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quarta-feira, 23 de maio de 2012

chama-se viagem

Voce pisca os olhos e ja passou. Voce faz tantas coisas, vive experiencias inimaginaveis, conhece pessoas que mudam sua vida, e tudo nao passa de um lapso da sua breve existencia. Chama-se viagem. Eu lembro que, antes de partir, nos encontramos para um cafe numa padaria de uma esquina familiar. Como sempre, voce tirou com a minha cara: "Claro...esta viagem vai mudar a sua vida, voce vai voltar oooutra pessoa", disse com um sorrisinho ironico. Faltou entendimento de que eu mudo todo dia, sou mutante, buscadora, a impermanencia é o que me alimenta. Sou curiosa, atenta e observo cada detalhe, fotografo cores, recorto palavras. Eu sou assim. To ligada na V-I-D-A. Viajar me transforma, pode acreditar.
Lembro tambem que, no dia antes de partir, sempre quero desistir. Me da uma dor de barriga dos infernos, e a sensacao de que nao vai ter ninguem me esperando no aeroporto me enfraquece. Mas depois que eu entro no aviao, viro uma leoa. E na vespera da volta, nunca quero voltar. Sempre acho que poderia ficar uns dias a mais, ou simplesmente ficar.
Na outra noite, minha mae me perguntou por telefone:
"E ai, ja ta de saco cheio da India ou quer ficar mais??".
"De saco cheio da India eu to desde a primeira semana... mas... quero ficar!", respondi.
Vai entender... a India é assim.

Algumas observaçoes inusitadas/uteis/talvez interessantes, porque eu gosto de fazer listas (sempre):
  • Pra que outro sapato?! Tudo o que voce precisa chama-se "HAVAIANAS"! Leve, lavavel, nao da chule, confortavel, é brasileira, barata e ta no pé do mundo inteiro.
  • REALMENTE nao use roupas justas, bermudas, camisetas sem mangas, shorts e saias curtas nem pensar. Isso muda a qualidade da sua relaçao com as pessoas, especialmente se voce for mulher.
  • As vaquinhas soltas nas ruas sao uma gracinha e sagradas pros hindus, mas nao pra voce. Nao se meta a besta com elas, principalmente se forem touros, eles tem chifres.
  • Em 5 minutos, o preço de qualquer item - desde uma corrida de rickshaw ate uma encharpe de seda - pode cair de 2000 pra 10. Sorte de quem sabe barganhar. Nao é o meu caso...
  • Nao pergunte muitos porques. As coisas sao como sao, nosso conceito de "razao" nao se aplica por aqui.
  • A Lei Universal da Fisica de que dois corpos nao ocupam o mesmo lugar no mesmo tempo tambem nao se aplica. Na India, muitos corpos podem ocupar um lugar onde mal caberia um, no mesmo tempo - e por muito tempo!
  • Quando voce acha que todas as bizarrices ja aconteceram, pode se preparar que vem mais por ai.

India. Nunca mais ou até ja. Para sempre.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

