. Antonio nasceu com 3.700kg e 53 cm. Não tive laceração e minha recuperação foi espetacular, muito rápida. Mas o que mais me inspirou, o que me faz dizer hoje que passaria por tudo isso de novo, foi o respeito e o amor com que fui tratada. Estar na minha casa, junto
dos meus queridos, amparada por uma equipe amorosa e atenciosa, tendo liberdade para me mover, comer, gritar sem ser julgada, tudo isso não tem preço.

Meu parto domiciliar foi um ato de puro amor. Acredito que tenha sido a primeira vez na vida que me dispus a vivenciar todas as sensações de coração aberto, sem reclamar, sem julgar. E foi um exercício lindo de doação. Sou outra mulher, agora mãe.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

doce novembro

Filho, chegou seu mês. Parecia tão longe que eu achei que não ia chegar. Fiquei inventando um monte de coisas na minha cabeça de que você ia vir antes, que você não ia ser um novembrino... mas estava enganada! Você é um escorpiano mesmo, que em breve estará aqui pequenino nos meus braços. E eu fico imaginando como vai ser a primeira noite com você do lado de fora da minha barriga. Eu acho que vou acordar de supetão sentindo falta de uma parte do meu corpo. Aí vou olhar pro lado e vou te ver ali respirando curtinho do meu lado, puro milagre. Não vai ter mais ninguém com a gente, mas seremos tão grandes!
Sabe filho, eu ando pensando muito em quem eu sou e acho que sua chegada me faz querer ser melhor pra você. Não sei se estou conseguindo, mas estou tentando. E acho que junto com você eu vou conseguir. Tem tanta gente legal te esperando aqui, sabia? Muitas pessoas já te amam sem te conhecer. Você já está, aí de dentro, operando reencontros e transformações. Imagina então quando chegar, quanta luz vai trazer!!
Vem então, cumprir sua missão neste mundo lindo.
Estamos te esperando, minha estrelinha brilhante.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

o cravo brigou com a rosa

Desde que me descobri  grávida, todas as manhãs acordo cantando.
"Bom dia começa com alegria!
Bom dia começa com amooooor!
O sol a brilhar, passarinhos a voar,
Bom dia, bom dia, bom diaaaaa!"

A terceira estrofe é sempre mutante: se está chovendo eu substituo por "a chuva a cair, as folhinhas a reluzir", se estou indo trabalhar: "mamãe vai trabalhar, ligeirinha a caminhar"... e assim por diante, ao gosto da inspiração do dia.

Antonio já gosta muito de música, também pudera, está no DNA dos pais... Canto muito o hino de Noronha pra ele também, que acho a coisa mais linda, exaltando as belezas da ilha onde ele foi concebido, celebrando as cores do mar e o céu sempre cheio de estrelas...

E tem uma história lendária da minha infância: eu pedia repetidamente (leia-se r-e-p-e-t-i-d-a-m-e-n-t-e!) uma musiquinha do cravo e da rosa. Teve uma viagem de carro que durou 3 horas e meia, e minha mãe foi cantando até o destino final! Toda vez que terminava, eu dizia: "otaveiz!", e dá-lhe a paciência maternal a repetir indefinidamente, quase chorando, a mesma canção.

O que eu me dei conta noutro dia, enquanto cantava pro Antonio, é que a letra é triste pra caramba: o Cravo briga com a Rosa, os dois ficam chateados e depois o cravo fica doente, MORRE, e a rosa chora!
PORRA!!!!! Que desgraça...

Então lá fui eu, inventar uma nova versão:

"O cravo beijou a rosa
Debaixo de uma sacada 
O cravo saiu brilhante
E a rosa apaixonada

O cravo ficou doente
A rosa foi visitar
O cravo ficou contente
E agora vão se casar"


É isso, filho: só desejo alegria e finais felizes pra você!!

