Estou muito abalada.
Sofri um sequestro.
Relâmpago - mas anunciado.
Virei refém da minha intensidade, prisioneira das minhas palavras. Cai na minha própria armadilha, tropecei nos meus passos meticulosamente calculados.
Durante o sequestro, um sem fim de auto-torturas. O tempo parecia não passar, um calor sufocante me tirava o fôlego: não conseguia respirar sua presença. Qual será minha culpa? Por que tanto abandono, medo e arrependimento? Ao longe, podia ouvir Marcelo Camelo cantando uma daquelas letras pseudo-intelectuais. Nem pra ter bom gosto musical, esse sequestrador filho da puta... Me fazer engolir rockinhos modernetes com letras melosas e suicidas era a pior parte, sem dúvida. Breve, muito breve, eu sabia que poderia suspirar da pedra mais alta, mergulhar na transparência com um cardume brilhante de sardinhas e me sentir livre como nunca. Mas agora não. Agora era rezar pra ele (o sequestrador, eu mesma?) ter compaixão. COM PAIXÃO. Por favor, por piedade, eu não quero passar por isso de novo. De novo não! Não quero dor, não quero lágrimas, não quero abandono.
Quero morango com chantilly delivery.
Passos de gigante juntos.
Ternura e cafés da manhã com flores.
É isso que eu quero.
E é isso que eu queria ter te falado, desde sempre.
[ufa]
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
bliss
Vou confessar uma coisa: faz tempo que não me sinto assim. Essa lufada de vento que escancarou a porta, a janela, a camisa, a boca. Parece um tufão, um swell gigante desses que cobrem o pier do porto...
Fiquei tão tonta que decidi ir ao médico. Disse a ele que devia ser o labirinto, mas ele receitou remédio pro coração: serenidade. É indicado que eu viva tudo com os olhos e ouvidos bem fechados para o resto do mundo. É profundamente indicado que eu me esqueça do abandono, das ameaças, que eu limpe meu dna emocional das marcas e feridas. "Isso aí é felicidade na certa", ele disse. "Só que tudo em excesso faz mal, você sabe, né?"
Pra amenizar os sintomas: mergulhos no azul, muitos jantares com amigos, algum sol e duas sessões de cinema.
Viver tudo novo.
De novo, mas como se fosse a primeira vez.
O segredo não é correr atrás das borboletas. É cuidar do jardim pra que elas venham até você.
[Quintana]
Fiquei tão tonta que decidi ir ao médico. Disse a ele que devia ser o labirinto, mas ele receitou remédio pro coração: serenidade. É indicado que eu viva tudo com os olhos e ouvidos bem fechados para o resto do mundo. É profundamente indicado que eu me esqueça do abandono, das ameaças, que eu limpe meu dna emocional das marcas e feridas. "Isso aí é felicidade na certa", ele disse. "Só que tudo em excesso faz mal, você sabe, né?"
Pra amenizar os sintomas: mergulhos no azul, muitos jantares com amigos, algum sol e duas sessões de cinema.
Viver tudo novo.
De novo, mas como se fosse a primeira vez.
O segredo não é correr atrás das borboletas. É cuidar do jardim pra que elas venham até você.
[Quintana]
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
já vi esse filme
Eu me lembro bem quando a gente se conheceu. Você estava sem camisa, fazia calor e eu usava calça de sarja. Achei que você era mais um desses, livre pra amores que vem e vão - e não estava enganada. Mas você me disse que o horizonte era logo ali e que era lindo. Então eu achei que podia pegar o sol com a mão sem me queimar. Mas seu discurso não ecoava em mim. Não acredito em pessoas que não me encaram por mais de dez segundos. Achei você lindo, mas frágil como um graveto seco. E sua fragilidade me comoveu. Me apaixonei pela perspectiva de te salvar, mas a verdade é que a gente não salva ninguém. Já vi esse filme, e nessa eu não caio mais não. Muito obrigada.
