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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Em cartaz

Tão difícil reestrear no amor quanto na escrita. Tantos processos vividos nestes anos de poucas escritas e poucos amores: muita maternidade muito ralo muito choro. Preparação intensa dos alicerces para vir a ser o que agora sou. Tão inteira, depois de tantos tropeços. E essa mania cruel de olhar pro pouco que fiz, pro pouco que sou. E a mania de me boicotar. E a dificuldade de ouvir que sou foda. É muito difícil reestrear.

Mas hoje senti que o palco está pronto. Iluminado na medida certa. O microfone na altura certa. O som já passado e repassado mil vezes: tinindo.

Vejo alguém para dividir. o caminhar. o vinho. a viagem que é viver. o Chá. as risadas. as dores. as curas. Estou profundamente grata por te ver, finalmente. 




quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

carta pro filho 3

Ontem desenhamos desejos para este novo ano. Eu fiz uma casa na praia com gramado, coqueiro e rede de balançar. Você me ajudou a colorir e depois desenhou um sol. Mas o que ontem era uma garatuja, do dia pra noite se transformou num sol com raios. A surpresa de ver brotar daquele papel formas mais conhecidas por mim, me fez brilhar os olhos, como um passo antes da escrita.

Nestes dias de férias, em que a intensidade da convivência não é pouca bobagem, testemunhar suas conquistas tem me feito chorar. A cada pedalada na sua bici nova, você abre um sorriso de satisfação que nunca vi em nenhum outro rosto. É um milagre. E quando você cai, meu coração vem até a garganta, mas você se levanta, limpa a mão na camiseta e sorri. Você é tão corajoso, curioso e valente, filho. Admiro muito isso em você. Observo sua sede de autonomia, seu ânimo de viver, sua doçura bruta, sua desobediência civil: você é a criança que eu gostaria de ter sido. Você brilha.

Quero me contaminar pelo seu riso frouxo. E ouvir atentamente seus ensinamentos com o coração aberto: "Cada um tem seu jeito de fazer as coisas, mamãe" ou "Você precisa aceitar o nonno como ele é", ou ainda "Mangia che ti fa bene!". 
  
Nesta insana proximidade, agradeço a oportunidade de nos reconectarmos - como fizemos nas férias de julho. Agradeço por perceber como sou boba quando perco a paciência por besteiras, como repito contigo os mesmos erros que cometeram comigo. Preciso calibrar minhas emoções pra dar conta de tantos aprendizados. Gratidão por ter me escolhido para te maternar, meu pequeno-grande Mestre. 


segunda-feira, 2 de outubro de 2017

perdas e ganhos

Um tufão passou por aqui bagunçou um pouco a vida, mas deixou bons legados.

Ganhos
- Voltei a usar Phebo (como algum dia eu pude deixar de usar?!).
- Retomei a escrita afetiva.
- Comecei a sonhar de novo.
- Descobri que óleo de coco é bom pra tudo (mesmo).
- Me lembrei que qualquer coisa é possível.
- Percebi que há dores imensuráveis - e que as minhas são minúsculas.
- Me dei conta (sem me dar conta) que amor não é sexo e sexo não é amor.
- Reafirmei que os opostos não se atraem. Se distraem.
- Quebrei (mais) paradigmas.
- Superei alguns (poucos) preconceitos.
- Percebi que nem todo fim precisa ser dramático. 
- Descobri que quanto menos a gente procura, mais a gente acha.

Perdas
- Você.







segunda-feira, 14 de abril de 2014

relato de parto

Outro dia, minha mãe me perguntou quando eu havia optado pelo parto natural, quando essa escolha se tornou uma possibilidade para mim. Eu pensei por alguns instantes e a única coisa que eu consegui responder foi: “Não foi uma opção, sempre foi uma certeza!”.

Agora, enquanto ouço o set list de músicas que preparei para tocar durante o meu parto, me emociono ao lembrar de flashs daquele que, sem dúvida, foi o maior momento da minha vida até hoje. Já não consigo imaginar como seria viver sem ter passado pela experiência de trazer Antonio ao mundo como eu sonhei e como ele desejou.