domingo, 26 de maio de 2013

aventura

Que grande aventura é a maternidade! Eu, que amo viajar, comparo esta espera à preparação de uma viagem para um destino longínquo. Muitas expectativas boas, mas muitas inseguranças. Você lê tudo a respeito do lugar, pega dicas com quem já foi, mas as incertezas permanecem, porque a experiência de cada um é única. Você coloca na mala um monte de coisas que depois acaba por não usar. Planeja rotas que desviam e paradas que não faz. Conhece estranhos que fazem algo dar muito certo naquele dia em que você estava sozinha esperando o ônibus (errado) debaixo de chuva. Conhece a todo instante pessoas que te mostram novos caminhos e que passam a fazer para sempre parte da sua vida.
A maternidade tem sido, até agora, uma grande viagem. Uma revisão. Revejo tudo o que vivi e agradeço.Revejo uma juventude plena, bem aproveitada, rica de experiências em todos os sentidos. Revejo medos que supunha muito bem resolvidos mostrarem suas garras novamente. É hora de encará-los! Revejo conceitos e a necessidade constante de mudar para evoluir junto com esta estrelinha que vem para abrilhantar ainda mais minha vida. Vejo meu corpo e honro o cuidado que até hoje tive com ele, preparando-o para esta jornada. A metamorfose física diária é uma magia, um mistério, uma dádiva. Vejo que esta é a melhor hora da minha existência para partir para esta imensa viagem.
Estou arrumando a mala com toda a dedicação para ter nela tudo o que eu precisar. Sei que vou esquecer algumas coisas, mas é bom pra aprender a improvisar. Deixo de lado mapas e guias e me entrego ao desconhecido, vou pelo caminho da intuição, confiante de que sempre encontrarei pessoas maravilhosas dispostas a nos acompanhar.
Bem vindo, filho.

sábado, 31 de março de 2012

devaneio parisiense

Depois de uma noite espremida numa lata de sardinha, a aeromoça joga o cafe da manha em cima da minha bandeja ainda mal aberta. Buen dia!, diz seu espanhol rascante. A boca pastosa, os olhos ardentes, a coluna em frangalhos denunciam: voce acordou do outro lado do mundo. Tinha esquecido como é linda e louca essa possibilidade! Adormeci em sao paulo, acordei em madrid, segui para paris, que me recebeu com um dia tipico de printemps - céu claro e brisa fresca. Tinha esquecido também: a cada cinco passos, um café charmoso, uma boulangerie colorida, uma lojinha desprenteciosamente linda. Bistrôs expoem seus menus suculentos escritos em giz sobre lousinhas de criança. Plat du jour: franceses saem pra rua com a chegada da primavera, sedentos por uma nesga de sol. Paris esta alegre. Pedimos uma taça de vinho na calçada. Enquanto devaneio sobre tudo isso, meio bebada de cansaço, Marie me relembra como é agradavel redescobrir sua propria cidade pelos olhos de outra pessoa. Sim, renovar o olhar é sempre precioso. Hoje a brincadeira começou.

terça-feira, 13 de março de 2012

change the world

Porque vim não sei. Trouxe quase nada. Livros suficientes para o tempo pretendido, bastante creme hidratante e meu inseparável mat da yoga. Cheguei já pensando em voltar, mas não sei bem o que aconteceu, nem quando, nem como. Fui ficando... e lá se foi um ano fabuloso de encanto, beleza, muito mais felicidades do que dores. Um ano privilegiado de crescimento e amores. O que Noronha representa agora? Arrisco: os dias mais felizes da minha vida até hoje. Porque plenos por dentro, porque de auto conhecimento profundo, de encontro comigo mesma, de sol e lua ao mesmo tempo num céu infinito. Onde a lindeza é proporcional à aberração, onde o azul brilhante pode se transformar no breu profundo num piscar de olhos, exercita-se o desapego em igual medida ao apego máximo. Na tentativa de afinar a corda, estica-se até sua tensão-limite. Os insights são diários. E vive-se tudo com uma intensidade só suportável por mentes muito insanas como a minha. Então, nestes últimos dias de intensidade quase insuportável, tento encontrar espaço para organizar sentimentos contraditórios: necessidade louca de partir + vontade louca de ficar. Saudades já do que nem passou ainda. Saudades de tudo que não fiz, e do que fiz, de quem encontrei, e de quem só conheci, e também de quem deixei de conhecer por preconceito ou desamor. Dentre tantas mudas germinadas e plantadas, levo comigo a sementinha da mudança, mais forte do que nunca. Mudança de mim pro mundo, confiança de que o melhor ainda está por vir e de que ainda vou dizer muitas vezes - como já arrisquei dizer aqui: estes são os dias mais felizes da minha vida até hoje.

domingo, 22 de janeiro de 2012

como faz?

Subject: como?
Date: Thu, 19 Jan 2012 22:01:33 -0200

Ei. Essa coisa de sumir do mapa e ir pra longe...
Como faz?
Tua opção me cativa um bocado.
Ouviria histórias se quiser contar.
Bjo.
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Muitos amigos têm me escrito manifestando vontade de voar.
Deixo aqui um pouco da minha transpiração - que a cada dia se transforma em muita inspiração.