"Que beleza é conhecer o desencanto
E ver tudo bem mais claro no escuro"
Tim Maia Racional
"Que beleza é conhecer o desencanto
E ver tudo bem mais claro no escuro"
Tim Maia Racional
sábado, 26 de novembro de 2011
o peixe de manhazinha
O pé saiu do lençol macio e não reconheceu o chão quente de madeira. Pisando leve como uma garça, trocou de shorts ainda com os olhos entreabertos. Qualquer passo move a casa toda, é preciso pisar em ovos pra não acordar o peixe. O peixe. Dormia num sossego de dar inveja. Na noite anterior, se exibia com volteios em seu pequeno aquário, abrindo as guelras e brilhando à luz da lanterna. Ela observava fascinada, não tinham sido apresentados assim tão de perto. Era um peixe homônimo a ela - e parecido com ela. Muito colorido, muito exibido, muito briguento e, ao mesmo tempo, muito delicado. A natureza espelhando nossas personalidades...
O (gesto do) peixe a comoveu: seu nado gentil, cortejo suave espanando seu véu furtacor. Então ele dormia enquanto a luz da manha começava a penetrar a casa - ele gostava de dormir no escuro. Ela se despediu. Deixou bilhete rascunhado de sono interrompido e foi distribuir bons dias.
Hoje o dia amanheceu azul.
O (gesto do) peixe a comoveu: seu nado gentil, cortejo suave espanando seu véu furtacor. Então ele dormia enquanto a luz da manha começava a penetrar a casa - ele gostava de dormir no escuro. Ela se despediu. Deixou bilhete rascunhado de sono interrompido e foi distribuir bons dias.
Hoje o dia amanheceu azul.
quinta-feira, 24 de novembro de 2011
(des)gosto
Escolhi minha profissão de formação com muita calma. Sou privilegiada: fiquei passeando pela Europa e pensando no que fazer da vida. Tive apoio incondicional dos meus pais quando decidi que jornalismo era o que mais se aproximava do que eu amava: comunicação. Estudei com a crème de la crème dos que agora são "formadores de opinião" da sociedade em que vivo. A sala de aula foi importante, claro, mas muita serramalte gelada regava as melhores reflexões que brotavam das aulas do Faro, do Silvio Mieli, da Sandra Rosa. Sinto saudades desta época em que eu ainda acreditava num jornalismo possível. Minha carreira como jornalista foi curta e dolorosa. Curta porque dolorosa e dolorosa porque curta. Foi mais forte do que eu verificar que o jornalismo não era nada do que eu sonhava, era apenas mais um jogo sujo de poder, uma batalha de egos de quem decide o que vai na capa de não sei onde pra prejudicar ou privilegiar fulano ou sicrano. O que me doía era que muitos dos jornalistas que me cercavam não se valiam do verdadeiro poder que têm em mãos, mas se submetiam à chefia, escrevendo matérias enlatadas, sem espaço para reflexão ou crítica. O que me dava desgosto profundo era ver que grande parte dos meus colegas se achava super cool, ligando-se ao status ilusório que esta profissão carrega, cultivando olheiras como troféus. Assim, optei por me afastar completamente do jornalismo. De leitora assídua, hoje posso dizer que mal leio o jornal e, quando leio, me dá dor de estômago. TV então, não assisto há mais de anos... E eu nem sei mais pra onde esse texto tá indo, acho que ele já tem vida própria. Estou falando de uma coisa muito importante e cara para mim e os sentimentos se confundem... a verdade é que eu gostaria de ter sido mais forte e não ter abandonado o jornalismo, mas foi uma opção pela vida. Acho que os que se mantém jornalistas hoje em dia, por idealismo, são comparáveis a professores ou médicos: é por amor ao ser humano, por de fato acreditar que escrever, proferir, registrar algo diferente pode gerar a mudança. Estes são muito mais do que jornalistas: são comunicadores. E isso eu posso dizer com certeza, deixar de ser jornalista foi tão libertador que me tornei uma comunicadora. O gosto amargo de uma mídia corrompida ainda permanece, mas sei que somos muitos do lado de cá, acordando todos os dias para causar no mundo.
domingo, 20 de novembro de 2011
ressalvas
Às vezes desejaria olhar pra vida com menos subjetividade. Estou de plantão quase o tempo todo, na vigília. O coração desafina um pouco cada vez que falta doçura: quer transbordar, mas se contém - por medo ou indiferença. O medo dá pra enfrentar, mas a indiferença é um muro intransponível, como achocolatado insolúvel. O que leva as pessoas a se amarem com tantas ressalvas? Porque certo é que se ama, mas há tantos poréns que já não sei se virou moda ou desculpa ou o quê.