E foi assim: na segunda-feira, 11 de novembro, me olhei no espelho antes de dormir e vi meu lábio superior muito inchado, parecia que eu tinha depilado o buço. Como este é um dos indícios da preparação do seu corpo para o parto, pensei: é amanhã! Acordei sentindo algumas contrações e liguei para minha doula, Thiana. Ela é de Jundiaí, mas estava em São Paulo, pois havia acompanhado um parto no dia anterior na cidade. Perguntei se ela poderia passar em casa para nos vermos, pois não tinha certeza se aquilo já era o início do meu trabalho ou se era um falso alarme. Só que ela, junto com minha parteira Camila, estavam a caminho de Jundiaí onde outra gestante já estava em trabalho de parto. Ops, pensei... e agora? E se não der tempo delas chegarem aqui? Ela se certificou de que minhas contrações ainda não estavam ritmadas, me tranquilizou, e disse que à noite ela e Camila estariam comigo. “Respira que vai dar tudo certo!”. E foi isso que eu fiz, comecei a respirar.

Decidi ir até o Parque do Ibirapuera com minha mãe. Levamos uma canga e ficamos deitadas à sombra de uma grande árvore conversando, rezando e aproveitando os raios de sol da manhã. As contrações ainda estavam bem espaçadas e fraquinhas, mas eu sabia que estava perto. Voltando para casa, preparamos o almoço e fui descansar um pouco. Durante todo o tempo, Thiana e Camila ficaram em contato comigo, trocando mensagens e monitorando meu estado. Eu estava de fato tranquila. À tarde, perto das 16h00, Thiana me ligou avisando que Valentina, filha da outra gestante, já havia nascido.

Confesso que fiquei aliviada. Eu ainda não estava em trabalho de parto de fato, mas as contrações já estavam um pouco mais doloridas. Minha mãe estava o tempo todo comigo. Pedi doce de leite, ela começou a fazer um panelão. Ainda havia algumas coisinhas pra pendurar no quarto de Antonio, então pedi a meu pai que pegasse o martelo, porque “de hoje não passa”. Foi nesse momento, por volta das 19h30, enquanto ele martelava a parede do nosso quarto, que senti uma pontada mais forte. E depois de oito minutos, outra. E depois de cinco, mais outra. A evolução foi bem rápida, ou não sei se fui eu que não percebi que as contrações estavam ficando mais frequentes, mas minha sensação foi que aconteceu de repente. Liguei para as meninas, elas estavam saindo de Jundiaí. Pedi pra acelerarem um pouco na estrada, pois o negócio estava apertando.

Decidi entrar na banheira para dar uma relaxada. Apaguei as luzes e acendi umas velinhas que já havíamos preparado. Minha mãe ao meu lado, começamos a rezar juntas. Eu respirava concentrada e quando a contração vinha, me ajoelhava na banheira e vocalizava um grande aaaaahhhhh, ou ooohhhhhh, soltando o ar junto. Foi instintivo. Até aí ainda estava tranquilo, pois as contrações estavam bem breves.

Depois de um tempo, decidi sair da banheira e comecei a preparar o ambiente no quarto dos meus pais, onde havia escolhido realizar o parto. Peguei meu tapetinho da yoga, estendi no chão, e coloquei por cima várias toalhas que já estavam separadas. Tentei encontrar a posição mais confortável para mim, sempre respirando e me concentrando muito. De quatro era o modo como me sentia melhor. Acho que já era perto das 21h00 quando eu realmente comecei a ficar um pouco aflita por estar sem o amparo das meninas, mas eu sabia que dentro de poucos minutos elas chegariam. De fato, dali a 20 ou 30 minutos Thiana e Camila chegaram. Eu já estava meio em alfa, as contrações já estavam bem dolorosas e nem sei mais de quanto em quanto tempo estavam vindo, mas sei que era pouco.

