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sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

vai casar

Sempre fui a menos sozinha das solteiras. Aqui e acolá, sempre tinha um hômi a tiracolo, raramente estive sozinha na vida. A grande maioria das minhas amigas tinha namoros duradouros, desses de anos... eu quase nunca. Tive um - e quase casei de véu e grinalda. Por sorte percebi a tempo que ainda era muito jovem para me privar de conhecer tantas pessoas interessantes.

De fato, a escolha de não levar adiante o único relacionamento looongo que tive me trouxe mais ganhos que perdas. Tive experiências muito apaixonadas, conheci muita gente louca, vivi intensamente (claro). Se pudesse voltar atrás, faria tudo de novo.

Hoje: 36 anos, 1 filho que já se veste sozinho... acho que quero casar! Se dependesse do tanto de vezes que já peguei o buquê, devia ter fila na minha porta. Fato é que não sei bem qual modelo de relacionamento desejo. Não acredito no casamento como está posto, mas também não sei muito pra onde correr. Talvez muita gente não goste de ler isso, mas não vejo muitos casais se divertindo pela vida. Vejo conveniências, acomodações. Vejo pouca vontade de crescer junto e muito apego aos vícios e obstáculos. Devo estar errada, por supuesto, caso contrário ninguém veria vantagem em continuar casado ;)  Estas são apenas impressões de uma solteira observadora.

Se eu tivesse que dizer o que acredito mesmo, seria: as pessoas são livres, ninguém é de ninguém. Mas sigo dizendo (até para mim mesma) o que a sociedade quer ouvir: vou casar. Como conciliar estas duas visões? Como se livrar do maldito amor romântico e viver plenamente a liberdade tão própria de quem ama? Esta é uma pergunta que tem me perseguido nos últimos tempos.

Da turma mais chegada, estão todas casadas. E pra festa de Natal, na lista eu leio "Beta + Tom". Me dá uma certa angustia. Não é inveja, não é dor de cotovelo, não é medo de envelhecer solteira - já que sozinha de fato quase nunca estive! É uma incerteza que não tem horizonte. Um lugar novo em mim que chama por um par que não seja meu filho. Um par(ceiro). Pra vida.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

é amor

Eu lembro quando te contei que, na faculdade, eu tive uma paixão fulminante que mudou muito minha vida naquele momento - eu ia me casar aos 22, e desisti por causa dessa paixão, que durou três semanas. Nada mais. Nunca mais.

Agora eu me sinto mais ou menos assim: como se você tivesse mudado o rumo da minha vida. Graças a você, estou mergulhando em mim como nunca estive. Era isso que eu queria te falar.

Ainda arrepio ao lembrar, a intensidade não amorna tão facilmente neste corpo.

Ainda não compreendo como viramos fumaça, mas ao mesmo tempo, tudo faz um sentido profundo. 18 fotos. A primeira delas, um clarão branco pra escrevermos uma nova história. Não juntos. Cada um a sua - mas nova.

Estou muito orgulhosa da gente, do passo que demos rumo à felicidade, da escolha que fizemos de viver isso. Um privilégio. Estou muito feliz por me despir e perceber a beleza que se esconde por trás das diferenças - onde mora o grande aprendizado. Apesar de sermos opostos, somos pessoas incríveis fazendo o melhor que podemos.

Honro nossa verdade e nossa entrega. Sempre fomos nós mesmos, nunca outros. Por isso deu tão certo. E quando é uma coisa de verdade é pra sempre. Uma vez, um cara de quem eu gostei muito me disse: "Se for só pra você me ensinar a lixar as unhas, já vai ter valido à pena". É isso. 


Eu sinto muito pois sua dor é também a minha dor.

Me perdoe por te julgar.

Eu te amo por ser exatamente quem você é.

Eu sou grata por nossos caminhos terem se cruzado.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

carta pro filho [2]

Essa coisa de ser mãe tá ficando cada dia mais interessante: você agora entende tudo o que eu te digo. Tudo não é força de expressão. É tudo mesmo! Entende na medida da sua curiosidade pelo mundo, com a inocência de quem nunca ouviu aquela novidade antes. É lindo de ver.

