Mostrando postagens com marcador saudade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador saudade. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

mandinga

Outro dia li uma daquelas placas de "trago seu amor de volta" e fiquei imaginando quantas milhares de pessoas procuram esses serviços. Que tipo de loucura leva uma pessoa a querer atar alguém a si própria sem que a outra assim o consinta? Que solidão é essa que nos escraviza emocionalmente? Em que poço de dor profunda temos que mergulhar para nos curar e conseguirmos amar verdadeiramente?

Amor é liberdade.

Me peguei triste ao imaginar alguém implorando amor pr'aquele número de telefone do cartaz. É uma dor física essa de ser preterida, de ser deixada, de não ser desejada. Dá pra entender que, na nossa incapacidade de lidar com a dor, buscamos qualquer coisa que prometa nos livrar dela. Qualquer coisa.

Nosso ego grita pra ser ouvido.
Nossa mente cria cenários ilusórios, sombrios.
Nossa pele... ah, nossa pele.

Eu não sei que feitiço foi esse que você me jogou. Mas pegou.


terça-feira, 28 de novembro de 2017

a tua presença

Então o tempo passa. E em mim passou uma miríade de sensações. Cheguei a pensar que não havia nada mais para ser dito. Pensei que não te amava. Depois, que seria impossível não te amar. Então comecei a estudar finamente o amor em seus diversos aspectos: gratidão, compaixão, liberdade. 

É isso: eu te amo. Estava resolvido. 

A partir desse momento, me permiti sofrer em paz. Mergulhei em águas profundas. Sua ausência cada vez mais pungente. Oras bem, oras no chão. CHÃO. Cheguei a pensar que não iria mais te encontrar. Depois, fiquei imaginando como seria estar na sua presença. Insistia na sua presença. Internamente, alimentei a esperança genuína de te olhar e desgostar de todo você. 

Então, um café. Aquele café que tinha tudo pra ser amargo. Mas não foi.

Foi eu te ver de barba mal feita que quase desmaiei [acho que você fez de propósito]. Foi um abraço de mais de um minuto que a livraria inteira parou pra invejar. Foi risada, história, lágrima, pedido de perdão. Foi tanto carinho e tanta verdade, que nem sobrou espaço pro ressentimento. A mágoa foi fazer morada noutro lugar. A raiva saiu com o rabinho entre as pernas. Foi caminhada lenta com vontade de não acabar mais. 

Foi tão gostoso estar na tua presença que eu quase me esqueci que a gente não é mais um casal.

Ismael Nery, Nós, 1926

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

perdas e ganhos

Um tufão passou por aqui bagunçou um pouco a vida, mas deixou bons legados.

Ganhos
- Voltei a usar Phebo (como algum dia eu pude deixar de usar?!).
- Retomei a escrita afetiva.
- Comecei a sonhar de novo.
- Descobri que óleo de coco é bom pra tudo (mesmo).
- Me lembrei que qualquer coisa é possível.
- Percebi que há dores imensuráveis - e que as minhas são minúsculas.
- Me dei conta (sem me dar conta) que amor não é sexo e sexo não é amor.
- Reafirmei que os opostos não se atraem. Se distraem.
- Quebrei (mais) paradigmas.
- Superei alguns (poucos) preconceitos.
- Percebi que nem todo fim precisa ser dramático. 
- Descobri que quanto menos a gente procura, mais a gente acha.

Perdas
- Você.







terça-feira, 3 de setembro de 2013

dos finais

[porque os meus têm que ser sempre apoteóticos, senão não são finais dignos]

Suely Carvalho me falou de finais não-tradicionais, não precisa ser aquela quebra, corte seco para a próxima cena. Ela falou de possibilidades transitórias, menos impactantes, daquelas que dão tempo de digerir, interiorizar, reafinar o instrumento. Isso me tocou. Gostaria de provar desta calma, mas percebo que todos os meus finais são abruptos, apesar dos meus esforços em fazer diferente. Será possível torná-los suaves e dar-se conta, com serenidade, que é preciso deixar ir (let go)?

Mas nem tudo está perdido, já que na minha crença todo final é um recomeço!