Meu querido,
Sou tão feliz pela minha escolha, que poderia passar a noite aqui te dando motivos para me imitar. Como? Como é muito fácil: arrume uma mala pequena, compre a passagem e parta pra onde o teu coração sugerir, mesmo que você não saiba direito o que está indo fazer lá. Foi assim que eu fiz.
Mas eu sei que não é a este "como" que você se refere. O movimento, ao contrário do que parece, é algo que está dentro de nós, então você só o fará se ele fizer profundo sentido para você. E mesmo que ele faça sentido, não é fácil. Na verdade, eu diria que é difícil pra caramba. É preciso ter muito desprendimento, força de vontade, confiança e alegria pra suportar a distância total da sua zona de conforto. Mas vale à pena, porque se afastando dela, você abre espaço para o novo, um espaço que você nem sabia que existia dentro de você. Se estiver disposto a enfrentar o medo do desconhecido, o medo de baratas, o medo da solidão, será recompensado de maneira absolutamente surpreendente, com um pote dourado dentro do qual estarão todas as ferramentas para a sua FELICIDADE. Se estiver com a mente aberta para aceitar verdadeiramente as diferenças, se tiver tempo para olhar a natureza e diariamente se der conta da efemeridade da vida, será muito menos penoso lidar com as crises existenciais e com as coisas que te desagradam. A vida se tornará mais leve e você, uma pessoa melhor.
Não sei te dizer exatamente "como", não tem receita de bolo. Levei alguns anos para efetivar essa escolha. Fui arando o terreno, regando um pouquinho todos os dias, preparando a retirada e, sobretudo, consultando meu coração, precioso oráculo. Me perguntava se a vontade de partir não era meramente uma fuga. No fundo, não me iludo: acho que todas as partidas são fugas, mas fugir consciente é diferente de fugir por fugir. Então, atenção a este ponto. E se for uma fuga descarada mesmo, que seja bem claro do que você está fugindo, porque pode ter certeza de que vai voltar - mesmo que você more no paraíso.
Ontem ouvi que minha vida é uma "montanha russa". Achei essa imagem bem engraçada. Irônico que, quando criança, eu ia ao playcenter e nunca gostei desse brinquedo que me deixava com enjôo e me dava muito medo - nunca subi em uma. No imaginário coletivo, a montanha russa é um desafio delicioso: todo mundo quer andar nela, pra poder gritar a vontade, extravasar, viver os medos face to face. No fundo, a gente gosta.
Então, depois de tudo isso, se eu puder te dar um conselho: vá andar de montanha russa, passe pelos loopings, frios na barriga, vômitos, frios, suadouros. Passe pela experiência, por todas as possíveis, se possível. Não deixe que as experiências passem, passe você por elas. Depois você vai ter muito mais do que um bocado de histórias pra contar: vai perceber que ainda tem um SEM FIM de descobertas por fazer.
Beijos,
Beta

segunda-feira, 4 de julho de 2011

a praça dos sonhos

Eu não sei como funciona a vida para os que não sonham, mas deve ser muito chata. Eu sonho demais e muitos dos meus sonhos se tornam realidade material e concreta em frente aos meus olhos. Quando isso acontece, uma sensação de imenso prazer me invade, meu corpo formiga, não consigo (nem quero) esconder sorrisos. Aqui em Fernando de Noronha, um grupo de pessoas (eu incluída) está trabalhando num projeto de resgate de uma feira de artesanato que há 12 anos não acontece. Estamos reunindo os artesãos da ilha, trabalhando com seus sonhos, suas visões de futuro, seus desejos. Bonito de ver. Além de valorizar a arte e os produtos locais com um viés de sustentabilidade (escolhido por nós), pretendemos que esta feira se transforme num espaço de encontro para a comunidade, onde todos possam se sentir em casa, acolhidos por um clima de entusiasmo, encantamento, inspiração. A feira tem acontecido e tem sido um sucesso, mas é claro: estamos encontrando diversas pedras no caminho. Faz parte. Bate aquele desânimo, vontade de desistir, me pergunto porque eu sempre me meto nessas pra me matar de trabalhar... me desgasto... e no final, sobra o quê?!