Dia atrás participei de um casamento desses de sonho. Casamentos me emocionam. Acho que isso é meio clichê, mas de fato não vou a muitos casamentos na minha vida e quando vou, me emociono demais. Porque selar o amor daquele jeito é especial: você realmente acredita que vai durar pra sempre. É muito grande, exige coragem nos tempos que correm. Durante a cerimônia, enquanto o céu arroxeava por trás dos Dois Irmãos, uma quantidade sem fim de sensações boas afloraram. O coração explodia de calma, união, felicidade, gratidão, desejos de bem querer até pelos menos queridos. Quem sabe isso quer dizer amor... sem ressalvas e sem indiferença.
Dia atrás participei de um casamento desses de sonho. Casamentos me emocionam. Acho que isso é meio clichê, mas de fato não vou a muitos casamentos na minha vida e quando vou, me emociono demais. Porque selar o amor daquele jeito é especial: você realmente acredita que vai durar pra sempre. É muito grande, exige coragem nos tempos que correm. Durante a cerimônia, enquanto o céu arroxeava por trás dos Dois Irmãos, uma quantidade sem fim de sensações boas afloraram. O coração explodia de calma, união, felicidade, gratidão, desejos de bem querer até pelos menos queridos. Quem sabe isso quer dizer amor... sem ressalvas e sem indiferença.
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
as aranhas também amam
Aprendi a conviver pacificamente com os insetos - exceto as baratas, que ainda me tiram do sério, mas por sorte não há muitas por aqui. Há alguns meses, vivem umas aranhas no meu banheiro, eram pequenas e muitas, viraram grandes e apenas três. Ontem, escovando os dentes, uma delas estava bem próxima ao espelho, então assoprei pra ela se mudar, afinal tudo bem conviver, mas não precisa ser tão de perto! Fui assoprando e ela foi se movendo rumo ao teto, onde estava a outra, coladinha na sua teia. Foi subindo, subindo, até chegar na teia da amiga. Começaram a mover freneticamente as patinhas, talvez por pouco mais de um minuto; para mim parecia mesmo que estavam numa briga danada. E de repente, puft: uma delas fez uma manobra alucinante e colou na outra. Eu, na minha atividade corriqueira de escovação de dentes, olhei incrédula: será que era mesmo o que eu estava pensando?!
Alguns segundos de pausa e logo os artrópodes iniciaram movimentos repetitivos de encaixe. Ah, a natureza: imprevisível e simplismente natural... Eu, pra provocar, dei mais umas assopradas, enquanto a aranha "de cima" movia a extremidade do corpo, tentando se ajustar à parceira, em um movimento muito humano!!
Fiquei impressionada. Não foi só a curiosidade de assistir uma cópula de aracnídeos pela primeira vez na vida, mas sobretudo me tocou perceber que, às vezes, basta um empurraõzinho (ou uma assopradinha...) pras coisas acontecerem! Né mesmo?!?
Alguns segundos de pausa e logo os artrópodes iniciaram movimentos repetitivos de encaixe. Ah, a natureza: imprevisível e simplismente natural... Eu, pra provocar, dei mais umas assopradas, enquanto a aranha "de cima" movia a extremidade do corpo, tentando se ajustar à parceira, em um movimento muito humano!!
Fiquei impressionada. Não foi só a curiosidade de assistir uma cópula de aracnídeos pela primeira vez na vida, mas sobretudo me tocou perceber que, às vezes, basta um empurraõzinho (ou uma assopradinha...) pras coisas acontecerem! Né mesmo?!?
domingo, 6 de novembro de 2011
roupagem nova
Fiz um pacto comigo mesma: vou passar um dia sem reclamar. Um dia inteirinho, 24 horas, proibida de falar qualquer coisa que seja em tom de queixa, desde "nossa, que calor", até "ai, que dor". Ao meu redor, pessoas reclamam de absolutamente tudo e estou ficando contaminada por esse vício horrível. Quero sentir verdadeiramente o quão sortuda e abençoada eu sou por ter tanta saúde, amor, amigos, trabalho, integridade, felicidade. Felicidade, aliás, é só questão de ser - canta o Jeneci. Quero perceber, na prática, quanto estou reclamando à toa, chorando de barriga cheia, só pra entrar na onda. Quero mais silêncio e reflexâo, menos palavras soltas ao vento sem razão. Quero ser mais Pollyana e, quando alguém vier queixoso, ter a paciência e a sabedoria de apontar para o copo meio cheio. Somos responsáveis pelas nossas escolhas e se as coisas não estão como desejamos, é porque não desejamos direito. Temos o poder e a força de mudar o rumo, vestir uma roupa colorida e sair por aí aproveitando o sol, o calor, o vento ou a chuva.