Tô com a alma suspensa: muitos finais ao mesmo tempo para recomeços definitivos. Porque ter um filho é muito definitivo: é materialização pura, é concretizar sua passagem por este planeta.

Eis o que se passa:
final 1: adeus individualidade, agora sou dois;
recomeço 1: sou mãe do Antonio, nunca mais estarei sozinha (pelo menos por um bom tempo).
 
final 2: ideal de família Doriana despedaçado - este final é formado por vários finaizinhos melodramáticos e deve estar perto de seu Gran Finale;
recomeço 2: apenas recomeçar (aaaaai, que preguiçaaaaaa!).

final 3: deixar meu 'lar salgado lar' - este me causa dor e alívio ao mesmo tempo;

recomeço 3: não faço a menor ideia.

É, muitos desafios pela frente, alguém já tinha me avisado. Um pouco ansiosa, confesso, mas confiante. Não sei exatamente em que direção seguir, mas não tenho escolha, senão seguir caminhando. E caminhar com confiança é bem melhor!

segunda-feira, 22 de abril de 2013

ligeiramente grávida

Sobre o que vou escrever depois de tanto tempo longe dessas linhas?
O que posso dizer das preparações invisíveis para este momento...? O que dizer deste momento?
...
Quando me olho no espelho, apesar dos 31 anos bem vividos, acho que ainda sou uma criança. Não sei nada da vida, não tenho respostas nem pra mim mesma, cada hora quero uma coisa, estou sempre à espera do tufão que vai me arrebatar, que vai gerar a mudança.
Desta vez o tufão chegou, mas eu ainda não sinto toda sua intensidade... Isso me faz pensar (um pouco aterrorizada) que não estou pronta para ser mãe. Mas será que existe o momento de "estar pronta" para ser mãe? Essa coisa toda aconteceu tão inesperadamente e, de repente, se tornou o elemento central da minha vida com uma rapidez avassaladora... nem eu mesma sei mais que lugar ocupo na minha vida. As pessoas agora me encontram e não me perguntam mais: "tudo bem?".
Perguntam: "como vai o bebê?".
Respondo simpática: "ESTAMOS ótimos, obrigada...!".
Mas eu sei lá como está o bebê??? Ele ainda tem o tamanho de um grão de bico, ele deve estar bem, suponho. Se eu estou bem, ele está bem, não?!
Outra coisa é o assunto central de todas as conversas agora ser sobre grávidas e gravidez. Gente, eu estou grávida, mas não sei falar só disso, tá??? Aliás, por enquanto sei falar bem pouco disso... Tô ótima, não tô enjoando, não tenho desejos e... vamos mudar de assunto?! :)

A verdade é tudo isso é mentira. Eu queria poder conversar com outras grávidas, isso sim. Queria poder segurar na mão do meu marido e dividir com ele as impressões novas de cada momento... quero a minha maããããe, e minha dinda e todas as mulheres do mundo!!!! Aqui isolada, pouca terra e muito mar, parece que a solidão se multiplica por mil. Aí fico querendo fugir do que não consigo controlar, principalmente dessa sensação de não saber nada... eu queria era conversar sobre isso 100% do tempo, só falar disso, só pensar nisso, só ler sobre isso... mas acho que pra me proteger, acabo disfarçando. Ainda tenho uns dias: por enquanto a barriguinha ainda não tá aparecendo com aquela volúpia toda, então eu posso continuar fingindo que estou só ligeriamente grávida.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

feliz aniversário

que engraçado: eu não me livro de você. Mesmo se eu for morar no Butão ainda vou encontrar alguém que ouça interessado à história de como a gente se conheceu, que eu te pedi em casamento no primeiro encontro e que você adorou. Por que, convenhamos, qual é a chance de alguém me abordar na rua e perguntar se eu te conheço numa ilha no meio do oceano??? Passam os anos e nossos caminhos voltam a se cruzar, por um motivo ou por outro, a gente se encontra na fila do cinema, ou no meio da noite eu te ligo pra te perguntar... "que música é essa mesmo?". Eu não sei porque isso acontece, você é tipo uma ressaca. Nem sei como ainda sei seu número de telefone decor, acho que deve ser o único no mundo que eu sei decor, mesmo sem discá-lo há anos. Mas eu desconfio que tem amor demais na música que sempre nos uniu, e que talvez a gente tenha se gostado o suficiente pra nunca nos separarmos definitivamente. Não importa quem a gente namore pro resto dos dias, com quem a gente case ou tenha filhos. A gente já foi pra nova iorque e comprou all stars coloridos e pegou o "A train".
Apesar de tudo, eu acho nossa história linda. Fomos passaportes pra sermos pessoas melhores. Feliz aniversário.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