noites do deserto - parte 1

Olha, descobri que sem marido eu nao fico! Em 8 dias de India, coleciono pretendentes. Este ultimo, um partidao, dono do hotel onde estou hospedada, hoje no cafe da manha me disse que meu pai poderia ficar com todos os seus camelos (dez, ao todo), se eu me casasse com ele - pega essa pai!!! Quem sabe nao eh a salvacao financeira da familia???? :)
Sei nao, viu?! To muito confusa com tantas referencias diferentes. Nem mesmo em Angola senti tantos choques culturais, tanta disparidade entre os generos, entre os habitos... realmente isso aqui eh outro mundo, a Marina estava certa quando disse que neste lugar voce entra em contato com partes suas intocadas.
Entao, meu partidao (o nome dele eh Ashok) me convidou para jantar na casa de sua familia, num vilarejo de mil habitantes a 40 km de Jaisalmer. Ok, vou contextualizar: estou numa cidade medieval no meio do deserto do Rajastao, fronteira com o Paquistao. O Forte, tipico nas cidades desta regiao, eh uma das principais atracoes turisticas e a vida gira em torno dele. No caso de Jaisalmer, ha uma particularidade: o Forte, que data de 1156 d. C., eh habitado. Muitas familias vivem dentro dele (inclusive meu hotel esta aqui dentro), em pequenas casas construidas com pedras encaixadas, sem cimento ou reboco. Pedras que sao tipicas desta localidade, cor de areia, cor de mel, cor de ouro. Aqui o tempo cessou, o relogio atrasou e vive-se a vida seca do deserto. Ja houve um tempo em que muitos anos se passaram sem que sequer uma gota de agua caisse sobre Jaisalmer. Hoje, as mudancas climaticas trazem chuvas anuais na epoca das moncoes (a partir de julho), mas dois dias depois de iniciadas as chuvas, este povo reza aos deuses para que cessem de enviar agua dos ceus... Surreal...! Eh nesta secura toda que me encontro.
...E voltando ao jantar na aldeia de Ashok, foi uma experiencia sobre a qual eu deveria me debrucar e escrever nos minimos detalhes. Foi um teletransporte a nao sei qual seculo, nao sei qual tempo perdido. Cozinharam, conversaram e comemos. Em silencio. As mulheres separadas dos homens, servindo-os como deuses no olimpo. E eu, por ser convidada, tambem comi separadamente, observando cada detalhe, a maneira como tudo era preparado, servido, ingerido, lavado... E o que eu puder escrever ou contar, sera pouco perto da riqueza ritualistica daquele simples jantar.
Voltando para o hotel, o vento da noite refrescava meu corpo. Senti, como aqueles dias na Huila, que esta eh uma experiencia que eu jamais vou esquecer.

P.S.: Obviamente, apos me pedir em casamento, Ashok esclareceu: "Bem, agora voce ja conhece minha familia, viu que sou um homem de bem e que nao sou casado... Pense bem na minha poposta!".
Eu so dou risada.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

