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domingo, 8 de julho de 2018

carta pro filho 4

Estou sendo engolida pela vida e você está crescendo rápido demais. Deixo escapar nas entrelinhas dos dias as frases mágicas que você solta - aquelas bem engraçadas que a gente devia anotar pra rir até 2050... Você fala sem parar. Conta histórias vividas e histórias fantásticas. É uma criança imaginativa, brilhante, solar e comunicativa. E precisa de ouvidos atentos. Busco estar presente, apesar dos deslizes. Uma coisa que não vou dizer jamais é que não aproveitamos juntos a sua infância: quando não estou trabalhando, eu sou quase toda pra você. Não só o tempo e a rotina me engolem, mas sobretudo minha exigência. Em ser a melhor mãe (a maior cagada, eu sei, mas não consigo fazer diferente neste momento). Nesse esforço insano, nessa insistência de querer dar conta de tudo, acaba brotando também o pior de mim. Eu brinco que você deve pensar que eu sou bipolar, ou algo do tipo. Mas não sou, filho. Sou demasiadamente humana, só isso. Te encho de beijos e carinhos e depois quebro o pau. Eu queria que isso fosse mais equilibrado, mas é uma tarefa quase impossível para mim. Então, enquanto busco dentro de mim a paciência nossa de cada dia, observo como somos parecidos para tentar pacificar minha culpa.

Você é superlativo, como eu. Nada é morno pra você. Ou é quente, ou é gelado, ou é maravilhoso, ou tá muito ruim. Queria te dizer que enxergar tons de cinza pode ajudar às vezes, mas não vai adiantar. Você vai aprender isso com a vida (ou não). Você é irado e não leva desaforo pra casa. Você é musical e ama tudo que se relaciona ao ritmo. Você nada em águas profundas, como eu. Você é ligeiro e não perde um detalhe. Está sempre observando com o canto do olho. Tem a percepção aguçada de um aprendiz. Você é por demais sensível - não aquela sensibilidade de quem se machuca e chora. Você sente o clima e transforma em palavras o que não é dito. Você é meio bruxo, filho, e como eu, uma alma velha. Percebo a pureza do seu coração e que os caminhos que estou trilhando com você estão te ajudando a se tornar um homem bom. O que mais eu posso querer da vida?

Eu sinto muito, me perdoe, eu te amo, eu sou muito grata.

  

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

despedida

Eu queria ter tido a chance de me despedir de você. De olhar lá no fundo dos seus olhos para desvendar o que sua alma guarda. Eu queria poder te dar um abraço demorado. Dizer que sinto muito. Sentir seu coração batendo pra ter certeza de que ele não congelou. Eu queria te dizer o quão injusto foi fazer tantos planos e deixar que eles derretessem como gelo no sol. Eu queria ouvir de você que existe outra pessoa, porque só assim essa ruptura covarde, virtual e insensata faria algum sentido.

Eu queria te ver frágil e sensível, sem máscaras.

Queria que se deixasse amar - independente de haver ou não algo entre nós. Eu queria mesmo que você pudesse receber este amor que estou cultivando em mim - não este amor banal, carnal. Amor de Ser Humano. Queria eu também receber seu cuidado. Não este cuidado de homem/mulher: cuidado de Ser Humano. Gente que se cuida porque se importa.

Mas nada mais importa. E não sei se algum dia de fato importou. Hoje acho que tudo não passou de um grande mal entendido. Chego a pensar que aquela manhã ensolarada podia ter amanhecido nublada e chuvosa, assim quiçá nunca teríamos nos cruzado na vida. Mas não há como mudar o que foi. Só há como mudar o que é. Essa dor que me rasga o peito, essa incompreensão, esse vazio que você deixou em mim: isso vai mudar. Hoje.


segunda-feira, 9 de outubro de 2017

é amor

Eu lembro quando te contei que, na faculdade, eu tive uma paixão fulminante que mudou muito minha vida naquele momento - eu ia me casar aos 22, e desisti por causa dessa paixão, que durou três semanas. Nada mais. Nunca mais.

Agora eu me sinto mais ou menos assim: como se você tivesse mudado o rumo da minha vida. Graças a você, estou mergulhando em mim como nunca estive. Era isso que eu queria te falar.

Ainda arrepio ao lembrar, a intensidade não amorna tão facilmente neste corpo.

Ainda não compreendo como viramos fumaça, mas ao mesmo tempo, tudo faz um sentido profundo. 18 fotos. A primeira delas, um clarão branco pra escrevermos uma nova história. Não juntos. Cada um a sua - mas nova.