ilhada

Tô. Tô sim. Melancólica até debaixo d'água. Fui mergulhar cinza, esperando voltar azul, mas lá embaixo a melancolia só tem outro peso, outra densidade, outra cor. Ela continua penetrando, viscosa e opaca. O mar estava inquieto, exigiu concentração. Só depois, navegando de volta ao porto, barco feroz rasgando ondas escuras, me deu tempo de pensar em como a felicidade desaba sobre mim com a mesma intensidade que a tristeza. Altíssimos e baixíssimos, diria sabiamente a Gabi. Tô melancólica porque há 4 dias estou absolutamente desconectada do mundo, sem internet, sem telefone, sem a liberdade de poder me comunicar. Pela primeira vez, me sinto literal: estou ilhada. Tô melancólica porque a saudade dos meus amigos está cortante, falta-nos coragem para transpor a distância. Porque sinto falta repentina de cheiros conhecidos, de deitar no meu futon com a Vitória, fechar a porta de casa e deixar o mundo lá fora.

Hoje eu só queria soltar a cabeça no colo da minha mãe e usufruir do melhor cafuné do mundo.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

alô?

Alô? Alou! Oiiii, ahhh... Feliz ano novo!!!!!!!!!!!
É que as linhas aqui estão impossíveis, não estou conseguindo falar com você... que bom que deu certo agora! Como você está? Pulou sete ondinhas? Fechou os olhos e desejou coisas boas? Abraçou muito sua mãe? ãhn? Quê, não to ouvindo, tá cortando a ligação... Sim, por aqui tudo ótimo. Fui à praia, tomei banho de mar. Foi sagrado. Meditei um pouco, rezei um pouco, agradeci muito. Fiquei leve como uma flauta. Desejos? Desejei poucas, mas grandes coisas. O tempo aqui parece andar na velocidade da luz, a única coisa que parece chegar nunca é o dia da sua volta.

Vontade urgente de te ver.

Alô? Você tá aí?

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

saudades de você

Ando de saco cheio desses hóspedes. Descobri, nestes poucos meses de experiência no ramo hoteleiro, que ser uma boa recepcionista é MUITO difícil. Chamar o hóspede pelo nome, perguntar como foi o passeio, preparar um mimo, sorrir sempre, estar sempre disposta a conversar, contar sua história, fazer indicações certeiras sobre o que ver, onde e o que comer, providenciar todas as solicitações em 5 minutos e, acima de tudo, fazer cara de paisagem quando eles começam a xingar seu país, reclamar da perereca que entrou no quarto ou do buggy que quebrou no meio do caminho... é foda!!!!!!! O ser humano é muito louco! É bem legal, por outro lado, fazer parte do sonho dessas pessoas. A maior viagem é você indicar um lugar e dar tudo certo, eles voltarem satisfeitos e te agradecerem por isso, dizendo que foi inesquecível. Raro, mas acontece. Eu mesma, que nunca fico em hotéis chiquetosos quando viajo, guardo lembranças incríveis de pessoas que me hospedaram e que me cobriram de atenção e carinho. Então, via de regra, procuro fazer o mesmo, mas está sendo difícil ultimamente. Só que hoje chegou um casal de espanhóis muy distinto. Muito rico, muito raça-superior. Olhei pra ele, que deve ter seus setenta anos, e tinha todas as razões para considerá-lo mais um chato-perguntador-de-coisas-exóticas-e-repetitivas. Ao contrário disso, me bateu uma incrível ternura. Não fez muito sentido, mas cuidei do check in deles de maneira exemplar, apresentando a pousada e conversando sobre o céu azul, o mar e a paz. Ambos muito sérios, foram se derrentendo com minha receptividade. Foram ver o pôr do sol na praia, programaram passeios e sairam pra jantar. Nessa hora, entraram na recepção para entregar as chaves e o Sr. Luis me disse: "sabe que você se parece muito com a minha neta?". Eu fiquei em silêncio por alguns segundos. E de repente, entendi tudo: "...sabe que o senhor se parece muito com meu avô?!", respondi. Ambos sorrimos. Ele deixou a chave em minha mão e, junto com ela, um olhar profundo, como quem traz um recado. E um perfume intenso que meu velho sempre deixava em mim quando passava, onde quer que fosse.
Olhos mareados. Vida curta pra tanta saudade.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

