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quarta-feira, 19 de junho de 2013

hora de acordar


Liguei pra te contar do perfume dos jasmins em flor. E falar das frutas da estação. E do banho de chuva que pensei em tomar (com você). Desta vez, não quis me preocupar com julgamentos à minha verdade, sendo contigo apenas eu mesma. Queria falar a sua língua, para que entendesses cada sílaba de mim. Tive, por um breve e ilusório instante, a certeza de que minha transparência serviria para te fazer compreender que cada ato meu foi mais uma tentativa de aproximação de mim mesma. E logo de ti.
Queria me sentir livre na sua presença - porque ainda me sinto uma estranha quando não estás. Torci para que cada palavra minha fosse um sentimento bom, e que cada sentimento se transmutasse em compaixão. E que eu pudesse apenas sorrir quando você diz o que nem sabe que está dizendo. Queria que essas lágrimas tolas parassem de insistir, me sinto ingrata por chorar em um momento tão abençoado. E que apenas as boas lembranças povoassem minha mente. Que refletida na minha íris cor de mel, eu pudesse ver seu olhar apaixonado e inocente de um dia. Queria que eu fosse a linha, e você o linho, pra sua vida bordar na minha. E fosse reaparecendo aos poucos nosso amor.
Sonho acabou, é hora de acordar.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

balanço

Em 2012, ganhei um balanço embaixo de um Mulungu. Tomei divinos banhos de mar, ganhei um amor com cachinhos de anjo embrulhado pra presente. Me dei umas quantas viagens: India, Inglaterra, Itália... Ninguém que eu amo teve doença grave nem sofrimentos profundos, ninguém que eu amo morreu (nem de morte morrida, nem de morte figurada) - e também não consegui "matar" quem eu não gosto muito... mas tudo bem, 2013 tá aí pra perdoar!!

Fui eu quem deu muito trabalho em 2012. Achei que não ia sobreviver a este ano. Houve dias tão amargos, tão azedos, tão cinzas que eu quase acreditei que era o fim do mundo chegando. Mas o santo é forte, a ajuda vem de todos os lados, e quando você menos espera, acorda com o céu azul. 
Agora, não sei o que me espera. Contrariando todas as tradições, não fiz listinha de desejos, não usei calcinha nova, não pulei sete ondinhas, não fiquei muito doida nem amanheci o dia na praia empanada de areia. 
Só pedi um ano mais tranquilo. 
Não sei o que me espera, mas tenho certeza de que será melhor do que o foi.


quinta-feira, 19 de abril de 2012

ahimsa

Meu primeiro dia em Rishikesh foi um caos, como nos outros lugares em que cheguei - ate ai nenhuma novidade. Mas aqui fiquei com raiva, porque as ruas sao um grande mercado de espiritualidade, felicidade, bem estar, conexao com o cosmos. Ah tah (pensei), agora tudo faz sentido: atravessei dois oceanos pra comprar um cedezinho de mantras, tomar uns milagrosos remedinhos ayurvedicos e alcancar a iluminacao!
Primeiro (e totalmente paradoxal): eu nao entendo como pode haver tantos iluminados num lugar tao caotico, barulhento, sujo, desrespeitoso, consumista.
Segundo: o que eu vim fazer aqui?!?! (de novo!).
Encontrei um oasis no meio de toda essa zona e resolvi mergulhar - que saudades de mergulhar...Entao ate hoje, esta foi uma viagem rica como qualquer outra. Agora passou a ser uma viagem para dentro, acho que eh isso que a India tem de melhor para oferecer. Se tem uma coisa que eu gosto de fazer eh viajar, e posso dizer que ja embarquei em algumas boas viagens pra dentro. Sei que o caminho eh arduo. Doi pra caramba.
Nunca respirei tanto. Passo pelo menos 4 horas do meu dia observando como respiro, e quanto, e onde. Respirar doi: eh abrir espaco, regar o coracao, ouvir a musica do corpo. Eh encontrar os nos e desata-los na marra, respirando.
O corpo eh o que mais reclama. Tudo doi, porque a minha mente se acha muito esperta e ainda nao aprendeu a respeitar os meus limites. Ela sempre quer o otimo, mas a perfeicao eh violenta, ela eh agressiva e tola, como qualquer vicio. Entao estou aqui, como um bebe, aprendendo a respirar e a praticar ahimsa comigo mesma. Ahimsa significa "nao violencia" e eh um dos principios que regem o yoga. Estou aqui pra aprender que eh comigo mesma, antes de tudo e principalmente, que tenho que praticar ahimsa.