Estou muito orgulhosa da gente, do passo que demos rumo à felicidade, da escolha que fizemos de viver isso. Um privilégio. Estou muito feliz por me despir e perceber a beleza que se esconde por trás das diferenças - onde mora o grande aprendizado. Apesar de sermos opostos, somos pessoas incríveis fazendo o melhor que podemos.

Honro nossa verdade e nossa entrega. Sempre fomos nós mesmos, nunca outros. Por isso deu tão certo. E quando é uma coisa de verdade é pra sempre. Uma vez, um cara de quem eu gostei muito me disse: "Se for só pra você me ensinar a lixar as unhas, já vai ter valido à pena". É isso. 


Eu sinto muito pois sua dor é também a minha dor.

Me perdoe por te julgar.

Eu te amo por ser exatamente quem você é.

Eu sou grata por nossos caminhos terem se cruzado.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

era ela, era eu

Era uma tarde qualquer. Ela entrou no vagão, não reparei bem em qual estação. Logo me chamou atenção sua barriga empinada, 8 meses, talvez mais. Linda. De relance, me lembrei da minha saudosa gravidez. Fitei aquele barrigão por alguns instantes, cheguei até a sorrir. Realmente estar grávida é um estado de graça - pensei. 

Então olhei para ela toda. Morena, bonita, altiva. Romantizei naquela aparência a felicidade daquela mulher. Mas então percebi que sob os óculos escuros escorria uma lágima. E depois outra. Meu coração apertou. Me levantei e fui me esgueirando por entre os passageiros distraídos. Cheguei ao seu lado, muito próxima mesmo, e a abracei. Sem pedir licença, simplesmente a abracei. 

Como quem estava esperando aquele abraço, ela retribuiu. E soluçou. 

- Vamos descer na próxima estação para conversar um pouco?
Ela acenou que sim com a cabeça. 

Descemos do trem juntas. Ela me agradeceu. E nos abraçamos mais. Janaina estava com 33 semanas. Seu choro angustiado me dizia muito mais do que qualquer história que ela pudesse me contar. Eu sentia que ali havia uma solidão conhecida.

- Sabe, o pai do meu filho... ele é uma boa pessoa, mas ele não entende o que está acontecendo. Ele me faz promessas vazias. Ele não me ajuda em nada. Como estou cansada, como estou cansada! Eu estou tão feliz, mas tão cansada. E como vai ser quando o neném nascer?

Meu coração já pulsava na garganta. "Sim, querida, sim. Te entendo", eu dizia. Janaina era, como eu, vítima de um abandono gestacional. E olhando bem firme dentro de seus olhos falei: "Presta atenção: agora é você e o bebê! Você não pode contar com esse cara pra nada. Não fique nesta ilusão". 

Foi um baque pra ela. Como uma desconhecida no metrô me abraça, me consola, me acolhe e me diz algo tão duro assim? Falei do meu sofrimento, de como o superei, de como é bom ter um filho companheiro. Ela me ouviu. Silenciamos. Seus olhos já estavam mais serenos e muito agradecidos. 

- Muito obrigada. Você mudou meu dia. Na verdade, você mudou muito mais que o meu dia. 

Nos abraçamos de novo em despedida. Janaina entrou no trem. Eu fiquei ali, desaguando toda a dor daquele encontro de cura. E depois subi as escadas, com um ar de dignidade que há muito tempo não sentia.

Que nós mulheres possamos nos unir e nos ajudar, com coragem, sempre e mais.

E que a gente entenda que não dá pra abraçar o mundo.
Mas dá pra abraçar algumas pessoas e fazer a diferença. 
Clarissa Corrêa



segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Comunica(dor)

Estou com muita dor. Pensei que talvez não fosse um bom momento para escrever. Mas é das dores que nascem as curas, e está sendo lindo ver isso brotar do meu corpo, da minha garganta. Arde, arranha, dói, inflamada como um vulcão.

A garganta, canal da minha comunicação: ao mesmo tempo minha fortaleza e o lugar onde me sinto tão vulnerável. Se lanço flechas, ferem. Se não lanço, o silêncio fere a mim. Profundamente. A não-resposta. A garganta (sempre ela) pigarreia para não deixar sair. Fingir não se importar nunca funcionou pra me apaziguar. Não guardo mágoas, mas as migalhas - aquelas que insistimos em não varrer - incomodam.