Hoje te contei que, neste planeta que habitamos, não existem duas pessoas iguais. Tem loiros, rastafaris, budistas, baixos, altos, orientais, muçulmanos, cegos, morenos, meninas que gostam de meninos ou de meninas (ou dos dois)... mas pra muito além disso - e você me olhava muito sério e compenetrado - não existem duas pessoas com a essência igual.

Essa é a grandeza mágica de ser humano, filho: somos parte de uma espécie imensa, mas nem sequer um representante desta espécie é igual ao outro. Tão complexos e fascinantes, cada qual com caminho de evolução, cada um de nós galgando um aprendizado diário único e individual. 

Mas ao mesmo tempo, somos muito parecidos. Precisamos nos parecer para pertencer. Nossa parecência é coisa que nos identifica. Sentimentos, emoções e sonhos em comum nos unificam. Um dia você vai ter a sorte de encontrar alguém que não se parece em nada com você, mas vai ser idêntico a você. Soa estranho, mas isso vai te fazer sentir um bem estar indescritível, como se sua alma tivesse encontrado outra alma idêntica a sua, uma complementação perfeita. A isso damos o nome de amor. Desejo que você cultive sempre o amor no seu coração, filho. É só o amor que nos faz superar diferenças, limitações, preconceitos.
O amor nos faz ser Humanos.



terça-feira, 13 de maio de 2014

carta pro filho [1]

Oi filho,
Hoje faz 6 meses que você chegou nesta órbita. Falta tempo para curtir cada segundo seu na terra. Você mamando é o maior dos milagres; dormindo é doçura infinita.Vejo você conquistar pequenos movimentos, seus passos de gigante. Observo suas descobertas tão inocentes e acho que tudo é obra de Deus. Digo todos os dias baixinho no seu ouvido que te amo, que você é minha estrelinha brilhante. Não sabia que tinha tanta ternura guardada até você chegar. Não sabia que seu sorriso ia me trazer tanta leveza pra encarar os desafios. E sempre soube que nossa conexão ia ser profunda. Você me faz acessar diariamente minha intuição.
Mas nem tudo são flores. Houve muitos espinhos nestes 180 dias. Queria ter mais tempo, mais grana, mais disposição, mais coragem [às vezes], menos preocupações. Faltam horas de sono, falta paciência, falta-me aceitação, falta-me a yoga (imensamente), falta a liberdade de antes.
Mas sobra amor. E isso é tudo.
Que venham mais 180 mil dias com você, meu pequeno grande homem.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

contrarios complementares

Eu gosto de uma boa feijoada com cerveja. Mas nada como uma salada fresca, crocante, vegetais recem saidos da terra regados a azeite de oliva estourando na boca!
Eu adoro a noite, a madrugada, seus brilhos, suas lascividades, sua libertinagem, mas que delicia colocar o corpo para descansar cedinho e acordar com os primeiros raios de sol convidando para uma linda pratica de yoga. Confesso: sou chegada numa cama, adoro ficar nela hooooras, de dia ou de noite, sozinha ou acompanhada. Sou bastante dorminhoca. Mas o que dizer da manhazinha, com seu frescor e suas cores palidas, na certeza de que ainda tem um dia inteiro para inventar pela frente??
Adoro viajar, mas nao ha lugar melhor do que a minha casa - onde quer que ela seja, neste momento de suspensao.No fundo, sou caseira, adoro curtir o lar, arrumar, perfumar, embelezar, mas sou rueira como poucos: o pe ta sempre na soleira da porta, pronto pra pisar delicadamente nas delicias do mundo.
Na verdade, eu sou faladeira pra caramba. Gosto mesmo eh de contar causos nos minimos detalhes durantes noites ragadas a vinho bom. Mas impagavel eh o prazer de saber ouvir calada para absover, aprender.
Amo a musica - entre todas as minhas paixoes, esta eh, sem divida, a numero um. Mas descobri como o silencio acalma, traz consciencia e toca num lugar onde musica nenhuma se atreve a entrar. Eh a musica da alma.
Estar em bando entao... rodeada por amigos queridos, eh certamente uma das coisas mais prazeirosas para mim! Mas como nao apreciar em igual medida a solitude, com toda sua melancolia e profundidade?!
E tem mil outras coisas que eu adoro, como gosto de seus contrarios, muitos diriam "inconciliaveis", eu digo "complementares". A vida eh uma grande lousa onde da pra riscar varios caminhos, mudancas de rota, escolhas aparentemente opostas, todas as experiencias e vontades. Eh pra isso que estamos aqui: pra riscar essa lousa louca com vontade, sem apagador.
Eh bom assim: esse vortice me faz sentir viva, eu gosto! Se bem que um pouco de quietude nao eh nada mal... eheheh...!

