domingo, 18 de outubro de 2009

quadros

Subject: Coração
Date: Wed, 27 Feb 2008 04:34:11

Obrigada por ter me ajudado a pendurar os quadros: ficaram lindos! Há pequenas coisas que não se esquecem, cenas que nunca saem da nossa cabeça. Acho que uma delas é você soltando o parafuso e, ao tentar encaixar o quadro na parede e não sabendo onde colocar a chave de fenda, encaixou-a entre os dentes, com seu jeito frenético e desajeitado. Pequenos fragmentos que, sem razão, não se esquecem.
Espero poder te ajudar a pendurar os seus quadros também. E se eu não ajudar, por qualquer motivo que seja, gostaria que soubesse que eu gostaria de ter ajudado.
Um beijo, Beta

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

hoje preferi ficar com os cheiros de todos os abraços que ganhei.

sábado, 10 de outubro de 2009

por do sol no Planalto

Brasília me causou um certo desconcerto. É difícil imaginar como alguém pode ter concebido uma cidade como aquela e mais difícil ainda que ela tenha sido de fato concretizada, no meio do nada, espalhada como uma teia de aranha, propiciando a desagregação e a perda total do sentido de comunidade. A setorização da vida.
Tudo imenso: avenidas de seis pistas, sem vida, sem calçadas, sem crianças. Se fecho os olhos, consigo ouvir o ruído dos carros deslizando seus pneus no asfalto quente. Esse é o som de Brasília, acompanhado do canto de milhares de cigarras, saudando enlouquecidamente a primavera.
Contemplar os prédios do Niemeyer me tocou, não vou negar. Mas no instante seguinte, sentada no gramado em frente ao Congresso Nacional, bandeira gigante ao vento, fui invadida por um sentimento de repulsa. Descrença, asco, inconformidade, tristeza.
O céu é magnífico, é verdade. Às seis da tarde, se pinta de nuances furta-cor que criam uma atmosfera quase onírica. Nesse momento, parece que tudo flutua e a cidade torna-se apenas uma passagem, uma ponte suspensa. Esse momento quase me lembrou: eu deveria sentir mais orgulho em visitar a capital do meu país.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

as curvas da orla de santos

Hoje passei o dia trabalhando em Santos. A Tathi é a anfitriã são carlense mais santista que eu já vi. Além de termos tido ideias incríveis de projetos, ela me contou duas curiosidades que eu desconhecia e pude verificar in loco: 1) os homens santistas são lindos! É verdade. Foi difícil almoçar sem suspirar de alegria pela grata surpresa.
2) Inúmeros prédios da orla estão irremediavelmente inclinados, como a torre de Pisa. E continuam entortando. E ninguém faz nada a respeito. Já fui a Santos algumas vezes, mas achei engraçado atentar para esse fato justamente nesse momento. O solo da orla santista é arenoso e também antiga zona de manguezais. Ou seja, uma merda. "Não dá pra construir prédio aqui!". Será que ninguém pensou nisso?!? Não. Quer dizer, alguém na época deve ter pensado, e até falado sobre, mas não foi ouvido.
(crédito foto)
Erros incorrigíveis nos cálculos da profundidade dos alicerces dos edifícios causaram recalques e fragilidades nas estruturas.
Aliás, "recalque" é uma boa palavra: s.m. rubrica: psicanálise. Mecanismo de defesa que, teoricamente, tem por função fazer com que exigências pulsionais, condutas e atitudes, além dos conteúdos psíquicos a elas ligados, passem do campo da consciência para o do inconsciente, ao entrarem em choque com exigências contrárias (do Aurélio).