sumiço

"Sumi porque só faço besteira em sua presença, fico muda quando deveria verbalizar, digo um absurdo atrás do outro quando melhor seria silenciar, faço brincadeiras de mau gosto e sofro antes, durante e depois de te encontrar.
Sumi porque não há futuro e isso não é o mais difícil de lidar, pior é não ter presente e o passado ser mais fluido que o ar.
Sumi porque não há o que se possa resgatar, meu sumiço é covarde mas atento, meio fajuto meio autêntico, sumi porque sumir é um jogo de paciência, ausentar-se é risco e sapiência, pareço desinteressada, mas sumi para estar para sempre do seu lado, a saudade fará mais por nós dois que nosso amor e sua desajeitada e irrefletida permanência".
[Martha Medeiros]

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

muito simples

olha, eu só queria dizer que tô com saudades. Preparo chá de erva cidreira, coloco naquela caneca colorida bonita e espero você entrar, sedento para se aquecer do frio que tá lá fora e fazer um ninho no meu colo. Tô com saudades do seu cheiro, que eu não encontro em ninguém.

terça-feira, 2 de março de 2010

mais um adeus

Eu já devia estar acostumada, mas não consigo. Toda vez que ele vai, fica um buraco. Dessa vez ficou também um medo, talvez porque a fragilidade dessa vida tenha invadido a data mais festiva do ano de forma tão abrupta e tenha me fragilizado também. Talvez porque eu também esteja envelhecendo. Talvez porque eu mesma quisesse ter a coragem de fazer as malas e voar. Ou porque as piscadas abreviam os melhores momentos, que nunca parecem ter sido suficientes.
Não sei o que é. Mas não me habituo a essas despedidas.
Vai bem, querido. E não demora a volta.
Volta pra ficar.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

saudades de lugar nenhum

Sábado fui num bar onde nunca estive. Ele existe há 17 anos em São Paulo, ou seja, eu tinha 10 quando abriu. Cheguei lá e achei o lugar um moquifo. Moquifos costumam ter ótima música, pensei. Depois de alguns passos, muito charmoso. Aconchegante, clima de "lá em casa". Luz baixa, várias mesinhas, pessoas interessantes e um palco ao fundo. Bem iluminado. Um garçom simpático faz toda a diferença. Gostei, certamente me tornarei uma habitué, pensei (de novo). Sentei com uns amigos que já tinham chegado. "Pô, legal esse lugar, né, meu? São Paulo surpreende a gente com uns buracos, vou te contar...".
"Pois é", diz uma amiga. "Hoje é a última noite, estão fechando".
Como assim????????? Hein?! Encontro um lugar de música bacana, barato, com pessoas bonitas, garçom simpático... e vai fechar?
Dezessete anos se passaram e vai fechar BEM hoje???
Daí em diante parecíamos um monte de bêbados saudosistas. No palco se sucediam músicos mais ou menos significativos - a maior parte deles realmente bons, que de alguma forma prestavam homenagem à casa que foi tão importante para a música brasileira dos anos 1990. O bar parava para ouvir. E aplaudir. Entre uma entrada e outra, os dois sócios se revezavam para narrar pequenas histórias do lugar, detalhes de personagens especiais, palavras bonitas e comoventes. Todos participavam de alguma forma - até nós, que estávamos lá pela primeira vez. O clima não estava derrotista, mas genuína e estranhamente esperançoso. Amigos de longa data trocando abraços, cantando e bebendo juntos num ambiente familiar. A última frase de que me lembro, e anotei para não esquecer antes de algumas doses de Seleta, foi o Rafa dizendo: "Puxa, já estou quase com saudades de um lugar onde nunca vim". Nos olhamos. E rimos muito: na felicidade melancólica que só a madrugada é capaz de trazer.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

