Tô. Tô sim. Melancólica até debaixo d'água. Fui mergulhar cinza, esperando voltar azul, mas lá embaixo a melancolia só tem outro peso, outra densidade, outra cor. Ela continua penetrando, viscosa e opaca. O mar estava inquieto, exigiu concentração. Só depois, navegando de volta ao porto, barco feroz rasgando ondas escuras, me deu tempo de pensar em como a felicidade desaba sobre mim com a mesma intensidade que a tristeza. Altíssimos e baixíssimos, diria sabiamente a Gabi. Tô melancólica porque há 4 dias estou absolutamente desconectada do mundo, sem internet, sem telefone, sem a liberdade de poder me comunicar. Pela primeira vez, me sinto literal: estou ilhada. Tô melancólica porque a saudade dos meus amigos está cortante, falta-nos coragem para transpor a distância. Porque sinto falta repentina de cheiros conhecidos, de deitar no meu futon com a Vitória, fechar a porta de casa e deixar o mundo lá fora.
Hoje eu só queria soltar a cabeça no colo da minha mãe e usufruir do melhor cafuné do mundo.
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
como é bom voltar a ler clarice
"(...) Porque eu me imaginava mais forte. Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que amaria - e não o que é. É porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele. É também porque eu me ofendo à toa. É porque talvez eu precise que me digam com brutalidade, pois sou muito teimosa (...)".
[Clarice Lispector]
in Felicidade Clandestina - Perdoando Deus
[Clarice Lispector]
in Felicidade Clandestina - Perdoando Deus
quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
o que eu mais gosto
O que eu mais gosto daqui não é difícil de dizer. É estranho - pensei: é como dizer qual é a minha música preferida... impossível! ... porque este lugar é um presente diário, são tantas lindezas, tantas sensações boas, realmente é um lugar que te proporciona muitas coisas das quais é fácil gostar muito. Mas a coisa que eu mais gosto, estranhamente, é fácil de dizer. Não é uma praia, não é um bicho, não é uma vista, não é uma pessoa. É um encontro fugaz, sempre inesperado, que te leva pra outro planeta: mini-conversa de troca intensa, que revela tanto sobre a cultura do outro, que pode servir pra você conhecer alguém novo, ou só mesmo pra rever um conhecido e perguntar como foi o dia de hoje. Esse ato tão simples pode, na verdade, mudar a sua vida. Dar carona é um hábito que perdemos porque perdemos a confiança em nós mesmos. É maravilhoso e libertador recuperar essa sensação de confiança: dormir de porta aberta, largar a chave no contato do carro, deixar a vida solta para inspirar. Dar carona é sensacional: é confiar que a essência do homem é pura, que ele não quer se apossar das “suas” coisas, que ele não quer te ferrar, te estuprar, te matar... Por que diabos ele faria isso??? É estranho como desaprendemos sobre nós mesmos desde que nascemos: somos ensinados a ser quem não somos e criamos uma imagem terrível da humanidade.
Numa dessas mini-conversas, um desconhecido se transforma no portador de palavras colocadas em sua boca exatamente para mim. Em breves minutos, minha vida, que andava sombreada, se torna pura luz, como se toda a sensatez tivesse sido despertada, como se um véu, um vento bom, uma mão tivesse passado sobre a minha testa. E noutra ocasião, um casal vira meu guru: me diz (sem saber) o que devo fazer com uma precisão cirúrgica. É uma graça estar receptiva a tantos sinais. Talvez exatamente por saber que o momento vai acabar logo ali, na esquina.
"Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade (...)"
[Clarice Lispector]
Numa dessas mini-conversas, um desconhecido se transforma no portador de palavras colocadas em sua boca exatamente para mim. Em breves minutos, minha vida, que andava sombreada, se torna pura luz, como se toda a sensatez tivesse sido despertada, como se um véu, um vento bom, uma mão tivesse passado sobre a minha testa. E noutra ocasião, um casal vira meu guru: me diz (sem saber) o que devo fazer com uma precisão cirúrgica. É uma graça estar receptiva a tantos sinais. Talvez exatamente por saber que o momento vai acabar logo ali, na esquina.
"Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade (...)"
[Clarice Lispector]
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
soluço
Chove, mas segue seco.
A cada nova chuva, soluço poeira. Ou pó - porque tem cheiro de coisa velha. Daquelas que ficam ali estagnadas, até que alguém resolve tirar do lugar, pra descobrir que não devia ter feito isso. Porque agora há tanto pó pra limpar. Tanto pó pra soluçar. Tanto pó pra espirrar, que nem toda a chuva do mundo faria molhar.
Sinto seco.
Boca seca, olhos secos, coração seco.
Eu não disse que ia chover e que eu ia secar?
A cada nova chuva, soluço poeira. Ou pó - porque tem cheiro de coisa velha. Daquelas que ficam ali estagnadas, até que alguém resolve tirar do lugar, pra descobrir que não devia ter feito isso. Porque agora há tanto pó pra limpar. Tanto pó pra soluçar. Tanto pó pra espirrar, que nem toda a chuva do mundo faria molhar.
Sinto seco.
Boca seca, olhos secos, coração seco.
Eu não disse que ia chover e que eu ia secar?
domingo, 8 de janeiro de 2012
elevation of love
Então me espreguiço e suspiro uma maquiagem no rosto pra vida ficar mais colorida. Mas tem dias que só pintando a cara toda mesmo, ai como eu queria pintar a cara toda, passar um batom vermelho, muito blush, encher os olhos inchados de rimmel, talvez o nariz da Levita também caísse bem. Pena que algumas coisas eu fui abandonando pelo caminho... também não dá pra carregar a vida toda numa mala, né!? E como a cara toda também não dá pra pintar, deslizo suavemente o pincel, clareza e suavidade pra enfrentar o dia com a beleza protegida.
Outra coisa que não dá mais é pra continuar matando uma a uma essas atormentadas formigas voadoras, tem que haver outro jeito de eliminá-las coletivamente - sim, eu sou eco cri cri, mas já tentei até inseticida; não funciona. Estou exausta de ter que fazer absolutamente tudo por mim: sinto vontade de me abandonar um pouco. Mas olho pro lado e não consigo. Na verdade, é acima de tudo de mim que tenho que cuidar, dá trabalho mas é retorno garantido. Investimento seguro. Entendo quando meu pai diz que lhe falta motivação. Como encontrá-la, se já não há? Onde buscá-la, se já partiu? E como fazer isso... sozinho?!?
Simplicidade (com ternura). Voltar à paz de não precisar fazer nada e sentir o prazer do ócio criativo sem culpa. Voltar pras artes, mais música, mais pintura, mais teatro. Voltar pro coração, sem medo. Voltar pra dentro.
Viajar.
Outra coisa que não dá mais é pra continuar matando uma a uma essas atormentadas formigas voadoras, tem que haver outro jeito de eliminá-las coletivamente - sim, eu sou eco cri cri, mas já tentei até inseticida; não funciona. Estou exausta de ter que fazer absolutamente tudo por mim: sinto vontade de me abandonar um pouco. Mas olho pro lado e não consigo. Na verdade, é acima de tudo de mim que tenho que cuidar, dá trabalho mas é retorno garantido. Investimento seguro. Entendo quando meu pai diz que lhe falta motivação. Como encontrá-la, se já não há? Onde buscá-la, se já partiu? E como fazer isso... sozinho?!?
Simplicidade (com ternura). Voltar à paz de não precisar fazer nada e sentir o prazer do ócio criativo sem culpa. Voltar pras artes, mais música, mais pintura, mais teatro. Voltar pro coração, sem medo. Voltar pra dentro.
Viajar.
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
lé com cré
Onde escrever tudo aquilo que você não pode contar pra ninguém? Aquelas vontades secretas ou lembranças lambuzadas? Como expor suas ansiedades sem assustar o mundo??