Há algumas semanas, decidimos dar uma pausa no evento para avaliar o processo, melhorar de fato o que precisa ser melhorado e resolver algumas questões pontuais dentro do grupo organizador. Noutra noite, caminhando solta pela brisa, passei em frente à praça onde a feira ocorre. A praça não sofreu nenhuma interferência estrutural significativa: apenas uma grande luz verde foi instalada no topo de um coqueiro. Bastou isso. O que pude ver? A mesma praça iluminada por uma lâmpada verde?? Não. O que eu vi foi meu sonho se tornando realidade, ali, aos poucos, muito sutilmente. Crianças brincando de pega-pega, jovens senhoras conversando e rindo da vida, pessoas caminhando e curtindo o barato de ter uma luz verde iluminando a praça que antes servia de estacionamento. Essa cena boba e corriqueira me fez sorrir e pensar que as coisas são muito mais simples do que imaginamos. E que tudo parece pequeno quando já passou. Então, em resposta à minha pergunta: resta o sonho. E isso não é pouco não.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

germinar

cada um vira um pouco o outro na arte de se encontrar, se entender, se reconhecer. Na dúvida, no experimento, na ousadia, nos movimentos de libertação, na explosão. Cria=se uma identidade na intersecção de sonhos, valores, algo maior que quer nascer e não sabe o que é. Na verdade falamos todos sobre a mesma coisa: amor. 'Não excluir' é a máxima. No nível sutil: ver o invisível, ouvir o inaudível e sentir o que nunca antes foi sentido. Emoção genuina.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

fantástica fábrica de fantasias

são paulo. insalubre. insana. insaciáveis os que a habitam. teatro, boate, cinema, qualquer prazer não satisfaz. me desencontro nessas ruas de incongruências, nessa espontaneidade tão fria e suja, paradoxalmente tão acolhedora e repleta de possibilidades.

me encontro nessas esquinas de loucura.

me inspira andar sobre suas veias, uma quantidade de sangue jorra, dando vida ao que por vezes está quase morto.

sob o vão do masp, muitas cenas felizes: o translúcido nos olhos de curiosos, passantes, mendigos, crianças, todos vidrados no filme de john ford. juntos compartilhando fantasias.

no caminho de volta, já sinto saudades do que não quero mais que me causes.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

sobre o Amor

Desde ontem tô emocionada. Uma sensação de bem-estar me tomou repentinamente, insistindo em conviver com aquela melancolia habitual, o que, ao invés de me entristecer, está me emocionando.
Só pode ser o Amor.
No começo da aula de ontem, a Tita, inspiradíssima em mais um de seus downloads divinos, falou palavras lindas sobre o Amor. Palavras que me fizeram chorar. E como nunca antes, a certeza tão certa de que é muito mais; de que esse que conhecemos, esse Amor condicional que nos ensinaram a sentir... não é nada disso!
Amor é incondicional. E só quem sente ou já sentiu, vai entender do que estou falando. Eu falo de um Amor imensurável por todas as coisas deste mundo, mesmo as que parecem ser ruins. Com esse tipo de Amor é possível ao menos compreendê-las. Eu falo de um Amor que é superação, liberdade, predisposição.
Então, o claro entendimento: até hoje, muito do Amor que eu senti não era ESSE Amor! Daí a incompreensão, a mágoa, os medos.
E isso não tem nada a ver com Amor...

Hoje o dia foi muito legal.
Estou me sentindo livre.

terça-feira, 22 de junho de 2010

sorria!

Com frequência eu me lembro da voz da Didi, suave, falando pra gente manter um semblante sereno durante a meditação - quase esboçando um sorriso leve para suavizar a expressão. Sempre que essa orientação sopra no meu ouvido, onde quer que eu esteja, procuro segui-la, e percebo como isso causa uma mudança imediata no meu estado de espírito. Hoje de manhã, vindo para o trabalho, olhei para as caras das pessoas no ônibus, todas amarradas, sisudas. Mas havia um jovem senhor, de aparência muito simples, cuja face inteira sorria: os olhos, a tez, os lábios, as sobracelhas, todos os ossinhos do seu rosto pareciam estar em formato-sorriso. Então nossos olhares se cruzaram e por impulso eu também sorri, na tentativa de espalhar por aí um pouco da leveza que há de nos livrar deste torpor cinza.

terça-feira, 1 de junho de 2010

cutucando

Apesar de toda poesia, de tanta música, apesar de olhos inundados pelos brilhos da noite molhada. Apesar dos encontros fortuitos, do bom teatro, dos emails agradáveis, apesar das fotos antigas revisitadas, das respirações profundas. Apesar de ter finalmente conseguido começar a ler a biografia da Clarice. Apesar de tanto Noel Rosa. Apesar de tanto, apesar de tudo, un buco profondo.
Minha inspiração foge quando você não está por perto.

vazio agudo
ando meio
cheio de tudo.
{Leminski}