Logo Camila fez o toque e constatou que eu estava com 5 para 6 cm de dilatação. Já?, perguntei. Nossa, que rápido... uau, em apenas duas horas eu já tinha andado mais da metade do caminho. E sozinha! Fiquei confiante e feliz com a notícia. E assim prosseguimos. Elas me apresentaram outras posições que poderiam ajudar e juntas fomos construindo as próximas horas. O ambiente estava aconchegante na penumbra e havia muitas velas espalhadas por todo o quarto. Meus pais não saiam de perto de mim.

Inicialmente eu havia pedido para meu pai não participar do parto, pois ele se afligiria e me deixaria mais nervosa. Mas, para minha surpresa, foi ele quem ficou ao meu lado até o final, quase ininterruptamente, aplicando um passe de energia em silêncio. No final, foi minha mãe quem deu uma sumida - depois fiquei sabendo que ela ficou bastante nervosa em me ver com dor e não aguentou ficar próxima.

Não demorou muito, chegou também a Dani, assistente da parteira Camila, cuja presença foi essencial. Seu toque forte e carinhoso me massageou muito em vários momentos, e sua voz maravilhosa ajudou a embalar o parto com músicas lindas que cantamos juntas, além de tocar também alguns instrumentos para chamar Antonio para este mundo.

Acho que perto da meia noite, a bolsa rompeu e pude sentir aquela água viscosa e quentinha, que por nove meses havia guardado meu filho, escorrer por entre as minhas pernas. A esta altura, eu já estava com muita dor. Thiana me instruía a não resistir, a me entregar à dor, dizendo que ela não era mais forte do que eu, e que ia passar. Enquanto isso, eu falava palavras doces para meu filho, convidando-o a chegar e realizar a passagem. Lembro de ter falado pra ele que iria leva-lo para conhecer os golfinhos em Fernando de Noronha e que todos estavam muito felizes esperando por ele aqui fora. Durante todo o processo, o bebê era auscultado com frequência e eu podia ouvir seu coraçãozinho batendo a milhão, o que me tranquilizava bastante.

Já perto do início do expulsivo, voltei pra banheira quentinha. Isso ajudou muito a atenuar a dor das contrações. Neste momento, acho que por volta da 1h30 da manhã, eu já estava com 9 cm de dilatação, mas Antonio estava gostando de ficar lá dentro e não descia. Então, Camila pediu que eu saísse da banheira para ficarmos um pouco em pé rebolando, que auxiliaria na expulsão. Relutei porque estava muito melhor ficar na água, mas sabia que era necessário. Voltei então pro quarto e aí o bicho pegou.

Começou a doer muito, de forma quase insuportável. Mas o corpo é muito sábio e, depois de uma contração dolorosíssima, vinha outra mais leve para poder recobrar energias. E a tal da vontade de fazer força chegou. Camila me orientou a ficar de cócoras e disse que estava muito perto, Dani me sustentava por trás. Era muita dor, muita! De repente, o urro da leoa trouxe Antonio de uma vez, chegou chegando!
Não consegui chorar. Ele veio direto pro meu colo, fiquei olhando atônita, maravilhada. Exausta. Ele também não chorou. Era rosadinho e grandão. Meus pais se chegaram e eu senti o amor da família com toda sua potencia. Eu e Antonio só existíamos porque meus pais existiam.

Ficamos alguns instantes nos namorando, eu e meu pequeno. Logo depois, fui para a cama e na sequência a placenta dequitou inteirinha. O cordão foi cortado pela minha mãe assim que parou de pulsar, uns 15 minutos depois. Antonio nasceu com 3.700kg e 53 cm. Não tive laceração e minha recuperação foi espetacular, muito rápida. Mas o que mais me inspirou, o que me faz dizer hoje que passaria por tudo isso de novo, foi o respeito e o amor com que fui tratada. Estar na minha casa, junto
dos meus queridos, amparada por uma equipe amorosa e atenciosa, tendo liberdade para me mover, comer, gritar sem ser julgada, tudo isso não tem preço.