Não. Não me venha com essa de que "não é preciso escrever, nem se expor e nem sofrer". Escrever é imperativo para mim (bem como me expor, bem como sofrer). É vital, para clarear a existência, para que nossas reações façam sentido, depois de reagidas.
Mas sim. É difícil escrever sobre as nossas fragilidades. Deve ser por isso que existe a ficção: é muito mais confortável fazer outro alguém carregar seu lado nojentinho, que você custa admitir. Mais fácil se esconder atrás da loucura alheia, difícil é admitir as próprias - já escrevi sobre isso, várias vezes.
Então, por favor, não me entenda mal. Eu não sou over, não sou louca (sim, sou muito louca!!). Sou muito mulher, mas às vezes, menina. Não tenho grandes vergonhas, só sei ser espontânea. Não sou nada, senão eu mesma.
Me lembrei de uma frase singela que a Julia Roberts fala pro Hugh Grant em Notting Hill: "I'm just a girl, in front of a boy, asking him to love her".
Não. Não me venha com essa de que "não é preciso escrever, nem se expor e nem sofrer". Escrever é imperativo para mim (bem como me expor, bem como sofrer). É vital, para clarear a existência, para que nossas reações façam sentido, depois de reagidas.
Mas sim. É difícil escrever sobre as nossas fragilidades. Deve ser por isso que existe a ficção: é muito mais confortável fazer outro alguém carregar seu lado nojentinho, que você custa admitir. Mais fácil se esconder atrás da loucura alheia, difícil é admitir as próprias - já escrevi sobre isso, várias vezes.
Então, por favor, não me entenda mal. Eu não sou over, não sou louca (sim, sou muito louca!!). Sou muito mulher, mas às vezes, menina. Não tenho grandes vergonhas, só sei ser espontânea. Não sou nada, senão eu mesma.
Me lembrei de uma frase singela que a Julia Roberts fala pro Hugh Grant em Notting Hill: "I'm just a girl, in front of a boy, asking him to love her".
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
alô?
Alô? Alou! Oiiii, ahhh... Feliz ano novo!!!!!!!!!!!
É que as linhas aqui estão impossíveis, não estou conseguindo falar com você... que bom que deu certo agora! Como você está? Pulou sete ondinhas? Fechou os olhos e desejou coisas boas? Abraçou muito sua mãe? ãhn? Quê, não to ouvindo, tá cortando a ligação... Sim, por aqui tudo ótimo. Fui à praia, tomei banho de mar. Foi sagrado. Meditei um pouco, rezei um pouco, agradeci muito. Fiquei leve como uma flauta. Desejos? Desejei poucas, mas grandes coisas. O tempo aqui parece andar na velocidade da luz, a única coisa que parece chegar nunca é o dia da sua volta.
Vontade urgente de te ver.
Alô? Você tá aí?
É que as linhas aqui estão impossíveis, não estou conseguindo falar com você... que bom que deu certo agora! Como você está? Pulou sete ondinhas? Fechou os olhos e desejou coisas boas? Abraçou muito sua mãe? ãhn? Quê, não to ouvindo, tá cortando a ligação... Sim, por aqui tudo ótimo. Fui à praia, tomei banho de mar. Foi sagrado. Meditei um pouco, rezei um pouco, agradeci muito. Fiquei leve como uma flauta. Desejos? Desejei poucas, mas grandes coisas. O tempo aqui parece andar na velocidade da luz, a única coisa que parece chegar nunca é o dia da sua volta.
Vontade urgente de te ver.
Alô? Você tá aí?
