Mostrando postagens com marcador paciência. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador paciência. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 12 de março de 2020

auto-alta

Hoje me dei alta da terapia. Eu mesma.
Nunca tinha feito isso e me senti muito corajosa.

To num desassossego. A gata inquieta anda, mia, come, se estica, pula pela janela, se roça na minha canela. Espelha meu estado de espirito. Não consigo dormir. Comecei a ler sobre o tal do vírus. Humanidade doente (literalmente, agora). Penso como conseguimos chegar nisso: odiar a vida a ponto de querer aniquilar a sua própria. Bicho homem. Tão apartado de tudo, como desaprendeu tão rápido?

Aquela chuva toda de semanas atrás lavou muita coisa aqui dentro.
Árvores caíram.
Desprenderam suas raízes para dar espaço a novas sementes.

Aquele curso - na sequencia da chuva toda - encontrou uma placenta.
Absolutamente fértil.
Attraversiamo?


domingo, 8 de julho de 2018

carta pro filho 4

Estou sendo engolida pela vida e você está crescendo rápido demais. Deixo escapar nas entrelinhas dos dias as frases mágicas que você solta - aquelas bem engraçadas que a gente devia anotar pra rir até 2050... Você fala sem parar. Conta histórias vividas e histórias fantásticas. É uma criança imaginativa, brilhante, solar e comunicativa. E precisa de ouvidos atentos. Busco estar presente, apesar dos deslizes. Uma coisa que não vou dizer jamais é que não aproveitamos juntos a sua infância: quando não estou trabalhando, eu sou quase toda pra você. Não só o tempo e a rotina me engolem, mas sobretudo minha exigência. Em ser a melhor mãe (a maior cagada, eu sei, mas não consigo fazer diferente neste momento). Nesse esforço insano, nessa insistência de querer dar conta de tudo, acaba brotando também o pior de mim. Eu brinco que você deve pensar que eu sou bipolar, ou algo do tipo. Mas não sou, filho. Sou demasiadamente humana, só isso. Te encho de beijos e carinhos e depois quebro o pau. Eu queria que isso fosse mais equilibrado, mas é uma tarefa quase impossível para mim. Então, enquanto busco dentro de mim a paciência nossa de cada dia, observo como somos parecidos para tentar pacificar minha culpa.

Você é superlativo, como eu. Nada é morno pra você. Ou é quente, ou é gelado, ou é maravilhoso, ou tá muito ruim. Queria te dizer que enxergar tons de cinza pode ajudar às vezes, mas não vai adiantar. Você vai aprender isso com a vida (ou não). Você é irado e não leva desaforo pra casa. Você é musical e ama tudo que se relaciona ao ritmo. Você nada em águas profundas, como eu. Você é ligeiro e não perde um detalhe. Está sempre observando com o canto do olho. Tem a percepção aguçada de um aprendiz. Você é por demais sensível - não aquela sensibilidade de quem se machuca e chora. Você sente o clima e transforma em palavras o que não é dito. Você é meio bruxo, filho, e como eu, uma alma velha. Percebo a pureza do seu coração e que os caminhos que estou trilhando com você estão te ajudando a se tornar um homem bom. O que mais eu posso querer da vida?

Eu sinto muito, me perdoe, eu te amo, eu sou muito grata.

  

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

carta pro filho 3

Ontem desenhamos desejos para este novo ano. Eu fiz uma casa na praia com gramado, coqueiro e rede de balançar. Você me ajudou a colorir e depois desenhou um sol. Mas o que ontem era uma garatuja, do dia pra noite se transformou num sol com raios. A surpresa de ver brotar daquele papel formas mais conhecidas por mim, me fez brilhar os olhos, como um passo antes da escrita.

Nestes dias de férias, em que a intensidade da convivência não é pouca bobagem, testemunhar suas conquistas tem me feito chorar. A cada pedalada na sua bici nova, você abre um sorriso de satisfação que nunca vi em nenhum outro rosto. É um milagre. E quando você cai, meu coração vem até a garganta, mas você se levanta, limpa a mão na camiseta e sorri. Você é tão corajoso, curioso e valente, filho. Admiro muito isso em você. Observo sua sede de autonomia, seu ânimo de viver, sua doçura bruta, sua desobediência civil: você é a criança que eu gostaria de ter sido. Você brilha.

Quero me contaminar pelo seu riso frouxo. E ouvir atentamente seus ensinamentos com o coração aberto: "Cada um tem seu jeito de fazer as coisas, mamãe" ou "Você precisa aceitar o nonno como ele é", ou ainda "Mangia che ti fa bene!". 
  
Nesta insana proximidade, agradeço a oportunidade de nos reconectarmos - como fizemos nas férias de julho. Agradeço por perceber como sou boba quando perco a paciência por besteiras, como repito contigo os mesmos erros que cometeram comigo. Preciso calibrar minhas emoções pra dar conta de tantos aprendizados. Gratidão por ter me escolhido para te maternar, meu pequeno-grande Mestre. 


sexta-feira, 30 de novembro de 2012

o amor que a vida traz

Você gostaria de ter um amor que fosse estável, divertido e fácil. O objeto desse amor nem precisaria ser muito bonito, nem rico. Uma pessoa bacana, que te adorasse e fosse parceira já estaria mais do que bom. Você quer um amor assim. É pedir muito? Ora, você está sendo até modesto.