Inevitável a analogia.
Homens lindos e prédios recalcados?
Homens recalcados e prédios lindos?
Homens e prédios lindos e recalcados?

terça-feira, 6 de outubro de 2009

pitangas

Eu ando pela rua prestando atenção. Nas pessoas, no vento, na pouca poesia que o cinza nos oferece. Recorto o céu entre franjas de prédios, tento achar o horizonte que não há. Muitas vezes, absorta na música minha de cada dia, meu pão. Mas eu presto atenção. E no domingo, andando por aí, por aqui, por lá, vi o chão tingido de vermelho-alaranjado. E senti o cheiro daquele chiclete azedinho que comíamos quando criança. Na primeira, pisei firme e segui. Na segunda arvinha, reparei. Na terceira, parei. Parei em frente à pitangueira, pequenina mas robusta, subi no canteiro e me pus a catar pitangas. Senti a pungência de olhares constrangidos dos que esperavam o farol abrir, dos que se esforçavam pra não rir do mico daquela louca trepada no canteiro catando pitangas em plena Avenida Paulista.

Mas, meus caros, quantos em São Paulo ainda têm o privilégio de catar pitangas na rua em que nasceram?!?

domingo, 4 de outubro de 2009

inferno astral

Ando bastante perturbada. Já sentei pra escrever dezenas de vezes nos últimos dias e não consigo. Estou sem poder de síntese e desanimada. Tenho a sensação de inconclusão, de repetição, de insatisfação. Andei um pouco doentinha também. Devem ser os astros rodando confusos em torno de libra. Daqui a seis dias faço 28 anos e esse dia costuma ser muito importante para mim. "O dia mais importante do mundo no ano". Mas, às vesperas desse dia, sinto-me sozinha e bastante desorientada. Estou perdendo certezas, saudosista vazia, vacilante. Estou em processo de constante transformação, não aguento mais ser essa metamorfose ambulante. Não quero mais cobranças, auto-cobranças principalmente.

Queria ter uma chavinha pra desligar essa cabeça que não para e simplesmente experimentar a maravilha que é viver, como alguém que bóia numa piscina morna.

Só isso.

sábado, 3 de outubro de 2009

prenez soin de vous...

... e não me enche o saco!

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

sorrisos matutinos

Entra no elevador o menino franzino que sempre toma o ônibus comigo. Sorri em sinal de cumprimento e fica visivelmente envergonhado com o brado da mãe: "vai com deeeus, filho". Subimos juntos até o ponto sem trocar palavra. Acho que ele é tímido. Ele tem cara de estagiário de escritório de advocacia. Da próxima vez, vou perguntar o que ele faz da vida;

A mulher leva na coleira um cachorro que é duas vezes maior do que ela. Segura severamente o laço, quase enforcando o bicho, enquanto ele tenta vingativo arrastá-la para o meio fio. Ao passar por mim, esboça um sorriso no canto da boca;

O cobrador responde meu "bom dia", como de costume. Comento que estou com frio e errei na roupa. Ele então abre um largo sorriso: "Pode ter errado, mas tá linda. E cheirosa, como sempre". Enrubreço (e sorrio);

O passageiro sentado ao meu lado fala alguma coisa. Tiro o fone do ouvido. Ele repete "Esse desce a Consolação?". Aviso que não, terá de trocar nas Clínicas. Ele sorri e agradece. Reparo como ele é parecido com você. Tem o seu tamanho e as mãos iguais às tuas. Lembro do nosso sorvete no ponto de ônibus e sorrio.

Atravesso a avenida, tomo o lado esquerdo da calçada. E lá está ele, à procura. O cheiro azedo invade a minha passagem. Em busca de restos podres, alimentando-se de nossos descartes, ele abre um saco após o outro, sem pudor, sem nojo, com a naturalidade cotidiana de quem abre uma loja.

Escancara na nossa cara o mais desagradável dos mundos.

Ele não sorri. Nem eu. Sorte que já houve outros sorrisos para compensar esse momento. Ele, o mais (in)digno de todos os homens, é o único personagem que eu não gostaria de encontrar nas minhas manhãs sorridentes.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

momento cyndi lauper

When I fell down, I want you above me.
I search myself, I want you to find me.
I forget myself, I want you to remind me.
I don´t want anybody else, when I think of you I touch myself.

domingo, 27 de setembro de 2009