quinta-feira, 5 de abril de 2012

a chegada

quando pisei no solo encarpetado do aeroporto internacional Indira Ghandi, senti uma emocao de quem volta pra casa: coracao na garganta, uma explosao de felicidade dentro do peito. Esbocei um sorriso espontaneo de crianca que durou longos minutos. Welcome to India! Era uma e meia de uma madrugada clara e abafada. Muito cansada e um pouco gripada, pedi com amor (ao meu anjo e) ao taxista que me enfiou dentro do black cab, para que ele me levasse direto ao hotel que eu havia reservado, e nao ficasse dando mil voltas tentando me levar pra outro lugar. Jedi era o seu nome. Ele tinha uma cara boa. Sorriu e disse "all right" em um ingles quase incompreensivel, o que nao impediu uma boa prosa no caminho ate a cidade. O local do hotel era a visao do inferno, ainda mais a esta hora da noite, tudo fechado e com fogareiros isolados iluminando a estrada. Ainda bem que o Joao tinha me avisado que o lugar era "assustador", senao eu teria saido correndo, ou mesmo pedido ao Jedi que me levasse a outro hotel. Mas resolvi encarar. Desci do carro e fui andando por uma viela lugubre ao final da qual supostamente encontrava-se o tal hotel. Acho que foram os segundos 50 passos mais tensos da minha vida - os primeiros foram em Panama City, quando fui parar num bairro igualmente bizarro cercada por cafetoes e traficantes. Enfim... no hotel, o recepcionista dormia confortavelmente sobre um lencol estendido no hall. Caraca, a India eh impressionantemente caricata! Ele nao estava muito comunicativo. Fato eh que queria voltar a dormir logo e foi me dando a chave do quarto: "good night, mam". Ok, good night so se for pra voce! Como eh que eu vou ter uma good night num quarto sem janelas, aparentemente - e apenas aparentemente - limpo (eu adoro usar eufemismos!), e com lagartixas prestes a despencar do teto sobre a minha cama??? Apesar do cansaco dilacerante, dormi apenas algumas horas. O calor era insano, o lugar era insano, na verdade, eu sou insana! Pra que, me perguntei, pra que eh que eu fui deixar minha vidinha insular pra passar por isso??? Minha casinha de frente pro mar, Valentina, rede na varanda, meu preto me fazendo carinho... pra dormir com lagartixas em NOva Delhi?!??!?!?! Contudo, curiosamente, aquela sensacao de felicidade do aeroporto nao havia desaparecido. Tentei controlar o desespero e me lembrei de que, depois de tudo passado, a serenidade que brota eh incrivel e o que foi vivido faz sentido profundo. Foi assim com Noronha, onde muitas vezes me perguntei o que estava fazendo com a minha vida... Confio que sera assim tambem com esta viagem.
Depois de despertar 50 vezes no sono da manhazinha, resolvi levantar e encarar o dia - sem saber muito por onde comecar: procurar um hotel melhor ou resolver rapidamente o que precisava em Delhi para sair daqui o mais rapido possivel?? Estava muito confusa e perdida. Ha muito tempo nao me sentia assim. Muitas buzinas - quero dizer MUITAS mesmo: Napoli + Roma + Atenas + Sao Paulo na hora do rush elevado ao cubo! Todo mundo anda junto na Main Bazaar Rd. Rickshaws, velhos, taxis, motos, cegos, vacas, bicicletas, criancas, gringos...nos dois sentidos, um no sentido do outro, tanto faz, o importante eh buzinar! Tudo se auto organiza da maneira mais caotica possivel. Enquanto a velhinha quer ler minha mao, o cozinheiro me oferece pesteizinhos fritos na hora ao lado do senhorzinho que vende remedios ayurvedicos e incensos. Me sinto alimentada por tantos estimulos que nem tenho fome, ou vontade de comer. Peguei o metro, lindo e organizadissimo (de verdade), e fui comprar minha camera nova e um telefone indiano (ra!). Falei com o Brasil, comi um delicioso e apimentado falafel de lentilhas e espinafre e fui dormir feliz. Sabe que agora, ha poucas horas do desespero que durou poucos minutos, nem tudo eh tao ruim quanto parece, tudo depende de como a gente olha. E pretendo manter um olhar inocente e curioso pras coisas, pras pessoas, e me divertir com as coisas que derem "errado". Mudei pra um quarto com janela e, no apice da insonia, vi que a lua la fora ta linda, quase cheia.
Se vemos a mesma lua, nao estamos assim tao distantes, nao eh mesmo?