Meu parto domiciliar foi um ato de puro amor. Acredito que tenha sido a primeira vez na vida que me dispus a vivenciar todas as sensações de coração aberto, sem reclamar, sem julgar. E foi um exercício lindo de doação. Sou outra mulher, agora mãe.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

doce novembro

Filho, chegou seu mês. Parecia tão longe que eu achei que não ia chegar. Fiquei inventando um monte de coisas na minha cabeça de que você ia vir antes, que você não ia ser um novembrino... mas estava enganada! Você é um escorpiano mesmo, que em breve estará aqui pequenino nos meus braços. E eu fico imaginando como vai ser a primeira noite com você do lado de fora da minha barriga. Eu acho que vou acordar de supetão sentindo falta de uma parte do meu corpo. Aí vou olhar pro lado e vou te ver ali respirando curtinho do meu lado, puro milagre. Não vai ter mais ninguém com a gente, mas seremos tão grandes!
Sabe filho, eu ando pensando muito em quem eu sou e acho que sua chegada me faz querer ser melhor pra você. Não sei se estou conseguindo, mas estou tentando. E acho que junto com você eu vou conseguir. Tem tanta gente legal te esperando aqui, sabia? Muitas pessoas já te amam sem te conhecer. Você já está, aí de dentro, operando reencontros e transformações. Imagina então quando chegar, quanta luz vai trazer!!
Vem então, cumprir sua missão neste mundo lindo.
Estamos te esperando, minha estrelinha brilhante.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

dos finais

[porque os meus têm que ser sempre apoteóticos, senão não são finais dignos]

Suely Carvalho me falou de finais não-tradicionais, não precisa ser aquela quebra, corte seco para a próxima cena. Ela falou de possibilidades transitórias, menos impactantes, daquelas que dão tempo de digerir, interiorizar, reafinar o instrumento. Isso me tocou. Gostaria de provar desta calma, mas percebo que todos os meus finais são abruptos, apesar dos meus esforços em fazer diferente. Será possível torná-los suaves e dar-se conta, com serenidade, que é preciso deixar ir (let go)?

Mas nem tudo está perdido, já que na minha crença todo final é um recomeço!

Tô com a alma suspensa: muitos finais ao mesmo tempo para recomeços definitivos. Porque ter um filho é muito definitivo: é materialização pura, é concretizar sua passagem por este planeta.

Eis o que se passa:
final 1: adeus individualidade, agora sou dois;
recomeço 1: sou mãe do Antonio, nunca mais estarei sozinha (pelo menos por um bom tempo).
 
final 2: ideal de família Doriana despedaçado - este final é formado por vários finaizinhos melodramáticos e deve estar perto de seu Gran Finale;
recomeço 2: apenas recomeçar (aaaaai, que preguiçaaaaaa!).

final 3: deixar meu 'lar salgado lar' - este me causa dor e alívio ao mesmo tempo;

recomeço 3: não faço a menor ideia.

É, muitos desafios pela frente, alguém já tinha me avisado. Um pouco ansiosa, confesso, mas confiante. Não sei exatamente em que direção seguir, mas não tenho escolha, senão seguir caminhando. E caminhar com confiança é bem melhor!

segunda-feira, 8 de julho de 2013

nunca entendi tão pouco de tudo

...faz hooooras que estou com essa página aberta esperando as letras surgirem magicamente, um download divino baixar e que dele nasça um texto inspirado e publicável. Mas ele não vem! Talvez seja mesmo o momento de admitir como me sinto confusa, atordoada, esquecida, frágil, impaciente, faminta, sonolenta, solitária... grávida?! sim, talvez seja mesmo o momento de admitir como me sinto grávida, com tudo o que isso traz de maravilhoso e de... esquisito?