again, again, again

Eu, pra variar, choramingava por um homem qualquer. Na sala de estar da nossa casa tipicamente inglesa, sentadas no chão, rodeadas por gatos, bebíamos Bacardi como água. A única regra era beber o suficiente para esquecer. Lá fora, frio. Do lado de dentro, aconchego. Talvez fosse a nossa latinidade ou o simples fato de nossos corações conseguirem conversar sem ressalvas. O cd do Sting que eu tinha acabado de ganhar da Pal comemorava nossa pré-ressaca. A faixa 01 "Brand New Day" foi a trilha daquela noite. Lembro de pedir inúmeras vezes pra ela voltar pra aquela faixa com aquela cadência de quem já passou do ponto: "agaaain, agaaain, agaaaain number óooone". E ela se levantava, cambaleando até o som, voltava para a faixa um. Acho que ela fez isso umas 25 vezes, até dobrarmos de dar tanta risada e não parar de falar "agaaaain, agaaaaain". Mesmo sem a música ter acabado, ela ia lá e apertava o botaozinho. E ríamos. Muito.
Coisa de bêbadas.
"My angel", foi como passei a chamá-la depois daquela noite. Ela me salvou de mais uma dor de cotovelo, cuidou da minha ressaca, e ainda se encarregou de aquecer outras geladas noitadas londrinas, com ideias mirabolantes, a boca sempre pronta pra um sorriso.
Faz 10 anos.
Tempos depois, nos encontramos em Buenos Aires. Recém-casada, orgulhosa de ser dona de casa, mulher trabalhadora, esposa, mas ainda conservava aquela menina traquinas de olhos grandes e brilhantes. Fez uma festa pra mim com empanadas, me apresentou seus amigos, seus pais, seus sonhos. Tomamos um porre rememorando os velhos tempos, ouvimos "Brand New Day", rimos muito. Choramos ao nos despedir.
Em seguida, a filha. A separação do marido.
"Às vezes a vida precisa de um 'agaaaaain'!", ela disse.
.
.
.
Hoje percebi que não devia ter ficado tanto tempo distante de você.
.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

baby won't you please come home

Não é fácil conviver com você. Palhaço, moleque, suado. Não é fácil conviver com sua bagunça, sua inquietude, arco-íris de emoções. Não é fácil desentender o mundo que até hoje fingia entender.

Mas eu me esforço.

Porque o teu humor me leva leve como o céu de brisa que desenha nuvens mansas. Teu sorriso e tua generosidade são meu café da manhã. Tua maquiagem borrada, escorrendo pelo canto do olho depois de horas de trabalho apaixonado, chega a ser pateticamente romântica. Eu te admiro. E te fotografo: absorvo as sutilezas das tuas expressões e dos teus gestos. Amo tua grandeza tão pequenina, tuas palavras pouco ensaiadas. Tua simplicidade e teus dons manuais. Adoro tuas mãos - quando me tocam: suspiro, estremeço.

Transpiro.

Pensar que você pode não estar é fel na boca. Eternizo você em mim todos os dias, descortino o quarto para o sol entrar com você, frescor dessas manhãs invernais. Atrevo-me a me descuidar, por saber que vais cuidar de mim. Retribuo suas massagens porque me inspiro com seu prazer. Danço pisando nos teus pés - e você nunca reclama.