sábado, 31 de março de 2012

devaneio parisiense

Depois de uma noite espremida numa lata de sardinha, a aeromoça joga o cafe da manha em cima da minha bandeja ainda mal aberta. Buen dia!, diz seu espanhol rascante. A boca pastosa, os olhos ardentes, a coluna em frangalhos denunciam: voce acordou do outro lado do mundo. Tinha esquecido como é linda e louca essa possibilidade! Adormeci em sao paulo, acordei em madrid, segui para paris, que me recebeu com um dia tipico de printemps - céu claro e brisa fresca. Tinha esquecido também: a cada cinco passos, um café charmoso, uma boulangerie colorida, uma lojinha desprenteciosamente linda. Bistrôs expoem seus menus suculentos escritos em giz sobre lousinhas de criança. Plat du jour: franceses saem pra rua com a chegada da primavera, sedentos por uma nesga de sol. Paris esta alegre. Pedimos uma taça de vinho na calçada. Enquanto devaneio sobre tudo isso, meio bebada de cansaço, Marie me relembra como é agradavel redescobrir sua propria cidade pelos olhos de outra pessoa. Sim, renovar o olhar é sempre precioso. Hoje a brincadeira começou.

domingo, 22 de janeiro de 2012

como faz?

Subject: como?
Date: Thu, 19 Jan 2012 22:01:33 -0200

Ei. Essa coisa de sumir do mapa e ir pra longe...
Como faz?
Tua opção me cativa um bocado.
Ouviria histórias se quiser contar.
Bjo.
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Muitos amigos têm me escrito manifestando vontade de voar.
Deixo aqui um pouco da minha transpiração - que a cada dia se transforma em muita inspiração.