indigo

Cara, nao da pra escrever sobre tudo... nem que eu quisesse, eu conseguiria. Porque cada acontecimento, cada pausa, cada encontro eh uma historia de varios capitulos!! Eh geralmente assim em viagens, mas garanto que aqui eh imbativel.
Eu sei que depois de almocar na casa da Bharti com toda a familia dela (so este almoco mereceria um capitulo a parte), e ouvir historias de vida de uma moca rebelde de uma familia tradicional indiana (outro capitulo), eu peguei um trem para Jodhpur. Trem este que quase perdi, pois percebi que estava sem agua e nao ia ser legal encarar uma viagem de 6h sem agua potavel. Entao tive a brilhante ideia de descer rapidinho do trem, que comecou a se mover enquanto eu recebia o troco pela garrafa de agua que tinha acabado de comprar. Obviamente, o troco ficou no balcao, ou caiu no chao, ou sei la, ja que eu sai correndo pra pular no trem ja em movimento. Mais legal do que encarar 6h de viagem sem agua, seria o trem partir com a minha mochila la dentro, ne?? Putz, quase tive um treco, mas deu certo. Onus de viajar sozinha...
As 6h de viagem transcorreram tranquilas, comunicacao super fluindo com uma simpatica familia que nao falava sequer uma palavra de ingles... mas a gente se entendeu (na proxima encarnacao, ja combinei que vou voltar para aprender, no minimo, 10 idiomas - incluindo hindi). Sorte que no compartimento tambem estava um senhor que falava um pouco de ingles e, as vezes, traduzia coisas de suma importancia, por exemplo quando a senhora (mais velha) fez as duas perguntas classicas: 1."voce esta viajando sozinha?", 2."Voce nao eh casada???". Caraca, eu nao sou casada!!! Mas, desta vez, eu resolvi dizer que era, e que meu marido teve que desistir da viagem de ultima hora por motivos de trabalho. "ahhhh!", ufa! Todos fizeram uma cara de alivio por eu ser casada! Ate eu fiquei mais confiante, ehehehe... mentirinha inofensiva que amainou o choque cultural.
Enfim, 6h depois: Jodhpur, a cidade azul. A cidade dos tecidos e das especiarias - Carol, voce ia se deliciar aqui com tantos pozinhos e sementinhas magicas pra colocar na comida!!!!! Peguei um rickshaw ate o Haveli que escolhi no LP. To ficando esperta nesse negocio de motorista de rickshaw: eles pedem 100, no fim voce paga 60 e tem que ficar o caminho inteiro repetindo pra onde voce quer ir, senao eles te levam pra outro canto.
Cheguei na guest house quase onze da noite. Uma graca de lugar, toda colorida, decorada com flores e moveis antigos, cheirando a incenso e com lustres de mosaico. Feliz pela escolha acertada, dou de cara com o dono, que estava na recepcao todo descabelado, cambaleante, com calcas molhadas, tipo quase que completamente bebado.
OK. Saio correndo ou dou risada???
Comecei a dar muita risada. Ele mandou trazer uma Heineken pra mim "on the house" - ele disse, "por conta da casa". Bonus de viajar sozinha! Falamos do Brasil, sobre o fato dele estar bebado, a esposa dele apareceu (sobria) e ele nos apresentou. Ela sorriu pra mim e se foi. Ai ele disse: "Desculpe, nao vou poder te acompanhar ate o quarto, porque ontem cai da escada e tou todo fodido! Pois eh... eu desobedeci meu guru, ele mandou eu parar de beber, mas eu bebi, entao cai. Eh pra eu aprender...", concluiu com uma cara de bebado arrependido. Subi para o quarto e abri a cortina; a vista era incrivel!!!! Apesar da escuridao, eu podia ver que o Haveli ficava exatamente embaixo do Forte de Mehrangarh, o principal momumento da cidade. Incrivel, sensacional, o negocio parecia uma pintura bem em cima da minha cabeca!! Fui ate a laje, a lua brilhava linda sobre as casinhas da cidade indigo e iluminava o Forte, imponente como um gigante.
Cenario alucinante que mereceu mais uma Heineken. Cheers!

sábado, 7 de abril de 2012

casamento indiano

Diariamente, os deuses indianos têm enviado pessoas especiais para iluminar meu caminho. Meu anjo de hoje foi Jatin, um moço bonito do deserto. Ele tem 27 anos, webdesigner, praticamente um playboy em jaipur, essa cidade "do interior", capital do estado do rajastão, com 4 milhões de habitantes. Jatin é sério, fechado, trabalhador. Ele pertence a uma alta casta, tem um carro bacana e, apesar de um pouco mal humorado, é bem gente boa. Um gentleman. Mas ele tem um problema: todos os seus amigos estao se casando - não, não só as minhas amigas que estão casando, tá?! "Aqui na índia, um homem de 27 anos precisa se casar, ou estar num relacionamento estável, o que não é o meu caso", disse ele enquanto me levava pra cidade rosa. "E daí?", perguntei eu ingenuamente. "E daí que meus pais já estão fazendo alguns movimentos para arranjar meu casamento. Sabe, as pessoas começam a perguntar se há algo errado, é constrangedor...". "E você vai aceitar isso?! Vai aceitar se casar com uma mulher que nem conhece e por quem nao tem nenhum sentimento??". "Eu nao tenho outra escolha", respondeu ele firme e convicto. "e depois que você começa a viver com uma mulher, você começa a gostar dela..." , essa frase saiu num tom mais resignado. Por alguns segundos, fiquei em estado de choque. Eu sabia de casamentos arranjados. Em angola já havia entrado em contato com essa realidade mais de perto, mas ontem mesmo durante o jantar conversava com uma conhecida indiana sobre isso e ela comemorava o fato das pessoas estarem se tornando um pouco mais esclarecidas e começavam a evitar esse tipo de absurdo. Então eu não entendi muito bem como o Jatin, bem apessoado, esclarecido, viajado, pudesse se submeter a esse tipo de costume. Passado o choque, pensei em reagir. Pensei, rapidamente, em pegar suas mãos tão belas, aperta-las com força, olhar bem no fundo dos seus olhos negros e pedir que ele se libertasse e buscasse seu amor. Pensei em suplicar com todo o meu amor, que diariamente distribuo por ai, que ele buscasse sua felicidade. Mas não fiz nada disso. Respirei fundo apenas e no fundo do meu coração aceitei o seu tipo de feicidade. "Espero que sua futura esposa seja uma boa mulher e que vocês se gostem muito quando se conhecerem", foi o que eu disse. Percebi, num instante, que uma coisa tão normal, quase banal pra nós, é na verdade um tesouro. Às vezes a gente se esquece do valor da liberdade.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Dorothy Lamour

