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sexta-feira, 15 de setembro de 2017

era ela, era eu

Era uma tarde qualquer. Ela entrou no vagão, não reparei bem em qual estação. Logo me chamou atenção sua barriga empinada, 8 meses, talvez mais. Linda. De relance, me lembrei da minha saudosa gravidez. Fitei aquele barrigão por alguns instantes, cheguei até a sorrir. Realmente estar grávida é um estado de graça - pensei. 

Então olhei para ela toda. Morena, bonita, altiva. Romantizei naquela aparência a felicidade daquela mulher. Mas então percebi que sob os óculos escuros escorria uma lágima. E depois outra. Meu coração apertou. Me levantei e fui me esgueirando por entre os passageiros distraídos. Cheguei ao seu lado, muito próxima mesmo, e a abracei. Sem pedir licença, simplesmente a abracei. 

Como quem estava esperando aquele abraço, ela retribuiu. E soluçou. 

- Vamos descer na próxima estação para conversar um pouco?
Ela acenou que sim com a cabeça. 

Descemos do trem juntas. Ela me agradeceu. E nos abraçamos mais. Janaina estava com 33 semanas. Seu choro angustiado me dizia muito mais do que qualquer história que ela pudesse me contar. Eu sentia que ali havia uma solidão conhecida.

- Sabe, o pai do meu filho... ele é uma boa pessoa, mas ele não entende o que está acontecendo. Ele me faz promessas vazias. Ele não me ajuda em nada. Como estou cansada, como estou cansada! Eu estou tão feliz, mas tão cansada. E como vai ser quando o neném nascer?

Meu coração já pulsava na garganta. "Sim, querida, sim. Te entendo", eu dizia. Janaina era, como eu, vítima de um abandono gestacional. E olhando bem firme dentro de seus olhos falei: "Presta atenção: agora é você e o bebê! Você não pode contar com esse cara pra nada. Não fique nesta ilusão". 

Foi um baque pra ela. Como uma desconhecida no metrô me abraça, me consola, me acolhe e me diz algo tão duro assim? Falei do meu sofrimento, de como o superei, de como é bom ter um filho companheiro. Ela me ouviu. Silenciamos. Seus olhos já estavam mais serenos e muito agradecidos. 

- Muito obrigada. Você mudou meu dia. Na verdade, você mudou muito mais que o meu dia. 

Nos abraçamos de novo em despedida. Janaina entrou no trem. Eu fiquei ali, desaguando toda a dor daquele encontro de cura. E depois subi as escadas, com um ar de dignidade que há muito tempo não sentia.

Que nós mulheres possamos nos unir e nos ajudar, com coragem, sempre e mais.

E que a gente entenda que não dá pra abraçar o mundo.
Mas dá pra abraçar algumas pessoas e fazer a diferença. 
Clarissa Corrêa



domingo, 18 de agosto de 2013

engano

Era pra ter sido assim:

CENA 1 - EXTERIOR/ MANHÃ ENSOLARADA

ELA dirige um buggy. Cabelos ao vento, olhar distraído, vê ELE andando a pé. Encosta o carro.

- Oi, tudo bem? tá indo pra onde?
- Oi, tudo!! To de folga, e tu?
- Entra aí, to indo pra praia do Leão. Quer ir?
- Ah, valeu, tenho um compromisso, não vai dar.
- Beleza, a gente se encontra por aí então...
- Até, aproveita!
- Tchau.