Meu querido,
Sou tão feliz pela minha escolha, que poderia passar a noite aqui te dando motivos para me imitar. Como? Como é muito fácil: arrume uma mala pequena, compre a passagem e parta pra onde o teu coração sugerir, mesmo que você não saiba direito o que está indo fazer lá. Foi assim que eu fiz.
Mas eu sei que não é a este "como" que você se refere. O movimento, ao contrário do que parece, é algo que está dentro de nós, então você só o fará se ele fizer profundo sentido para você. E mesmo que ele faça sentido, não é fácil. Na verdade, eu diria que é difícil pra caramba. É preciso ter muito desprendimento, força de vontade, confiança e alegria pra suportar a distância total da sua zona de conforto. Mas vale à pena, porque se afastando dela, você abre espaço para o novo, um espaço que você nem sabia que existia dentro de você. Se estiver disposto a enfrentar o medo do desconhecido, o medo de baratas, o medo da solidão, será recompensado de maneira absolutamente surpreendente, com um pote dourado dentro do qual estarão todas as ferramentas para a sua FELICIDADE. Se estiver com a mente aberta para aceitar verdadeiramente as diferenças, se tiver tempo para olhar a natureza e diariamente se der conta da efemeridade da vida, será muito menos penoso lidar com as crises existenciais e com as coisas que te desagradam. A vida se tornará mais leve e você, uma pessoa melhor.
Não sei te dizer exatamente "como", não tem receita de bolo. Levei alguns anos para efetivar essa escolha. Fui arando o terreno, regando um pouquinho todos os dias, preparando a retirada e, sobretudo, consultando meu coração, precioso oráculo. Me perguntava se a vontade de partir não era meramente uma fuga. No fundo, não me iludo: acho que todas as partidas são fugas, mas fugir consciente é diferente de fugir por fugir. Então, atenção a este ponto. E se for uma fuga descarada mesmo, que seja bem claro do que você está fugindo, porque pode ter certeza de que vai voltar - mesmo que você more no paraíso.
Ontem ouvi que minha vida é uma "montanha russa". Achei essa imagem bem engraçada. Irônico que, quando criança, eu ia ao playcenter e nunca gostei desse brinquedo que me deixava com enjôo e me dava muito medo - nunca subi em uma. No imaginário coletivo, a montanha russa é um desafio delicioso: todo mundo quer andar nela, pra poder gritar a vontade, extravasar, viver os medos face to face. No fundo, a gente gosta.
Então, depois de tudo isso, se eu puder te dar um conselho: vá andar de montanha russa, passe pelos loopings, frios na barriga, vômitos, frios, suadouros. Passe pela experiência, por todas as possíveis, se possível. Não deixe que as experiências passem, passe você por elas. Depois você vai ter muito mais do que um bocado de histórias pra contar: vai perceber que ainda tem um SEM FIM de descobertas por fazer.
Beijos,
Beta

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

bliss

Vou confessar uma coisa: faz tempo que não me sinto assim. Essa lufada de vento que escancarou a porta, a janela, a camisa, a boca. Parece um tufão, um swell gigante desses que cobrem o pier do porto...
Fiquei tão tonta que decidi ir ao médico. Disse a ele que devia ser o labirinto, mas ele receitou remédio pro coração: serenidade. É indicado que eu viva tudo com os olhos e ouvidos bem fechados para o resto do mundo. É profundamente indicado que eu me esqueça do abandono, das ameaças, que eu limpe meu dna emocional das marcas e feridas. "Isso aí é felicidade na certa", ele disse. "Só que tudo em excesso faz mal, você sabe, né?"
Pra amenizar os sintomas: mergulhos no azul, muitos jantares com amigos, algum sol e duas sessões de cinema.

Viver tudo novo.
De novo, mas como se fosse a primeira vez.

O segredo não é correr atrás das borboletas. É cuidar do jardim pra que elas venham até você.
[Quintana]

domingo, 6 de novembro de 2011

roupagem nova

Fiz um pacto comigo mesma: vou passar um dia sem reclamar. Um dia inteirinho, 24 horas, proibida de falar qualquer coisa que seja em tom de queixa, desde "nossa, que calor", até "ai, que dor". Ao meu redor, pessoas reclamam de absolutamente tudo e estou ficando contaminada por esse vício horrível. Quero sentir verdadeiramente o quão sortuda e abençoada eu sou por ter tanta saúde, amor, amigos, trabalho, integridade, felicidade. Felicidade, aliás, é só questão de ser - canta o Jeneci. Quero perceber, na prática, quanto estou reclamando à toa, chorando de barriga cheia, só pra entrar na onda. Quero mais silêncio e reflexâo, menos palavras soltas ao vento sem razão. Quero ser mais Pollyana e, quando alguém vier queixoso, ter a paciência e a sabedoria de apontar para o copo meio cheio. Somos responsáveis pelas nossas escolhas e se as coisas não estão como desejamos, é porque não desejamos direito. Temos o poder e a força de mudar o rumo, vestir uma roupa colorida e sair por aí aproveitando o sol, o calor, o vento ou a chuva.
O que vier é pra ser vivido. Feliz(mente).