Pensando bem, é realmente muito fácil conviver com você.
Porque há amor. Do tamanho suficiente.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

te extraño

Vivenciados os limitados e mundanos interesses sexuais que nos unem, vamos pensar agora no que nos causa saudade. Saudade original. [desculpe, não quero soar clichê, mas talvez você não entenda o que eu quero dizer quando escrevo "saudade". Se isso por ventura acontecer, é normal].
O que me faz brilhar os olhos ao falar de ti? Como a boca esboça um sorriso espontâneo quando te lembras de mim? Quais odores nos recordam o nariz enfiado no cangote, o cangote sobre o travesseiro macio cheirando a você? Quais brutalidades ditas ou ousadas nos trazem de volta a sensação de estarmos próximos, tremendo, mais uma vez juntos? E o que se esconde por trás dessa dureza aparente?
As conversas. Sim, as conversas são nosso grande trunfo, nosso valor, o grande momento de êxtase, de conexão. Minha mãe um dia me disse: "minha filha, só se case com um homem com quem você tiver um papo bom, porque o resto um dia termina. As conversas nunca".
Descobri: é isso que me causa saudade de ti.
E todo o resto também.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

despedida virtual

Hoje foi um dia de resoluções e despedidas.
Reencontros e desamarrações.

- ... então um abraço, bem longo e aconchegado, daqueles que não consegui te dar.
- outro bem grande, desses que esperamos e não tivemos.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Olha: essas andanças da vida são de muito rápida passagem. Faz um tempo quase eterno que não nos vemos. Na verdade não aguentava mais olhar pras tuas camisetas estrategicamente posicionadas num local de fácil pegada no meu armário, para sentir teu cheiro de vez em quando e para que não esquecesse de te devolvê-las caso você aparecesse (surpresa de palhaço) para aquele café da tarde. Então, agora elas moram num cantinho escuro do guarda-roupas, num lugar onde eu não mais as encontro todas as manhãs quando vou pegar um lenço ou um cachecol para me proteger desse frio fajuto.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

são paulo de luanda

Domingo mais uma vez ele tomou o avião e se foi. No caminho do aeroporto, pensativa no banco do passageiro ao seu lado, sua mão na minha mão, um aperto no peito. "Gostaria de ir com você desta vez, só por uns dias", disse-lhe.
Fechei os olhos e, por um instante, vi tudo como antes. Aquele estranho prazer em vivenciar o extremo do caos, a subversão dos valores e da (des)ordem das coisas. As conversas de quintal com a Marta. A doce kizomba do Pedro. A tarde no kimbo, mágica. Os passeios pela ilha com o Ruca. A bizarria de histórias só lá escutáveis e o desajeito de fotografar. A ingenuidade disfarçada do Manu. As aflições das descobertas. Aquela sensação de deslocamento e ao mesmo tempo de pertencimento profundo. A solidão bem acompanhada por uma nova eu.
Uma nova eu. Foi isso que Angola me deu. Às vezes finjo que esqueço, me salvaguardo com a minha ocidentalidade, me escondo atrás de referências antigas, falta-me coragem. Mas a verdade é que Angola descortinou para mim um outro mundo que eu não consigo mais (e nem quero) negar. Uma nova forma de viver e de conduzir a minha vida, a minha história.
Talvez seja essa a grande saudade: a do encontro. O encontro com algo novo que me mova, que me arrebate, que me assuste, que me incomode.
Deixa eu voltar...
Posso voltar? Apenas por alguns dias?

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

não acredito

Eu não acredito na separação. Isso não existe, é ficção.

Como pode existir? Como o cheiro pode sair pela janela, e o tom da voz, que chamava para o descanso lá no quarto, se tornar inaudível? Como aquele doce olhar, único, perde o seu brilho? Como usar, olhar, tocar aqueles objetos comprados juntos... "a manta vermelha para cobrir o sofá" ou "o tapete que nos obrigou a adiar as férias"?

"Na separação, o difícil não é partilhar os móveis, (..) as fotografias, os cds. Isso se mantém ou se abandona. No inventário do amor, a dor é dividir as lembranças. Sofro de insônia constante por não desembaralhar os pesadelos. Desisti de entender seus significados. Dilacerada é a partilha dentro de mim, ainda mais quando não se viveu um minuto isolado. Uma viuvez em vida enlouquece".

A verdade é que uma história de amor nunca acaba. E que a única utilidade de uma separação é nos fazer escrever mais bonito.

p.s.: hoje eu estava feliz, até descobrir que o Carpinejar se separou da Ana.
Agora tô triste.