FADE OUT.

domingo, 14 de julho de 2013

velhos escritos

Ler emails antigos é como abrir aquele baú cheio de memórias, é uma alucinante viagem ao passado, recriando cenas, cores, sorrisos e lágrimas. Lembrei de pessoas de quem já havia esquecido - e decidi que quero retomar contato com algumas delas. Percebi que umas passaram, mas que sempre houve alguma troca válida nessa passagem. Senti que outras nunca vão passar, por mais passado que sejam. Li sobre momentos difíceis, dores de amor nem se fala, sarcasmo e ironia fina, mil projetos começados, outros tantos realizados, outros mil que ficaram só na ideia mesmo. Velhos escritos me atualizam, me despertam pras coisas que empreendi com brilho, garra e amor. Quero sentir isso de novo e agora de forma mais inteira, não por simples experimento, mas por convicção. Agora que sou dois para sempre.


segunda-feira, 29 de novembro de 2010

alento

Não há canto da minha casa que eu não conheça. Já chorei em muitos de seus cantos, encolhida, ferida, esparramada. Eu sorrio muito, mas choro muito também, numa tentativa de me libertar: cada tanto que choro é um pouco de alforria que ganho. Hoje fechei a porta, sapatos nas mãos, tudo ia bem. Mas não aguentei a intensidade. Não aguentei saber que posso distinguir seu timbre em meio a tantas vozes, que ainda me move a tua presença. E que ainda ganhas minhas lágrimas. Sapatos ao chão, costas escorregando pela porta, até chegar ao chão num choro convulsivo. Já não sei teu gosto, teu cheiro me é estranho, mas tudo que guardo de ti são lembranças agradáveis. De alguma forma bizarra ainda estás em mim, num tom de desespero que te é peculiar.

Eu só desejo, com estas lágrimas, te expulsar definitivamente e me libertar (definitivamente).

domingo, 4 de julho de 2010

dora

Hoje o almoço de domingo em família contou com um membro sui generis. Ela foi "adotada" pela minha vó Marina, lá nos idos anos de 1983, quando começou a trabalhar em sua casa como empregrada doméstica. Eu tinha uns 2 anos de idade. Minha nonna, com seu português mal ajambrado, tentava ensinar àquela então jovem menina do interior de Minas Gerais alguma palavra que fizesse sentido, a assinatura do próprio nome, ou a contar o dinheiro do paozinho francês. De pouco adiantou: Dora permaneceu quase completamente analfabeta. Mas passou a considerar a minha avó como mãe, e talvez tenha sofrido mais do que todos nós quando ela se foi, em 1992. Acompanhou de perto o câncer da sua mãe de adoção, suas idas e vindas do hospital, cuidou dela como uma filha devotada. Me viu crescer e nutriu por mim o amor de uma irmã mais velha. E nunca perdemos o contato. Para ela, eu continuo sendo a Nina, aquela menininha de 3 anos. Aos meus olhos, ela não envelhece, apesar de seus 51.
Só que Dora parou no tempo. Com sua voz de criança, ela fala da minha avó no presente, como se ela ainda estivesse viva, e sua mente oscila entre a racionalidade lúcida e o seu mundo de palavras inventadas. Hoje por exemplo, ela disse que a atual patroa quebrou a "veícula", querendo dizer "clavícola". Também tentou explicar o que ela chama de "dinheiro grudado" - uma nota de R$ 20,00 que na verdade são duas de R$ 10,00 grudadas. Será isso?!? Ela começou a ficar nervosa tentando se explicar, então achei melhor entender assim...
Este mundo é muito confuso pra ela. Não é loucura, é um "mundo-dorado" todo particular, misto de ingenuidade infantil e manias de uma pessoa bem velhinha.

Os domingos ficam muito mais genuinos e generosos quando ela está por perto.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

on the road

Recebi hoje do Gui por email e gostei muito.

"Eu só confio nas pessoas loucas, aquelas que são loucas pra viver, loucas para falar, loucas para serem salvas, desejosas de tudo ao mesmo tempo, que nunca bocejam ou dizem uma coisa corriqueira, mas queimam, queimam, queimam, como fabulosas velas amarelas romanas explodindo como aranhas através das estrelas".
[Kerouac, On the road]

Gostei porque concordo - eu só confio nos loucos pela vida. Mais do que só confiar neles, só eles me apaixonam. Gostei também porque eu sou assim: queimo, queimo, queimo, até explodir através das estrelas. E se não for assim, não sou eu. Um pouco de loucura e muita autenticidade.