quinta-feira, 5 de maio de 2011

você-é-a-mulher-mais-bonita-que-eu-já-conheci

Antes, me penetra fundo seu olhar, na dor da indecisão. Seu olhar, sem medo de encarar, encontra o meu ainda mais destemido e se fixa, sem desviar, como se quisesse me garantir nossa felicidade.

Depois, é quando a gente se abraça, e o mundo para por alguns segundos. Se encaixa sua cabeça na minha saboneteira. Perfeitamente. Fica ali, armazenando meu cheiro, que você diz que adora. Emaranhando nos meus cachos, que você diz que adora. Vontade de te aninhar no meu colo, meu coração amolece de ternura. Busco conectá-lo, pulsante, com o seu adoentado. Sinto sua barba mal feita roçando no meu rosto, sem entender porque essa não pode ser uma cena cotidiana. E então percebo que, mesmo que seja pouco (e eu nunca me contento com pouco), prefiro ter você inteiro nestes minutos do que o dia inteiro pela metade.

Pílulas de felicidade que não me deixam desconfiar do amor.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

ano novo

É muito bom fazer aniversário!! Queria que fosse todo mês. Receber abraços longos, afagos, amigos, palavras bonitas e desejos de tudo que é mais lindo e positivo no mundo. Ter vontades e mimos realizados num piscar de olhos. Ganhar bolo, sorrisos, presentes, sonhos de padaria e beijos.
Definitivamente: aniversário devia ser mensal!

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

quem vai nem sempre volta

Voltei mas lá fiquei. Deixei meu coração no castelo, minha lágrima nos gerais, meu hálito nos lençóis.
Abaixo, impressões da minha última viagem.

dia 01

Sol escaldante na cara. As costas doem, os pés doem, a cabeça lateja, os joelhos falham. A paisagem é estonteante: algo muito, muito belo pintado por Deus na terra dos homens. Cruzamos o rio, último obstáculo. Já sem mais poder sustentar meu corpo em pé, desabo num choro de falência. Puxo o ar, soluço. O que é que eu vim fazer aqui? Rapidamente a cabeça explode em dor aguda. Seco os olhos, me levanto poeirenta e entro no passado. Uma casinha de taipa toda pintada de verde claro, e dentro dela um casal esquecido no meio do mundo encantando. Os grilos cantam a noite fresca que traz prosa regada a cachaça e comida caseira tão gostosa (mais gostosa do que a da minha avó!). Prosa de simplicidade, silêncios espontâneos e nada constrangedores. Vidas vividas abrindo caminhos. Despedida com beijos e doce de goiabada.
E eu choro, emocionada por tanta generosidade, zelo e amor.


não há lugar no mundo onde nossas pernas não possam nos levar

Hoje o sol não saiu. Pegamos a estrada cedo, acordei bem disposta, mas fiz só uma parte do caminho, respeitando meu limite. Ao mesmo tempo está sendo muito prazeroso perceber a capacidade de superar limites. Descobri uma planta chamada "pedestre" que faz um chá bom de beber nessas noites frias. Enquanto bebo, me dou conta: andar, andar, andar... e cada passo é uma aproximação de mim mesma.
Não há lugar no mundo onde nossas pernas não possam nos levar.
O mundo é meu.


Caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.