A cidade me engole, pareço viver três dias em um. Encontro pessoas de universos diferentes em um curtíssimo espaço de tempo, faço milhares de coisas, preencho meus sentidos com tudo o que chega. Antropofagia pura. Os dias têm sido frenéticos, é preciso me manter aquecida desse frio medonho. Eu sei me entreter, não posso negar, às vezes passo da medida. Hoje, por exemplo, meu dia durou 18 horas - e foi dividido em muitas partes legais. Uma delas foi assistir "moi, un noir" do Jean Rouche com a Ju e com o Tato. Sensacional! O cara é um gênio, o filme é simplismente uma piração, desde a concepção, até a linguagem e a edição. Uma abordagem extremamente política sem ser maçante, muito pelo contrário, utilizando bom humor e leveza. Roteiro primoroso.
A única coisa que eu realmente mudaria é a decisão final da Dorothy Lamour. Grande sacanagem, porque o Constantine realmente gostava dela. Mas como o filme imita a vida, tá tudo certo: as pessoas que se gostam também tomam decisões equivocadas.

sábado, 24 de abril de 2010

lindo, conciso e preciso

"Our culture embodies the sense we make of our lives; it is built on the values we share and the ways we come to terms with our differences; it deals with what matters to people and communities: relationships, memories, experiences, identities, backgrounds, hopes and dreams in all their diversity. And most of all, our culture expresses our visions of the future: what it is we want to pass on to future generations. Our culture connects our present with our pasts and with the future we imagine. It is with culture that we make the connections, the networks of meanings and values, and of friendship and interest, that hold us together in time, in place and in society. Our culture describes the ways we tell each other our stories, how we create our sense of ourselves, how we remember who we are, how we imagine who we want to become, how we relax, how we celebrate, how we argue, how we bring up our children, the spaces we make for ourselves. Our culture is the expression of our desires to be happy, our desires to belong, our desires to survive and, above all, our desires to be creative".
Jon Hawkes - 2003

domingo, 14 de junho de 2009

voltando pra casa

Essa semana foi uma grande abstração na minha vida. Participei do 23 Congresso internacional do ISPA (International Society for the Performing Arts), evento que reuniu mais de 300 gestores culturais, artistas e produtroes de 23 países aqui em São Paulo. Conheci muita gente bacana, passei por experiências únicas, fiz contatos que serão uteis para o meu trabalho, outros certamente essenciais para a vida. A festa de encerramento foi na Sala São Paulo. Chiquérrima e super bem cuidada, como foi todo o congresso, que ocorreu em diversos locais, desde o Museu de Arte de São Paulo, passando pelo Parque da Água Branca, até o CEU Alvarenga, zona sul da cidade. Comi e bebi maravilhosamente bem, estive ao lado da Fernanda Montenegro, jantei com Benson Puah, dancei até a perna pedir arrego, dei muita risada.
...
E o que causa em mim (quase sempre) o desconforto repentino?