De vez em quando, eu tenho a sensação de que você nunca passa(rá). Já faz tanto tempo e tudo parece ontem, memórias tão malditamente frescas... me lembrei de quando assistimos ao filme sobre o kerouac, poeta do submundo. Foi no sitio da Pauli, naquele fim-de-semana-felicidade-sem-fim. Não raro me refiro a você como o grande amor da minha vida. Nem sei mais se isso é verdade, ou se eu me acostumei a esta ideia. Talvez eu devesse parar de dizer isso, quem sabe me esqueceria desse amor que um dia existiu forte como um carvalho.

Quem sabe eu me esqueceria de que te amei porque você é exatamente esse: louco pra viver, louco para falar, louco para ser salvo, desejoso de tudo ao mesmo tempo, que nunca boceja ou diz uma coisa corriqueira, mas queima, queima, queima, como fabulosas velas amarelas romanas explodindo como aranhas através das estrelas.

terça-feira, 9 de março de 2010

pirilampo

Cada vez que vejo um vaga-lume volto um pouco à minha infância. Sinto o perfume fresco do bosque de ciprestes na casa da tia Emilia, na Itália. Nas noites de verão, aquele bosque misterioso e imenso para mim, tão pequenina, ficava carpetado de vaga-lumes brilhantes. Apagávamos as luzes para contá-los na escuridão. Era diversão garantida.
O grande evento, porém, era capturar esses pequenos insetos das bundinhas brilhantes e colocá-los dentro de copos virados de cabeça pra baixo sobre a mesa. Então era hora de ir dormir: durante a noite, o vaga-lume do copinho magicamente se transformaria numa moeda de 500 liras, que eu encontraria na manhã segunite, numa felicidade sem fim.
Obviamente eu juntava 20 ou 30 desses pobres bichinhos e pegava todos os copos da casa para dispô-los sobre a mesa do jardim. Alguns fugiam pelas frestas da madeira, e lá ia eu de novo pegá-los para ganhar minha moedinha.
E quando eu ia pra cama, minha insubstituível tia mais querida do mundo - a tia mais perfeita que alguém poderia sonhar ter - caçava todas as moedas disponíveis nas carteiras do meu tio, dos primos, dos amigos que jantavam lá, para que nenhum copo ficasse vazio, e finalmente libertava os pirilampos para continuarem brilhando na noite quente.

Disfarço meu pranto ao me lembrar desses momentos impagáveis - e desejo secretamente voltar a ser criança.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

o corpo padece

quando a alma fica asfixiada. Quando a energia fica estagnada. Dores, dores por todo lado, que começam no centro do peito, se estendem pelos braços, amarram as costas em uma camisa de força da qual parece impossível libertar-se. A cabeça lateja, forte, explodindo por dentro toda a raiva, todo o medo, todo o abandono, todo o cansaço. Os joelhos tremem, falhando ao sustentar o peso de olhos inchados. Uma incrível sensação de fragilidade, incompreensão e solidão se apossam do meu corpo. A dor causa ânsia, me sinto como uma vaca, regurgitando o que nunca foi engolido.
Neste estado de semi-vida, à beira de um desmaio, disco teu número absolutamente sem querer. Noutro dia mesmo, andando na rua, me peguei tentando relembrar teu número e fiquei feliz ao perceber que o havia esquecido. E então, nesse momento de quase inconsciência, ele vem naturalmente, como se meus dedos o discassem todos os dias. Como se te pedir ajuda ou resgate ainda fosse uma possibilidade.
Toca. Duas vezes. De repente, atino para o que havia feito e, em um estalo, antes de te dar a chance de atender, antes de me dar a chance de te explicar que havia sido um ato completamente inconsciente, antes de criar uma situação constrangedora de "bom, já que você ligou, me conte como vai a vida, o que tem feito? olha, desculpe mesmo ter ligado, foi sem querer (...)", antes de tudo isso, meu dedo aperta o gancho do telefone. Suspiro.
E então ligo para o número certo.
Para que o resgate chegue. O mais rápido possível.