O problema é que todos imaginam um amor a seu modo, um amor cheio de pré-requisitos. Ao analisar o currículo do candidato, alguns itens de fábrica não podem faltar. O seu amor tem que gostar um pouco de cinema, nem que seja pra assistir em casa, no DVD. E seria bom que gostasse dos seus amigos. E precisa ter um emprego seguro. Bom humor, sim, bom humor não pode faltar. Não é querer demais, é? Ninguém está pedindo um piloto de Fórmula 1 ou uma capa da Playboy. Basta um amor desses fabricados em série, não pode ser tão impossível.

Aí a vida bate à sua porta e entrega um amor que não tem nada a ver com o que você queria. Será que se enganou de endereço? Não. Está tudo certinho, confira o protocolo. Esse é o amor que lhe cabe. É seu. Se não gostar, pode colocar no lixo, pode passar adiante, faça o que quiser. A entrega está feita, assine aqui, adeus.

E agora está você aí, com esse amor que não estava nos planos. Um amor que não é a sua cara, que não lembra em nada o amor solicitado. E, por isso mesmo, um amor que deixa você em pânico e em êxtase. Tudo diferente do que você um dia supôs, um amor que te perturba e te exige, que não aceita as regras que você estipulou. Um amor que a cada manhã faz você pensar que de hoje não passa, mas a noite chega e esse amor perdura, um amor movido por discussões que você não esperava enfrentar e por beijos para os quais nem imaginava ter tanto fôlego. Um amor errado como aqueles que dizem que devemos aproveitar enquanto não encontramos o certo, e o certo era aquele outro que você havia encomendado, mas a vida, que é péssima em atender pedidos, lhe trouxe esse e conforme-se, saboreie esse presente, esse suspense, esse nonsense, esse amor que você desconfia que nem lhe pertence. Aquele amor em formato de coração, amor com licor, amor de caixinha, não apareceu. Olhe pra você vivendo esse amor a granel, esse amor escarcéu, não era bem isso que você desejava, mas é o amor que lhe foi destinado, o amor que começou por telefone, o amor que começou pela internet, que esbarrou em você no elevador, o amor que era pra não vingar e virou compromisso, olha você tendo que explicar o que não se explica, você nunca havia se dado conta de que amor não se pede, não se especifica, não se experimenta em loja – ah, este me serviu direitinho!

Aquele amor discretinho por você tão sonhado vai parar na porta de alguém para o qual um amor discretinho costuma ser desprezado, repare em como a vida é astuciosa. Assim são as entregas de amor, todas como se viessem num caminhão da sorte, uma promoção de domingo, um prêmio buzinando lá fora, mesmo você nunca tendo apostado. Aquele amor que você encomendou não veio, parabéns! Aproveite o que lhe foi entregue por sorteio.

[Martha Medeiros]

sábado, 14 de julho de 2012

nice 'n' easy

Estamos a caminho do nada. Não adianta contemporizar, adiar, fingir. É preciso de uma boa dose de coragem para admitir certas coisas, e de alguma praticidade para seguir em frente. Coragem me sobra, praticidade me falta. É que eu preciso traçar algum objetivo, começar um livro novo, começar a escrever outro livro, comprar uma casa - ou um all star - para me sentir segura do próximo passo. Preciso cuidar de mim pessoalmente, seguir um pouco os conselhos que dou pros outros. Cuidar do meu coração.
Estamos a caminho do nada,  mas você não percebeu. Eu estou pretensiosa, ambiciosa, voluntariosa. Dei um nó em mim mesma e não consigo desatar. Você é um laço de setim: esvoaçante por aí, sem amarras. Eu não queria deixar de te amar, mas é meu dever te alertar que andar a caminho do nada não me faz te querer bem. Já jurei muitas vezes não mais colocar pontos, apenas vírgulas. Mas não consigo viver com este desconforto por tempo nenhum. Paciência é uma virtude que me falta. Então ponto. Estamos a caminho de um fim doloroso, porque todos os fins são mais ou menos dolorosos, mas eu não gostaria de ser protagonista desta vez. Eu não quero mais ser protagonista de fins, entende? E pra isso, não posso começar grandes coisas. Sim, parece contraditório à minha natureza, me privar da vida assim para não sofrer. Mas é uma escolha sensata, depois de tudo. Então me ajuda a fazer tudo isso ser fácil e leve, sem muitas delongas. Nice and easy, pra que o amor permaneça entre nós.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

o espelho

Se tem um objeto com quem eu tenho uma relação íntima, esse objeto é o espelho. Ele revela o que há de melhor e de pior e mim, todas as obviedades e superficialidades que habitam meu corpo. Nele me reconheço não só fisicamente - o que por si só já é fantástico - mas enxergo também as várias eus que me visitam. E não há satisfação mais plena do que, ao me olhar, perceber que já não está mais lá aquilo que abomino, que quero afastar. Mas sei também que isso custa: leva tempo e dá trabalho. Sei como mata aos poucos olhar-se todo dia, diversas vezes por dia, e continuar vendo refletida, correspondendo a cada gesto contido, aquela sua velha imagem que você busca renovar.
Paciência. É só o que eu te peço.