Encontrei com a Andreia Dias, da Banda Glória, enquanto ambas atacávamos a mesa de doces: - Andreia, oi. Queria te dizer que você - quando ainda tinha cabelos compridos - fazia minhas noites felizes no União Fraterna. Você canta que é uma delícia!
Ela sorriu amarelo, colocando na boca um bocado de morango com suspiros. Suspirou.
Eu perguntei: - Você tá feliz? (que ideia, perguntar isso bêbada às 2h00 da manhã pra uma cantora...)
- Mais ou menos... - respondeu ela. - É engraçado, agora que a banda tá bem, minha carreira solo está em destaque, entra muito pouca grana. Isso dá um bode...
Seguimos conversando. Confessei que, naquelas noites de 2005, enquanto ela cantava sacolejando seu vestido vermelho, sua música embalava minha dança apaixonada com um homem muito importante na minha vida.
- Que bom! (sorriso menos amarelo). Vocês ainda estão juntos?
- Não... mas ele foi um grande amor.
- ah, então, é isso que importa!

Depois disso, ela voltou ao palco, eu à pista, mas tudo ficou meio sem sentido. Passei a semana discutindo como viabilizar e fazer circular bens culturais, em como facilitar seu acesso à população, formar platéias, e a cantora afirma que simplesmente não consegue tirar seu ganha pão do seu ofício.
Fui para o canto da pista de dança e fiquei observando, pela vidraça, a Estação Julio Prestes. Duas moças arrastavam seus rodos limpando o chão e os trens parados na plataforma. Dois seguranças se encolhiam dentro de seus casacos, buscando se proteger do frio. Eu, do lado de dentro, ensaiava uns passos de samba e os convidei pra dançar com um sorriso. Eles retribuiram, mas não se moveram. E de repente uma incrível melancolia me invadiu. Olhei pra aquela cena e percebi que nada mudou. Há séculos, há quem dança do lado de cá do vidro e quem, lá fora, nunca entrará na dança. Há séculos que ninguém olha pra isso e nem quer olhar. Há séculos continuamos perpetuando essa lógica. Até quando, meu Deus?!

Hoje [voltando pra casa] desejei ardentemente ser uma daquelas mocinhas que se confessam e guardam dentro de si um pouco de serenidade.
Simone de Beauvoir

quarta-feira, 10 de junho de 2009

fervilhando

Passei as últimas 48 horas (quase literalmente) respirando cultura Falando sobre cultura, comendo leis de incentivo, debatendo o papel das artes, ouvindo boas práticas internacionais. Fui ao banheiro com conceitos de cidadania, tomei cafezinho com as políticas públicas, pelejei com a diversidade. Até com a dona Liberdade veio me procurar para trocarmos cartões.
As últimas 48 horas também passei refletindo. As últimas cinco, vivenciando no meu corpo os prazeres da arte, alimentando a minha alma. Estou confusa, agitada. Se num momento me animo, no outro me desestimulo. Se num momento acredito, no momento seguinte acho que tá tudo errado, uma zona mesmo.

Mas vamolá, fazêoquê? Tâmo aquí, né?! O negócio é se molhá!

Como sempre os aprendizados são grandes e me deixam inquieta, pensando nas milhares de possibilidades que o mundo nos oferece, nas milhares de pessoas interessantes que cruzam o nosso caminho. São aprendizados humanos que transcendem a prática e a burocracia de leis falhas e de um Estado incipiente.
Fica cada vez mais forte a certeza de que a cidadania somos nós quem construímos, individualmente, para aplicar na coletividade. Fica a compreesão de que muito avançamos em processos democráticos, em construções de políticas públicas, mas que ainda estamos engatinhando - sim, há ainda um tanto por fazer que dá aquela angustia de não saber nem por onde começar! Fica também cada vez mais forte a impressão de que o individualismo está ruindo, assim como valores excusos do império norte-americano que cultiva o deus capitalismo. Apesar de muitos ainda relutarem, as ações pautadas por esses valores começam a não ter mais espaço neste mundo, onde as redes sociais imperam soberanas. Um mundo coletivo, diverso em sua essência, um mundo em que as conexões são inevitáveis e incontroláveis, e os propósitos reconhecíveis. Um novo contexto onde há que aprender a lidar com a liberdade de ser, de estar, de escolher, de se espressar... a grande maioria de nós não sabe lidar com nada disso - brama por liberdade, mas não sabe nem mesmo administrar a que já tem.
Puxa, estou tão lotada de sentimentos. Transbordando.
Fica, sem dúvida, a certeza de que as coisas têm o seu tempo de acontecer. E elas já estão acontecendo. A Cultura, em seu sentido amplo, é como o ar: nunca pode faltar, senão deixamos de existir.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