domingo, 18 de outubro de 2009

quadros

Subject: Coração
Date: Wed, 27 Feb 2008 04:34:11

Obrigada por ter me ajudado a pendurar os quadros: ficaram lindos! Há pequenas coisas que não se esquecem, cenas que nunca saem da nossa cabeça. Acho que uma delas é você soltando o parafuso e, ao tentar encaixar o quadro na parede e não sabendo onde colocar a chave de fenda, encaixou-a entre os dentes, com seu jeito frenético e desajeitado. Pequenos fragmentos que, sem razão, não se esquecem.
Espero poder te ajudar a pendurar os seus quadros também. E se eu não ajudar, por qualquer motivo que seja, gostaria que soubesse que eu gostaria de ter ajudado.
Um beijo, Beta

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

again, again, again

Eu, pra variar, choramingava por um homem qualquer. Na sala de estar da nossa casa tipicamente inglesa, sentadas no chão, rodeadas por gatos, bebíamos Bacardi como água. A única regra era beber o suficiente para esquecer. Lá fora, frio. Do lado de dentro, aconchego. Talvez fosse a nossa latinidade ou o simples fato de nossos corações conseguirem conversar sem ressalvas. O cd do Sting que eu tinha acabado de ganhar da Pal comemorava nossa pré-ressaca. A faixa 01 "Brand New Day" foi a trilha daquela noite. Lembro de pedir inúmeras vezes pra ela voltar pra aquela faixa com aquela cadência de quem já passou do ponto: "agaaain, agaaain, agaaaain number óooone". E ela se levantava, cambaleando até o som, voltava para a faixa um. Acho que ela fez isso umas 25 vezes, até dobrarmos de dar tanta risada e não parar de falar "agaaaain, agaaaaain". Mesmo sem a música ter acabado, ela ia lá e apertava o botaozinho. E ríamos. Muito.
Coisa de bêbadas.
"My angel", foi como passei a chamá-la depois daquela noite. Ela me salvou de mais uma dor de cotovelo, cuidou da minha ressaca, e ainda se encarregou de aquecer outras geladas noitadas londrinas, com ideias mirabolantes, a boca sempre pronta pra um sorriso.
Faz 10 anos.
Tempos depois, nos encontramos em Buenos Aires. Recém-casada, orgulhosa de ser dona de casa, mulher trabalhadora, esposa, mas ainda conservava aquela menina traquinas de olhos grandes e brilhantes. Fez uma festa pra mim com empanadas, me apresentou seus amigos, seus pais, seus sonhos. Tomamos um porre rememorando os velhos tempos, ouvimos "Brand New Day", rimos muito. Choramos ao nos despedir.
Em seguida, a filha. A separação do marido.
"Às vezes a vida precisa de um 'agaaaaain'!", ela disse.
.
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Hoje percebi que não devia ter ficado tanto tempo distante de você.
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brand new day

How many of you people out there
Been hurt in some kind of love affair
And how many times do you swear that you'll never love again?

How many lonely, sleepless nights
How many lies, how many fights
And why would you want to put yourself through all that again?