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
3 em 1
Se eu tivesse que descrever um dia típico daqui, não saberia. Aqui não tem nada de típico, tudo é único. Às vezes, me pego pensando que estou no meio do oceano! Esse fato por si só já é bem excêntrico. Mas minha maior piração é sobre a noção de tempo. Logo que cheguei (e lá se vai um ano...) entendi rapidinho como funcionava: um dia equivale a três, mas passa numa velocidade três vezes maior. Não só pra nós, residentes, mas para os viajantes também... quantas vezes ouvi dizer "noooossa, estou aqui há 5 dias e parece que faz quinze!". Além das milhões de coisas que você consegue fazer em 24 horas, sinto que isso se deve sobretudo à intensidade dos acontecimentos. Os dias começam cedo e terminam tarde, os encontros são muitos e, a qualquer hora, podem mudar seu rumo. Totalmente, acredite. O mito de ser "um ilhéu" tem um impacto psicológico muito grande nas pessoas e acho que isso faz com que todos os dias façamos algo inédito ou absolutamente imprevisível acontecer. Ok, você vai dizer, a vida é assim... imprevisível. Mas na Terra do Nunca estamos sujeitos a uma imprevisibilidade tipo "só acontece em filme". Talvez, para explicar, seja realmente necessário um filme, tipo corra lola corra em slow motion ambientado em uma ilha oceânica.
Já morei em outros lugares e sei que cada um é especial à sua maneira.
Mas esse lugar é especial d-e-m-a-i-s. É único: talvez essa seja sua tipicidade.
Já morei em outros lugares e sei que cada um é especial à sua maneira.
Mas esse lugar é especial d-e-m-a-i-s. É único: talvez essa seja sua tipicidade.
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
insônia.noite3
...porque eu não sei ficar na janelinha assistindo a vida passar. Eu preciso abrir a porta, escancarar as cortinas, deixar a luz do sol entrar. E se vier a chover, eu seco. Seco as lágrimas, seco por dentro, seco a chuva, até o sol voltar de novo. Já fiz isso muitas vezes. Não, não me vanglorio disso. Pelo contrário, gostaria de ter secado menos lágrimas e, sobretudo, de ter secado menos por dentro. Mas é assim que eu sei viver, essa sou eu. Vivo tudo. Depois morro tudo, de morte bem morrida. E depois vivo de novo, como planta que foi podada.
Hoje acordei pensando em você, acho que é porque soube que vai se casar. Felicidades, com gosto de maresia. É o que te desejo. O Feu sempre diz que o único lugar onde ele consegue sentir cheiro de maresia aqui é na Caieira. Estranhamente, é verdade. Mas hoje pela manhã, enquanto o vento rajava a um palmo da areia - como que por magia sem levantar um grão - eu, deitada na minha canga, o sentia acarinhando minha pele e trazendo aquele cheiro antigo e salgado de alga úmida. Tão bom, tão conhecido, tão confortável.
Quem não quer votos de felicidades-sabor-maresia?
Hoje acordei pensando em você, acho que é porque soube que vai se casar. Felicidades, com gosto de maresia. É o que te desejo. O Feu sempre diz que o único lugar onde ele consegue sentir cheiro de maresia aqui é na Caieira. Estranhamente, é verdade. Mas hoje pela manhã, enquanto o vento rajava a um palmo da areia - como que por magia sem levantar um grão - eu, deitada na minha canga, o sentia acarinhando minha pele e trazendo aquele cheiro antigo e salgado de alga úmida. Tão bom, tão conhecido, tão confortável.
Quem não quer votos de felicidades-sabor-maresia?
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
insônia.noite2
A sala de espera do doctor era desconfortável. Tipo muito. E o doctor sempre atrasava. Tipo muito. Nunca entendi como um ortopedista que atrasa muito podia ter sofás tão desconfortáveis e anti-ergonômicos. Enfim, ele realmente não se importava com isso. Ficávamos lá afundados horas (esperando). Um dia, ele atrasou tanto que eu terminei de ler os textos da pós, o livro que eu tinha levado e já tinha folheado todas as Caras disponíveis. Comecei a arrancar as folhas coloridas da minha agenda e fiz trinta barquinhos de presente pra ele. Quando entrei no consultório, mão cheia de barquinhos coloridos de tamanhos variados, o doctor sorriu do fundo d'alma - acho que ele nunca teve uma paciente excêntrica que fez barquinhos de papel na sala de espera e ainda entrou sorrindo "olha o que eu trouxe de presente pra você!!".