terça-feira, 13 de março de 2012

change the world

Porque vim não sei. Trouxe quase nada. Livros suficientes para o tempo pretendido, bastante creme hidratante e meu inseparável mat da yoga. Cheguei já pensando em voltar, mas não sei bem o que aconteceu, nem quando, nem como. Fui ficando... e lá se foi um ano fabuloso de encanto, beleza, muito mais felicidades do que dores. Um ano privilegiado de crescimento e amores. O que Noronha representa agora? Arrisco: os dias mais felizes da minha vida até hoje. Porque plenos por dentro, porque de auto conhecimento profundo, de encontro comigo mesma, de sol e lua ao mesmo tempo num céu infinito. Onde a lindeza é proporcional à aberração, onde o azul brilhante pode se transformar no breu profundo num piscar de olhos, exercita-se o desapego em igual medida ao apego máximo. Na tentativa de afinar a corda, estica-se até sua tensão-limite. Os insights são diários. E vive-se tudo com uma intensidade só suportável por mentes muito insanas como a minha. Então, nestes últimos dias de intensidade quase insuportável, tento encontrar espaço para organizar sentimentos contraditórios: necessidade louca de partir + vontade louca de ficar. Saudades já do que nem passou ainda. Saudades de tudo que não fiz, e do que fiz, de quem encontrei, e de quem só conheci, e também de quem deixei de conhecer por preconceito ou desamor. Dentre tantas mudas germinadas e plantadas, levo comigo a sementinha da mudança, mais forte do que nunca. Mudança de mim pro mundo, confiança de que o melhor ainda está por vir e de que ainda vou dizer muitas vezes - como já arrisquei dizer aqui: estes são os dias mais felizes da minha vida até hoje.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

como é bom voltar a ler clarice

"(...) Porque eu me imaginava mais forte. Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que amaria - e não o que é. É porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele. É também porque eu me ofendo à toa. É porque talvez eu precise que me digam com brutalidade, pois sou muito teimosa (...)".

[Clarice Lispector]
in Felicidade Clandestina - Perdoando Deus

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

insônia.noite2

A sala de espera do doctor era desconfortável. Tipo muito. E o doctor sempre atrasava. Tipo muito. Nunca entendi como um ortopedista que atrasa muito podia ter sofás tão desconfortáveis e anti-ergonômicos. Enfim, ele realmente não se importava com isso. Ficávamos lá afundados horas (esperando). Um dia, ele atrasou tanto que eu terminei de ler os textos da pós, o livro que eu tinha levado e já tinha folheado todas as Caras disponíveis. Comecei a arrancar as folhas coloridas da minha agenda e fiz trinta barquinhos de presente pra ele. Quando entrei no consultório, mão cheia de barquinhos coloridos de tamanhos variados, o doctor sorriu do fundo d'alma - acho que ele nunca teve uma paciente excêntrica que fez barquinhos de papel na sala de espera e ainda entrou sorrindo "olha o que eu trouxe de presente pra você!!".

O doctor atrasava porque não tinha pressa em atender. Ele ouvia atentamente minha história de vida, me olhando nos olhos e anotando de vez em quando. Estava interessado em mim, nos porquês das minhas dores. Pediu uma bateria de exames, me revirou do avesso. Entrei naquela máquina de fotografar o cérebro, em outras tantas que detalharam todos os ossinhos do meu corpo, visitei vários laboratórios da cidade. E esperei muito na sala desconfortável. No dia do veredito, ele não usou arrodeios: "querida, seus exames estão perfeitamente normais. Clinicamente, você não tem nada". "Como assim, não tenho nada??? Tenho sim! Eu sinto dores terríveis no meu corpo desde criança, tenho enxaquecas, dores nas articulações, minhas costas parecem as de uma velha de 80 anos.... pelo amor de deus, me fala que eu tenho alguma coisa, qualquer coisa, dessas que dê pra abrir e tirar e depois costurar de novo?".

Não teve jeito.

Nesse dia, o doctor conseguiu arrancar lágrimas de mim e me olhou calado. Perdi 8 meses da vida investigando meu DNA pra descobrir que minhas dores tinham uma raiz muito elementar: minhas emoções. E eu chorava porque no fundo já sabia - só que a solução era um tantinho mais complexa do que deitar numa mesa cirúrgica, cortar e costurar. E eu não sabia nem por onde começar.

Já tinha feito tudo o que podia, experimentado todas as técnicas, de agulhas a ginásticas orgânicas, terapias de vários tipos, até remédios que me deixavam doidona. O que fazer a seguir? mudar de cidade, de emprego, de namorado, de vida?

No pain, no gain, dizia um amigo meu. Custei a acreditar, mas acho que ele tem razão. A dor é uma grande professora. Física, em última instância. E cada vez que essas dores horríveis voltam, me bate um pânico, porque dói de verdade. Mas aí eu percebo que é só porque ainda tenho muito o que aprender.
Sorte que agora eu já comecei.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

algo(s) sobre mim

De manhã eu gosto de dormir. Muito. E até tarde. E quando acordo, adoro ficar na cama me espeguiçando e vendo as cores do dia entrar pela cortina florida do quarto. Gosto de comer bem, sou vegetariana torta e prefiro alimentos saudáveis, sempre. Acredito em Deus e em todas as energias que nos cercam, que nos fazem sentir vivos: nada é por acaso, tudo tem sua razão de ser. Sou intensa em tudo que faço. Gosto de banhos de chuva, conversas difíceis e música instrumental. Adoro o verão, mas detesto ar condicionado.
...
Talvez, com um olhar otimista, sejamos apenas complementares.