"Love is pain," I hear you say
Love has a cruel and bitter way
Of paying you back for all the faith you ever had in your brain

How could it be that what you need the most
Can leave you feeling just like a ghost?
You never want to feel so sad and lost again

One day you could be looking
Through an old book in rainy weather
You see a picture of her smiling at you
When you were still together
You could be walking down the street
And who should you chance to meet
But that same old smile that you've been thinking of all day

You can turn the clock to zero, honey
I'll sell the stock, we'll spend all the money
We're starting up a brand new day

Turn the clock all the way back
I wonder if she'll take me back
I'm thinking in a brand new way

Turn the clock to zero, sister
You'll never know how much I missed her
Starting up a brand new day

Turn the clock to zero, boss
The river's wide, we'll swim across
Started up a brand new day

Sting

domingo, 23 de agosto de 2009

a vida é um prato feito

Vou contar um segredo: um dia qualquer, depois do ocorrido, decidi levar flores pra ela. Eu lembrei da Emilia, de como a gente se gostava e se dava bem. Não conseguimos nos despedir, e ela (de raiva) deu fim numa caixa de roupas que eu deixei na casa dela, devia ter uns 2.000 euros de roupas semi-novas lá. Talvez, se eu tivesse tido a coragem de ligar, isso não teria acontecido - mas isso é outra história.
Nesse dia, então, decidi levar orquídeas. A tristeza me consumia, mas me arrumei bem bonita, passei aquele lápis azul que todo mundo elogia quando eu passo. Coloquei meus óculos de sol novos, apesar do céu nublado. Estava um dia abafado típico de dezembro, o céu baixo, quase encostando nas nossas cabeças. Fui dirigindo devagar pela Radial Leste, chorando. Ouvia Esperanza Spalding "...you always wanted something more from my body and said you needed something more from my loving, but all you got was me and that´s all that I can be, I´m sorry if it let you down...", acho que inconscientemente guardava a esperança secreta de que algo mágico pudesse acontecer naquele trajeto, você apareceria parado no farol ao meu lado ou encontraria teu carro na porta da casa dela, uma visita inesperada, uma coincidência feliz. Mas antes de chegar, comecei a tremer. Eu confiava nela, sabia que iria ser um segredo só nosso, ela jamais te contaria. Mesmo assim, estava insegura. De maneira nenhuma estava fazendo aquilo para você saber, mas você não iria acreditar se descobrisse.
Toquei a campainha. Ela saiu secando as mãos num pano de pratos velho. Me olhou com espanto. "Oi!. Tá tudo bem???", perguntou.
"Está. Vim te fazer uma visita...", disse eu, já com a voz embargada.
Ela abriu o portão. Me beijou. "Entra. Quer um café?".
"Não, obrigada. Tô meio apressada... Na verdade, vim trabalhar pra esses lados hoje e passei pra te trazer essas flores. E pra despedir de você".
"Despedir?? Por que? Você vai viajar?", perguntou.
"Não sei ainda. Talvez vá. Talvez fique. Mas eu vim pra te dizer que gosto muito de você. Precisava te dizer isso, já que não vamos mais nos ver", despejei.
"Minha filha, a gente nunca sabe de nada. Agredeço as flores, são lindas. Mas a gente se vê por aí, a vida dá voltas".
Por debaixo dos meus grandes óculos escorria uma lágrima. Ela, durona, não foi capaz de me dar um abraço e de dizer que tudo ia ficar bem. Mas fez o que pôde. Ofereceu novamente um café fresquinho para tentar desatar nós e, na sua simplicidade, disse uma coisa que nunca esqueci: "A vida não se engana, Beta. Ela é um prato feito. A gente é que tem mania de não querer comer o que tá no prato. A gente quer que as coisas sejam como a gente quer, mas não é assim não. Come e pronto".
Ao sair daquela casinha com jeito de interior, levei o cheiro do café coado na hora. Reparei no cacho de orquídeas, sobressalente em meio às outras plantas de que ela gostava. Imaginei você, que ao passar por aquela varanda quando fosse, certamente iria reparar nas flores novas. Um rastro meu pra você.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