O que vier é pra ser vivido. Feliz(mente).
O que vier é pra ser vivido. Feliz(mente).
domingo, 30 de outubro de 2011
quando o encanto acaba
Ando amarga e reconheço. Quando falta a paixão, fico insuportável. Quando ela me escapa pelos dedos, a apatia entra de sola, a vontade é de nada. A vida fica monotom, monocromática, mono. E eu quero uma vida stereo. De preferência sorround sound. Sigo na busca desenfreada - e um tanto solitária - pelo encanto no dia-a-dia, nas pequenas coisas, pelo prazer na banalidade, pela beleza da cor do céu, que todo dia me parece outro azul. Mas me sinto vencida pelo cansaço. Me sinto frágil, dobrada pelo vento. Preciso de adubo. Não tenho mais forças para me garantir, para me auto sustentar em qualquer situação, para me bancar, para pôr os pingos nos is. Às vezes eu também caio.
Ando amarga e reconheço.
Ando desentancada.
E não sei como me recuperar.
Ando amarga e reconheço.
Ando desentancada.
E não sei como me recuperar.
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
os 30
Não achei que fazer trinta anos seria tão marcante. Foi lindo, emocionante, representativo. Até pareço uma nova eu - claro que simbolicamente. Estou fã de mim mesma, da minha fidelidade, da minha ousadia, da minha feminilidade. Ando cheia de sonhos e planos realizáveis, por mais loucos que pareçam, e sinto que tudo inspira. Se penso em ficar aqui pra vida, já não acho tão absurdo, mas sei bem que não tenho fronteiras.
De qualquer forma, aqui ou em qualquer outro lugar, o que querer mais da vida, senão vivê-la apenas com saúde, calma e luz?
Tenho muitas coisas pra dizer, cada vez mais. Não há 'coisas que não precisam ser ditas'. Por isso tenho dito - aprendendo a dizê-las. Se não as digo, escrevo. Porque guardadas é que as coisas não podem ficar. Olho pro lado, vejo as pessoas se carregando como chaveirinhos, trofeuzinhos baratos. Intimidade comprada no supermercado. Vejo casais desequilibrados, se amparando em loucuras e excentricidades para seguir juntos. Queria poder gritar para eles: "hey, isso não é amor. Sejam felizes, façam muito sexo e se droguem, mas não banalizem a palavra amor!".
Então olho pra trás e me lembro que já vivi algumas coisas, e que aprendi com elas. Isso é impagável. Já vivi algumas coisas para saber sobretudo o que não quero mais viver. Por vezes choro calada, pagando pelas minhas escolhas. Mas me sinto mais integra assim do que abrindo mão de coisas a mim tão caras, só para não estar só. Olhe agora você: que puta mulher está ao seu lado, seu bobão.
De qualquer forma, aqui ou em qualquer outro lugar, o que querer mais da vida, senão vivê-la apenas com saúde, calma e luz?
Tenho muitas coisas pra dizer, cada vez mais. Não há 'coisas que não precisam ser ditas'. Por isso tenho dito - aprendendo a dizê-las. Se não as digo, escrevo. Porque guardadas é que as coisas não podem ficar. Olho pro lado, vejo as pessoas se carregando como chaveirinhos, trofeuzinhos baratos. Intimidade comprada no supermercado. Vejo casais desequilibrados, se amparando em loucuras e excentricidades para seguir juntos. Queria poder gritar para eles: "hey, isso não é amor. Sejam felizes, façam muito sexo e se droguem, mas não banalizem a palavra amor!".
Então olho pra trás e me lembro que já vivi algumas coisas, e que aprendi com elas. Isso é impagável. Já vivi algumas coisas para saber sobretudo o que não quero mais viver. Por vezes choro calada, pagando pelas minhas escolhas. Mas me sinto mais integra assim do que abrindo mão de coisas a mim tão caras, só para não estar só. Olhe agora você: que puta mulher está ao seu lado, seu bobão.
Assinar:
Postagens (Atom)