Fico aqui imaginando que nove meses é pouquíssimo tempo pra se preparar pra tudo isso que está por vir. A sensação é de que nunca estarei pronta. Claro, a graça toda está na surpresa, nas descobertas, nos aprendizados gigantes, nas mudanças - isso é o que sinto. Mas a mente não dá tréguas: custava a gente poder desvendar um pouquinho desse mistério antes dele acontecer? É tanta ansiedade, um sem fim de incertezas, expectativas, um tanto de querer fazer planos, dividir tudo o que se passa. E ao mesmo tempo, um silêncio, uma necessidade de estar quieta, aproveitando cada segundo, cada movimento, cada sensação nova... ufa, sei lá. Nunca entendi tão pouco de tudo.

domingo, 26 de maio de 2013

aventura

Que grande aventura é a maternidade! Eu, que amo viajar, comparo esta espera à preparação de uma viagem para um destino longínquo. Muitas expectativas boas, mas muitas inseguranças. Você lê tudo a respeito do lugar, pega dicas com quem já foi, mas as incertezas permanecem, porque a experiência de cada um é única. Você coloca na mala um monte de coisas que depois acaba por não usar. Planeja rotas que desviam e paradas que não faz. Conhece estranhos que fazem algo dar muito certo naquele dia em que você estava sozinha esperando o ônibus (errado) debaixo de chuva. Conhece a todo instante pessoas que te mostram novos caminhos e que passam a fazer para sempre parte da sua vida.
A maternidade tem sido, até agora, uma grande viagem. Uma revisão. Revejo tudo o que vivi e agradeço.Revejo uma juventude plena, bem aproveitada, rica de experiências em todos os sentidos. Revejo medos que supunha muito bem resolvidos mostrarem suas garras novamente. É hora de encará-los! Revejo conceitos e a necessidade constante de mudar para evoluir junto com esta estrelinha que vem para abrilhantar ainda mais minha vida. Vejo meu corpo e honro o cuidado que até hoje tive com ele, preparando-o para esta jornada. A metamorfose física diária é uma magia, um mistério, uma dádiva. Vejo que esta é a melhor hora da minha existência para partir para esta imensa viagem.
Estou arrumando a mala com toda a dedicação para ter nela tudo o que eu precisar. Sei que vou esquecer algumas coisas, mas é bom pra aprender a improvisar. Deixo de lado mapas e guias e me entrego ao desconhecido, vou pelo caminho da intuição, confiante de que sempre encontrarei pessoas maravilhosas dispostas a nos acompanhar.
Bem vindo, filho.

sábado, 11 de maio de 2013

vida definitiva

Estabilidade é uma ilusão. Não acredito nela, nem a desejo, pois é através do movimento que se atinge o equilibrio. Gosto da vida em movimento e do movimento da vida. Só estou um pouco cansada de sua provisoriedade. Não quero mais uma vida provisória, me sujeitar a algumas coisas só porque "é por pouco tempo". Quanto tempo é pouco tempo? No provisório, pouco tempo pode ser muito tempo - como é meu caso. O tempo da minha provisoriedade expirou. Agora preciso de algo mais "definitivo", se é que se pode chamar assim. Um armário pra guardar roupas de cama cheirosinhas, pés se encostando sob os lençóis todos os dias, um trabalho que eu ame, macarronada na casa da mamma aos domingos, ver as plantas que eu plantei crescerem, comer dos frutos que elas dão, voltar a estudar. Uma vida com alguns horizontes, digamos assim... Aqui o horizonte é maravilhoso e único, mas é limitado, apesar de tão imenso às vistas. Não, não é só a maternidade que me enraiza, já sentia isso antes, mas agora pode ser mais intenso, mais necessário. Novos caminhos, novos rumos. Saudades sempre de tudo o que ainda nem vivi.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

balanço

Em 2012, ganhei um balanço embaixo de um Mulungu. Tomei divinos banhos de mar, ganhei um amor com cachinhos de anjo embrulhado pra presente. Me dei umas quantas viagens: India, Inglaterra, Itália... Ninguém que eu amo teve doença grave nem sofrimentos profundos, ninguém que eu amo morreu (nem de morte morrida, nem de morte figurada) - e também não consegui "matar" quem eu não gosto muito... mas tudo bem, 2013 tá aí pra perdoar!!