yusa ou martnalia

- Sabe o que a gente faz quando se dá conta de que ama um amor inacabável, inevitável, intolerável?
Ela balançou a cabeça: "Não, não sei. O que a gente faz?".
- Eu também não sei...
As duas gargalharam.
- Talvez a gente deva continuar amando esse amor. Seria um crime tentar evitá-lo, ou substituí-lo. Na verdade não vai adiantar... Ele sempre vai estar.
- Talvez a gente deva cantar. Eu me sinto muito melhor quando canto.
- Depende do que você vai cantar...
- É... se eu mando: 'Quero ficar no teu corpo feito tatuagem que é pra te dar coragem pra seguir viagem quando a noite veeeem (...). E nos músculos exááááustos do teu braço, repousar frouxa, murcha, farta, morta de cansaço...' aí é foda... eu começo a lembrar daquela fantástica que ele tinha no braço esquerdo. Eu adorava. Eu dormia em cima dela, perfeita, milimetricamente tatuada sobre o biceps. ai ai, é de matar!
- Mas e essa? 'Vai sair da minha vida, você vai ter que mudar da minha casa, de atitude, chega! Ainda mais agora que eu vou viajar prá me livrar de você, não quero mais ser seu amigo, nem inimigo, nada!...'
- Nada...
- Vai viajar, nêga. Depois a gente vê.

terça-feira, 16 de junho de 2009

i told you i was trouble

Lembra quando a gente foi pro sítio da paulinha ouvindo amy winehouse?!?
'Cause you're my fella, my guy...
Hoje me deu saudades.
cara, tô precisando me apaixonar.
U-R-G-E-N-T-E!

domingo, 14 de junho de 2009

voltando pra casa

Essa semana foi uma grande abstração na minha vida. Participei do 23 Congresso internacional do ISPA (International Society for the Performing Arts), evento que reuniu mais de 300 gestores culturais, artistas e produtroes de 23 países aqui em São Paulo. Conheci muita gente bacana, passei por experiências únicas, fiz contatos que serão uteis para o meu trabalho, outros certamente essenciais para a vida. A festa de encerramento foi na Sala São Paulo. Chiquérrima e super bem cuidada, como foi todo o congresso, que ocorreu em diversos locais, desde o Museu de Arte de São Paulo, passando pelo Parque da Água Branca, até o CEU Alvarenga, zona sul da cidade. Comi e bebi maravilhosamente bem, estive ao lado da Fernanda Montenegro, jantei com Benson Puah, dancei até a perna pedir arrego, dei muita risada.
...
E o que causa em mim (quase sempre) o desconforto repentino?

Encontrei com a Andreia Dias, da Banda Glória, enquanto ambas atacávamos a mesa de doces: - Andreia, oi. Queria te dizer que você - quando ainda tinha cabelos compridos - fazia minhas noites felizes no União Fraterna. Você canta que é uma delícia!
Ela sorriu amarelo, colocando na boca um bocado de morango com suspiros. Suspirou.
Eu perguntei: - Você tá feliz? (que ideia, perguntar isso bêbada às 2h00 da manhã pra uma cantora...)
- Mais ou menos... - respondeu ela. - É engraçado, agora que a banda tá bem, minha carreira solo está em destaque, entra muito pouca grana. Isso dá um bode...
Seguimos conversando. Confessei que, naquelas noites de 2005, enquanto ela cantava sacolejando seu vestido vermelho, sua música embalava minha dança apaixonada com um homem muito importante na minha vida.
- Que bom! (sorriso menos amarelo). Vocês ainda estão juntos?
- Não... mas ele foi um grande amor.
- ah, então, é isso que importa!