exercício experimental da liberdade

Fiquei um pouco raivosa com esse congresso. Incomodada naquele ambiente, porque jornalista baba ovo o tempo inteiro e se acha o rei das cocadas de todas as cores (depois dizem que artista é que tem ego desmesurado...). E quando alguém diz uma coisa que vem do coração, vira piegas. Legal é reclamar das horas trabalhadas a mais e do parco salário recebido em troca. Ir pro Filial depois do fechamento, pedir um chopp pro Ailton e ficar reclamando do fechamento, esbanjando cansaço, exibindo olheiras. Adorei quando o Danilo Miranda disse pra todo mundo ouvir: "vocês me desculpem, mas tá cheio de colega de vocês por aí fazendo gênero...". Em grande medida, esse comportamento, essa persona fake que você vai assumindo à medida que entra nesse rol, foram os responsáveis pela minha escolha em me afastar do jornalismo. Não foi escolha fácil, mas pensada. Como em qualquer outra profissão, tem muito pouca gente que acredita no que fala - e que pratica o que fala. Mas nessa profissão não dá pra aguentar essa discrepância. Não dá pra você dizer uma coisa e escrever outra, não dá pra você dar a tua cara pra bater por coisas em que você não acredita.
Bom, pra mim não deu.
... mas tem muita coisa boa também. E muita gente boa e competente, que se envolve, faz jornalismo com paixão genuína. E hoje, apesar de ter passado o dia com a cabeça estourando, os olhos ardendo febris, os pensamentos em qualquer lugar menos onde eles deveriam estar, pensei nisso.
Ouvi a Ana Maria Tavares dizer que a arte é o exercício experimental da liberdade. Essa frase caiu como um colírio nos meus ouvidos. Sem perceber, acho que apliquei isso à minha vida, ao meu caminho profissional. Estou, a cada dia, exercitando experimentalmente a minha liberdade, fazendo o que eu amo. Leitora curiosa, executora de projetos, neo-chefe, cantora, dialogadora voraz, blogueira, estudante sedenta, criadora de ideias...
O mais legal dessa vida (MESMO) é que a gente pode ser o que quiser.
Inclusive jornalista.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

veja (bem):

O Carlos Graieb é um idiota.
___________________________

Posto o título, vamos ao lide:
O editor-executivo da revista Veja, Carlos Graieb, participou na tarde de ontem do I Congresso de Jornalismo Cultural, promovido pela Revista CULT no Tuca, Teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Graieb dividiu a mesa com seu colega de profissão, Marcos Flamínio, editor do caderno Mais!, e com os acadêmicos Olgária Matos e Vladimir Safatle, ambos professores de filosofia da USP.

O debate, mediado pelo editor da revista CULT, Eduardo Socha, propunha uma reflexão crítica sobre a pauta das ciências humanas na Universidade e na imprensa, a falta de diálogo existente e a inadequação entre a produção acadêmica e jornalística.

Graieb começou sua fala se defendendo (de quê?). Em um tom já bastante alterado, iniciou dizendo que a manipulação ideológica é um "mito" construído pela "esquerda" a respeito do jornalismo praticado pela grande imprensa, considerada por esta mesma "esquerda" como um grande "vilão" - perdoem, não foi essa a palavra usada pelo ilustre editor, mas eu fiquei tão chocada que esqueci de anotar (...).

"Vocês se esquecem de toda a parte de apuração das notícias. São FATOS apurados e verificados muitas vezes: se o ônibus que bateu no carro veio da esquerda ou da direita, se a história foi contada pela mãe do pai ou pela mãe da mãe do personagem... Parecem coisas irrelevantes, mas são detalhes importantes", disse.