Fui eu quem deu muito trabalho em 2012. Achei que não ia sobreviver a este ano. Houve dias tão amargos, tão azedos, tão cinzas que eu quase acreditei que era o fim do mundo chegando. Mas o santo é forte, a ajuda vem de todos os lados, e quando você menos espera, acorda com o céu azul. 
Agora, não sei o que me espera. Contrariando todas as tradições, não fiz listinha de desejos, não usei calcinha nova, não pulei sete ondinhas, não fiquei muito doida nem amanheci o dia na praia empanada de areia. 
Só pedi um ano mais tranquilo. 
Não sei o que me espera, mas tenho certeza de que será melhor do que o foi.


sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

o quase fim do mundo

Essa coisa do fim dos tempos coincidir com o fim do ano, época em que todos estão naturalmente mais emotivos, só pode ser conspiração dos Maias. Esses cabras sabem das coisas...
Apesar de ridícula, eu achei boa essa paranoia toda, porque gera uma reflexão sobre os tempos em que vivemos. Será que queremos seguir assim? Será que não há outra forma de se relacionar, de consumir? Será  que não estamos no limite de forças, de recursos, de estratégias, de burocracias?
Para mim, é fato que o fim do mundo já começou, e faz tempo! Estamos aniquilando nossa própria espécie. Criamos um sistema insano de necessidades, uma rede intrincada de siglas, taxas, sem a qual não é possível viver. Colocamos o dinheiro como senhor de nossas vidas. Nos desconectamos da natureza, da sabedoria que ela nos dá de graça, diariamente, sem pedir nada em troca. Nos ensimesmamos, acreditando que manifestar emoções, loucuras e instintos seja algo unicamente dos "bichos". E nós, somos o quê?

O mundo precisou quase acabar pra nos tocarmos. Aproveite então, e se toque. Toque no seu coração, no seu corpo, na sua alma. Faz tempo também que existem milhões de pessoas fazendo diferente, construindo novos valores, praticando economia solidária, atuando em rede, crowdfunding, pensando no desenvolvimento de forma coletiva e realizando-o de forma colaborativa.

O que faz sentido pra você?

Hoje é um dia de reflexão, de meditação, de celebração. De se religar com algo sagrado.

Então se liga aí: se quiser continuar desfrutando desse presente maravilhoso que é a vida, reinvente-se. 

segunda-feira, 30 de abril de 2012

contrarios complementares

Eu gosto de uma boa feijoada com cerveja. Mas nada como uma salada fresca, crocante, vegetais recem saidos da terra regados a azeite de oliva estourando na boca!
Eu adoro a noite, a madrugada, seus brilhos, suas lascividades, sua libertinagem, mas que delicia colocar o corpo para descansar cedinho e acordar com os primeiros raios de sol convidando para uma linda pratica de yoga. Confesso: sou chegada numa cama, adoro ficar nela hooooras, de dia ou de noite, sozinha ou acompanhada. Sou bastante dorminhoca. Mas o que dizer da manhazinha, com seu frescor e suas cores palidas, na certeza de que ainda tem um dia inteiro para inventar pela frente??
Adoro viajar, mas nao ha lugar melhor do que a minha casa - onde quer que ela seja, neste momento de suspensao.No fundo, sou caseira, adoro curtir o lar, arrumar, perfumar, embelezar, mas sou rueira como poucos: o pe ta sempre na soleira da porta, pronto pra pisar delicadamente nas delicias do mundo.
Na verdade, eu sou faladeira pra caramba. Gosto mesmo eh de contar causos nos minimos detalhes durantes noites ragadas a vinho bom. Mas impagavel eh o prazer de saber ouvir calada para absover, aprender.
Amo a musica - entre todas as minhas paixoes, esta eh, sem divida, a numero um. Mas descobri como o silencio acalma, traz consciencia e toca num lugar onde musica nenhuma se atreve a entrar. Eh a musica da alma.
Estar em bando entao... rodeada por amigos queridos, eh certamente uma das coisas mais prazeirosas para mim! Mas como nao apreciar em igual medida a solitude, com toda sua melancolia e profundidade?!
E tem mil outras coisas que eu adoro, como gosto de seus contrarios, muitos diriam "inconciliaveis", eu digo "complementares". A vida eh uma grande lousa onde da pra riscar varios caminhos, mudancas de rota, escolhas aparentemente opostas, todas as experiencias e vontades. Eh pra isso que estamos aqui: pra riscar essa lousa louca com vontade, sem apagador.
Eh bom assim: esse vortice me faz sentir viva, eu gosto! Se bem que um pouco de quietude nao eh nada mal... eheheh...!