António Machado

o fácil é difícil

Sou uma pessoa prática com as palavras, mas aqui não dá pra ser assim. É preciso deixar a língua solta e os ouvidos bem abertos para entender as sutilezas nas entrelinhas. Causos e mais causos contados nas cantorias das letras comidas, nas palavras emendadas. Para ser entendido, é preciso fazer perguntas simples, falar da família, da comida, do mato. Deve-se usar vocabulário simples, e isso é muito difícil para mim. Me sinto ridícula por achar uma coisa simples tão difícil, me sinto estranha por não saber fazer uma coisa assim tão fácil. Ao lado do fogão a lenha, observo a dona Lica fazendo pão e contando do filho que mora em São Paulo e que ela não vê há 5 anos.
Saudades e solidão. Em todo lugar.

sobre o (des)conforto

Do espelho eu sinto falta. Sinto falta do conforto, mas esse estado quase natural me faz relembrar de quão pouco é preciso para viver. Mas do espelho eu sinto falta. E percebi como me tornei vaidosa nesses últimos tempos. O cabelo, o rosto mais corado, sorrir para mim mesma. Gosto de ver minha imagem, a mudança no meu semblante, que deve estar mais relaxado, apesar de tantos esforços físicos. Na casa do seu Eduardo não há nenhum conforto, mas é muito aconchegante. Parece contraditório, mas é assim. Ele tem 82 anos, corta lenha e, todas as semanas, faz o caminho até o mercado no lombo de um jegue. Ele é movido a um “remedinho”, uma pinga que ele mesmo faz com 18 ervas. Quando chegamos hoje, às 8h da manhã, ele nos ofereceu. E nós tomamos ao som de um rasta-pé.
Depois, mais andanças.

a princesa e o castelo

Hoje a princesa subiu ao castelo. Acompanhada por seu bastão mágico (fabricado sob medida pelo seu Eduardo) e por seu fiel escudeiro, João Valentão, a princesa cumpriu sua missão. Não foi simples. O caminho era repleto de obstáculos e armadilhas de lama, grandes cascos de tartaruga disfarçados de pedra se moviam baixo seus pés. Abismos, grutas, chuva, toda sorte de desafios cruzou o caminho da princesa nesta manhã. Mas, ao chegar à caverna mágica, o céu se pintou de azul e um lindo sol veio brilhar. A princesa subiu até o cume mais alto de seu castelo. Da janelinha, avistou seu reino e se emocionou. Chorou de verdade ao ver aquela perfeição toda ali posta, como se todas as pecinhas tivessem sido minuciosamente encaixadas. Naquele momento, a princesa soube que seu reino é o mundo.

desapego, simplicidade, superação

Esse lugar não existe! É muita beleza... tamanha perfeição de cores e formas. Hoje andei 25 km. Minhas pernas estão pesadas, meus pés, imundos. Mas estou muito feliz por ter feito essa travessia. Consegui falar com Deus, entrar em contato com o que há de muito profundo em mim. Foi fisicamente extenuante. Caminhar exige um grau de concentração muito alto, talvez por isso tenha conseguido me acessar, atentar para mim apenas. Eu naquele momento e naquele lugar. Acabei estentendo minha estadia por mais um dia na casa de seu Wilson. Noites em volta do fogão a lenha tomando Abaira e jogando conversa fora - literalmente - se conhecendo, se entendendo, se respeitando. Natureza exuberante, laços humanos impagáveis.
Quero voltar a este lugar.

água doce

Hoje fui tomar sol na beira do rio. Ele desce com uma força alucinante, sem parar, como se por baixo houvesse um motor girando freneticamente. Tem chovido muito à noite, então ele se modifica dia a dia, engrossando, personificando a força da natureza. A água correndo faz um barulho insistente e alto, um pouco monótono, sem variações de tempo ou intensidade. De olhos fechados, ouvindo esse ruído, fiquei bastante tensa, receosa de que o rio pudesse repentinamente se encher e me carregar pra cima das pedras. Pensei no mar e nos ciclos das ondas, que fazem um ruído nada constante, e fiquei tentando entender a lógica das corredeiras, os redemoinhos e os pontos onde as águas batem uma, duas, três vezes... foi em vão.
Não consegui entender o rio, mas consegui sentir a sua força.