Já lancei muitas flechas. Já feri muito. Hoje prefiro resguardar as relações. Aguardo com paciência a sabedoria do tempo para acessar o que não falei. E o que devia ter falado. Será que devia ter falado? O que é de fato relevante? Aguardo e guardo ainda a um alto custo. Porque eu gosto mesmo é de varrer migalhas - e não para debaixo do tapete. Gosto de tudo "bem limpinho e arrumadinho", como diria alguém que eu conheço. Não deixo pra lá. Sabe-se lá onde é este "pra lá", vai que ele aparece de novo aqui - e via de regra aparece.

Então firmo aqui essa comunicação amorosa, diretamente do coração. O que eu tenho pra te falar vai te trazer curas. O que eu ouvir de você também. Vamos abrir este espaço saudável de crescimento e verdade. Verdade sempre.



segunda-feira, 15 de julho de 2013

o cravo brigou com a rosa

Desde que me descobri  grávida, todas as manhãs acordo cantando.
"Bom dia começa com alegria!
Bom dia começa com amooooor!
O sol a brilhar, passarinhos a voar,
Bom dia, bom dia, bom diaaaaa!"

A terceira estrofe é sempre mutante: se está chovendo eu substituo por "a chuva a cair, as folhinhas a reluzir", se estou indo trabalhar: "mamãe vai trabalhar, ligeirinha a caminhar"... e assim por diante, ao gosto da inspiração do dia.

Antonio já gosta muito de música, também pudera, está no DNA dos pais... Canto muito o hino de Noronha pra ele também, que acho a coisa mais linda, exaltando as belezas da ilha onde ele foi concebido, celebrando as cores do mar e o céu sempre cheio de estrelas...

E tem uma história lendária da minha infância: eu pedia repetidamente (leia-se r-e-p-e-t-i-d-a-m-e-n-t-e!) uma musiquinha do cravo e da rosa. Teve uma viagem de carro que durou 3 horas e meia, e minha mãe foi cantando até o destino final! Toda vez que terminava, eu dizia: "otaveiz!", e dá-lhe a paciência maternal a repetir indefinidamente, quase chorando, a mesma canção.

O que eu me dei conta noutro dia, enquanto cantava pro Antonio, é que a letra é triste pra caramba: o Cravo briga com a Rosa, os dois ficam chateados e depois o cravo fica doente, MORRE, e a rosa chora!
PORRA!!!!! Que desgraça...

Então lá fui eu, inventar uma nova versão:

"O cravo beijou a rosa
Debaixo de uma sacada 
O cravo saiu brilhante
E a rosa apaixonada

O cravo ficou doente
A rosa foi visitar
O cravo ficou contente
E agora vão se casar"


É isso, filho: só desejo alegria e finais felizes pra você!!

domingo, 2 de junho de 2013

Oração da Serenidade


Concedei-me, Senhor, a SERENIDADE necessária para aceitar as coisas que não posso modificar. CORAGEM para modificar aquelas que posso e SABEDORIA para distinguir umas das outras.

terça-feira, 27 de março de 2012

são paulo

Eu amo você. Não, não é porque agora já não mais te habito. Eu sempre tive com você um casamento daqueles que a gente se espanca e se ama com a voracidade dos loucos. Nada saudável, por isso a escolha de me afastar de você. Mas na verdade, sinto que sempre vou te habitar. De alguma forma eu te pertenço. Porque você me oprime e me obriga a refletir sobre a minha condição, porque você me empurra pra frente, me impele aos meus múltiplos movimentos, me cobra resultados. Sua vibração é tão intensa que me assusta. Eu te amo, minha cidade maltratada, mal querida, mal aproveitada. Você acolhe a todos e seu valor salta aos olhos. Graças a tudo que você me deu até hoje, estou preparada para circular por outras vias com passos firmes, apreciar cada paisagem com olhos úmidos de curiosidade. Graças a todo os interesses que você me desperta, a todos os estímulos que me oferece, a todos os encontros e reencontros que nos proporciona, enquanto percorro suas artérias me sinto viva. Obrigada Sampa, até logo e até sempre.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