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

desejo

"E eu tenho vontade de segurar seu rosto e ordenar que você seja esperto e jamais me perca e seja feliz. E que entenda que temos tudo o que duas pessoas precisam para ser feliz: a gente dá muitas risadas juntos. A gente admira o outro desde o dedinho do pé até onde cada um chegou sozinho. A gente acha que o mundo está maluco e sonha com sonos jamais despertados antes do meio-dia. A gente tem certeza de que nenhum perfume do mundo é melhor do que a nuca do outro no final do dia. A gente se reconheceu de longa data quando se viu pela primeira vez na vida."

[Tati Bernardi]

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

felinianas

Os gatos de Noronha são carentes. Eles miam muito, gratuitamente. Um miado firme, decidido, de quem não se arrisca no pedido. Mimados, insistentes, obstinados, chegam a ser grosseiros: aprenderam que para viver aqui, ou é assim ou vão morrer de fome. Em 10 dias de ilha, morando com 14 homens em um alojamento coletivo, lavando roupa na mão, indo a pé pro trabalho debaixo de tempestades, mergulhando até 18m de profundidade, nadando com tubarões e raias, trabalhando muito, comendo pouco... percebi que pra viver aqui precisa mesmo ser muito macho! Falo daquele estereótipo de macho nordestino, forte, duro, imbatível, de poucas gentilezas, machista, mas no fundo muito carente. Os homens aprenderam com os gatos que aqui, para viver, é preciso de uma crosta protetora. Eu, avessa a qualquer barreira que me impeça de acessar gatos ou seres humanos, estou sofrendo um bocado - mas aprendendo dia-a-dia. Reforço que a afetividade, a amorosidade, o sorriso e a gentileza são a única via possível para mim. Ontem mesmo já conquistei o primeiro gato. Miado estridente atrás de um pão de queijo que eu comia. Dividi com ele, fiz um afago. E ele ronronou.
Simples assim.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

de mudança

Faz tempo que não apareço por aqui. To sentindo falta de escrever. Um misto de preguiça e absoluta falta de inspiração me fizeram dar uma pausa. Não foi por ausência de estímulos, aliás, muito pelo contrário. Acho que esses foram até excessivos, por isso a falta de inspiração: como organizar tanta intensidade, encontros, novidades sem a cotidianidade de antes? Sem a pontualidade de antes? A vida está absolutamente desordenada e anti-burocrática, o que é bom, mas me deixa um pouco sem chão às vezes...

Só que ontem, depois de ouvir que esse blog serviu novamente de inspiração para alguém voltar a escrever, resolvi retomar palavras a colheradas.

Estou de mudança. Dessa cidade, dessa vida, dessa eu. Não sei por quanto tempo e nem direito o porquê, mas no esforço de tentar não entender muito, apenas sentir, me deixo levar pelo que acredito ser bom neste momento. Nas arrumações, encontro objetos, escritos e fotos (muitas fotos) que me trazem uma saudade antiga e conhecida. Saudade de quem parte sem muito norte. Percebo que o tempo começa a passar rápido demais, porque já tenho tantas histórias pra contar que nem cabem mais nas caixas, álbuns, vídeos ou blogs. Percebo que tudo o que conheci, vivi e cruzei (seja mulher, paisagem ou caminho, como disse o Ruy Duarte), eu amei com todo o coração que tem em mim. E em mim tem muito coração.