O doctor atrasava porque não tinha pressa em atender. Ele ouvia atentamente minha história de vida, me olhando nos olhos e anotando de vez em quando. Estava interessado em mim, nos porquês das minhas dores. Pediu uma bateria de exames, me revirou do avesso. Entrei naquela máquina de fotografar o cérebro, em outras tantas que detalharam todos os ossinhos do meu corpo, visitei vários laboratórios da cidade. E esperei muito na sala desconfortável. No dia do veredito, ele não usou arrodeios: "querida, seus exames estão perfeitamente normais. Clinicamente, você não tem nada". "Como assim, não tenho nada??? Tenho sim! Eu sinto dores terríveis no meu corpo desde criança, tenho enxaquecas, dores nas articulações, minhas costas parecem as de uma velha de 80 anos.... pelo amor de deus, me fala que eu tenho alguma coisa, qualquer coisa, dessas que dê pra abrir e tirar e depois costurar de novo?".
Não teve jeito.
Nesse dia, o doctor conseguiu arrancar lágrimas de mim e me olhou calado. Perdi 8 meses da vida investigando meu DNA pra descobrir que minhas dores tinham uma raiz muito elementar: minhas emoções. E eu chorava porque no fundo já sabia - só que a solução era um tantinho mais complexa do que deitar numa mesa cirúrgica, cortar e costurar. E eu não sabia nem por onde começar.
Já tinha feito tudo o que podia, experimentado todas as técnicas, de agulhas a ginásticas orgânicas, terapias de vários tipos, até remédios que me deixavam doidona. O que fazer a seguir? mudar de cidade, de emprego, de namorado, de vida?
No pain, no gain, dizia um amigo meu. Custei a acreditar, mas acho que ele tem razão. A dor é uma grande professora. Física, em última instância. E cada vez que essas dores horríveis voltam, me bate um pânico, porque dói de verdade. Mas aí eu percebo que é só porque ainda tenho muito o que aprender.
Sorte que agora eu já comecei.
O doctor atrasava porque não tinha pressa em atender. Ele ouvia atentamente minha história de vida, me olhando nos olhos e anotando de vez em quando. Estava interessado em mim, nos porquês das minhas dores. Pediu uma bateria de exames, me revirou do avesso. Entrei naquela máquina de fotografar o cérebro, em outras tantas que detalharam todos os ossinhos do meu corpo, visitei vários laboratórios da cidade. E esperei muito na sala desconfortável. No dia do veredito, ele não usou arrodeios: "querida, seus exames estão perfeitamente normais. Clinicamente, você não tem nada". "Como assim, não tenho nada??? Tenho sim! Eu sinto dores terríveis no meu corpo desde criança, tenho enxaquecas, dores nas articulações, minhas costas parecem as de uma velha de 80 anos.... pelo amor de deus, me fala que eu tenho alguma coisa, qualquer coisa, dessas que dê pra abrir e tirar e depois costurar de novo?".
Não teve jeito.
Nesse dia, o doctor conseguiu arrancar lágrimas de mim e me olhou calado. Perdi 8 meses da vida investigando meu DNA pra descobrir que minhas dores tinham uma raiz muito elementar: minhas emoções. E eu chorava porque no fundo já sabia - só que a solução era um tantinho mais complexa do que deitar numa mesa cirúrgica, cortar e costurar. E eu não sabia nem por onde começar.
Já tinha feito tudo o que podia, experimentado todas as técnicas, de agulhas a ginásticas orgânicas, terapias de vários tipos, até remédios que me deixavam doidona. O que fazer a seguir? mudar de cidade, de emprego, de namorado, de vida?
No pain, no gain, dizia um amigo meu. Custei a acreditar, mas acho que ele tem razão. A dor é uma grande professora. Física, em última instância. E cada vez que essas dores horríveis voltam, me bate um pânico, porque dói de verdade. Mas aí eu percebo que é só porque ainda tenho muito o que aprender.
Sorte que agora eu já comecei.
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