feliz aniversário

que engraçado: eu não me livro de você. Mesmo se eu for morar no Butão ainda vou encontrar alguém que ouça interessado à história de como a gente se conheceu, que eu te pedi em casamento no primeiro encontro e que você adorou. Por que, convenhamos, qual é a chance de alguém me abordar na rua e perguntar se eu te conheço numa ilha no meio do oceano??? Passam os anos e nossos caminhos voltam a se cruzar, por um motivo ou por outro, a gente se encontra na fila do cinema, ou no meio da noite eu te ligo pra te perguntar... "que música é essa mesmo?". Eu não sei porque isso acontece, você é tipo uma ressaca. Nem sei como ainda sei seu número de telefone decor, acho que deve ser o único no mundo que eu sei decor, mesmo sem discá-lo há anos. Mas eu desconfio que tem amor demais na música que sempre nos uniu, e que talvez a gente tenha se gostado o suficiente pra nunca nos separarmos definitivamente. Não importa quem a gente namore pro resto dos dias, com quem a gente case ou tenha filhos. A gente já foi pra nova iorque e comprou all stars coloridos e pegou o "A train".
Apesar de tudo, eu acho nossa história linda. Fomos passaportes pra sermos pessoas melhores. Feliz aniversário.

domingo, 26 de setembro de 2010

sobre a reciprocidade

Ontem fui ver "Inverno da luz vermelha", de Adam Rapp. Daniela Thomas como sempre arrasando no cenário e Monique Gardeberg na direção, conduzindo muito bem aqueles três jovens atores. O texto é muito perspicaz. Cheio de surrealismos e situações improváveis, mas também tão real que me assustou. É impressionante como o teatro, quando bem feito, traz a vida em toda sua potência: é a sua vida sendo representada no palco e contada por outrém. Isso dá muita energia para dejavus nem sempre desejados. Eis que o psicodrama involuntário trouxe de volta aquela noite almodovariana.

Eu pensava:
Foi tão forte que não era possível que você tivesse sentido diferente. Tinha que ser igualmente intenso, especial, excepcional, incrível para você. Como podia ser só um passatempo, um encontro casual, uma conversa corriqueira de bar? Não! Definitivamente aquele sentimento era recíproco!! Eu batia no peito bradando que eu SABIA, que eu não era uma imbecil, que não podia estar enganada, porque eu SENTIA que você e eu estávamos em uma conexão profunda.

Mas eu estava enganada. E a peça de ontem fez cair a ficha: por mais forte que pareça, nem sempre o que é pra um, é verdadeiro pros dois.
Tá tudo certo.

Eu sou você que se vai no sumidouro do espelho.
Guinga e Aldir Blanc

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

entendi

Finalmente consegui entender porque você me deixou. Já não era sem tempo. Fato é que as coisas realmente levam seu tempo, e é preciso respeitá-lo. E talvez hoje tudo faça sentido e amanhã tudo volte a não fazer. Mas é patente que hoje eu entendi, assim, como quem não está buscando entender nada, o porquê, a razão, o motivo pelo qual você, naquela noite afônica, desistiu do nosso amor, que prometia ser eterno. Há alguns dias admiti minha incapacidade de te perdoar pela crueldade do abandono, pela frieza verborrágica, pelo desamor que de repente te possuiu e me adoentou. Não sei quando vou conseguir te perdoar, espero de coração um dia conseguir superar esse imenso dano. Mas especificamente hoje me sinto reconfortada, porque consegui ENTENDER. E para uma libriana, entender já é meio caminho andado.
Olhando para a mesa ao lado, te vi daqui a 20 anos. Você estava conversando consigo mesmo, como de costume. Inclinava ligeiramente a cabeça para os lados, ponderando seus pensamentos enquanto, sem perder a classe, bebericava e cantarolava sozinho. E foi embora no melhor da festa, como é de seu feitio. Entendi que você, há 20 anos, abdicou desse amor porque, simplesmente, percebeu que tinha objetivos diferentes dos que tentou ter: queria mesmo era levar uma vida de aparências, de coluna social, enquanto por dentro tudo continua podre e mal resolvido, 20 anos depois.
Escolhas.
Te agradeço por ter se afastado. Sei que, por mais duro que possa ter sido, foi a melhor coisa que podia ter feito por mim. Na verdade, foi um ato de amor. E hoje entendi isso. Entendi, sim. E (repito) foi um grande alívio. Mas não sei quando vou poder te perdoar.
Me perdoe por isso.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

eternal sunshine of the spotless mind

me peguei pensando em ligar o computador e encontrar um email teu pedindo desculpas. Desculpas por existir. Desculpas por ter me conhecido, por ter me amado, por ter me compreendido, por ter me apaixonado. E que esse email fosse como um lenço branco e macio passando por cima da minha testa, te levando embora pra sempre.
Para sempre (existe, sim!).