Não há dúvida.

O editor-executivo da revista trouxe exemplos esdrúxulos cercados de discursos inconsistentes e arrogantes, buscando justificativas injustificáveis ao jornalismo indigno e sensacionalista praticado pela revista para a qual ele trabalha - que pertence à Editora Abril, como fez questão de esclarecer, caso a platéia, composta em sua maioria por jornalistas, não soubesse.

Fez querer parecer que a escolha de palavras, de enunciados, de pautas, de ângulos não traz embutidas implicações ideológicas e formação de opiniões. Fez querer parecer que tudo isso não passa de invenção de uma esquerda acadêmica fora de moda, que, segundo ele, não reconhece a capacidade crítica dos leitores e acredita que o público de 1 milhão de leitores da revista veja seja levado como gado ao celeiro. De fato, tudo não passa de uma teoria da conspiração às avessas. Mattelart, Deleuze, Bourdieu, Martín-Barbero, Morin, Benjamin (só para citar alguns) não têm nada a ver com isso.

O cara deve estar de brincadeira, pensei. Deve ser uma provocação... Mas por que foi afinal que não chamaram o João Gabriel Lima, já que se trata de jornalismo cultural, e botaram esse pulha aqui pra estragar essa mesa que poderia ser tão profícua? Se chamaram alguém da concorrência, podia ser da concorrência cultural, não?

Estava no meu limite, o sangue subindo. Por diversas vezes, quase me levantei para ir embora. Mas calma, esta é a diversidade, certo? É preciso saber e aprender a conviver com ela... é o que prego todos os dias.

Entre outros absurdos, insurgências contra o governo sobre o caso Larry Rohter (que, depois, deu pra entender: foi só uma lavagem de roupa suja com o Vladimir Saflate, outro dos palestrantes, coisa feia...), Graieb só faltou xingar os blogueiros de vagabundos, quando afirmou que "não saem às ruas para verem os fatos de perto". Por certo vemos os fatos de longe, quem vê de perto são os repórteres da veja.

E por fim, quando terminou sua defesa de nenhuma acusação (pelo menos não naquele contexto), ele citou o Antônio Cândido (coitado!), idealizador do suplemento literário do Estadão, "criado por e para uma elite - os amigos do Mesquita”.

Boa mesmo é a seção de cultura da veja, né? Que traz informações apuradas... FATOS! É extensa e sobretudo abrangente. É diversificada, aberta, não está ligada ao jet set e convive nas páginas ao lado do adorável Diogo Mainardi. Puta que o pariu.

p.s: e não me venha falar em imparcialidade. Nunca acreditei nem pratiquei isso.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

vamos parar de inventar moda?

Vamos, antes de tudo, aprender o alfabeto. Depois a gramática, regras básicas de concordância, uso de pronomes, acentuação, pontuação... Em seguida, que tal ampliar o vocabulário? Ler o dicionário pode ser uma boa pedida. Ler. É preciso ler muito. Não adianta querer escrever sem saber o be-a-bá. Não adianta querer compor sem repertório, querer construir sem fundações.

Não adianta querer fazer porra nenhuma nessa vida sem sentar a bunda, estudar, ralar, trabalhar... Não adianta. Não me venha com essa história de sorte. Sorte é produto do pensamento, do sonho. Foi o Rodrigo Amarante que disse, numa entrevista genial da trip desse mês - recomendo. E vamos parar de inventar moda, tá? Sons pseudo progressistas sibilinos, linguagens herméticas, poesias ininteligíveis, metáforas reticentes, pensamentos impenetráveis... Que saco que virou essa modernidade! Chata mesmo!

Vamos começar do começo. Pelados, de onde viemos, que tal?
Simples, clássicos, bem feitos, propositais, propositivos.
Críticos sim, mas não critiqueiros.

Vai trabalhar, bicho, pra ver o trabalho que dá!

p.s.: trilha pra acompanhar: "Eu sou melhor que você" (moreno+2).