Depois disso, ela voltou ao palco, eu à pista, mas tudo ficou meio sem sentido. Passei a semana discutindo como viabilizar e fazer circular bens culturais, em como facilitar seu acesso à população, formar platéias, e a cantora afirma que simplesmente não consegue tirar seu ganha pão do seu ofício.
Fui para o canto da pista de dança e fiquei observando, pela vidraça, a Estação Julio Prestes. Duas moças arrastavam seus rodos limpando o chão e os trens parados na plataforma. Dois seguranças se encolhiam dentro de seus casacos, buscando se proteger do frio. Eu, do lado de dentro, ensaiava uns passos de samba e os convidei pra dançar com um sorriso. Eles retribuiram, mas não se moveram. E de repente uma incrível melancolia me invadiu. Olhei pra aquela cena e percebi que nada mudou. Há séculos, há quem dança do lado de cá do vidro e quem, lá fora, nunca entrará na dança. Há séculos que ninguém olha pra isso e nem quer olhar. Há séculos continuamos perpetuando essa lógica. Até quando, meu Deus?!

Hoje [voltando pra casa] desejei ardentemente ser uma daquelas mocinhas que se confessam e guardam dentro de si um pouco de serenidade.
Simone de Beauvoir

sábado, 30 de maio de 2009

stand clear of the closing doors

Pela centésima vez, quiçá, contei a nossa história para um desconhecido: da minha audácia em te pedir em casamento no primeiro encontro, da despedida na esquina da Apinajés na certeza de que nunca mais iríamos nos ver, da nova iorque descoberta por nossos olhos, do calor que fazia naquele quarto, das inúmeras idas à loja do Kevin, das brigas escandalosas, do apaziguamento cinematográfico. Da volta - aeroporto de guarulhos e os malditos tacos de golfe.
Do fim. Da raiva. Do choro. Da dor.

Desta vez, porém, contei também do reencontro. De como é bom poder te ligar quando eu quero, quando você quer, para falarmos nada ou tudo, para descobrirmos finalmente que gostamos do mesmo sabor de pizza e que nossas mães fazem aniversário no mesmo dia. E mesmo numa sexta à noite pra te perguntar: "Que música é essa: lárariri larárirara...?", numa demonstração de sintonia que há bastante tempo não sentia.

Percebi então o quanto essa história foi importante. Agora, à distância, sem dor nem raiva nem paixão, consigo enxergar a quantidade de coisas boas que trouxemos à vida um do outro nessa troca louca e intensa e absurda, os milhares de pedecinhos de mosaicos de generosidade e música que colamos.
E o mais legal: enxerguei o quanto mudamos pra melhor.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Olha: essas andanças da vida são de muito rápida passagem. Faz um tempo quase eterno que não nos vemos. Na verdade não aguentava mais olhar pras tuas camisetas estrategicamente posicionadas num local de fácil pegada no meu armário, para sentir teu cheiro de vez em quando e para que não esquecesse de te devolvê-las caso você aparecesse (surpresa de palhaço) para aquele café da tarde. Então, agora elas moram num cantinho escuro do guarda-roupas, num lugar onde eu não mais as encontro todas as manhãs quando vou pegar um lenço ou um cachecol para me proteger desse frio fajuto.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

feliz aniversário

Andando por essa cidade dura e cinzenta, as árvores floridas de abril me chamam atenção. Me emocionam. Um pingo de tinta no cinza encarpeta o chão com flores marcadas por passos apressados. Chão rosa: uma árvore linda e enorme se ergue na fresta do concreto entre a Consolação e o Minhocão. Há dias a observo, de dia e de noite, de noite e de dia. Hoje, passando a pé ao seu lado, lembrei daquela mesma espécie, "Pata de Vaca", rua fradique coutinho, no teu quintal. A casinha de campo é eterna, com sua grande árvore, exuberantemente florida de presente prá você no dia do teu aniversário.
É incrível como há coisas que vão estar pra sempre na nossa memória.
Feliz aniversário, flor.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

minha cama

Estou com saudades da minha cama. Como ela não há. Ela é muito gostosa, disse hoje depois de horas dirigindo.
A sua também era. Adorava dormir e acordar naquele colchão que escolhemos juntos, acordar grudados, horas intermináveis de nunca levantar. E me lembrei, num sopro, de nós deitados na loja de colchões na teodoro sampaio, olhando para o teto, luzes de neon, achando que fosse pra sempre.