Então vamolá, agora é pegar esse coração e colocá-lo a serviço do mundo.
Mais e sempre.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

retorno de saturno

eu não sei bem o que é, mas quero crer que seja ele o culpado. Sim, porque há de haver um culpado nessa história toda de angustias injustificáveis, decisões a serem tomadas e sempre adiadas, certezas que se confundem com a absoluta falta de saber o que fazer. Ou o oposto: fazer exatamente o contrário do que se tem certeza. Tem de haver um responsável pela imobilidade emocional, catatonia, estado de pseudo-loucura, sensação de desamor e de incapacidade. O contexto se mostra complexo, cada vez mais, estou à beira do precipício: ou me lanço ou me lanço. Não me concedo outra possibilidade.

na minha vontade de simplificar o mundo, na verdade percebo que "no pain, no gain" - sem dor, não há conquistas.

SUPER PAIN = SUPER GAINS?

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

tempo, tempo, tempo

A vida tá interessante, mas incessante. Tô com muita vontade de arrumar uma mala bem pequena e tomar um avião pra lugares distantes onde ninguém, ou pouca gente, me conheça.
Então acho que é isso que eu vou fazer.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

tudoaomesmotempoagora

socorro: férias. Preciso sair dessa cidade maluca, que nunca, nunca, nunca dorme. Inclusive eu não durmo, fico aqui pensando na viagem, no trabalho (ou na falta dele), no frila, no tás a ver?, no imbecil com quem saí na semana passada, no outro com quem saí na semana retrasada. Rememoro os encontros de ontem, as cervejas de hoje. Concluo que a minha vida é muito boa e o mundo tá muito gay, caramba! ... o canto, a conta bancária, todas as coisas que ainda quero fazer, todas as que quero deixar de fazer. E no que vou ler nas férias. Hoje fui ver "Empoeirados" no Oficina. Fazia anos que não ia lá e que não ouvia uma das músicas que eles cantaram na peça, canção tão doce, como tudo que a Ceumar faz. E essa música me trouxe outro pensamento: que a arte existe pra nos lembrar de que estamos vivos. São Genésio, conceda a todos o ganha pão, para que não nos esqueçamos da vida.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

.

a pontuação que eu emprego no livro não é acidental e não resulta de uma ignorância das regras gramaticais. O senhor concordará que os princípios elementares de pontuação são ensinados em qualquer escola. Estou plenamente consciente das razões que me levaram a escolher essa pontuação e insisto que ela seja respeitada.

in Clarice,
de Benjamin Moser
pág. 306

sexta-feira, 18 de junho de 2010

confissão

Uma frase improvável varreu o meu pensamento nas últimas horas. Como aquele tom de galanteio de sempre, ele disse: "Você tem cara de apaixonada". Achei que fosse uma saída bem bolada para uma pergunta não respondida, mas me garantiu que não, que o que queria dizer era: "Você tem cara de apaixonada - pela vida!".
Não consigo intuir o que isso significa para ele... seriam meus olhos úmidos de céu azul, seria minha pele corada, minha gestualidade mediterrânea, ou meu sorriso largo? Talvez minha ironia cortante, minha franqueza reta? Ou minha espontaneidade excessiva? O que me faria parecer "apaixonada" aos seus olhos? Não sei.
Mas sei o que essa frase significa para mim: que, na maior parte do tempo, eu sou genuinamente eu mesma: vibrante com a novidade. Vidrada pela subversão. Tenho em meu signo, em minha tez, em minha voz, a necessidade de transformar. E a paixão é o motor dessa necessidade, full time. Sou movida a esse combustível assustador, que nunca se esgota. E que amedronta pela sua força.
Essa sou eu, apaixonada confessa.


Ilustração de Roberto Weigand